Trono, Sertão e República, por José Marcio Castro Alves

"TRONO, SERTÃO E REPÚBLICA" O CIO Dom Pedro de Alcântara 02/12/1825 - 5/12/1891 Antônio Conselheiro 28/03/1828 - 22/09/1897 Euclides da Cunha 20/01/1866 - 15/08/1909 A TRAGÉDIA COMBINADA O CIO, O COITO, A CRIA, O COICE Saudemos os miseráveis e os não escolhidos, os rejeitados, a parte não contentada de qualquer sociedade. Seu único pecado é ser um incômodo aos satisfeitos. Ajoelhar-se não é ignorância. Erguer-se não é sabedoria, É evolução. O CIO Na manhã daquele domingo chuvoso de 15 de agosto de 1909, um homem magro e baixo, bigodes opulentos e orelhas destacadas, toma um trem na Central do Brasil e desce na Estação da Piedade, subúrbio do Rio de Janeiro. No testemunho de alguns, parece caminhar para o nada enquanto olha um papel tirado da casaca, abordando em seguida um velho que vem em sentido contrário. --- Por favor, onde fica a Estrada Real de Santa Cruz? O velho, com o guarda chuva aberto, indica-lhe o caminho. Ao chegar ao número 214, ele abre o portão de ferro, sobe três degraus da frente e os outros quatro à direita, galgando o alpendre. Com o punho cerrado, ele bate fortemente o portal da fatalidade. --- Sargentão? diz enfurecido, socando a porta como o coice de um aríete. Uma mulher que cochila numa cadeira de balanço numa casa ao lado ouve vários disparos, seguidos de gritos desesperados. Assustada, ela vai para o quarto e chega junto à janela que dá para a rua. Ouve mais tiros, desta vez, mais altos e intercalados. Abre lentamente a janela e vê, por meia face, um homem caído junto ao pé da escada segurando um revolver, contorcendo-se em gemidos abafados. Em relance, percebe um moço alto e louro, embutido num pijama ensangüentado que sai da casa e corre até a escada. --- Por que o senhor foi fazer uma coisa dessas, meu Deus? Diz o moço enquanto tenta carregar o moribundo nos braços para dentro da casa. Colocado sobre a cama, o agonizante agora verte sangue pela boca num respirar dificultado. Em vão, tenta levantar-se. Ferido no pulso, no braço, na virilha, na clavícula esquerda e no peito, novamente tenta erguer a cabeça quando é de pronto ajudado. --- O senhor me perdoa, doutor? --- Perdou-te, retruca o moribundo, balbuciando em dificuldade. Aos poucos, o brilho dos olhos se esvai e cede lugar à pupila anelada dos mortos. O salão nobre da Academia Brasileira de Letras está repleto de celebridades que velam o corpo em caixão aberto. Ao redor do esquife, perplexos, os senhores Olavo Bilac, Ernesto Sena, Júlio Barbosa, Muniz de Aragão, Félix Pacheco, Otávio Morais e Mário Guaraná sussurram lamentos de há muito experimentados. Altas horas da noite, os olhares dirigem-se em simultâneo à porta principal quando adentra ao salão o Presidente da República Nilo Peçanha, que dá as condolências aos parentes e vai em direção ao defunto. Fica em silêncio por instantes e cumpre o protocolo. Sai discretamente. Ao canto, um homem baixo e de cabelos grisalhos, solitário, se mostra com um lenço ao rosto. Não desperta atenção alguma. Como ele, muitos anônimos se achegam circundando o morto e misturam-se os prantos. Madrugada escura, sob o clarão de tochas segue o féretro para o cemitério São João Batista, acompanhado por uma multidão que ora se aglomera em derredor à sepultura. O caixão com o corpo do escritor Euclides Pimenta da Cunha desce lentamente em meio a discursos inflamados, enquanto o homem de cabelos grisalhos, agora com os olhos visivelmente inchados e vermelhos, joga uma flor dentro da cova e se afasta, esquivando-se de alguns jornalistas que o seguem até a porta. Surge o clarão dos raios antecipando os estrondos que rugem dos céus, estimulando a debandada de muitos que testemunharam cair sobre o fosso do esquecimento, a poeira da cal misturada às flores do último amém. Rememoremos. Do boi que lambia a rocha viva da nossa raça. Êêêia... boi...Ôôa... Ecoam vibrantes por toda a zona da mata nordestina as melopéias plangentes em prelúdio aos aboiados nostálgicos. Os engenhos de açúcar que ali se abeiram, aos montes, são de todo fomentados por duas variantes históricas que ora impulsionam toda uma economia medieval, alicerçada na musculatura escrava e na força motriz incomparável do boi, este, o embrião maior da colonização dos sertões da nossa terra. Distanciando-se aos poucos do frescor das matas litorâneas e adentrando às áreas semi-áridas do agreste sertanejo, o boi expande seu espaço vital na medida em que a vegetação pastoril escasseia. E o homem o segue mato adentro, autômato e hipnotizado pelo mais valioso de todos os seus bens de fortuna. É quando desabrocha então nos sertões do nordeste, a figura maior de toda aquela geografia humana, forjada em repuxo natural e florescida na vereda imprevisível de uma mestiçagem mais que ignota, o Homo Sertanejus. Um deslize da evolução, certamente estagnada pelo atavismo insistente das cabildas ancestrais em contraponto à ociosidade repugnante da orla civilizatória, aliada a um substrato arredio e vingativo que vagarosamente os esculpe numa variante de homúnculos anêmicos fadados à mandriice, à rapinagem e a pugilatos repentinos, como o bote de uma víbora quando se sente pisada pela miragem da desonra ou pelo calcanhar da desfeita. Paridos em desterro absoluto ao longo dos séculos, a cruza adveio de estupros, incestos e coitos instintivos entre as raças distintas que por ali se encontraram, acumulando a cada geração a herança dos seus caracteres fenotípicos mais expressivos: a higiene do índio e o egoísmo europeu, condimentados a posteriori com o mais puro sal da fortaleza humana; o vigor africano. Nódoas de culturas é o que lhes restou naquela caldeirada de estirpes fugitivas que ora se misturam com a bravura ingênua das cepas tribais do novo continente. Matizes de hebreus, árabes e mouros, nuances de celtas, ibéricos e romanos, tinturas de vários costumes encalhados nas curvas das veias por onde fluía o sangue dos degredados lusitanos e de mercenários malogrados, impregnados de uma gula descabida e uma avareza congênita, na ganância de piratas assassinos e no desdém acentuado dos estupradores de hemisférios. Sobra-lhes ainda a índole da doma e do mando, refletida em ataques esquizofrênicos e manifestados quase sempre em nevrose assustadora, realçando nitidamente os sintomas de um micróbio ainda ignorado, o treponema pallidum. Incurável assombramento, a sífilis. A despeito de uma dieta minguada de nutrientes vitais e de um calendário religioso grifado de jejuns excessivos que os moldaram numa figura predominantemente nanica, magricela e desengonçada, o deserto, ao longo de toda sua gênese, também se encarregou da escultura, forjando-os em organismos incrivelmente adaptados ao bochorno das canículas e ao tédio das caatingas. Não obstante a condição de miseráveis mais que absolutos, a penitência das secas reserva-lhes ainda o estágio de uma tortura sem precedentes, forjando-os lentamente em carcaças de caminheiros enlouquecidos em cata ao cantil de qualquer missionário milagreiro, ao conto dos profetas da fartura, como se fora possível, num sermão, alguém decretar a abundância. Imantados por promessas de qualquer faquir evangelizador, nos deparamos com esqueletos ainda vivos, múmias esfarrapadas que vão se juntando em romaria torpe e instintiva, marchando cega e inexoravelmente para o nada, as loucuras que a miséria propicia. Emergidos na façanha natural onde a cria nasce e berra, desde o berço agradecem o dom da vida, sem reclamos, sem protestos, sem norma ou resquício de qualquer disciplina, o homem brasileiro. Mas embora rejeitados, agarram-se como podem nas tetas mirradas das pilastras sertanejas a sorver o colostro miraculoso para a medrança da primeira quadra. Os poucos que sobrevivem ao teste de uma infância sem a nostalgia dos mestres e desprovida de saudades, dificilmente não alcançam a longevidade. De cabeça volumosa, ora achatada ou arredondada, ligada ao tronco por um pescoço quase sempre diminuto, realça-lhes na madureza a rudez de uma fronte amarrotada e fosca, o mapa desbotado de um risoto de raças refletindo tão somente uma coletânea de amarguras. Um mosaico de encarquilhos riscado pelo martírio dos decênios onde predomina um par de orelhas excessivamente alongadas e quase sempre, de um abano exagerado. Incrustado sobre a fronte enrijecida daquela sementeira de infortúnios, destaca-se uma muralha rugosa e multiforme a escorar narinas surradas e indefinidas, um outeiro cartilaginoso servindo de escorredouro das tristezas merejadas pelas lembranças de uma existência ingloriosa e vingativa. Logo abaixo da foz dos olhos, desenha-se uma coletânea de minúsculos afluentes a canalizar diariamente uma enxurrada de arrependimentos que deságuam por fim, nos entalhes da velhice. Na fronte dos que lá chegaram, vê-se, claramente, um corrimão de lágrimas. Malsinados pela magrém repetitiva que sempre os trouxe na conta de migrantes vitalícios, resta-lhes embocar na saga exasperadora de uma penúria sem trégua, mas que em breve, a pena de um engenheiro e antropólogo surpreendente, embora possuidor de um nefelibatismo confesso, os registrará como a semente mais resistente às provações da pradaria espinhosa e desassombrada dos cardos vicejantes nos sertões equatoriais. Emerge-se então o vaqueiro, a rocha viva da nossa raça. E ele vai, na lida tediosa e interminável dos dias, gaguejando um tupinambá indagativo com o auxílio de pantominas tímidas e desgraciosas, seguindo estóico e em passadas claudicantes a trilha tortuosa do boi, que fareja constante e em geodésia precisa, o tesouro incomensurável das ipueiras salvadoras, regido apenas pela agulha incompreensível da bússola biológica dos seres. E quando na estação da monta e ainda com o bezerro ao pé, o cio de uma rês hormona os ares com fragâncias fomentadores de cópula imediata, eis que, de súbito, renasce a virilidade reprimida dos machos a exaltar o princípio natural de qualquer existência. E no embate horripilante que não raro dura até a morte do mais fraco, vai o perdedor em rumo torto, machucado, peregrinando sem destino e cabisbaixo na desola. Imita-o o homem. Vejamos. Credo in unum Deum, Patrem omnipoténtem... Pecado original? Batismo. Pecado mortal? Inferno. Salvação? A confissão, a penitência, o arrependimento e o dízimo. Para qualquer inteligência mediana, esta é, sem dúvida, a maior história e o maior insulto de todos os tempos. Não existia o céu cósmico, apenas o céu divino. Mas para alcançá-lo é necessário ser pobre, pois os ricos não entram no céu, a não ser que paguem altas somas para a igreja em troca das chamadas indulgências, o salvo conduto necessário para se escapar das chamas eternas do inferno. Nos Oitocentos, o pedágio desta estrada tenebrosa entre a morte e o paraíso era o purgatório. Assim está, nas sagradas escrituras, propalada propter seculorum pela sotaina preta e o missal dos breviários cotidianos. As orações, o dízimo e as missas encomendadas é que dão o passaporte indispensável para a alma penada ingressar no alívio dos céus. Desta forma, a missa se faz a única moeda corrente do além, e as quase sete milhões de almas que perambulavam até então na terra de Santa Cruz, tornavam-se desde o berço, temerosas às lendas do Apocalipse e ao veredicto do Juízo Final, o corolário da bestialidade. Propositadamente, seguindo rígida a fórmula para se manter uma nação coxa e dependente, dificulta-se ao máximo o acesso ao único antídoto capaz de anular o veneno contido na peçonha das rezas: um livro. A equação era simplória. O Estado os trazia miseráveis e a Igreja os mantinha ignorantes. O clero, em todos os seus segmentos, era custeado quase que integralmente pelo erário do Império, pois a grande maioria dos padres e sacerdotes eram também funcionários do Império e beneficiários de prebendas polpudas, nomeados direta ou indiretamente com aval do Monarca, já que este também era quem aprovava ou não a indicação dos Arcebispos advinda do Vaticano. O Papado e as Monarquias Constitucionais eram fundamentados na vontade divina do Criador, uma ordem rigidamente obedecida para se repartir os tesouros saqueados de povos e continentes ignorados, como foi o caso do Tratado de Tordesilhas, onde em 1494 se dividiu o bolo sem antes mesmo de ter acesso à farinha. É que o Meridiano de Tordesilhas separava o novo mundo em duas partes, a esquerda espanhola e a direita portuguesa. E assim se fez em toda a América, palavra que significa bom negócio. Em todas as províncias do vasto continente tropical, prefaciando as mais remotas freguesias, povoados ou vilarejos, erguia-se primeiramente o edifício da submissão: uma paróquia, sempre com o nome de algum santo ou de Nossa Senhora, em prefixo a alguma particularidade física, geográfica ou onomástica. O pároco, seu único tabelião. Em derredor, as capuabas e as latadas multiplicavam-se naturalmente, pois os cemitérios, locados ao lado ou no quintal das igrejas, eram também de sua exclusiva propriedade. A morte, bem cedo a todos rondava. ''Deus nos livre morrer sem ter sido batizado, sem receber a extrema unção ou ser sepultado sem a benção de um padre'', vereda certeira para o inferno. A escola, os mestres, os livros, as ciências e as artes, eram até então palavras desconhecidas para o assombroso enxame de indigentes que perambulavam sem rumo pelos confins dos sertões da Terra Brasilis. O vendeiro Vicente Mendes Maciel abre calmamente as cinco portas da sua principal casa comercial pela manhã e vê um pequeno redemoinho cortar a praça e espantar as avoantes que migalham em bando o chão duro e seco do largo da capela da Vila Nova do Campo Maior do Quixeramobim. Olha para o céu, tira o chapéu e faz o sinal da cruz, relembrando a última seca que há seis anos flagelou todo o sertão do Ceará Grande, desertando as fazendas, os arraiais, os povoados, as freguesias e até algumas vilas. Adentrando à venda, ele leva uma cabaça d'água à boca e a sorve em goles esganados. Aberta a janela lateral que dá para a ruazinha que corta a esquina ele vê, logo acima, ao pé da cumeeira, o iniciar de uma caixa de marimbondos, o que o faz murmurar conjecturas de sorte. --- Benza Deus... Calmamente ele pega um punhal e passa várias vezes uma pedra no fio do corte, entremeando o feito com pequenas cuspidas que umedece a peça. Os aposentos da invejada morada ficam ao fundo da venda, separados por um vão no extremo esquerdo, onde uma cortina cáqui mostra os sinais da gordura e da sujeira dos anos. Um largo e comprido balcão de madeira divide a venda ao meio e dois bancos de ripa circundam as paredes onde, ao alto, pranchas de madeira bruta abrigam cabos de enxada, peneiras, panelas, rolos de corda, algumas roupas feitas e ferramentas largadas ao pó. Os mantimentos e os condimentos ficam à mostra, em sacos abertos, e os rolos de fumo encostados nos tijolos de rapadura empilhados à relaxo, roubam-lhes o cheiro. Ao pé da prateleira central, um barril com aguardente está apoiado num cavalete manco, remediado apenas por uma cuia desproporcional. No alto e ao centro, um quadro de São José e da Virgem Maria com o Menino Jesus ao colo é ladeado por duas caveiras de boi, o que sugere a qualquer entrante, o prestar obrigatório de uma continência silenciosa. Transpassada a cortina rota, um largo corredor de chão batido nos leva aos quartos justapostos em defronte, onde, ao término, uma portinhola divide a cozinha. No quintal, cercado em alvenaria de adobe e portal ao centro, um umbuzeiro de era avantajada sombreia em muito uma cisterna d’água, a qual delineamos a maior riqueza da morada. Vislumbramos em canto último a fossa sanitária, um privilégio que pouquíssimos desfrutavam. Cercada por sarrafos e coberta com capim seco, é diminuta e mal cuidada. Um confessionário hediondo onde forçosamente todas as penitências ali são pagas diariamente. Vicente Maciel acende um fósforo e ateia o fogo sobre um monte de palha que cobre um capado esquelético recém sangrado, uma iguaria que poucos se davam ao luxo. Com as mãos na cintura, ele enverga o corpo para trás e corre o olhar no fio do lombo, no calcular primitivo do rendimento de uma banha mirrada. É quando o badalar do sinete preso à ponta do sombral da carroça de um mascate é ouvido de longe por seus companheiros de carteado que proseiam em frente à venda. Um deles vai, dobra a esquina e chega ao portão fechado à tramela. E grita em tom de boa nova. --- Cumpadi, o turco chegô. Vicente Maciel corre os dedos no grosso bigode e tira o cigarro de palha de trás da orelha, prendendo-o ao canto da boca. Correndo, ele vai até a cozinha, espalmando, num apressado diferente. Em pouco chega até o seu quarto e põe a cabeça entre a porta com expressão de arrependimento. Sua mulher, assemelhando-se à figura da morte está deitada em catre rústico, dedilhando o terço costumeiro no balbuciar pacato dos crentes desnutridos por jejuns doutrinários. Surrada à miúde por bofetões embriagados e ainda com os olhos inchados por hematoma recente, Maria Joaquina de Jesus acaricia com soluços reprimidos uma gravidez avantajada. --- Ô mulé, o turco chegô, diz o marido com a voz branda, na requerência de um perdão desnecessário. O mascate entra pelos e sente o cheiro do porco sapecado, enquanto tira a lona poenta da carroça benvinda. --- Trôxi, cumpadi? Pergunta Vicente Maciel eufórico, esfregando as mãos em pose de curiosidade. --- Truxi, responde sorridente o mascate ruminando um pedaço de toucinho crú, arrancado à beliscão do trincado do lombo. Calmamente, o mascate desembrulha um baralho novo, observando o contentamento do amigo que logo amoita a prenda no bolso da vestimenta em trapos. Em seguida, o vindouro apanha um pé de cabra e abre com cuidado uma caixa de madeira, retirando uma outra menor envolta em pano grosso. Entalhadas frontalmente em formato de uma igrejinha, as duas portinholas quando abertas mostram um altar com o Cristo pregado à cruz e sentinelado por dois arcanjos que assopram trombetas voltadas ao céu. --- Qui bunito, cumpadi, a mulé num vai nem querditá, murmura Vicente Maciel levando de um canto ao outro da boca o cigarro apagado. Entra na casa contemplando a peça e a coloca em cima de uma mesinha, no quarto defronte ao seu. --- Ô Maria, corre aqui, diz em voz alta enquanto abre a janela. Com a destra agarrada ao rosário e a esquerda na barriga, ela entra a passos lentos no quarto agora mais iluminado, estacando-se em contentamento. É que para os viventes da Terra de Santa Cruz, a imagem de um santo é mais que uma mobília ou um adorno. É uma proteção contra as tentações do diabo e uma prova de que se é temente a Deus. A mão com o terço sobe agora num crescendo lento e toca a tramelinha incrustada no centro da igrejinha. A medida que a claridade dá feição ao conteúdo, aqueles olhos miúdos ficam mais vivos e lacrimosos, até que ela leva o indicador à testa e suavemente finaliza o gesto da trindade bendita. O Herdeiro Desde a última seca que Maria das Dores mudou-se da vila de Quixeramobim. Foi-se com o marido, um vaqueiro troncudo e capadô afamado para uma fazenda que beira o caminho do riacho da palha, dista quase uma légua, ao sul da vila. Mesmo enviuvada, continua morando naquelas paragens vazias, sozinha e Deus. E foi de tardinha que ouviu gente chegar e gritar seu nome. --- Das Dô, o sô Vicente da venda mandô chamá amódi a mulé dele, diz apressado um mulatinho cego do esquerdo, de cima de uma carroça com a mulinha rediada. Seguramente, mais da metade daquelas gentes nascera pelas mãos da parteira Maria das Dores, que só fazia em ajudar aos outros. Prontamente ela pega um embornal cheio de ervas secas e um colar de contas pretas argolado num crucifixo de madeira. Apaga o fogo, fecha a morada, empulera-se na boléia e enrola um lenço branco na cabeça, já com a carroçinha em movimento. --- Vamo com Deus, minino. Mesmo com o adiantado da hora, o lusco-fusco não dificulta a mulinha cinzenta a galgar de logo a ruazinha que desemboca no largo da praça. Ela apeia e adentra a venda. --- Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, diz a parteira para duas velhas que beiram o quarto com toalha suja e bacia nas mãos. --- Pra sempre seja louvado, respondem as duas comadres já conhecidas de muitos partos. Ao chegar na cozinha ela encontra Vicente Maciel abanando o fogo e coloca o embornal sobre a mesa. --- Se achegue, dona Maria. A cumadi qué ajuda? --- Num dêxa fartá água quente que o resto cuido eu, responde a parteira colocando as ervas ressecadas na bacia com água fervente. Depois de embeber um pano no caldo escuro cheirando a amargo, ela vai para o quarto. Com o velo ainda quente e umedecido ela enxuga o rosto trêmulo e suado daquela criatura apavorada que teima em não largar o terço. --- Nenhum mal vai acontecê, diz baixinho no ouvido da mulher, que aos poucos, mostra alívio e serenidade. Vicente Maciel senta-se abeirando o fogão e fica pensativo, vez ou outra estralando os dedos. De repente, um vento sibilante invade a casa e um silêncio paira no ar. Num relance, ele se levanta e ouve um choro curto e soluçado. Vai até o corredor e vê as duas ajudantes saírem do quarto e fechar a porta. A parteira lava a criança no caldo escuro e a envolve num pano seco, levando-a junto à mãe. Sai do quarto enxugando as mãos e vê o pai encostado ao corredor com a cabeça abaixada. --- É hômi, sô Vicente, teu fio é hômi. Num salto, ele corre para dentro da venda e pega um rojão de vara encostado num machado que guarda em combinado. Atravessa a porta que dá para a rua e acende a peça, acordando de súbito o ralo povoado num estrondo alucinante. --- É ômi, gente, meu fio é ômi, grita em euforia incontida. --- E vai tê o nome do bisavô e o nome do pai. Vai se chamá Antôim Vicente Mendes Macié, berra jubiloso o vendeiro aos poucos amigos que o presenciam. E naquele 13 de março de 1830 ecoava o estrondo de mais um rojão, seguido de um viva modesto e simplório, emergido num ponto esquecido de um passado remoto, sob o frescor nostálgico de uma noite sertaneja. É Natal nos sertões Xucro para alguns, mas hábil no lidar com números, Vicente Maciel é inteligente e possuidor de uma memória notável. Filho bastardo de Miguel Carlos Maciel, é um homem sério e trabalhador, embora bastante violento quando embriagado. Convive pouco com os parentes e não tem muitos amigos. Tudo o que conseguiu fora com um pequeno comércio em duas vendas e trabalho duro, mas aos poucos seu patrimônio fora corroído em paradas desastrosas da jogatina, a bisca traiçoeira. Irascível e de pouca fala, sempre pagou o que devia. É respeitado, mas também evitado pela fama de fanfarrão inconseqüente. Os Maciéis do povoado vizinho da Fazenda Tamboril costumam visitá-lo na quaresma e na ocasião dos festejos do padroeiro Santo Antônio de Quixeramobim, onde as trezenas são varadas dia após dia numa devoção indizível. E é num final de ano que Vicente Maciel prepara com ajuda da mulher e de serviçais apaniguados, farturenta monta culinária para os festejos natalícios. Mantas de carne salgada para secagem ao sol são dependuradas em jiraus adrede estacados e tachadas de fritura são embarricadas na gordura, conservas seculares. E tudo com o intuito de receber o pai, Miguel Maciel, que ora passa a maior parte do tempo em Tamboril, amasiado com cabocla nova. Vem para o natal junto à parentalha também para conhecer o neto Antônio Vicente Mendes Maciel, que já conta com nove meses de idade. E chegam a vinte e quatro, ainda claro, com o buzinar contínuo das cigarras se fazendo enfastiante naquele horizonte avermelhado e ausente de barra chuvosa. Apeiam na venda de Vicente e trocam saudades. Súbito, um estourar de foguetes rompe os ares, seguido de badaladas festivas do sino da capela em chamariz ao terço cabresteiro. Na fala, o pároco Domingos Álvaro Vieira enfatiza o nascimento do Salvador tendo como ajuda um rústico presépio montado por beatas e dizimeiros devotos. Em pouco, retorna o rebanho faminto para suas casas onde, centenares de candeeiros pirilampam nos casebres iluminando a mais sagrada de todas as ceias. É natal nos sertões. Na cumbuca da sorte revela-se a face oculta da fatalidade O povoado de Boa Viagem de há muito é o reduto da oligarquia dos Araújos, família rica e numerosa que goza de um poder primitivo, calcado em hierarquia tribal e mantido à força de incontáveis brigas de morte, propaladas em cordéis por toda a região da então chamada Ceará Grande. Liderados por Araújo da Costa, homem de terras e bois, os Araújos enciumam-se com o crescimento da fama dos Maciéis de Quixeramobim e Tamboril que, embora mais pobres, parecia balançar-lhes a influência. De posse de uma acusação descabida de furto de gado atribuído aos Maciéis, os Araújos reúnem sua gente e marcam o corretivo para domingo próximo. Em meio aos comentários que correm de boca em boca na pequena Freguesia, um jegue montado por um mulato carrancudo segue em direção a Quixeramobim em marcha acelerada, e aos poucos, envereda-se na caatinga pegando a trilha dos atalhos traiçoeiros por entre os arbustos enfezados de uma flora garranchenta. Distante poucas léguas de Boa Viagem, a vila de Quixeramobim vê naquele sábado uma agitação não costumeira na venda de Vicente Maciel. O entrar e sair de homens apressados e o galopar de vaqueiros vindos pela estrada do Riacho da Palha em direção a fazenda do Tamboril, davam aos moradores uma visão parcial dos acontecimentos, possibilitada somente pelo abrir leviano de uma meia janela. Atocaiados numa pequena pedreira circundante à estradinha batida que desemboca num cannion estreito, os Maciéis aguardam pacientes o chegar dos oponentes, que não tarda. A poeira definida e o trotear soberbo da cavalaria antagônica contorna a galope o paredão sinistro daquela passagem obrigatória. É quando a matula se revela cristalina e enquadrada de toda na massa de mira, que uma descarga assombrosa de trabucos bufantes assalta-a de chofre, provocando uma gritaria enfumaçada, mesclada por relinchos e esturros apavorantes. Os Araújos atiram em vão e a esmo para o alto da pedreira quando rompe uma outra descarga, agora mais estrondosa e mais visível, pondo fim àquele entrevero de minuto. Volvem às pressas os Araújos em fuga alucinante, deixando para trás e largados à sorte, dois feridos que se estrebucham em berros de dor e agonia. Um dos Maciéis sobe ao topo do paredão e com as mãos em concha ao redor da boca solta o grito da vitória numa apoteose triunfante. --- Tão fugino, fio duma égua, nóis vamo te mandá pá puta que paríu, relincha o matuto com respiração nervosa e ofegante, locupletada de imediato por uma cuspida seca que mal aparece no chão. Fomenta-se mais uma vez a rixa vitalícia e hereditária entre as duas famílias, os Maciéis e os Araújos, e que desta feita culminaria num ciclo interminável de tocaias, vinganças e mortes velhas. Um tribunal medieval O garoto Antônio Vicente Mendes Maciel brinca com as duas irmãs no quintal, Maria e Francisca, enquanto seu pai joga cartas com os parceiros de sempre. Um conhecido entra comentando sobre a refrega com os Araújos, mas Vicente Maciel finge não dar atenção à conversa. Morde o cigarro apagado ao canto da boca e franze o nariz, num presságio de tragédia maior. --- Ééé....Sei não, resmunga enquanto fila uma carta do baralho seboso. Silvestre Veras é conhecido em Boa Viagem pela sua riqueza e por vários crimes atribuídos a seu mando. Aparentado dos Araújos, ele sente a humilhação sofrida pela família na refrega com os Maciéis e advoga, ao seu modo, a vaidade ferida. Reúne seus homens e alguns parentes e marcam a forra em Tamboril, fazenda e povoado vizinho de Quixeramobim e o lugar onde o velho Miguel Maciel, pai de Vicente e um dos chefes do clã dos Maciéis, mantém a amásia e uma vivenda que freqüenta regularmente. José Joaquim de Meneses e Vicente Lopes, facínoras renomados por feitos de barbárie sem precedentes no interior do Ceará Grande, empreitam o serviço. E seguem para Tamboril junto ao bando dos Araújos, combinados à paga miúda. Em 9 de março de 1833, a amante do velho Miguel Maciel deixa a vivenda no momento em que Miguel Carlos, filho de Miguel, junto com o tio Antônio Maciel chegam para tratar negócio da compra de um gado. Mal sabem que a morada está cercada, quando uma descarga repentina vinda dos quatro cantos da casa põe seus ocupantes em cólera de suçuarana acuada. Um tiro no sertão é como estar com um pé e meio dentro de uma cova. --- Sai cas mão pá riba sinão tudu mundo vai morrê, grita Joaquim José de Meneses que, atrás de uma mula, aponta a espingarda apoiada à sela em direção a porta da vivenda. O velho Miguel Maciel olha por entre a fresta e delineia a desvantagem. Seu filho, Miguel Carlos, carrega apressadamente um bacamarte enquanto o tio Antônio Maciel empunha na esquerda uma lambedeira e na direita um facão de três palmos. Aguardam em silêncio afogado a decisão do velho Miguel Maciel, que range os dentes e soca a mesa com o punho enfezado. --- Cumé que é ? Pergunta Miguel em voz alta, achegando-se à porta com a foice encajadada. --- Vâmo até o Sobral amódi o juiz arresorvê da morte dos dois hômi da pedrera, responde Silvestre Veras à cavaleiro e com a espingarda escudando-lhe o peito. Ouve-se então o ruído do silêncio. --- Ocêis tem a minha palavra que mar ninhúm vai acontecê, finaliza Silvestre Veras num misto de proposta e ordenança. Os três homens deixam a casa e logo são amarrados em fila indiana atrelada a uma parelha de mulas, enquanto alguns moradores assistem a tudo numa imobilidade absoluta. A medida em que a diligência se afasta, o cabecilha Silvestre Veras aperta o passo, obrigando os prisioneiros a uma marcha torturante rumo ao cadafalso escolhido, as imediações das fazendas Araras e Convento. Ao final da tarde, o velho Miguel Maciel não resiste e cai, esgotado pela sede e espasmos de tontura. Um dos Araújos desmonta e desembainha o punhal. Caminha em direção aos condenados e os desamarra. Assustados, eles permanecem imóveis até que um dos jagunços golpeia brutalmente o abdome de Miguel Maciel, que cai desfalecido em revés supremo. Abre-se a porta do inferno. Os disparos repentinos e à queima roupa tombam o irmão Antônio Vicente e o sobrinho Miguel Carlos, quando num lance inexplicável, em salto felino, ele avança num dos capangas tomando-lhe a faca, degolando-o de pronto. E como um raio galga um cavalo sobraçado entre o pêlo e a sorte, que mesmo ferido mortalmente, desaparece caatinga afora num desenhar impossível. Seguem-lhe em vão Joaquim Meneses e Vicente Lopes. Há uma máxima incontestável nos sertões. A vingança tarda mas chega. Talvez a maior assombração de consciências devedoras. O velório dos Maciéis Maria Joaquina de Jesus amamenta a filha caçula junto a mesa da cozinha quando o marido Vicente Maciel chega acompanhado de duas comadres, corcoveadas e em vestido preto no indicativo de má notícia. --- Matáro o sô Migué e sô Antôim, cumadi, diz chorando uma das velhas, tirando-lhe a filha do colo. --- Foi os Araújo, mulé, aqueis cão, grita Vicente Maciel esmurrando a mesa em soluço engasgado. Há um outro dito popular corrente nos sertões do norte: Quem morre por mão alheia, duas vezes há de morrer. Isto põe os parentes do assassinado em caixa de pavor. O credo é antigo, diz um morador. É que, sem a extrema unção, a alma do partinte dificilmente entrará no céu. Então se faz necessário chorar em muito a morte do infeliz, pois quanto mais chorado o defunto, mais fama adquire o velório. Desta forma, muitas pessoas que não presenciam a cerimonia se juntam à corrente de orações para salvar a alma do sangrado. E no caso do velho Miguel Maciel e seu irmão Antônio Vivente não foi diferente. Toda a vila de Quixeramobim e o povoado do Tamboril choraram a morte daqueles que todos conheciam e respeitavam. E as ladainhas e as novenas demorosas, encabeçadas por dúzias de carpideiras vocacionadas vão ainda ecoar nas casas por longo tempo, em socorro àquela alma aflita que por certo, ainda clama por alívio nas cercanias do purgatório. No cotidiano, um revés. O choro da filha caçula de Maria Joaquina é ouvido da mesa do carteado onde Vicente perde muito naquela tarde. --- Ô Maria, quéta o choro da minina, grita o marido já embriagado. Novamente o chorar da criança invade a casa num agudo continuado. Brutalmente o homem se levanta, desafivela a cinto chibateiro e aos berros chega ao quarto. A criança caída ao chão mostra um ferimento na testa e esperneia em pano roto. A mãe, deitada transversalmente à cama, jaz palidamente com a boca aberta, na expressão inequívoca dos mortos. --- Minha Nossa Sinhora, grita Vicente Maciel, acudido em seguida pelos companheiros da bisca. O cortejo deixa a casa logo após o terço de corpo presente, encabeçado pela parteira Maria das Dôres e as comadres da falecida Maria Chana, como era também chamada Maria Joaquina de Jesus. O corpo envolto numa rede é suspenso num varal e carregado nos ombros por alguns parentes em alternância com poucos conhecidos que, em romaria raleada, respondem discretamente ao reclamo das Ave Marias rumo ao lar dos mortos. Antônio Vicente Mendes Maciel, agora com quatro anos e órfão de mãe, caminha respondendo às rezas segurado pela mão do pai, este, visivelmente abatido. Chegam em pouco ao cemitério situado ao fundo da igreja, um quintal povoado por cruzes corroídas pelo tempo e escondidas pelos arbustos que crescem em derredor aos poucos túmulos espalhados em desleixo. Dentre os presentes, destaca-se a presença do advogado José Antônio Pereira Ibiapina, filho de Francisco Pereira Ibiapina, este um revolucionário que fora fuzilado em 1825 por ser um dos líderes da Confederação do Equador, o movimento que pleiteava a República do Ceará e que fora reprimido pelas forças do Imperador Dom Pedro I. No baixar do corpo rumo ao buraco assombroso, o doutor José Antônio Ibiapina, retira da casaca uma bíblia e lê o salmo de Davi, ao que todos ouvem em silêncio. Ao término da leitura ele joga uma flor na cova e vai em direção ao menino, vergando o corpo magro e abraçando-o carinhosamente. --- A sua mãe está lá no céu, junto com Deus e rezando por nós, diz o delegado ainda de cócoras, acariciando-o na face com a mão direita, esta visivelmente salpicada de vitiligo. A parteira Maria das Dores se aproxima e calmamente pega na mão do afilhado levando-o para a casa, onde suas irmãs Maria e Francisca estão no quarto com duas velhas a fazer-lhes companhia. Ela vai até a cozinha e traz um embornal de rapadura, que serve às crianças. --- Escuta aqui, Antôim, diz a parteira carinhosamente segurando-o nas mãos sujas e suadas. --- Agora que ocê tá criscído, uncê vai ajudá a tumá conta das irmã mais nova e num vai desobedecê o teu pai. O menino ouve os conselhos da madrinha e enxuga os olhos com a mão fechada, como que pressentindo um porvir não auspicioso. E a roda da infância segue girando, demoradamente, no ciclo raleado das chuvas miraculosas e no cotidiano pacato e doloroso daquela quadra saudosa, entremeada somente pelo acenar das lembranças merejadas da mão do esquecimento. Da primeira Revolução Industrial ao 7 de abril. Do tear manual que tece um único fio de lã, artesanalmente, passamos para o tear mecânico e tecemos centenas de fios, simultaneamente. O Algodão substitui a lã e a roda d'água impulsiona engrenagens, dispensando assim a força motriz do braço humano. Como num passe de mágica, o tear mecânico muda radicalmente o mundo. O sistema fabril passa a oferecer empregos e salários, fomentando gradativamente o êxodo do interior feudal para os cortiços das grandes cidades inglesas. O milagre da Revolução Industrial faz a Europa tremer no final do Setecentos. E a fórmula é tão simples como um fósforo que desencadeia um incêndio. A produção industrial não exige uma grande especialização. Cada pessoa opera uma máquina que faz uma única peça. Ao final do processo, as diferentes peças são montadas e tem-se o produto acabado. Com a Revolução Industrial surge na Europa dois elementos distintos e antagônicos que determinarão em breve os novos rumos da história: O capitalismo e a consciência de classe. Respectivamente, o patrão e o operário. A Inglaterra torna-se o gigante industrial do mundo e monopoliza os mercados da Ásia, África, Europa, América do Norte e América do Sul. Os países consumidores dos produtos ingleses são obrigados a assinar tratados restritivos ao seu desenvolvimento industrial em troca da compra pela Inglaterra de suas matérias-primas. E tudo se faz em nome do livre comércio mundial. É o caso de um alvará promulgado pela rainha de Portugal Dona Maria I, em 1785, que proíbe qualquer manufatura brasileira. Todos os produtos consumidos no Brasil devem ser importados de Portugal, que, por sua vez, os importa da Inglaterra, obedecendo ao tratado de Methuen (1750). Portugal compra as manufaturas inglesas e os britânicos compram o vinho português sem taxas alfandegárias. A fonte de renda do Estado brasileiro provem apenas de tributos sobre os produtos importados por um cartel diminuto de atacadistas ingleses e uns poucos franceses que, por sua vez os vende aos varejistas portugueses. Uma pequena parcela é arrecadada com o imposto de exportação de algumas comodityes como o açúcar, café, madeira, fumo e o couro. Desta forma, o capitalismo inglês fomentava o desenvolvimento dos países importadores de suas manufaturas e financiava o seu progresso, baseado no empréstimo de capitais que eram usados para adquirir os bens de consumo produzidos pela própria Inglaterra e não para financiar um desenvolvimento industrial, que por sua vez, produziriam manufaturas para o consumo próprio e o excedente para exportação. Este paradigma passava despercebido pelas nações que tinham no braço escravo uma mão de obra relativamente barata, a despeito de grandes investimentos. A agiotagem torna-se então o supra-sumo da evolução capitalista, camuflada em edifícios suntuosos e de importância capital: o banco. As casas bancárias inglesas se espalharam por todos os países que ainda engatinhavam no vislumbrar de qualquer perspectiva de desenvolvimento auto sustentável. O que se via era uma escassa minoria que podia desfrutar de uns poucos bens de consumo em detrimento a um exército imenso de indigentes que possuíam uma ou raramente duas vestimentas por toda uma vida. E todos viviam jogados na arena da penúria e à mercê da rapinagem e da indigência, sem qualquer perspectiva de ascensão social, pois esta se dava, única e exclusivamente por herança ou o nepotismo com o apadrinhamento e a indicação dos cargos públicos mais relevantes. A dívida externa da Coroa Portuguesa para com a Inglaterra alcançava, no início do Oitocentos, um patamar de catástrofe e insolvência falimentar quando, inusitadamente, os ingleses finalmente encontram uma solução para não perder o capital emprestado. Como o Brasil já era um mercado consumidor bastante considerável e os rumores de separação da Colônia com a Coroa de Portugal era uma tese desejada pelos judeus e a maçonaria, além dos que hora usufruíam diretamente do Vice Reino, não seria difícil que o Brasil arcasse com o ônus da dívida portuguesa se esta fosse uma condição única para que se realizasse a separação. Forja-se então um ultimato para que o Príncipe Regente Dom Pedro retorne a Portugal com intuito de instigar o seu orgulho e fomentar o rompimento definitivo com a Coroa portuguesa. A isca dá certo. Com o Golpe de Estado Inglês, culminado no dia 7 de setembro de 1822 no Campo do Ipiranga, denominado a posteriori de Independência do Brasil, a Inglaterra monopoliza o mercado brasileiro eliminando assim o crivo português como o titular da Colônia. O próximo passo seria fazer com que a maçonaria e as mais variadas correntes se unissem para que o Príncipe Regente traísse o juramento feito a seu pai, o rei Dom João VI, e aceitasse o título de Imperador e Defensor Perpétuo do Brasil, o que se verificou sem maiores problemas. Transfere-se então a dívida externa de Portugal com a Inglaterra para o Brasil que somava 3 milhões de Libras Esterlinas e enterra-se de vez qualquer movimento que pudesse acender em túnel distante, alguma centelha de quimera separatista ou republicana progressista, ficando assim o Brasil, desde o nascedouro, um refém dos interesses de uma elite arcaica e sovina usada como testa-de-ferro dos interesses da ganância dos banqueiros ingleses, a exemplo da Casa Rostchild que financiaria o Império do Brasil e governá-lo por trás da cortina da usura. Portanto, faz-se necessário também legitimar o novo Império com uma Magna Carta, mas nos moldes contrários aos propósitos básicos da Independência Americana ou da Revolução Francesa que aboliram a monarquia como forma de governo. Nada de novo. Persiste o absolutismo. Mas, se o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente. A constituição de 1824 favorece então quem a aprova. Questões execráveis como senadores vitalícios e o voto aberto e censitário* (somente aos que possuem um patrimônio em terras e uma renda anual acima de 100.000$000 ) para a Câmara dos Deputados são mantidas, formando um quadro não de representatividade de um povo demente, mas de uma indecência legalizada. Os estômagos dos traidores da pátria são saciados constitucionalmente. O Imperador, detentor do Poder Moderador, nomeia um chefe de Gabinete para o Poder Executivo e este nomeia seus Ministros, na maioria senadores ligados ao Monarca que é também quem nomeia os Presidentes das Províncias, que por sua vez elegem seus deputados em eleições fechadas e indicam também os Delegados de Polícia, os Juízes e outros cargos subalternos. Basta que o Imperador substitua o chefe de Gabinete para que uma poda em cadeia se dê prontamente. Desta forma, todos os cargos públicos que são os únicos empregos possíveis, ficam à mercê dos caprichos ou da benevolência de uma só pessoa. Persiste então no Brasil, mais do que nunca, os vícios de uma sociedade acostumada aos dois únicos patamares sociais até então existentes, o egoísmo e a clemência, o ouro e a lama, onde a inexistência de oportunidade à prosperidade favorece o conformismo religioso que pregava a pobreza como requisito básico para se entrar no paraíso, atrelado ainda a um Poder Judiciário parcial e corrupto, já que os cargos dos magistrados não eram vitalícios. O terror também se faz presente num Estado escravocrata e concentrador de riqueza, moralizado apenas com a forca e a proliferação de cadeias abomináveis, todas infestadas de, indigentes, loucos, epilépticos, sifilíticos, mestiços, negros e miseráveis de toda sorte que são usados como exemplos de repressão do regime, e que ali morreram ou pagaram suas penas sob que circunstâncias não ousamos imaginar. Mas a 5 de abril de 1831 dá-se o revés: O Ministério, composto pelo partido progressista, é sumariamente demitido e substituído pelo novo Gabinete do Marquês de Paranaguá, do partido regressista. Foi, em tese, o maior desemprego da história nacional. Todos, com exceção da Cúria, são demitidos. Então, o único e imenso grupo de paisanos com os seus direitos aviltados se unem telepaticamente a um exército de Quixotes e à Armada Naval para informar ao Imperador Dom Pedro I o resultado do mais curto de todos os plebiscitos jamais votados : Um não, seco e sem retoque, seguido de uma imobilidade muda e surda a qualquer ordem contrária. Qual a saída diante de uma espada calcando-lhe o rim? Aceitar a sugestão do exílio e abdicar o Trono em favor do príncipe herdeiro ou curvar-se na humilhação de um degredo inglorioso, da publicação de que seu temperamento de déspota desvairado é governado à mercê de ataques epilépticos até então acobertados? Dá-se o golpe. O Imperador Dom Pedro I abdica e em favor de seu filho e em dois dias deixará o Brasil. Uma criança entregue aos traidores que lhe juraram fidelidade eterna quando da ocasião de sua coroação. Há muita névoa e mágoa na historiografia oficial do Ocidente, escrita pelas mãos invisíveis de um poder parido nas sociedades secretas e ditada por protocolos de estarrecer, guardados a sete chaves por uns poucos escolhidos. O menino Pedro de Alcântara que perdera a mãe com um ano de idade, agora aos cinco anos e quatro meses, segura a mão do Ministro José Bonifácio de Andrada e Silva, o primeiro grão-mestre da maçonaria do país e seu futuro tutor. Juntos acenam para um pequeno barco ancorado no cais Pharoux onde, a bordo, a triste figura de um desterrado, o pai que pouco conhecera e hora corresponde ao adeus do filho com o cumprimento militar. Ouve-se apenas o som do vento. --- Que estranha personalidade a do Imperador, diz o ministro José Bonifácio de Andrada e Silva ao Frei Antônio de Arrábida, preceptor do Imperador, que também acena um lenço em sinal de adeus. --- É verdade, senhor ministro, mas ao menos ele nos deu a independência, retruca o velho prelado com os olhos em lágrimas. --- Independência, Monsenhor? Aquilo foi um coice no estômago, isto sim, retruca o ministro José Bonifácio num ranger de dentes, como quem joga uma bigorna para um afogado. --- Isto também é verdade, senhor ministro. Lembro-me que os Estados Unidos reconheceram de imediato a nossa separação, enquanto que a Inglaterra e Portugal só o fizeram três anos depois. --- Esta demora não foi por acaso, Frei Arrábida. O entrave foi a dívida de Portugal para com a Inglaterra. Tivemos que assumir as três milhões de libras esterlinas na sua totalidade, caso contrário os ingleses cortariam o nosso crédito, não reconheceriam nossa independência e ainda por cima nos colocariam no prego. Alheio a tudo, o menino de olhos azuis e cabelo amarelo ergue a cabeça e fita o ministro José Bonifácio na dimensão de um inseto diante de um porco. --- Mas o que mais marcou a personalidade de Dom Pedro, monsenhor, foi aquele seu temperamento impulsivo e também o seu estilo. --- Perdoa-me, senhor ministro, mas um Imperador que vivia no meio das raparigas e que fez de uma rameira uma Marquesa, não tem estilo. As atenções dos presentes se voltam para José Bonifácio. --- É certo, monsenhor, mas ele foi um caso único na história. Um absolutista que se proclamava um liberal, além de um dinasta que renunciou a dois tronos, diz o ministro batendo levemente no ombro do menino que ouve a tudo em silêncio. A nau Warspite chega à fragata Volage que levará Imperador Dom Pedro I a Portugal para tentar recuperar o trono de sua filha, Dona Maria da Glória. Os olhos azuis do menino Pedro de Alcântara acompanha a fragata que vai diminuindo rumo ao horizonte enquanto a mão do ministro José Bonifácio aperta-lhe o ombro com a candura inigualável de um beliscão de padre. --- Coragem, meu filho, coragem. Dos restauradores No mesmo dia da deportação do Imperador Dom Pedro I, ao invés de se instaurar uma república a exemplo de todos os países do continente americano, ocorre a aclamação do Príncipe herdeiro no paço do Senado. Forma-se de imediato um governo provisório e ao cabo de dois meses uma Regência Trina, eleita para governar o país até que o Príncipe Dom Pedro de Alcântara complete a maioridade de 18 anos. Os senadores Marquês de Caravelas, Nicolau Vergueiro e o Brigadeiro Francisco Lima e Silva, um dos oficiais que se rebelou contra o Imperador, formam a tríade. E para que o novo governo se consolide será preciso fomentar a mais antiga e eficaz de todas as fórmulas moralizadoras; a espada e a repressão para os insatisfeitos. A notícia da abdicação do Imperador chega confusa e lentamente para os viventes das Províncias mais distantes. Os pobres e xucros, brancos e mestiços, mulatos forros e escravos, quilombolas e caboclos, e toda uma malta de miseráveis e marginalizados com boca a banguela e sedenta não aceitam a idéia de que o Imperador, um Rei mandado por Deus, fosse destronado por pecadores a mando do inferno. E formam, sem saber, um exército imenso e desarmado, uma legião confusa e ignorante, carente de qualquer bandeira ou liderança que lhes desse o maior de todos os confortos: um comando. E ele chega. Logo em setembro de 1831, um certo João Cândido obtém apoio de toda população civil da Província do Maranhão com um único propósito: expulsar os comerciantes portugueses e os padres Franciscanos da sua terra. A rebelião é facilmente reprimida e seus líderes se refugiam no sertão, abrigo eterno dos revolucionários fracassados. Dois meses após, em novembro, sob o comando do capitão Afonso Viana, defensor do ideário de uma Republica Federalista, é exigido o completo desarmamento de todos os comerciantes portugueses de Pernambuco. Fracasso. Cinco meses após, em abril do ano seguinte, novamente Pernambuco é o palco de uma revolta chefiada pelo coronel Francisco Martins, que exige a volta do Imperador Dom Pedro I e o fim da Regência Trina, também com grande adesão popular. Mas o Presidente da Província habilmente convence os revoltosos a depor as armas. Mais tarde, Alagoas e Pernambuco também se unem em prol da restauração do Imperador, que mesmo falecido em setembro de 1834 em Portugal, vitimado pela tuberculose, os restauradores ou caramurus, compostos na maioria de camponeses, índios e quilombolas, lutam pela volta do Imperador até o ano seguinte, 1835. Munido de jornais e vários documentos, o Bispo Dom João da Purificação, arduamente convence os revoltosos da morte do Imperador e põe fim ao levante. Dá-se então uma cena inusitada. Os rebeldes caramurus, convencidos pelo prelado da morte do Imperador Dom Pedro I, põem-se aos prantos numa auto flagelação sem precedentes, todos abalados com a funérea notícia. Ajoelham-se e batem-se com a cabeça ao chão, jogando terra nos rostos ressequidos e voltando em seguida os olhares para o céu, vertendo lágrimas cantadas num misto de súplica, remorso e perdão, penitenciando-se na dor de um membro amputado. --- Trono e Fé, murmura o Bispo fazendo o sinal da cruz, tendo a seus pés a turba revoltosa que, prostada em prantos, é de logo confortada por uma reza improvisada. Um padre na Regência Com o ato adicional na constituição realizado em 1834, estabelece-se um só Regente para o Trono do Brasil e no ano seguinte é empossado o senador Diogo Antônio Feijó, um padre defensor fervoroso da abolição do celibato clerical. Como a maioria dos padres de seu tempo, não fugiu à regra, verificando-se a posteriori um varão de notável apetite sexual. É neste período que as várias correntes partidárias convergem para a formação dos dois futuros partidos mais importantes do Império, o Partido Liberal, representante das oligarquias rurais e defensor do regime da escravidão e o Partido Conservador, também formado pela velha cepa de portugueses escravistas e retrógrados, todos disfarçados na pseudo intelectualidade de alguns líderes bacharelados nas Cortes da Europa mas também um representante ferrenho do monopólio comercial estendido aos ingleses e portugueses de origem. E todos ávidos por títulos nobiliárquicos, esta abominável divisória social que, enraizada na medula das Monarquias da Europa, antecipa o erro capital de dois verbos, na inversão fatídica de seus valores morais: o ter e o ser. Um deles é Bernardo Vasconcelos, do Partido Conservador que, tendo a maioria dos votos no senado, cria uma conjuntura que obriga o padre Feijó a tomar a única atitude possível: a renúncia. Mas o poder não admite vazio. Araújo Lima, então Marquês de Olinda, um dos grandes nomes do Partido Conservador é eleito Regente em 1838 para governar o Brasil até 1842. Seriam cinco anos de fartura e bucho cheio para os conservadores e de imediato desemprego de toda a rapinagem liberal que, por ora e em goela seca, amarga em fel vingativo a renúncia do líder Feijó e a substituição de todos os cargos ocupados pelos correligionários liberais. Da educação dos Príncipes Com a saída de José Bonifácio de Andrada e Silva da Tutoria do Príncipe Dom Pedro de Alcântara e de suas irmãs mais velhas, Dona Januária e Dona Francisca Carolina, a Assembléia Geral Legislativa realizada a 11 de agosto de 1834 e composta por 36 senadores e 95 deputados, elege por maioria de 73 votos, o novo Tutor de Suas Altezas Imperiais, o Sr. Manoel Ignácio de Andrade Souto Maior Pinto Coelho, o Marquês de Itanhaém. Quatro anos depois, para dar cabo da difícil tarefa da continuação da educação literária e moral do Príncipe Dom Pedro, agora um menino de treze anos, se faz necessário escolher a dedo os mestres mais notórios nas disciplinas indispensáveis a uma boa educação de um Monarca. Roberto João Damby é escolhido como mestre de equitação, Renato Pedro Boiret continua como o responsável pelos estudos do francês, Fortunato Mazziotti permanece com a pasta de música, sendo que a dança fica a cargo de Lourenço Lacombe. Para as aulas de desenho, é nomeado o francês Félix Emílio Taunay e dos estudos do idioma inglês se encarrega o Sr. Nathaniel Lucas. As aulas de caligrafia serão supervisionadas pelo mestre Luiz Aleixo Boulanger e como aio e confessor do Príncipe, foi escolhido o Sr. Padre Mestre Frei Pedro de Santa Mariana, responsável também pelos estudos de latim, matemática e lógica. O médico François Sigaud é quem cuidará da saúde de Suas Altezas Imperiais. --- Senhores, devemos começar nossa afortunada palestra aludindo aos princípios básicos da educação que Sua Alteza Imperial deverá receber a partir de agora, diz o Marquês de Itanhaém aos professores que o cercam numa das salas do palácio de São Cristóvão, a Quinta da Boa Vista. Magro e alto, rosto comprido e fino, nariz destacado e um olhar melancólico encravado em testa larga e calva, o novo Tutor abre uma pasta e distribui aos colegas um glossário dos pontos fundamentais do Quadro Genealógico da Organização Social conforme a Bíblia do Justo Meio, formulada pelo Bacharel em Leis e Cânones, o Sr. Felipe Alberto Patroni. --- Deus representa o Espírito e a Monarquia, simbolizada na forma de governo. A nação, a família e os indivíduos devem ser classificados respectivamente como o poder nacional ou a classe alta, conforme os senhores podem observar no quadro, elucida o Marquês com voz pujante. --- Já o poder familiar é representado pela classe média e o poder individual pela classe baixa. O corpo do Estado deve ser representado pela classe alta, respectivamente os filósofos, os deputados e os senadores, os símbolos da força e da democracia. Já os mestres, os advogados e os empresários formam o poder familiar ou a classe média, simbolizando a nossa riqueza, o juízo e a aristocracia. Por fim, caros senhores, advém o poder individual ou a classe baixa, detentores da sabedoria, da razão e também da Monarquia. São eles os filhos, os discípulos e os escravos, os cidadãos e os agricultores, os comerciantes e os artistas, além dos súditos, os caixeiros e os operários. E acima de toda esta magistral estrutura é que vem a figura do Centro Nacional, O senhor Dom Pedro II, finaliza o Marquês lendo em voz altiva o organograma dos justos. --- E quanto a esses artigos, senhor Marquês? Pelo que vejo são em número de doze, diz o francês Félix Taunay enquanto os colegas observam atentamente a cartilha. --- É fundamental que se cumpram à risca todos os ítens, senhor Taunay. Vamos a eles, retruca o Marquês passando o dedo indicador na língua ressequida. --- Conhece-te a ti mesmo. Esta máxima, senhores, dita por um dos sete sábios da Grécia, servirá como base do sistema educacional do Imperador. Sua Alteza deverá ter a idéia exata das cousas, discernindo sempre o falso do verdadeiro. Expliquem do modo mais simples que este planeta se chama Terra e que aqui nascemos, vivemos e morremos, para que ele possa bem compreender o que é a dignidade e que, apesar de ser o Monarca, ele também é um homem, sem diferença natural dos indivíduos, apesar de sua categoria civil estar acima de todas as classes sociais. --- Senhor Marquês, Vossa Mercê não acha conveniente que façamos um relatório sobre a aptidão de Sua Alteza nos respectivos temas? --- Ótima idéia, senhor Lacombe. Creio que é dever de todos manter-me informado sobre o aproveitamento do Imperador e também do seu grau de interesse para as cousas. --- E sobre a política, senhor Marquês. Como deveremos agir se algo nos for perguntado? --- Devemos fazer ver ao Imperador que a espada, a tirania e o derramamento de sangue não são o melhor caminho a seguir. Daremos, como exemplo, a atitude do Imperador romano Augusto César que abraçou um de seus adversários e o convidou para ajudá-lo a governar. --- Então devemos ensina-lo a perdoar sempre, senhor Marquês, sobre qualquer circunstância? --- A moral é fundada na tolerância e no perdão das injúrias, assim como nos defeitos e nos erros, prezado senhor Mazziotti. E como o senhor bem sabe, muitas óperas abordam muito bem este tema. Devemos fazer com que Sua Alteza atinja a máxima perfeição do Cristianismo agindo contrariamente aos que invertem a lei penitenciando os ignorantes e as viúvas com longos dircursos e orações, fingindo-se de sábios. Pão é pão e queijo é queijo. O Imperador deve conhecer cada objeto e a pronúncia exata de cada vocábulo, se bem que isto é uma tarefa que cabe mais ao Padre Mestre do que a nós. --- E quanto a recreação de Sua Alteza, senhor Marquês. Não achais que esta agenda está muito carregada com os estudos e com pouco entretenimento? --- Em absoluto, senhor Damby. O teatrinho, a jardinagem e o jogo das cartas já bastam para que Suas Altezas tenham um bom desenvolvimento. Afora isto, também teremos as suas aulas de equitação, o que tenho certeza, te empenharás ao máximo para que nosso Imperador seja um exímio cavaleiro. --- E sobre as questões de economia, senhor Marquês, até que ponto deveremos pisar neste terreno? --- Boa observação, senhor Boulanger. Creio ser o principal dever de um Monarca estimular sempre a agricultura, o comércio e as artes, e isso só pode ser adquirido com o estudo das ciências. Entendam bem os senhores que meu Augusto pupilo não deve perder tempo em discussões teológicas e nem fazer como Luiz XIV que ficava absorvido nas suas idéias de grandeza. Para que seja honrado, justo e sábio, ele deve ser acima de tudo, um amante da felicidade de seus súditos. E insisto ainda para que não olhem só para o livro das escolas, mas para o livro da natureza, o verdadeiro construtor do corpo e da alma dos homens. --- E quanto às informações gerais sobre o nosso país, senhor Marquês, como deveremos agir se nos for perguntado alguma coisa? --- Desde já, o nosso augusto Imperador deve ser informado sobre todos os fatos que queira saber, devendo ler com atenção os jornais e os periódicos publicados na Corte e também nas outras Províncias, além de receber com atenção as queixas e representações que qualquer pessoa lhe fizer contra os Ministros de Estado, pois só assim o Imperador poderá substituí-los a bem da felicidade da nação. --- Bem, de minha parte creio não haver mais dúvidas, senhor Marquês, exceto pelos horários que Sua Alteza deverá seguir. --- Bem lembrado, professor Taunay. Creio ser da maior importância que Sua Alteza deverá despertar no máximo às seis, se vestir e depois fazer as primeiras orações do dia, mas sempre na companhia de Frei Pedro. As oito deve almoçar na presença da preceptora Dona Mariana e do doutor Sigaud, que ficarão de vigia para que Suas Altezas não abusem da comida. Das nove às onze e meia ele só dedicará aos estudos. Quanto ao jantar, este deverá ser as duas da tarde, em ponto. Por volta das cinco, Sua Alteza poderá fazer um passeio pelos arredores do palácio, mas nos intervalos do dia e à noite, ficará aos cuidados do Padre Mestre Frei Pedro para as leituras de história e literatura, que deverão progredir na medida em que a idade mental de Sua Alteza for avançando. --- Perfeito, senhor Marquês, está tudo as claras. --- Sendo assim, declaro encerrada esta proveitosa reunião, lembrando-lhes que não deixem de me informar sobre todos os passos de Sua Alteza. Desejo a todos um bom trabalho, finaliza o Sr. Manoel Ignácio de Andrade Souto Maior Pinto Coelho a reunião realizada no dia 2 de dezembro de 1838, três dias antes do aniversário natalício do Jovem Pedro de Alcântara. Um belo presente. Um passeio dominical. As serpentinas, as arruadeiras, as liteiras e os palanquins *, veículos movidos a par de negros que são indispensáveis para o transporte das mulheres da Corte em visitas rotineiras de curta distância. E circulam aos montes na rua Direita, um largo infestado de camelôs de jirau às costas embalaiados nas pontas, lotados com frutas nativas e guloseimas de sal e doce. Nota-se que a população da capital, a essa época, já passava dos cem mil habitantes, e bem mais de dois terços já era composta de escravos, pois não havia um branco sequer que não tivesse ao menos um cativo como animal de carga. Peneiras lotadas de guloseimas são transportadas na cabeça de curumins apressados e de negras camufladas no enfeite, mas que em sua grande maioria não gozavam da alforria, apenas servindo de balcão para vender as mercadorias das suas respectivas patroas que as fiscalizavam com o rígido olhar da chibata. As ruas são descalçadas e doentes, fedendo a mijo e a bosta. Plagiam em muito um cemitério, pois aceitam tudo que lhes dão. Barracas improvisadas expõem frango vivo e cortes de carne fresca que respingam o sangue quente no chão de terra batida, todo impregnado de lixo, chorume e estrume humano. E o mercado a céu aberto forma um cenário tipicamente tropical, com as roupas de colorido extravagante a resvalar de vez em quando nos enxames de moscas varejeiras que dançam, festivamente, sobre miúdos de peixe e a podridão das víceras jogadas a esmo sobre o piso da viela principal. Um banquete para os soldados rasos dessa hierarquia que, de chofre e ao primeiro olfato denunciante da matéria morta, providenciam de imediato a etapa inicial da faxina magistral da natureza. E segue-se a manhã no costume milenar e ancestral da feira livre. Súbito, vê-se uma viga imensa de cerne maduro que é carregada nas costas de uma leva de negros com ombros desnudos e pés lamacentos que, ao entrar na rua são percebidos, de pronto, pelo cantar melancólico daquela procissão rotineira de horrores. Um adendo de Abre Alas, ao que todos dão passagem. A centopéia gigante, comandada por um feitor a cavalo, é observada com naturalidade pelos que possuem um par de sapatos e também pelos nobres que compõem a minoria das gentes que transitam na feira. É-lhes peculiar o desdém. Um homem maduro, de barba curta e grisalha, bem trajado, pisa cauteloso no chão repleto de imundice, mas não deixa de cumprimentar de longe uma senhora que o espia de uma soleira, com o tirar vagaroso do chapéu. A passos lerdos ele adentra ao ARMAZÉM PROGRESSO, a esquina mais popular da rua Direita. --- Dia, diz o homem tirando o chapéu, imediatamente cumprimentado por todos os presentes com um leve abaixar da cabeça. --- Ora, ora, Senador Cavalcanti, quem é vivo sempre aparece, murmura sorridente o comerciante português de dentro do balcão. --- É, seu Perera, de fato não tenho saído da fazenda dispois da úrtima inleição, num sabe? Mas hoje eu vim dá umas vórta amódi vê o muvimento, fala calmamente o senador acendendo o cigarro de palha. --- Vosso filho está mesmo a regressar da Europa, senador? pergunta o português desarrolhando uma garrafa do porto. --- De Purtugá, seu Perera, e óia que já faiz quaje uns cinco ãno quêle foi prus trangêro, num sabe? Mais inté parece que foi ônti. --- Quem diria, senador, o menino Deucleciano já é um doutor, intervém o português servindo-lhe um cálice de vinho. --- É... Mais num sei sêle vai divogá por aqui com essa cambada que tá no governo, num sabe? diz o senador cuspindo no chão e sorvendo lentamente o vinho. O jornalista Arlindo de Castro, do Jornal do Commércio, conhecido de todos por uma taquigrafia ininteligível se aproxima com a caderneta em punho. --- E a última revolta senador, a dos escravos fugitivos na Bahia, eles se renderam? --- Sei não, seu moço, mais o majó Luiz Arves diz que já deu uma carmada na situação e inté prendeu um tal de Raimundo Gomes, é isso memo, Raimundo. Mais eu num posso falá nada pruquê tumém num cunheço o cabra. --- Mas e o cabeça, o Manoel Ferreira, senador, o tal ''Balaio'', não é este o nome do chefe da rebelião? --- Tão dizeno que o hômi se arevortô amódi um sordado que rebentô a lilúia da fia dêle, num sabe? E tumém tão falano quêle morreu na esfrega. --- E o outro comandante, senador, o tal de Preto Cosme? --- Diz quêce aí num dexô rasto no mundo, num sabe? Fugiu mais a cambada e deve de tá embrenhado no sertão, diz o senador observado por todos com atenção. --- E a revolta dos republicanos do sul, senador? Será verdade que o tal Garibaldi proclamou a república em Santa Catarina e derrotou as tropas do governo? Indaga o jornalista numa pressa incômoda quando ecoa na rua um grito de moleque que vem correndo em direção ao armazém. --- O navio chegô, o navio chegô..., diz o garoto ofegante chegando à porta, logo estendendo a mão para o senador Cavalcanti. --- Deve de sê meu fío que tá vortano, num sabe? fala o senador em risada bonachona colocando o chapéu em sinal de despedida e dando uma pataca de duzentos réis para o menino que sai pulando rua afora. --- Dá as boas vindas ao nosso mais novo doutor, senador, diz o português em despedida. --- Faço gosto, seu Perera, retruca o senador deixando o recinto. De volta ao Brasil, um bacharel No campo de Sant'ana, o mais popular dos largos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro tem o movimento de sempre, com o vai e vem dos camelôs e indigentes que ora dão passagem a uma berlinda puxada por uma parelha de cavalos negros. Um homem com as mãos carregadas de papéis desce do carro e adentra ao palácio imperial, galgando em apressado a escadaria principal. Numa das salas do palácio, um jovem louro escreve um distado ministrado pelo professor Félix Taunay que, caminha vagarosamente em volta da mesa com um livro aberto. Ouve-se o bater da porta. --- Entrez, diz o professor. O mordomo Paulo Barbosa da Silva, detentor de um dos postos mais cobiçados na Corte, adentra à sala e faz a reverência ao Príncipe Dom Pedro de Alcântara, num apressado de contentamento. --- Sua Alteza, o navio acaba de ancorar e o capitão manda dizer que a viagem transcorreu sem problemas. Vossa augusta encomenda já está a caminho. --- O piano forte? Pergunta o Príncipe na curiosidade peculiar de um adolescente aos doze. --- Sim, Sua Alteza, e também os livros de história que pediste e o mosquiteiro. Veio também um francês, acho que é inventor, e chega trazendo um presente para Vossa Alteza. --- Um presente? --- Diz que se chama Daguerreótipo. É uma máquina que faz quadros sem precisar de pintor. Ele está hospedado no Hotel de France. --- Vamos recebê-lo após o jantar, ainda esta tarde. É possível? --- É claro, Sua Alteza, vou tomar as providências. --- Professor Taunay, podemos encerrar por hoje? Indaga o jovem levantando-se da escrivaninha e indo até a janela que dá para o mar. Arredada a cortina, ele se deleita a contemplar de longe algumas cenas do quotidiano, mirando o olho direito numa luneta. O cais Pharoux está repleto de oficiais, políticos, populares, senhores e senhoras da corte que acenam para os passageiros que, após descerem do navio, embarcam em pequenos botes que os trazem até a plataforma de desembarque. Um moço alto e elegante, com bigodes vistosos e casaca escura desce apressado segurando uma maleta. --- Deucleciano? Grita uma mulher de muitas carnes e de braços abertos ao moço que a abraça em lágrimas. --- Meu filho, como estás crescido, diz a mãe roçando-lhe a face, como os dedos de um cego a tatear uma escultura. --- Minha mãe, que saudade, responde em soluços beijando-lhe o rosto. --- Mais num é que já tá cum barba na cara, diz o senador num sorriso bonachão, dando-lhe o abraço de pai esperado há anos. --- E os negócios da fazenda, meu pai? --- Carma, meu fio, dispois a gente conversa. Uma carruagem guiada por um cocheiro negro e velho se aproxima e encosta rente à plataforma de embarque. O homem desce e abre a porta. Deucleciano o vê e estaca por um instante. Com um olhar de espanto solta a maleta e corre para abraçar o velho que o espera com um sorriso largo. --- Preto Mariano, não mudaste em nada? --- Benza Deus sinhozim, num é que o patrãozim virô um ômi? murmura o velho chacoalhando-lhe os ombros num visível contentamento. A carruagem deixa o cais e passa em frente ao paço imperial de onde o jovem advogado Deucleciano Cavalcanti observa a tudo e a todos, num maravilhar inquieto e curioso. Aos poucos, o crepúsculo doura o céu e raleia as ruas. Em breve, a noite cair deve. Das manhãs fazendeiras O mais primitivo dos galos da terra ergue lentamente o pescoço e infla o peito, ao romper dos primeiros raios que azulam o limbo intocável do horizonte Brasilis. Súbito, o piar inconfundível do jaó invade as matas, e aos poucos, o crescer progressivo da algazarra canora é acrescido ainda mais com o despertar berreiro das crias famintas, desencadeando, por toda banda, um coral estupendo de trinados inéditos. E da flora exuberante das serras umedecidas pelo sopro dos mares, surgem os primeiros madrugadores em caça ao sustento rotineiro. E vão aos bandos, povoando lentamente os céus em revoadas outonais, sonorizadas em concomitante com gorjeios indescritíveis e colossais, no transitar minucioso e apressado da rota instintiva das aves. Logo depois de atravessado o Morro do Macuco, à cavaleiro, avista-se uma alameda de palmeiras margeando uma estrada que leva ao casarão da Fazenda Cachoeira, bem ao centro de um vale imenso e calcado de todo em manchas viçosas de uma terra ainda por amansar. Galgada a estrada, de longe já se avista o casarão de oito quartos e alpendre elevado, fundado em face de aclive e cercado de todo por macaúbas eradas. Mais que um simples adorno paisagístico, os coqueiros e as palmeiras sempre estiveram em sentinela às casas-grandes e aos casarões, impondo-se não apenas como um símbolo de posse, mas de uma viva esfinge nacional. Um outro colosso genuinamente brasileiro eleva-se à montante. Justapondo-se ao lado esquerdo do casarão, um enorme terreiro de chão batido é apoiado por um soberbo muro de arrimo de pedra lascada, já corroída pelo líquen persistente e a flora parasitária dos musgos ressequidos. Na cabeceira do terreiro, afastada a umas vinte braças, uma enorme senzala em forma retangular contrasta com o casarão bem cuidado e limpo. Com apenas uma porta ao meio e desprovida de janelas, o observador ao primeiro lance aposta num grande depósito de ferramentas ou de mantimentos. Em frente à única porta, um esteio de sucupira preta está fincado ao chão, tendo uma argola de ferro presa na extremidade. O pátio do casarão mostra-se repleto de escravos que debulham milho seco, entulhando-o em balaios de três arrobas. Centralizado no chão duro, um tripé de pau roliço apoia uma peneira que recebe a carga do milho socado em pilões centenares. Aos montes, as galinhas fazem a festa no cair da quirera dadivosa, agradecendo em reclamos manhosos o maná vindo dos céus. Súbito, uma revoada desengonçada de pássaros pretos ronda o casarão e pousa no pátio em aterrissagem repentina, recebendo de pronto um quinhão que brota da peneira miraculosa. Numa das salas do imenso casarão, Deucleciano Cavalcanti toma o desjejum acompanhado dos pais, observado por duas mucamas que cochicham e sorriem a qualquer gesto seu. Quitandas convidativas povoam a mesa larga e de prancha única. --- Então meu pai, o senhor acha que o café vai mesmo tomar o lugar do açúcar nas nossas exportações? Pergunta Deucleciano de boca cheia. --- É, meu fio, as coisa tão mudãno e nóis tem que avuá cunforme a ventania, num sabe? Reponde o senador tomando a sopa de fubá, seu desjejum preferido. --- E o nosso engenho em Pernambuco, como está? --- O meu irimão Raimundo não qué saí de lá, meu fio. Intão nóis resorvemo desse jeito. Ficãmo aqui com o café e ele fica lá com o engenho. --- Mas e as terras, meu pai? Elas valem muito mais que as daqui, e também todo aquele maquinário? --- Nóis num terminô a suciedadi, Deucreciano. Eu é que quis vim pa Capitá amódi abri essa fazenda. E tumém, como senadô do império eu tenho que ficá no Rio. --- E quanto aos conservadores no governo, o senhor tem alguma coisa em mente? --- É meu fío, agora queis têm a maioria na assembréia, num vai sê fáci mudá muita coisa, num sabe? --- Eu fiquei pensando a respeito e acho que tenho uma idéia que poderia mudar este quadro. --- A pois diga, meu fío, fala o senador pondo as mãos à mesa. --- Primeiro é preciso conversarmos com o padre Feijó. Afinal, além de senador ele é o Presidente do Senado e entende como ninguém a nossa constituição. --- Pois intão vamo dá uma chegada na cidade e aproveitá pra visitá os Andrada. Eis tão sempre priguntano docê, num sabe? --- Mas ir pra cidade agora, meu pai? --- Ara, meu fio, se demorá mais um poco nóis num chega inhante da noite, num sabe? Muié, arruma as mala que nóis vai pa posá, ordena o senador enfiando-se no guarda-pó surrado. Ao descerem a escada lateral defronte ao casarão, alguns escravos agregados que vieram do engenho de Pernambuco param o trabalho e ficam de pé a observar o sinhozinho que viram crescer. Calados, na mudez servil dos animais de carga, curvam o corpo com as mãos largadas, acompanhando-o com olhar indagativo. Em pouco, a carruagem com o senador e o filho Deucleciano deixa a estrada batida e logo desaparece na embocadura da mata. Uma dor de dente Um mulato magro caminha em devagar pelo largo do paço da cidade empunhando um arpão de pesca que traz apoiado ao ombro desnudo. Em pouco, cruza com um negro coxo do direito emergido dos fundos do palácio imperial que, infalivelmente pela manhã, é visto empurrando com dificuldade uma carriola lotada de bosta com destino ao cais Pharoux. O pescador corta o paço em perpendicular e faz uma reverência um padre que, segurando um guarda sol, acompanha sorridente uma mulher trajando vestido roxo e cabeleira vistosa. Adentram ao palácio imperial em palestra animada. A mesa posta para o almoço do jovem Pedro de Alcântara e suas irmãs é cuidadosamente checada pelo médico e o mordomo-mor que se retiram logo após a vistoria. Em pouco, o jovem Príncipe e as duas Princesas sentam-se na mesa ovalada toda repleta de sabores finos, e tudo sob a vigilância do novo Tutor, o senhor Marquês de Itanhaém. Dá-se o ritual. --- Senhor nosso Deus, agradecemos humildemente o pão nosso de cada dia e que é abençoado por vós, amém, finaliza apressadamente o Marquês de Itanhaém, correndo a mesa farta com olhar de rapina. --- Vamos comer, Sua Alteza, temos um dia longo pela frente, diz o Tutor, já beliscando o pão em apressado de gula. --- Por que não nos mudamos de vez para o paço de São Cristóvão, senhor? --- Ora, Sua Alteza, tão logo termine as reformas. Agora, façamos como as Princesas, vamos comer. --- Não estou com fome, senhor Marquês, retruca o Príncipe com ar de indisposição. --- Mas o que foi desta vez, Sua Alteza? --- É o dente, senhor, está doendo muito, retruca o jovem Pedro levando a mão ao maxilar. --- Coitado, senhor Marquês. E agora, o que vamos fazer? Pergunta a Princesa Januária. --- Oh... meu Deus, então vamos chamar o cirurgião e pomos um fim nisso de uma vez, diz o Marquês levantando-se e tocando o sininho. --- Estou com medo, senhor. Não vai doer? Pergunta o jovem Príncipe apalpando levemente a arcada com o indicador. --- Ora, ora, Sua Alteza, o que um simples dentinho pode estar fazendo ao nosso futuro Imperador, heim? Vamos arrancá-lo e pronto. O mordomo-mor Paulo Barbosa adentra à sala. --- Manda chamar o doutor Clemente Gonzaga e peça que venha aqui imediatamente, ordena o Marquês. --- Agora vamos, Sua Alteza, toma ao menos um copo de leite. Não deveis ficar com medo, afinal os cirurgiões são feitos pra isso, diz o Tutor sentando-se novamente. --- E a aula de piano marcada para esta manhã, o mestre Pedro trouxe a nova professora? Pergunta o Príncipe com a mão no rosto. --- Oh...é mesmo, o Frei Pedro e a Baronesa do Faial acabaram de chegar. Vou pedir que a dispense até resolvermos esse dente, fala o Tutor acariciando o jovem com amabilidade. Um alferes chega às pressas ao consultório do dentista prático localizado ao final da rua do Ouvidor. Ao alto, uma tabuleta recém pintada indica-lhe o lugar: DOUTOR CLEMENTE GONZAGA - EXTRACÇÃO DE DENTES Ao levar a mão à porta, o alferes ouve um berro estarrecedor vindo de dentro, o que o faz recuar de imediato. Fica pensativo por instantes e resolve entrar. Ao levar a mão novamente à porta, esta se abre bruscamente e um homem segurando um lenço ensanguentado na boca e com o rosto molhado, sai com os olhos arregalados em andar apressado. Dobra a esquina e some rua abaixo, numa carreira indizível. --- O senhor deseja alguma coisa? Pergunta o dentista encostado à porta ao alferes que, no meio da rua, ainda olha para a esquina. --- O Marquês de Itanhaém manda chamá-lo imediatamente ao palácio, senhor, diz o alferes em posição de sentido. --- Oh...meu Deus, já estou indo, responde o dentista entrando às pressas enquanto o alferes leva a mão à arcada dentária e fica pensativo olhando a tabuleta do consultório. Uma carruagem com duas parelhas encosta em frente à casa do ex-regente e senador Diogo Feijó, roubando a atenção dos populares. O senador Cavalcanti e o filho Deucleciano apeiam e sobem a escadaria de mármore que dá para o alpendre abundante em samambaias e orquídeas multicores. Ao se aproximarem da porta, notam uma moça saindo às pressas pela lateral da casa, acompanhada por um serviçal conhecido do senador. --- Não é à toa que o padre é contra o cilibato, meu fio, cochicha o senador ao ouvido do filho. O padre Feijó abre a porta e mostra-se surpreso. --- Senador, há quanto tempo, murmura, abraçando o amigo. --- Cumé que vai, padi, reponde o senador sorridente. --- E este, quem é, senador? Pergunta o ex-Regente estendendo a mão a Deucleciano. --- Ora padi Fejó, intão num cunhece mais o meu fío, hômi de Deus? Indaga orgulhoso o senador. --- Não me diga que és tu, Deucleciano, como estás crescido! --- Sou eu mesmo padre, e vim pedir tua benção, diz beijando-lhe a mão. --- Mas entrem, entrem, diz o padre acompanhando-os com as mãos às costas. A mansão, recuada a umas vinte braças da rua, tem na sala principal um piso em madeira que acomoda uma mesa central com doze cadeiras em estilo francês, combinando com duas poltronas e um sofá dispostos ao canto. Uma mesinha ao lado de uma cristaleira abriga um tabuleiro de xadrez com peças de marfim e, no canto extremo, ao alto, um quadro da ceia do Senhor destaca-se pelo brilho de pintura nova. Entrando na biblioteca, um quadro do Imperador Pedro I rouba a atenção de Deucleciano, que estaca de imediato. Uma enorme estante de madeira encostada na parede abriga, por certo, mais de uma centena de livros grossos, todos arrumados com capricho. Na mesa de trabalho do padre, um globo colocado ao canto incita a curiosidade do senador que não hesita em tocá-lo. --- Então, meus caros, a que devo a honra, murmura o padre batendo com a palma das mãos. --- Pois é, dotô Fejó, meu fío diz qui tem umas idéia pa módi cortá as asa desse Araújo Lima mais a sua laia, num sabe? Responde o senador franzindo a sobrancelha. --- Ora meu pai, não fales assim, afinal o Marquês de Olinda é nosso parente, intervém Deucleciano. --- Num considero mais parente um ômi que me passô pa traiz, retruca o senador Cavalcanti olhando de lado. --- Ah, meu caro senador, deixemos esta mágoa de lado, sim? Já estou velho e não quero para passar por tudo outra vez, e além do mais, o que podemos fazer se temos a minoria dos deputados na Assembléia? Pergunta o padre tocando o sininho duplo. --- O Deucreciano tem umas coisa amódi falá po padi. --- Queiram sentar, senhores. --- Senador Feijó, se Vossa Mercê me der licença... És bem mais capacitado e experiente que eu, mas já leste algo a respeito de emancipação? --- Não estou entendendo, meu filho. O que queres dizer? --- Ora, senador Feijó, é uma prática bastante usada na Europa. Com a emancipação, o Imperador se tornará maior de idade e assumirá o trono. A Regência não é um inconveniente para o povo e o Partido liberal? --- Já tentaram esse golpe antes com a Princesa Januária, meu filho, a irmã mais velha do Imperador. E falhou, responde o padre Feijó em negativa com a cabeça. --- Mas com o Imperador é diferente, padre, ele é o legítimo herdeiro do trono, e o povo sabe disso e assim o quer, retruca Deucleciano. --- Nós não temos maioria na Câmara e nem no Senado, meu jovem, e a constituição é muito clara a respeito, afirma o padre franzindo os olhos para a mucama que entra com uma bandeja repleta de quitandas e café quente. Deucleciano ignora a guloseima e entrelaça as mãos, mirando o rosto de barba rala nos olhos no padre. --- Está bem, Deucleciano, explica-te melhor, retruca o padre mastigando uma broa de fubá com avidez felina. --- É sabido que boa parte do parlamento acataria essa idéia que, aliás, terá pleno apoio popular. Se levarmos esse projeto e tivermos a adesão de alguns parlamentares conservadores, o povo ficará do nosso lado. Assim colocaremos um fim nessa Regência e restauraremos o Trono com um Ministério Liberal. O que achas? pergunta Deucleciano servindo-se do café. --- Os ventos da Europa bem que andaram iluminando vossa mente, meu jovem. Gostei da idéia, mas vamos mantê-la em segredo, por enquanto, responde senador Feijó batendo as mãos nos joelhos. --- Vãmo marcá uma runião cus nosso zômi lá na minha fazenda, padre, longe dus comentário da Corte, sugere o senador Cavalcanti ao colega que se mostra pensativo. --- Ótimo senador, mas deixa-me estudar com calma os pormenores legais até abrirmos o jogo com os amigos. Que tal na próxima semana, assim terei mais tempo de estudar o assunto, fala o padre com ar esperançoso. --- É so mandá arguém mi avisá quando o amigo achá mió, num sabe? --- Certo, senador, e não esqueças de mandar lembranças à dona Estefânia, diz o padre levantando-se em despedida. --- Antão, louvado seja Deus padi. Agora nóis vamu visitá us Andrada antes de voltá pra fazenda, num sabe? Num vejo aquele povo desde o falecimento do Zé Bunifácio... Qui arma boa, fala o senador olhando para o teto em tom irônico. --- É verdade. Que Deus o tenha senador, mas não digas nada aos Andradas por enquanto, retruca o padre. --- É só pa mostrá que Cavarcanti tumém istuda us fío nu istrangêro, num sabe? E deixam a casa já com o sol a pino. O doutor Clemente Gonzaga sobe às pressas a escadaria do palácio acompanhado do alferes que carrega sua valise. Logo estão na ante sala onde o tutor do Imperador os espera com ansiedade. --- Ah...doutor, por aqui, intervém o Marquês de Itanhaém levando-o ao quarto do jovem Pedro de Alcântara. Ao vê-lo, sentado na cama e sentinelado por dois serviçais e a preceptora Dona Mariana, o dentista faz a reverência ao cliente já conhecido. --- Sua Alteza, o que é desta vez? Pergunta com voz doce. --- É o do fundo, doutor, responde o jovem apontando com o indicador a boca entreaberta. --- Vamos ver, murmura o dentista olhando de perto. --- É grave? Pergunta o marquês. --- Sim meu senhor, teremos que extraí-lo, caso contrário pode piorar. --- Em que posso ajudar doutor? Pergunta o tutor. --- Peça ao doutor Afrânio que venha me auxiliar e que traga um pouco de óleo de cravo da Índia que o meu já acabou, afirma o dentista. O mar agita-se numa praia deserta cheia de dunas onde na encosta, um pescador de cima das pedras aguarda paciente o peixe com o arpão empunhado na direita. O boticão encosta no molar inflamado e logo é encaixado na parte mais firme do esmalte. O peixe aproxima-se da isca e dá uma reviravolta pondo a ponta do rabo para fora da água, realçando o vermelho da nadadeira mestra. Um puxão brusco extrai o dente podre e suaviza a gengiva purulenta que se avermelha em seguida. A mão do pescador lança o arpão certeiro que atravessa o dorso da presa que, em vão se debate, avermelhando a tona em derradeiro repuxo. O extrato do cravo dá alívio à dor de Pedro e em breve, o peixe aliviará a fome da família de João, o pescador. E a d’alva reluz. A primeira noite da jovem mucama Amanhece no largo do paço e a cidade começa a movimentar-se. O negro coxo empurra a carriola vazia em direção à rua Direita e é seguido de perto por uma cachorro magro e sarnento. Uma valsa de Chopin é tocada suavemente pela Baronesa do Faial que experimenta o piano forte recém chegado da Europa. O som preenche delicadamente as salas do palácio onde o jovem Pedro se recupera deitado ao leito, quieto e pensativo a contemplar os entalhes em madeira no dossel de metro e meio. Uma mucama de meia idade, por certo a sua predileta, leva o chá com broa ao padre Feijó que se debruça em anotações intermináveis, cercado em meia lua por dúzia de volumes abertos. O mordomo Paulo Barbosa caminha lentamente em direção ao quarto do príncipe segurando uma bandeja de sopa. Entra e serve o jovem louro. --- Hum...murmura o Príncipe sorvendo a colher em apressado. --- Foi a preta Mariana quem preparou, Sua Alteza, diz o mordomo curvando-se em devagar e com sorriso franco. A pena desliza velozmente na última linha do papel poroso e para bruscamente com um ponto. Em seguida, o mata borrão pressiona o papel que é dobrado com destreza pelo padre Feijó. --- Maria, manda o Benedito entregar esta carta ao senador Cavalcanti na Fazenda Cachoeira e diga para trazer a resposta ainda hoje. A mão da marquesa desliza lentamente no teclado e finaliza o último acorde em pianíssimo, soando em melancólico a derradeira vibração da tríade dó menor. Um casal de tucano passa defronte ao casarão da Fazenda Cachoeira onde três escravos tiram o couro de uma rês dependurada em varal de pau grosso. Voltam o olhar para a estrada ao ouvirem o resmungo do velho carreiro. Ôôa...boi, maiáádo...ôôa, diãnho, grita o preto velho na estrada trazendo um ferrão às costas, caminhando ao lado do carro-de-boi de sete juntas que traz uma carga de lenha seca, denunciado ao longe pelo cantar enjoativo do ranger das rodas, o prazer maior do condutor. O feitor João Raposo chega apressado montando um baio encerado e apeia defronte ao pátio da fazenda. --- Cumé que tá o sirviço? Pergunta aos escravos dando as rédeas a um negrinho pelado que vai sorridente puxando o animal até a cocheira. --- Num intéra muito e nóis acaba logo, meu sinhô, responde o escravo mais velho, enquanto esfrega sal no couro da rês. João Raposo dá uma olhada na carcaça descarnada e contorna o casarão, indo até a cozinha pela porta dos fundos. Joana, a mucama preferida do senador, soca tempero num pilão rente a porta e balança os quadris conforme o cadenciar da batida. O feitor leva a mão ao chapéu empoeirado e corre os olhos de baixo para cima naquele corpo cobiçado há tempos. Mulata beirando os dezessete, Joana nasceu da finada preta Justina no engenho de Pernambuco e veio com a mãe quando o senador comprou a Fazenda Cachoeira. Mucama preferida da casa, divide com outras duas o serviço da cozinha, enquanto que outras tantas cuidam da limpeza da casa e dos remendos das roupas. --- Num vai me dá um pouco d'água, Joaninha? diz o feitor roçando o indicador no bigode, achegando-se ao portal. --- Cadê a lenha que eu pedi? pergunta Joana com riso malicioso. --- Já tá chegando minha neguinha, responde o feitor levando a mão na cabaça e enchendo uma caneca. --- A sinhá já falô que não qué ocê berãno a cozinha, resmunga a mulata voltando ao pilão. --- Eu já tô ino, minha frô. Nisso chegam dois escravos com um feixe de lenha às costas que descarregam do depósito ao lado. João Raposo ainda pisca o olho para a mucama que retribui com um sorriso. --- Agradecemos este pão que é dado por Vós na sua infinita bondade. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém, fala em voz alta a sinhá Estefânia. --- Que saudade eu sentia da nossa comida, minha mãe, fala Deucleciano servindo-se do assado. --- Eu imagino meu filho, mas você está tão corado e bonito? Vamos, me conta. O que se come em Coimbra? pergunta a sinhá cortando a carne e servindo o senador. --- Muito peixe e ensopados. Só que não tem o tempero da Justina, responde o filho servindo-se de vinho. --- Ele ainda não sabe? Indaga a mãe ao marido que para de mastigar. --- A preta Justina morreu logo que nóis mudamo pra cá, meu fio, intervém o senador. Deucleciano fica pensativo por instantes e bebe o vinho, observando a mãe que se mostra visivelmente feliz. --- E a menina, a Joana, como está? A sinhá Estefânia chacoalha o sininho e estende a outra mão com o copo vazio. --- Me serve o vinho, meu filho. --- A menina tá na cuzinha deis que a mãe morreu, num sabe? Mais já aprendeu a cuzinhá do meu gosto, intervém o senador. --- Não diga, meu pai, é ela quem fez essa comida? Uma mucama adentra a sala de jantar e se aproxima da mesa. --- Ô, criatura, fala pra Joana vir aqui, ordena a sinhá. Nisto ouve-se um galope de cavalo aproximando-se do pátio, o que desperta a curiosidade do senador. --- Mais quem deve de sê a essa hora do dia, fala o senador tirando o relógio do bolso do colete. A mulata Joana adentra a sala vagarosamente e Deucleciano arregala os olhos ao vê-la tão crescida e bonita. Engole a comida e leva o lenço à boca, fitando-a com olhos de lobo. --- Então, meu filho, ela não está uma moça? Pergunta a mãe observando o espanto do filho. --- Como vai, Joana, lembras-te de mim? Joana fica sem jeito mas não esconde o ar de contentamento, envergando suavemente as pernas numa reverência desengonçada. --- Me alembro, sim sinhô, responde desgraciosa e olhando de lado. --- Pode ir, Joana, ordena a sinhá voltando o olhar para a porta da sala ao ouvir gente subindo a escada. --- Licença, fala o feitor João Raposo colocando a cabeça em meia porta. --- O que é que foi, hômi? --- Disque vem da parte dum padi, meu sinhô, foi o Dito que trôxi, diz o feitor mostrando um envelope com meio corpo no vão da porta. O senador se levanta e pega o papel, dispensando-o em desdém. Caminha até o centro da sala, abre a carta e lê com dificuldade um bilhete conciso: ''Tudo acertado. Segunda-feira estaremos na fazenda'' Delineado o raciocínio, logo ele abre um sorriso mostrando a carta. --- É meu fío, ocê vai longe. --- Deve ser alguma coisa importante para ter vindo do padre Feijó, afirma a mãe com ar de curiosidade. --- Mulé, nóis vamo tê visita pra sumana, num sabe? Toma as pruvidência e prepara uma janta prumas deiz pessoa na segunda-fera, fala garbosamente o senador acendendo o cigarro de palha e acomodando-se na cadeira de balanço. Um casal de mutuns caminha distraído a beira da estrada quando, de repente, um cavalo a galope os põe fugitivos restinga afora. E o corcovear do negro Benedito atrelado à sela de um zãino portando a carta resposta para o padre Feijó, levanta a poeirinha rala no estradão de chão batido, evaporando-se aos poucos na garganta da mata esplendorosa. Após o jantar, ainda com o horizonte no último ato crepuscular, Deucleciano e o senador acomodam-se no alpendre do casarão para a última sesta do dia. Um cantar lamentoso e repetitivo ecoa de tempo em tempo vindo da senzala próxima ao terreiro. Sentado à rede e com uma palha presa à boca, o senador pica vagarosamente um fumo de corda, na mesmice repetitiva dos finais de tarde. Deucleciano levanta-se e apóia os braços no parapeito, levando uma mão no queixo e mirando os olhos na fogueirinha que queima defronte à morada dos negros. Relembra vagamente os colegas de faculdade que, com palavras inflamadas sobre a liberdade e os direitos do homem, eram aplaudidos fervorosamente no dia da colação de grau. --- Vou tomar mais um café, diz ao pai que enrola um outro cigarro passivamente. Caminha até a cozinha onde Joana e outras duas mucamas estão terminando o serviço. Deucleciano para um instante ao ver a prenda que, de braço esticado, levanta a ponta dos pés para pendurar uma panela num prego ao alto. Corre o olhar naquele corpo esguio e firme que treme nervosamente ao alcançar o objetivo. --- Eu queria uma xícara de café, fala com voz macia fitando a mulata que vira-se bruscamente em assustado. Uma outra mucama o serve mas ele não tira os olhos daquele corpo cobiçado há tempos pelo feitor João Raposo, e quem sabe, por tantos. --- Eu te assustei, Joana? Pergunta sorvendo o café lentamente. --- Não sinhô, responde a mulata com timidez. --- Então, até mais logo. Ainda no alpendre, o senador leva as mãos entrelaçadas à nuca e solta um bocejo vagaroso, seguido de um grunhido. Levanta-se da rede e despede-se do filho. --- Inté minhã, meu fío, diz o senador arrastando o chinelo em direção ao quarto e segurando um candeeiro aceso. --- Sua benção meu pai, diz Deucleciano voltando o olhar para a porta da cozinha. A lua cheia sobe ao zênite com uma auréola enfumaçada, embora clareando a terra com o brilho de aurora recente. Um mugido de vaca parida rompe no silêncio da noite e é de pronto respondido pelos latidos incontinentes dos cães que guardam ferozmente a morada dos negros, certamente já trancafiada. No último lance do corredor que divisa a cozinha, uma porta à esquerda dá para o antigo quarto da finada Justina que era ocupado também pela sua filha Joana e as outras duas mucamas que fazem o serviço da cozinha. Com a morte da escrava Justina, diz a crendice dos negros que seu espírito rondará pelo quarto nas noites de lua cheia. De há muito que as outras mucamas se mudaram para um outro cômodo junto ao depósito de lenha, fora da casa, fazendo dali o seu quarto e um refúgio da alma penada da falecida. Mas Joana ficou, dormindo na mesma cama da mãe e a fazer, infalivelmente há mais de dois anos, os primeiros deveres da cozinha. O café, o pão caseiro e a sopa de fubá para o desjejum do senador tem que estar sempre à mesa ao primeiro clarão do dia. Sentado na sala de visitas, Deucleciano fecha um livro e esfrega a costa da mão nos olhos cansados, mirando-os novamente para a porta que leva à cozinha. O corpo rígido e os contornos realçados da mulata Joana povoa seus pensamentos. Levanta-se com o candeeiro à mão e caminha vagarosamente para o corredor rumo ao quarto da mulata. Para por instantes e empurra suavemente a porta que se mostra entreaberta. --- Cadê minha pombinha? Murmura em voz baixa levantando a candeia. Vestida com um roupão branco e sem roupa de baixo, ela se levanta e encara o sinhozinho com um sorriso vexado. Mais que depressa ele aferrolha a porta e põe a candeia na mesinha do canto, em seguida abraçando-a em beijos demorados, lambendo-lhe o pescoço que se arrepia em refugo desgracioso mas de logo correspondido com o roçar de dedos nas costas do sinhozinho. Em delicado, ele suspende a roupa da mucama que se desnuda em estátua morna, tocando-a em seguida com mãos trêmulas que exploram vagarosamente as curvas da carne, tateando-a em devagar e estimulando as secreções viscosas da vulva inexplorada que ora pulsa em doudo frenesi. Despindo-se às pressas, toma-a em abraço apertado, roçando a verga latejante entre as pernas quentes que se remexem num torpor alucinante. Deitam-se em apressado e ficam em silêncio, mutuamente explorando a anatomia das genitálias até que ele, em movimento brusco, abre as pernas trêmulas da parceira e se deita sobre o corpo liso e enrijecido. --- Cuidado pra num fazer barulho, Joana, sussurra lambendo-lhe as orelhas enceradas enquanto roça os dedos na forquilha já melosa. A penetração se faz aos poucos, em solavancos vagarosos que logo caminha para um contínuo brusco, entremeado por solavancos cadenciados que ao cabo de poucos minutos cumula-se em gozo apoteótico, com um orgasmo suado e uivado. Desvirginada e ainda ofegante, agora ela compreende o que as escravas mais velhas lhe diziam sobre a primeira vez. Ainda desnudos e abraçados, ficam os dois deitados e em absoluto silêncio. Súbito, a mão púrpura da mulata roça-lhe o tórax peludo e toca-lhe o penis ainda viscoso na extremidade, sentindo um inchaço repentino e morno, que cumula em novo coito, agora mais delicado e demorado. Adormecem em instantâneo, despertados numa quadra de duas horas com os latidos insistentes dos cães que guardam a senzala. --- Amanhã eu volto, fala em voz de sussurro ao ouvido da mucama que corresponde o combinado com um tatear carinhoso. Veste-se na cautela de ladrão e deixa o catre da amante pisando na ponta dos pés, indo direto para o seu quarto. Deitado, ele fica pensativo a contemplar a chama da candeia na cabeceira da cama. E o clarão da lua vai minguando ao poucos, acobertado lentamente por uma nuvem grossa que se desenha em silhueta brilhante, enquanto que a sinfonia de grilos cessa de repente e estimula Deucleciano a dar um último bocejo de sono, seguindo de um assopro vacilante que apaga a candeia. Navio negreiro S’tamos em pleno mar. O navio Pestana está com as velas curvadas por um vento leve, cortando as águas do Atlântico em noite calma e estrelada. Iluminados por lampiões e um luar fluorescente, dois homens saem do porão arrastando um cadáver de um negro e o joga no mar. Em seguida se dirigem ao capitão que os observa no convés. Traficante de escravos e proprietário do veleiro há muitos anos, o armador baiano Manuel da Cunha fez fortuna comprando escravos Iorubas, Angolas, Gêges, Cabindas e Bengas, onde os vendia no comércio de Recife e São Salvador. Esporadicamente, tem feito algumas viagens extras para também atender a demanda da capital Rio de Janeiro que, a cada ano, carece de mais escravos para o cultivo de café nas novas fazendas que se formam em escala progressiva. Embora correndo o risco de ser abordado por canhoneiras inglesas que vigiam constantemente o tráfico de negros nos portos brasileiros, o crime compensa em muito, pois não há mercadoria com maior liquidez que uma peça escrava. --- Mais um, capitão Manuel, diz o marinheiro em continência desleixada. --- Até que não foram muitos desta vez, responde o capitão acendendo o cachimbo enquanto faz uma anotação em sua prancheta. No porão do navio, escuro e mal arejado, o fedor e o horror da tortura enlouquecem em pouco a maioria dos 340 negros recém comprados. Com grilhões nos pés e pescoço, desnudos quase que por completo, a cabilda apavorada amontoa-se no chão, encostando-se uns nos outros, no instinto de uma ninhada tentando se livrar do frio. Sessenta dias e sessenta noites comendo angu e defecando entre as próprias pernas o excremento do medo que, umedecido pela urina vertida em abundância, exala em constante o odor repugnante da amônia renovada. Muitos enlouquecem, adoecem e morrem. Homens feitos, mulheres chorosas e crianças mirradas perfazem a multidão de condenados que ora grita e chora as saudades da tribo recém dizimada em barbárie indescritível, vendidos pelo próprio chefe de sua nação aos mercadores do além mar, embarcados como feras nos porões de uma escuna para uma viagem sem volta. Não tarda e o sono vence a resistência de muitos que, adormecem sobre as poças de seu próprio excremento. Despertados aos berros e a coices de coronha logo ao romper do dia, são obrigados a engolir uma pasta fria e repugnante, bolotas que lhes são atiradas ao alcance das mãos agrilhoadas em prefixo para um quinhão racionado de água servida em cuias de boca a boca. E o Pestana vai deslizando em devagar, desta vez rumo a capital do Império, deixando para trás um rastro nítido e caudaloso de espumas flutuantes, quando ao cabo de uma manhã, um marujo do alto do mastro solta o grito mais aguardado daquele cruzeiro de horrores. --- Terra à vista. O navio baixa âncora e recolhe as velas bem distante do cais Pharoux, observado por centenas de populares que aguardam ansiosos por sua chegada. Um oficial da alfândega, acompanhado por doze soldados armados, vão de bote até o navio e sobem a bordo. O proprietário e o capitão do Pestana, o mercador Manoel da Cunha, recebe o oficial com o cumprimento de praxe. --- Então capitão, muitas perdas? Pergunta o oficial caminhando no convés em direção a porta que dá para o porão. --- Infelizmente sim. Morreram quatorze, a maioria de fome. --- De fome? Mas não me diga que seus homens não os alimentaram, capitão? --- É que desta vez muitos recusaram a ração. Mas, aqui estamos e a sua mercadoria também está salva, senhor, diz o capitão olhando o imenso portal de duas faces disposto no chão do convés. --- Pode abrir, ordena o capitão para dois soldados que, de joelhos, abrem as duas faces. O cheiro do porão invade a atmosfera e põe o oficial da alfândega e quatro soldados em enjôo progressivo, culminado em vômito demorado. O fumo e os gritos de desespero, seguidos pelo chorar contínuo de crianças e mulheres coloca a tripulação instintivamente contra o vento, no aguardo das ordens. O oficial aduaneiro, visivelmente abatido, segura um lenço no rosto e entrega um papel ao capitão. --- Aí estão as instruções, senhor. --- Está bem, vamos acabar logo com isso que preciso voltar pro Norte o quanto antes, diz o capitão Manoel da Cunha em sinal de comando a um ordenança que adentra ao porão seguido de cinco soldados. Agrilhoados pelo pescoço, eles sobem a escada do porão em grupos de doze, onde são dispostos em fila. Ao cabo de uma hora, 326 cabeças são contadas e dispostas em lotes de mulheres solteiras de um lado, homens mulecos saudáveis do outro e por fim, mulheres com crianças ao colo e os mais velhos no lote de refugo num canto. Descem a escadaria do navio do lado oposto à vista do cais e são embarcados em pequenos botes onde são conduzidos a remo para um mercado negro * instalado numa praia adrede combinada, longe dos olhos das autoridades que, além de usufruir do sistema, fazem vista grossa à operação rotineira. Ao chegar à praia, são logo dispostos em fila onde vários compradores os examinam minuciosamente da cabeça aos pés. Alguns escravos estão amarrados em troncos improvisados na areia para receber o castigo da chibata, sendo que um negro executa o serviço. A leva acorrentada assiste à tortura junto aos compradores que continuam a examiná-los com gestos mudos, em desdém absoluto aos que urram com a sova de couro cru. Muitos dos recém chegados desmaiam, outros, em acesso de loucura, gritam em espasmos pavorosos que são de pronto cessados por pauladas de lenho seco. A repressão surte efeito. Calam-se na imobilidade que a hierarquia propicia. A constituição de 1824 aboliu a marca à ferro quente e mutilações diversas como o corte da orelha ou a amputação de pés para os fugitivos recapturados. Proibiu também o açoite público superior a 50 chibatadas. Desta forma, os escravos condenados a 400 chibatadas eram punidos em etapas, pois na maioria das vezes morriam antes do castigo terminado. Legaliza-se então a tortura, pois um escravo preso ou morto é prejuízo para o seu dono. Mesmo com o tráfico proibido em emenda constitucional em 1831 por pressão da Inglaterra, o tráfico e a importação de negros continua aos olhos de todos. --- Vou ficar com este lote, fala o feitor João Raposo ao mercador que expõe nove mulecos em fila indiana. --- Muito boa escolha, senhor, diz o mercador puxando a corrente presa a novena de moços beirando os vinte, todos cheirando a nojo e policiados insistentemente pelas moscas varejeiras. O feitor paga a monta que varia de duzentos a trezentos mil réis por cabeça e registra a mercadoria em nome da Fazenda Cachoeira. Engaiolados num carroção puxado a quatro burros, em pouco o magote deixa a praia e segue rumo ao pior de todos os guetos, a senzala. O oficial da alfândega desembarca do Pestana e volta ao cais, segurando um papel dobrado. Caminha em direção ao escritório aduaneiro e faz a continência a seu superior. --- Tudo em ordem, senhor, as 40 toneladas foram devidamente checadas e já dei a ordem para o capitão descarregar ainda hoje. No final da tarde, dezenas de botes de carga chegam à plataforma de desembarque do cais Pharoux e durante a noite abarrota os depósitos dos atacadistas ingleses, portugueses e franceses com centenas de caixas de ferramentas diversas, fardos de tecidos e sedas, roupas prontas, implementos agrícolas e artigos de selaria, todos produtos de França e Inglaterra, mercadorias arrematadas em leilões de contrabandistas para servir de fachada a uma eventual vistoria. Em meio a madrugada, um trovão ecoa na escuridão no indicativo de chuva iminente. Libido de uma Baronesa viúva. A capital amanhece fria e encharcada, com pequenas poças d’água nas ruas de chão batido que refletem o cair esporádico de alguns pingos de chuva fina. No cais Pharoux, a movimentação das pessoas e a quantidade de carruagens e carroças que chegam do interior despertam a atenção de um padeiro que caminha em direção ao paço da cidade segurando dois açafates cobertos com pano. Estabelecido na corte há muitos anos, é ele quem prepara os confeitos e os pãezinhos consumidos no palácio imperial. --- Muito bom dia, dona Mariana, diz o padeiro entrando na cozinha. Negra de muitas carnes e com um lenço branco amarrado à cabeça, a cozinheira Mariana está coando o café enquanto outras três mucamas depenam galinhas numa mesa ao canto. --- Chegô na hora, sô Zé, aproveita que o café tá quentim, fala servindo o português que coça a cabeça sem tirar a boina. --- Muito obrigado, responde o padeiro com a xícara na mão, acomodando-se numa cadeira. Uma das mucamas retira de um balaio quatro galinhas sangradas e as joga dentro de um caldeirão com água fervente. --- Pelo jeito vai ter vamos ter uma ceia importante, dona Mariana, murmura o padeiro sorvendo o café e reparando a rapidez com que a cozinheira enche uma bandeja de frutas. --- Diz que é uns ingrêis qui vem pa janta, responde a cozinheira enquanto prepara uma outra bandeja de pães. Duas copeiras entram na cozinha. --- O Marquês mandou servir o café. Já está pronto? Pergunta uma delas. --- Pó levá, responde a cozinheira enchendo um cestinho com os brioches do português. --- Bem, eu já vou indo, dona Mariana. Até amanhã, diz o padeiro. O Marquês de Itanhaém mastiga o pão molhado no café e observa as Princesas Januária, Francisca e o jovem príncipe Pedro de Alcântara que comem devagar, competindo-se nas lições de boas maneiras à mesa. --- Então, Sua Alteza, já que não há mais dor de dente, vamos voltar ao trabalho. A nova professora de música chegará logo mais para a primeira aula. --- Mas e o professor Mazziotti, Marquês? Retruca a Princesa Dona Januária, a irmã mais velha de Pedro. --- Não é por muito tempo, Alteza. O professor está acamado e a Baronesa do Faial irá substituí-lo temporariamente. Dizem que ela é uma grande concertista. --- Será que eu vou tocar piano como os grandes mestres, senhor Marquês? Intervém o jovem príncipe. --- É claro que vai, Sua Alteza. Vosso pai foi um grande músico e não sairás diferente. --- Senhor Marquês, quando é que vamos passear na praia, senhor? pergunta o jovem Pedro de Alcântara. --- Se o tempo melhorar podemos ir no domingo, o que achas? --- Posso convidar o professor Taunay para ir comigo? Ele disse que nunca tomou banho na praia do Botafogo. --- Ora, Sua Alteza, é claro que pode. E devo dizer também que estou feliz em saber que o professor Taunay já fez mais um amigo. --- É que eu gosto muito dele, senhor. Um acorde suave de piano é ouvido da sala de jantar e põe o Marquês de pé. --- Que tal aprontarmos, Sua Alteza, sua nova professora o espera. A Baronesa do Faial toca a ave Maria de Bach quando o Marquês de Itanhaém e o jovem Pedro de Alcântara entram na sala de música recentemente improvisada. Ela interrompe a execução e levanta-se delicadamente, fazendo a reverência ao Príncipe que a observa com simpatia. --- Fiquem a vontade. Se precisar de alguma coisa e só chamar, diz o Marquês apontando um sininho de mesa para a professora que faz sinal de afirmação com a cabeça. --- Obrigada, senhor Marquês, diz graciosamente. Educada na França, a Baronesa do Faial sempre foi respeitada em toda a Corte pela sua cultura e fina educação. Viúva recente do Barão de Faial, distanciou-se das festas e raramente vem à cidade, continuando a morar na fazenda e cuidar pessoalmente da educação dos seus dois filhos pequenos. Atendeu ao convite do Marquês de Itanhaém por se tratar de substituir, provisoriamente, o professor Fortunato Mazziotti que se encontra adoecido e também por ser uma honra colaborar na educação musical do Príncipe Dom Pedro de Alcântara. --- Senta-te, Sua Alteza, diz a Baronesa pegando a mão do Príncipe e acomodando-o num banquinho junto ao seu, abrindo em devagar um caderno de pauta musical já com as anotações da introdução teórica para o piano. --- Esta é a clave de Sol, Sua Alteza, fala baixinho e pausadamente apontando o indicador, e esta é a clave de Fá. Nesta usaremos a mão direita e nesta outra a esquerda. O jovem Príncipe delicia-se com o perfume suave daquela linda mulher que agora mostra-lhe a posição das mãos e a postura correta das costas, tocando-o com carinho. --- Isto, agora vamos tocar a escala, diz pegando suavemente a mão do Príncipe mostrando-lhe o do, ré, mi, fá, sol, la, si, que soa vibrante e forte, encantando o jovem que repete a escala olhando atentamente a pauta e o teclado. --- Ótimo, Sua Alteza, agora faremos com a mão esquerda, diz tocando-o novamente na mão e colocando-a na posição correta. O toque suave da mão da Baronesa e o perfume que brota daquele rosto tão bem desenhado, atiça a mente do jovem que observa os seios robustos que balançam sensualmente defronte a seus olhos. --- Vamos fazer esta outra escala, diz a professora tocando a coxa do príncipe perto da virilha, roçando-a suavemente com a ponta dos dedos. O Príncipe olha devagar aquela mão convidativa que lhe aguça a libido até então desconhecida e bruscamente toca-a com força, levando-a acariciar seu pênis já avolumado. A Baronesa olha-o com malícia enquanto afaga lentamente o membro que cresce ainda mais em suas mãos. Com os olhos quase fechando e com o corpo rigidamente parado, o Príncipe aperta a mão da mulher que aos poucos esquiva-se da sua, tocando-lhe em seguida o rosto pálido e carente. Ela se levanta e toca o sininho. --- Acho melhor tomarmos um refresco, Sua Alteza, diz a viúva ao jovem que permanece mudo e vexado. --- Quero ouvi-la tocar um pouco. --- Está bem, Sua Alteza. Esta música fala de um amor proibido entre uma plebéia e um nobre, diz a Baronesa em riso malicioso ao tocar uma valsa em lá menor. O jovem ouve atentamente a execução e fica a observar os braços delicados e aquelas mãos sensuais que deslizam nas teclas com leveza e magia. A porta se abre e o mordomo adentra fazendo uma reverência emudecida. --- Dois refrescos, diz o jovem ao mordomo que se afasta discretamente, enquanto a Baronesa finaliza a música. --- Gostaste? pergunta a professora fitando-lhe os olhos com um sorriso gracioso. --- Que beleza, senhora, é Chopin? Pergunta o jovem Pedro olhando timidamente aqueles seios que parecem hipnotizá-lo. --- Sim, mas deves praticar as escalas pelo menos uma hora por dia, Alteza, diz a Baronesa levantando-se e entregando-lhe um caderno de exercícios. --- Acho que já posso tocar esta música. Me dê a partitura, sim? Diz o Príncipe com ar de malícia. --- A que eu acabei de tocar? --- Sim, essa mesma. O jovem toca as primeiras notas da canção e deixa a Baronesa perplexa. --- Mas Sua Alteza já sabe tocar? --- Não tão bem como a senhora. --- Perdoe-me, mas o Marquês não disse que Sua Alteza já dominava tão bem o piano. --- O professor Mazziotti diz que eu devo me dedicar mais. --- Fique com esta cópia, Sua Alteza. Tenho certeza que em breve irás conseguir tocar esta valsa. A mão de Pedro pega a partitura e ela toca-lhe o rosto com o indicador, descendo-o vagarosamente até contornar-lhe os lábios. --- Quando teremos a próxima aula? pergunta a Baronesa. --- Na próxima terça-feira, no mesmo horário, se não for incômodo, diz eufórico o jovem com o azul dos olhos em brilho reluzente. --- Como quiseres, Sua Alteza, estarei aqui na terça. O mordomo Paulo Barbosa bate a porta e entra trazendo uma bandeja com dois copos de refresco de caju. --- Peça para o Marquês vir até aqui, diz o Príncipe ao mordomo que sai seguido pelo olhar da professora. --- E o nosso segredo, Sua Alteza? --- Ficará entre nós, é claro, mas qual é o seu nome? --- Teresa, responde pausadamente a mulher enquanto o Marquês de Itanhaém adentra a sala. --- Terminamos por hoje, senhor Marquês. --- Mas já? E o que achaste do novo aluno, senhora Baronesa? --- Tenho certeza absoluta de que Sua Alteza já nasceu vocacionado para a música, senhor Marquês. --- Mas que ótimo. Vou acompanhá-la até a carruagem. --- Sua Alteza, diz a mulher curvando-se e fitando-o nos olhos, correspondida de pronto por um sorriso travesso do jovem Príncipe. O complô A segunda-feira amanhece ensolarada na Fazenda Cachoeira que tem uma agitação diferente da rotina diária. Os escravos varrem o pátio da entrada do casarão e as mucamas estão trabalhando na cozinha desde cedo, preparando cuidadosamente um almoço para onze pessoas. A sinhá Estefânia Cavalcanti estende uma toalha de renda na mesa de jantar enquanto duas mucamas lustram a prataria escurecida. --- Quero tudo brilhando, diz a sinhá para as mucamas. O senador e o filho Deucleciano chegam do passeio a cavalo e desmontam no pátio. Dois negrinhos desnudos surgem do nada e levam os animais para a cocheira, puxando-os a cabresto na mais cândida alegria. --- É meu fío, num vejo a hora de sabê o qué que esse povo tá matutãno, num sabe? Resmunga o senador subindo a escada. Na sala principal, a mesa já está com os talheres alinhados com a sinhá dando os últimos retoques. --- Que beleza, minha mãe, diz Deucleciano beijando-a no rosto e indo em direção à cozinha. --- Não vá beliscar agora, meu filho, fala a mãe contemplando a prataria reluzente. --- Oxenti, mas será que esse povo num vêm? diz o senador olhando o relógio de bolso e pendurando o chapéu. O cheiro de carne assada invade a atmosfera da cozinha enquanto a mulata Joana se mostra no fogão mexendo um cozido, ladeada por mais três mucamas. --- Hum..., que cheirinho bom, diz Deucleciano entrando na cozinha e indo direto ao bule, servindo-se de café. --- Já tá quáje pronto, meu sinhô, responde Joana com a cabeça abaixada, mexendo a panela. --- Hoje será um grande dia, Joana, fala Deucleciano mirando os olhos da mucama que entende logo a sua deixa para a noite. Duas carruagens escoltadas por quatro homens visivelmente armados e montados a cavalo despontam na estrada circundada de palmeiras que é logo percebida pelo senador que está no alpendre do casarão, debruçado no parapeito. Ele tira o relógio do colete e desce a escada. Estacionam no pátio e são de logo recebidos pelo senador e quatro negros bem vestidos que seguram os cavalos e abrem a porta. O Presidente do Senado, padre Feijó, vem acompanhado de dois deputados do partido liberal, velhos conhecidos do senador Cavalcanti. --- Padi Feijó, louvado seja Nosso Sinhô Jesuis Cristo, diz o senador ajudando-o a descer. --- Que bom revê-lo, senador. Trouxe também os nossos líderes na assembléia, fala sorridente o senador Feijó mostrando dois parlamentares. --- Diputado Valadares, cumé que vai a famía? pergunta o senador Cavalcanti cumprimentado-os. --- Senador, como tem passado? Diz o deputado Severino Pantoja em cumprimento formal. Os irmãos Antônio Carlos e Martim Francisco Andrada e Silva apeiam da outra carruagem acompanhados das esposas. Os escravos que seguram os cavalos não se furtam em reparar a vestimenta dos visitantes, destacando-se as meias brancas até a cintura, as casacas aveludadas e bordadas, os sapatos afivelados e os chapéus à moda dos oficiais da marinha inglesa. --- Benza Deus, diz o senador cumprimentando os amigos e as duas senhoras com um leve beijo na mão. Sobem a escada do casarão e adentram a sala onde a sinhá Estefânia e Deucleciano os esperam. Joana e as outras mucamas estão na cozinha aguardando o chamado para servir a mesa, todas vestidas de branco e com turbante vistoso. --- Mas quem será esse povo? Murmura uma delas abanando as moscas que rodeiam a comida. --- Deve de sê gente luxenta. Ceis num viro aquelas duas sinhá? Retruca Joana com ar de deboche quando ouve o badalar do sininho. XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX Uma carruagem corta o paço imperial com a parelha em galope com destino à rua do Ouvidor, logo estacionando em frente a casa do Dr. Afrânio. O cocheiro rapidamente chega à porta. --- O dotô tá em casa? Pergunta ofegante ao negro bem trajado que o recebe. --- Tá armuçãno, mais a patroa. --- Fala prêle vim dipressa que eu tô esperano aqui fora, ordena. O médico põe meio corpo entre a porta e vê o cocheiro andando no alpendre com a cabeça baixa e as mãos entrelaçadas às costas. Reconhece a carruagem pelo brasão desenhado na porta. --- Pois não, diz o médico. --- O dotô me adiscurpa, mas a patroa tava na cozinha e caiu no chão, de repente. Diz que é po dotô andá loguim. --- A Baronesa do Faial? Pergunta o médico com olhar assustado. --- É sim sinhô. --- E como ela está? --- Nóis pois ela deitada no quarto mas ela tava suãno frio, seu dotô. --- Aguarde só um instante que nós já vamos, diz o médico entrando às pressas. ------- Em frente ao casarão da Fazenda Cachoeira, quatro escravos vigiam os cavalos atrelados às carruagens que comem capim picado em balaios dispostos ao chão. Um outro negro chega expondo com júbilo uma cobra com a cabeça esmagada e segue em direção a senzala, na pressa peculiar de quem traz uma boa nova. --- Parabéns dona Estefânia, a comida estava uma delícia, diz o padre Feijó batendo a mão na barriga. --- Obrigada, padre, mas o mérito é também das minhas mucamas que fazem tudo com esmero. --- E esta cocada padre, já comeste uma igual? Pergunta o deputado Valadares degustando o último pedaço. --- A receita é da finada preta Justina, num sabe? Eu truxi ela do engenho de Pernambuco só pa modi fazê doce, intervém o senador. O carrilhão do relógio ao centro da parede badala em desafinado, roubando a atenção dos presentes. --- Pois intão padi, agora vamo falá dos negócio, diz o senador levantando-se e encaminhando os amigos para o seu escritório. Um carro de boi com oito juntas passa vazio em frente ao casarão, carreado por um negro já com os cabelos pintados de um branco centenário que caminha de lado com um ferrão que traz por cajado, comandando garbosamente aquela serpente vagarosa e desengonçada com assovios e resmungos compassados, o diálogo bovino. E o ranger melancólico das rodas chama a atenção até dos cavalos que o seguem de orelha em pé, estimulando um tordilho negro a verter o esterco fresco que cai certeiro num balaio previamente acomodado pelos escravos que guardam o pátio. --- A melhor coisa a fazer é redigirmos o documento da emancipação do Príncipe Dom Pedro e colocarmos em discussão na assembléia, diz Deucleciano aos colegas. --- Ainda insisto que devemos primeiro fazer a propaganda da nossa causa e conseguir assim a adesão popular, intervém o deputado Severino Pantoja. --- Que tal encaminharmos a idéia aos chefes políticos de todas as Províncias? Pergunta o Antônio Carlos ao irmão Martim Francisco. --- É sabido que todos apoiariam a posse do Imperador para unificar o país e acabar de vez com todas essas revoltas, afirma Martim Francisco, o mais novo dos Andradas. --- Que bom seria se vosso irmão José Bonifácio estivesse conosco agora para iluminarmo-nos com suas idéias, intervém o padre Feijó provocando risos. --- Que Deus o tenha em bom lugá, padi, qui Deus o tenha. Mais se nóis tem minoria na assembréia, cumé que nóis vai fazê? --- Ela poderá se transformar em plena maioria se dermos alguma coisa em troca, meu caro senador, fala o deputado Valadares acendendo um charuto. --- Teríamos que convencer apenas três líderes para obtermos sucesso na votação da emancipação, retruca o líder Martim Francisco. --- De acordo. Mas temos que fazer um projeto claro e que atenda aos anseios do povo. Que tal propormos um alto cargo ao Costa Carvalho? Com a sua habilidade, tenho certeza que ele convencerá seus partidários num piscar de olhos, diz o padre Feijó cruzando as mãos e contorcendo os dedos. --- Tens razão, padre. Além de um entusiasta da tese da maioridade do Imperador ele nos ajudaria em muito, intervém Antônio Carlos. --- E quem garante que teremos a chefia do governo com o trono nas mãos do Imperador? indaga Deucleciano ao Andrada Antônio Carlos. --- Ora, meu jovem, o Imperador tem plena confiança no Marquês de Itanhaém e no Frei Pedro, que também são partidários da emancipação. Embora amigos do ministro Aureliano, no fritar dos ovos eles ficariam do nosso lado, responde o Andrada Antônio Carlos. --- Que tal formarmos uma espécie de agremiação em todas as Províncias e fazermos também um abaixo assinado dos que são a favor da nossa causa? diz Martim Francisco. --- Grande idéia, meu irmão. Poderemos chamá-lo o Clube da Maioridade, fala Antônio Carlos servindo-se de café. --- Boi que chega primêro na lagoa é que bebe água limpa, num sabe?, diz o senador acendendo o cigarro de palha. --- Nóis tem que butá esse assunto na assembréia ianti dus ôto. --- Amanhã mesmo vou redigir um projeto e mandar um resumo a todas as Províncias, senador. Em dois meses saberemos se a propaganda da maioridade deu certo, fala Antônio Carlos aproximando-se da janela que dá para um riachinho que passa por trás do casarão. --- Senhores, quantos jornais teremos a nosso favor? pergunta o deputado Valadares. --- Dependendo da quantia que oferecermos, certamente todos, meu caro, retruca o padre Feijó provocando uma gargalhada geral. --- Intão tá cumbinado. Amanhã nóis dá o primeiro passo pa acabá queça regença, fala o senador Cavalcanti convidando-os para um café no alpendre. A carruagem do doutor Afrânio chega na fazenda da Baronesa do Faial com os cavalos respingando. O médico é logo conduzido ao quarto onde duas mucamas com as mãos entrelaçadas contemplam o corpo imóvel da ama, deitado sobre cama. Imediatamente ele toma o pulso da Baronesa e sente o frio de cadáver não recente. Leva as mãos ao rosto da mulher e cerra-lhe os olhos --- Não há mais nada a fazer, diz o médico cobrindo o corpo com um lençol, fazendo em seguida o sinal da cruz. O silêncio e a tristeza invadem o ambiente. --- Vá até a cidade e diga ao padre Arnaldo para avisar os parentes e tomar as providências do enterro. Eu vou ficar aqui e conversar com as crianças, ordena o médico ao cocheiro que verte lágrimas segurando o chapéu amassado. O primeiro gozo Contrariando a tese do avô D. João VI que se orgulhava em dizer que tomara o primeiro banho aos 60 anos, o neto Pedro de Alcântara está deitado numa canoa de banho com água quente a esfregar o corpo com um sabão perfumado, o que o faz lembrar do perfume usado pela Baronesa de Faial. Ele leva as mãos ao rosto e o aspira com os olhos fechados, apertando o sabão arredondado que escapa-lhe em deslize. Tateia como um cego o fundo da banheira quando sente a superfície curva e escorregadia do sabonete entre as pernas abertas. Esbarra a mão ainda ensaboada no pênis e nota um crescimento nunca reparado. Novamente toca a verga eriçada e vem-lhe, em pensamento, a mão carinhosa da Baronesa. Afagando o órgão num vai e vem buliçoso, ele imagina-a com os seios rente aos seus olhos e a fala macia, seguida de um sorriso malicioso que não lhe sai da mente. Num momento, ainda com os olhos fechados e massageando com as mãos apertadas o pênis cada vez mais latejante, imagina a Baronesa tirar a roupa e deitar-se nua à sua frente, abrindo e fechando as pernas, mostrando-lhe a vulva com as duas mãos, num abrir e fechar continuado da genitália tão cobiçada em pensamento. Nisso, um jato esbranquiçado escorre em pingos grossos da uretra dilatada, em compasso constante e parecendo não ter fim. O espanto e o inusitado põe o jovem a olhar para os lados no receio de ser observado, mas o cansaço e a pulsação em acelerado o faz relaxar e esticar o corpo novamente na água morna e espumante. Após um quarto de hora o jovem se levanta e enxuga o corpo em devagar, observando a verga irritada e ainda com a ponta avermelhada. Apanha um espelho de mão e o beija lentamente, como se a Baronesa fosse o vulto refletido. A próxima aula de música não lhe sai do pensamento. Uma última gota daquele líquido viscoso e pegajoso é observada pelo jovem que a esfrega entre a ponta dos dedos em contra luz, no mirar a vidraça entreaberta. No final da tarde uma carruagem pára defronte ao palácio e um homem sobe a escadaria a passos largos. O jovem Pedro está na biblioteca com suas irmãs vendo as reproduções feitas pelo seu Daguerreótipo recém chegado da França. O tutor Marquês de Itanhaém adentra à sala. --- Sua Alteza, aconteceu uma desgraça, fala aproximando-se do jovem que põe o aparelho na mesa e o encara espantado. --- O que foi? --- A Baronesa de Faial, Sua Alteza, ela morreu agora à tarde, diz o tutor com os olhos avermelhados. --- Oh... meu Deus, responde o jovem empalidecido e imóvel. --- O doutor Afrânio diz que quando ele chegou na fazenda ela já estava morta, fala o Marquês ao jovem que leva as mãos ao rosto e chora, causando espanto nas duas princesas. Pensamentos mórbidos povoam-lhe a mente. --- Será que é pecado mortal? --- Vou ter de confessar e contar tudo ao padre Pedro? --- Será que ela já estava morta quando eu estava no banho? Essas questões confundem a mente do jovem Pedro de Alcântara e o deixam apático, desanimado e sem apetite. Emagrece alguns quilos naquela semana. Fica pensativo e absorto, desinteressado dos afazeres rotineiros e preocupando em demasia o tutor. --- O padre Neville o espera para a aula de inglês, Sua Alteza, diz o Marquês ao Príncipe que, sentado ao piano, faz as escalas ensinadas pela Baronesa do Faial. --- É hoje ou nunca, murmura o Príncipe levantando-se e caminhando em direção à biblioteca. --- O que disseste, Sua Alteza? Pergunta o tutor preocupado. --- Nada, só estava pensando em voz alta. As mucamas que trabalham na cozinha do palácio cantarolam baixinho enquanto preparam o almoço. O Marquês de Itanhaém chega esfregando as mãos e se serve de café. --- Que estais a fazer, Mariana? pergunta o Marquês à cozinheira que mexe com uma colher de pau a panela suculenta. --- É peixe, meu sinhô, du jeitim quêle gosta, diz a velha batendo a colher na palma da mão e lambendo-a no experimentar do tempero. --- Tomara Deus que ele volte a se alimentar como antes, murmura o Marquês deixando a cozinha. O badalar do relógio acusa 11 horas quando o príncipe abre a porta da biblioteca e se dirige sorridente ao Tutor que o aguarda numa ante sala. --- Temos um convidado para o almoço, senhor Marquês, o padre Neville nos fará companhia, fala o jovem com alegria. --- Ora, professor, vejo que andaste fazendo milagre, diz o Tutor esfregando as mãos. --- Senhor Marquês, uma boa conversa as vezes vale por muita coisa, retruca o padre olhando sorridente para o Príncipe. E sentam-se à mesa onde o jovem Pedro sorve a refeição com a gula dos moços, aliviando o Tutor que se mostra em ar vitorioso. De como se tornar um adulto sem passar pela adolescência Os jornais e revistas da Corte e de outras Províncias publicam simultaneamente as vantagens que a emancipação do Imperador trará ao país, propalando o Clube da Maioridade que fomenta uma lista de assinaturas crescente a cada dia. Agita-se o país em prol da causa. As charges e caricaturas dos Jornais liberais mostram o Regente e seus Ministros roubando os cofres públicos, sempre na figura de ratazanas famintas ou vampiros irônicos. O Imperador aparece sempre como um anjo, um paladino da justiça que empunha a bandeira da lei, do trono e da fé. De posse das listas de abaixo assinado, o Partido Liberal leva a idéia para o parlamento, já que o senado, composto por maioria conservadora, rejeita por dois votos o projeto da maioridade. No paço do edifício da assembléia, uma multidão nunca antes vista adentra ao prédio e aglomera-se nas salas, com as galerias abarrotadas de populares que gritam incessantemente: --- Viva o Imperador...Viva D. Pedro II... Nesta sessão de 20 de julho de 1840, Limpo de Abreu pede que se nomeie uma comissão para discutir o assunto e em dois dias, aprova-se a urgência para a votação do projeto. Após alguns discursos favoráveis à maioridade avalizados com aplausos da maioria dos parlamentares, o Presidente da Câmara dos Deputados põe o projeto em votação. Súbito, um deputado conservador entrega uma nota da Regência que põe a seção em polvorosa. A nota diz que o senador Bernardo Vasconcelos foi nomeado Ministro do Império e um decreto da Regência adia a votação do projeto para 20 de novembro próximo. Ao término da leitura, a galeria enfurecida solta o brado retumbante que coloca em xeque a última cartada dos conservadores. --- Traidores..., filho da puta..., é o que se ouve. Os parlamentares deixam o recinto da Câmara e saem às ruas acompanhados de uma malta ensaiada, com milhares de populares gritando vivas ao Imperador e abaixo a Regência. Liderados pelo deputado Antônio Carlos de Andrada e Silva, seguem os manifestantes em direção ao paço São Cristóvão para reivindicarem uma audiência com o Príncipe Pedro de Alcântara. Recebida a deputação, o líder Antônio Carlos e os principais cabeçilhas da proposta adentram ao salão nobre do palácio onde, o jovem Príncipe os recebem em protocolo defensivo, ladeado pelo tutor Marquês de Itanhaém e o seu confessor, o padre mestre Frei Pedro. --- Em nome do Exército, da Armada, dos poderes constituídos e do povo brasileiro, rogamos à Vossa Alteza que salve a nossa pátria e que assuma com urgência o Trono do Brasil, diz pausadamente o líder ao jovem Príncipe de 14 anos que, ouvindo serenamente o pedido, fica pensativo por instantes. Captado um sinal em combinado, vindo de um piscar de olhos do Tutor Marquês de Itanhaém, ele aceita a proposta. --- Sim, diz o Príncipe detonando uma bateria de aplausos e vivas, seguido de uma ordem para que o Regente Araújo Lima convoque o Senado e a Câmara dos Deputados para tomar o juramento constitucional, logo no dia seguinte. Amanhece. No paço do senado, uma multidão calculada em mais de 8.000 pessoas está em vigília defronte ao edifício, aguardando ansiosa a cerimônia marcada para as 9 horas daquele 23 de julho de l840. Às 11 horas, com as galerias e todos os recintos abarrotados de pessoas dos mais variados segmentos, o Presidente do Senado, Marquês de Paranaguá, declara aberta a sessão que se prolonga até as 3 da tarde, quando o Príncipe chega acompanhado de uma multidão que o aclama em ovações delirantes. Sereno e tranqüilo, o jovem louro é recebido pela mesa que o conduz até o Trono, onde ele repete a leitura feita pelo secretário do senado. Ao término do juramento, o Marquês de Paranaguá aclama em vivas por três vezes Sua Majestade Imperial, respondido de pronto por toda a assembléia e o povo que enlatava as galerias, num delírio indescritível. O Tutor Marquês de Itanhaém não consegue tirar o lenço dos olhos, rogando a Deus que proteja o Imperador que educou e viu crescer. O senador Cavalcanti e o filho Deucleciano com os punhos cerrados gritam vivas ao Imperador enquanto o padre Feijó cumprimenta o senador cearense José de Alencar e os colegas de partido. Afinal, estavam novamente no poder. O novo ministério já está composto em prévia combinada pelos irmãos Andradas e os Cavalcantis. Aos poucos cai a tarde em crepúsculo festivo, seguida de noite calma e de uma aurora monótona que inaugura lenta e calmamente o primeiro dia do mais longo reinado nas terras de Santa Cruz. Uma vingança sertaneja O povoado de Quixadá encontra-se em dia de festa. O rico fazendeiro e criador de gado Raimundo Torquato, contrata o casamento da sua única filha com um dos Araújos do povoado vizinho de Boa Viagem. Os preparativos correm normalmente com novilho sangrado de véspera, temperado em barricas de madeira para a festa tão aguardada. Os pitéus encomendados à doceira afamada enfeitam a mesa dos noivos, juntamente com os arranjos de flores silvestres que decoram cada uma das mesas que povoam o quintal imenso da morada dos Torquatos. Garbosos e visivelmente felizes, os parentes e padrinhos lotam a igrejinha de Quixadá naquela manhã de domingo. Após a cerimônia, saem os noivos para receber os cumprimentos na porta da capela, onde uma pequena monta da gente simples espia curiosa o vestido da noiva que dizem ter custado duas cabeças de gado. Ao curvar-se sorridente a noiva para abraçar o pai, um estampido eclode a cinqüenta passos, borrifando de sangue a grinalda branca e derrubando ao chão o noivo, mortalmente ferido. Caído e com o peito em chaga exposta por chumbo grosso, em pouco desfalece. --- Santo Deus, murmura o vigário diante dos convidados que se mesclam de espanto e gritos de perplexidade. Em meio ao burburinho raivoso, um homem a cavalo deixa a praça num galope chicoteado e desaparece na viela da esquina, entrando feito lebre na caatinga espinhosa. Desmaiada, a noiva é levada às pressas para casa juntamente com os pais, cambaleantes em zigue-zague, num transtorno indizível. --- Foi ele, gente, eu vi, foi o Custódio, o amigo do Migué, grita um dos Araújos que fizera parte da chacina dos Maciéis no povoado de Tamboril. --- Im nomi de Patre et Fílio et Espiritum Sanctus, exclama o padre dando a extrema unção ao defunto que jaz de braços abertos no portal da capela. As primeiras lições Antônio Vicente Mendes Maciel, agora aos 10 anos, sai da venda do pai e caminha cortando o largo da capela de Quixeramobim cumprindo a rotina das segundas e quintas-feiras. Descalço e vestindo apenas uma calça curta, leva as mãos ao embornal que abriga um caderno com as lições de casa. Dobra a esquina da praça e logo chega a casa do professor Ferreira Nobre, um homem raro e muito simples que dedica seu tempo a ensinar as primeiras letras aos poucos alunos da terra. Aprender a ler, escrever e contar é um privilégio de poucos. Mesmo ganhando pouco, o professor mantém sua rala clientela em três povoados que visita duas vezes por semana, lecionando português, matemática, geografia, francês e latim, as matérias elementares daqueles idos. --- Licença professô, fala o garoto Antônio Vicente entrando na saleta improvisada com três bancos de escola, uma escrivaninha e um quadro negro tosco. --- Professor, Antônio Vicente, professor, responde o mestre com o dedo em riste ao aluno que se acomoda no banco, tirando o caderno do embornal. --- Então, fizeste a lição? --- Fiz, sim sinhô. --- Vamos ver, fala o mestre pegando o caderno, folheando-o lentamente. A medida que o mestre vai virando as páginas e franzindo os olhos o menino vai se encolhendo no banco, temeroso por alguma correção. --- Muito bem Antônio, muito bom, só que seis vezes o sete dá quarenta e dois e não quarenta e um. Precisas prestar mais atenção. --- A tabuada do cinco é qué boa, professô, fala o garoto olhando a mão aberta, agora com um sorriso de alívio. --- De fato é a mais fácil, Antônio, mas hoje vamos aprender a multiplicar por dez qualquer número, diz o professor sentando-se na escrivaninha enquanto um outro aluno se achega. --- Licença, diz o garoto João Rígido dos Santos sentando-se ao lado do companheiro Antônio Vicente em mudez de coruja. --- Estás atrasado, João, mas eu estava dizendo ao Antônio que a tabuada do dez é a mais fácil de todas. Querem ver? --- Por deiz, professô? Ah, mais essa eu já sei. --- Então me diga, Antônio: trinta e seis vezes dez, quanto dá? Pergunta o professor batendo o indicador nos lábios fechados. --- Num é só ponhá o zero na frente? --- Isso mesmo, Antônio, mas quem te ensinou? --- O padi foi na venda e me falô qué assim, responde o garoto com os olhos brilhantes. --- Vamos ter que melhorar esse português, meu filho, diz o mestre entregando um lápis para cada um dos garotos, mas franzindo a testa ao perceber uma mancha roxa no braço de Antônio Vicente. --- O que foi isso? --- Nada não, professô. --- Andaste apanhando, não foi? Indaga o mestre olhando-o nos olhos. --- Foi o pai, ele me bate quais tudo dia, responde de cabeça baixa, vexado pelo testemunho do colega. --- Óh... meu Deus. Vamos ao ditado, meninos, diz o professor afagando-lhe o rosto e voltando-se para a escrivaninha. Helena Maciel, a heroína da família Dois homens montando cavalos magros e sem valia apeiam defronte a venda de Quixeramobim e são logo observados por Francisca Maciel, parenta e também a nova esposa de Vicente Maciel que ora varre o chão pestilento da morada, salpicado de manhas de escarros e infestado moscas, enquanto o marido e mais três companheiros jogam cartas numa mesa ao canto. A entrada do par de desconhecidos fomenta o silêncio já reinante no ambiente abafado e mormacento. --- Estardi. --- Tardi, responde Vicente com o cigarro apagado no canto da boca, olhando para um machado que sempre o tem exposto por dentro do balcão. --- Pó pô uma cachaça pa nóis, dona? ordena um deles para a mulher de Vicente que os atende, obedecendo o sinal do marido. Um dos homens leva o olhar para o alto e vê a imagem da Virgem. Imediatamente tira o chapéu, imitado pelo amigo. O mais alto é um mestiço adusto e enfezado, com as veias a realçar-lhe nos braços largados, os cabelos encrespados e entufado por uma maçaroca vistosa rente a um anel formado pelo chapéu visivelmente apertado. De testa calva e cara lisa, a podridão dos dentes e a piorréia é denunciada em qualquer fala, enquanto que os olhos avermelhados dão-lhe a impressão de uma embriaguez constante. A enormidade das narinas estão repletas de pêlos crescidos, tingidos a poeira, sugerindo ao observador muitas horas de estrada de há pouco vencidas. Na camisa ensebada que exala um fedor acentuado, uma mancha escura se destaca em crescendo, conforme o aproximar das axilas. A calça já rasgada nos joelhos e as alpercatas em tiras mostra o inhum * a impregnar-lhe os dedos disformes, adornados por unhas escurecidas e lascadas, um flagrante vivo de quem já foi testado em todos os estágios da penúria. O mais baixo é a patente vivíssima de um curiboca anêmico e desengonçado, a cruza provável de um quilombola sedento com alguma nativa acuada. Realça-lhe uma cabeleira levemente alisada e uma testa enjelhada, brilhante, com todo o conjunto puxando a cor de um fosco verniz. O nariz, carnudo e comprido, contrasta com o rosto fino e pequeno, salpicado de pequenas mechas de uma barba disforme e sofrida, chamuscada no papo com pequenas moitas de pêlo grosso. Orelhas curtas e abanadas, as vestes em tiras lhe cobrem dos ombros aos pés descalços, estes, cascudos e manchados pela grés da poeira fina que, grudada à pele pelo sebo do suor persistente, mostra nitidamente no vão dos dedos uma parte mais clara, certamente o encaixe do estribo. --- Tão chegãno da onde? Pergunta Vicente com voz firme ao par de molambos que olham para os lados, esquivando-se do interlocutor. --- Diz que tá teno serviço práqui, meu sinhô? Tá sabeno darguma coisa? pergunta o mais alto olhando para o chão. --- Num tô sabeno, não sinhô, retruca Vicente Maciel estalando os dedos em ordenança à mulher que logo vai para o fundo da casa. --- É... Nesses causo o sinhô sabe onde nóis pode arranjá um lugá a módi anoitá? Pergunta o mais baixo. --- Sei não, responde Vicente levantando-se e caminhando para dentro do balcão. Os dois bebem a aguardente num único gole e batem com a caneca na prancha do balcão. --- Pó dá mais ôta, meu sinhô? --- Já tô fechãno, num sabe? E tô achano mió seis imbóra, responde Vicente franzindo os olhos e mordendo o cigarro. --- Quanté qui é? pergunta o mais baixo levando as mãos por baixo da cinta e tirando um lenço amarrotado. --- Vinte réis, responde Vicente Maciel contraindo a sobrancelha. Em pouco, os dois saem da venda e montam os animais sonolentos, partindo em trote desgracioso rumo ao grotão locado a jusante do riacho da palha. O vendeiro vai até a porta e os espreita, seguindo-os com os olhos em meia pálpebra e com a mão coçando o queixo, com expressão de desconfiança. Volta-se para a mesa e retoma à jogatina. --- Acho mió o cumpadi avisá o Migué, num sabe? Esses dois cabra tá me cherãno a pórva. Finda a tarde e a mesmice tediosa povoa o largo da freguesia. Uma velha seguida de duas crianças carrega um feixe de lenha na cabeça e chama a atenção pela habilidade do equilíbrio, além da ladainha conhecida que entoa num falsete choramingado. O garoto Antônio Vicente deixa a sala do professor e vai pra casa em marcha batida, rodopiando o embornal com a mão direita e de vez em quando pulando com apenas um pé, intercalando com o outro a cada duas passadas. Por um instante ele para e fica a observar ao longe o horizonte já avermelhado, milenar acusador de ausência de chuva. Ao se aproximar da sua casa, reconhece o cavalo amarrado em frente a venda. Vê o pai despedir-se do parente Miguel Carlos que sai apressado com uma espingarda laçada ao ombro e uma parnaíba na cintura. O garoto fica admirado com a rapidez que o mulato magro e alto galga o lombo do baio, seguramente o seu maior companheiro daquela andança fugitiva. --- Bença, pai, diz entrando apressado em direção a cabaça d'água. --- Bençôi, Antôim, responde o pai observando o garoto a matar a sede. --- E os istudo, meu fio, tá vogãno pa arguma coisa? --- O professô falô uma coisa qui o pai num vai quirditá. --- Num me diga. Antão fala logo, Antôim. --- Ele falô quêsse mundo é redondim, meu pai, qui nem a lua quando tá inxada. --- Oxenti, qui mundo é esse cocê tá falãno, criatura? --- Esse qui nóis vévi, meu pai. Ele tumém falô que nesse mundo tem mais água do que terra. Só que tem, que a água é sargada e num presta amódi bebê. --- Ái, ái, ái, ái, ái, ái, ái, meu Deus do céu, mais será impussívi que eu tô gastano dinhêro a módi esse hômi ficá ti insinaño bobagi, Tôim Vicente? Já tamo cum quaje déis lua sem chuvê e inté os rio já tão mingüano, criatura. Ondé que tá essa água quêsse professô falô? --- Né isso não, meu pai. É co mundo é muito grande, num sabe? É tão grande que nóis é que num vê quêle é redondo. Vicente Maciel põe as duas mãos na cintura e verga o corpo para frente, sombreando-o com o edifício da estupidez, na inquirição peculiar de um débil. --- Ocê tá variãno, minino. Tô achano mió chamá a cumadi Dasdô amódi te dá uma benzida, num sabe? --- O professô tumém falô que o sol fica parado e que nóis é que fica rodãno em vorta dele, e qui tudo dia nóis dá uma rodada a módi a noite chegá, responde o menino enquanto os três companheiros de jogatina de Vicente Maciel adentram a venda. --- Cumé qui é? Retruca o pai torcendo a orelha do coitado que se mantém em choro contido, enquanto que um dos homens intervém. --- Tarde, cumpadi, diz um deles salvando o garoto de uma sova maior. --- Pó dexá que amanhã eu vô tê uma prozinha quece prufessô, num sabe? E agora vê se engole esse choro. --- Uai, cumpadi, tá pareceno que o Antôim rumô inguiço? --- Nada não, cumpadi. É esse professô é que fica pono bobagi na cabeça das criança, num sabe? Puis num é qui ele ensinô qui o mundo num tem canto e qui é redondim feito miolo de cabaça, diz Vicente Maciel em trunfo de sabença. --- Óia aqui, Tôim Vicente, teu pai tá certo, num sabe? Eu memo já andei tuda vida pulêce mundão de meu Deus e posso te garanti: tirano argum morro, arguma serra, ele é prainim que só veno, retruca um dos vaqueiros na tentativa de tirar o menino do emburramento. --- Tá veno, Antôim, agora trais o baráio e pega uma caneca do corote a módi os cumpadi bebê, vai? Agora vê se conta ôtas coisa mió que esse hômi te insinô, diz o pai sentando-se à mesa com os parceiros. --- Ele falô que aquele moço que tá no dinhêro é o Dão Pedo, e que ele é o rei do Brasí. O pai estaca novamente e coloca as mãos na cintura. --- Mais disque o ômi foi imbora prus trangêro? Vai vê quêle vortô? diz o pai coçando a cabeça. --- Aquele éra o pai desse ôto, e diz que tumém já morreu. Esse Dão Pedo é o fio do ôto Dão Pedo, e é o rei do Brasí. O professô que falô, afirma o garoto Antônio Vicente certificado de que roubou novamente a cena. --- Cumé qui é? Ô mulé, corre aqui, grita o pai dando uma risada. --- E o professô tamém falô quêle vai acabá cas guerra. --- O cumê já tá no fogo, diz a madrasta chegando à porta com humor de doente. --- Aiquí, mulé, ó co minino tá falãno, diz Vicente franzindo o rosto, agora parecendo se orgulhar do filho. --- O nome dêle é Dão Pedo segundo, meu pai, e é o Imperadô do Brasí, diz o menino esquivando-se do olhar da madrasta. --- Tá vêno, mulé, agora nóis tem um Imperadô inveis daquéla imundiça da regença. Já tô sintino que as coisa vai miorá um pôco, num sabe? retruca Vicente sorvendo um gole da cachaça e passando a caneca para os parceiros da bisca. --- Imperadô? Que qué isso? pergunta a madrasta. --- Oxênti, num sabe o qué um Imperadô, mulé? Puis é o dono do mundo, num sabe? --- Esse minino divia éra pegá no cabo da inchada inveis de ficá aprendeno bobage, resmunga a madrasta em negativa com a cabeça. --- Fica quéta, mulé, quesse minino vai longe. Mais me diga, meu fio, foi por esses dia que esse tá Imperadô chegô na capitá? --- Diz que foi no mei do ano passado, meu pai. --- Vírgi Maria, nóis tá memo é nu fim do mundo, num sabe? Após o cair da tarde, as filhas do vendeiro vão para o quarto e Antônio Vicente vai para o seu, o mesmo em que a mãe morrera. A madrasta não entra no quarto da falecida e o garoto passa ali boa parte do dia a fazer as lições da escola que consiste na cópia de alguns excertos feito a mão pelo professor Ferreira, geralmente frases soltas, desprovidas de palavras incomuns e também restrito à concordância primária. Deitado em sua cama de colchão de palha, o menino fica a imaginar a figura do Imperador, que segundo o professor, é um jovem bonito e bondoso, e que sabe todas as coisas. Entrelaça as mãos sobre o peito mirrado para a prece rotineira que a madrinha Maria das Dores lhe ensinou. Leva os olhos para a igrejinha sempre aberta em cima da mesa e passa em pensamento um Pai Nosso e uma Ave Maria, na tentativa fracassada de ver saltar-lhe a mente o semblante da mãe, cada vez mais fugitivo com o passar dos anos. Logo o sono vence aquele corpo magro e cansado que adormece ao som dos grilos que martelam incessantes em noite estrelada e desprovida de lua. E vez por outra sopra ao longe uma brisa mansa e fria que vai balançando em devagar a copa das árvores velhas, flagrante vivo de heroínas vencedoras daquela crosta ressequida, ancestrais magníficas de um Éden distante que sombreia o martírio infinito da canícula diurna e que ameniza a agonia eterna dos que andam sem rumo por aqueles sertões sem dono. Amanhece na pequena vila após o frescor renovado da noite dadivosa. As janelas se abrem com as velhas trajadas de santas bruxas, acotovelando-se em curioso nas janelas apodrecidas para vislumbrar o cotidiano sem novidade. Aos poucos, o chacoalhar da nova carroça do mascate rompe o largo da capela e para em frente a venda do velho Vicente Maciel, ainda com as portas fechadas. O mascate dá a volta e chega ao portão do quintal onde o vendeiro mergulha a cabeça numa tina com água turva, prática adotada para o esquivo da ressaca rotineira. --- Dia cumpadi, grita o mascate na fresta do portal. --- Mais óia quem taí. Se achegue, ômi de Deus, fala Vicente dirigindo-se ao portão. --- Truxi a pinguínea que a cumpadi pidiu, mas é mió discarregá po lado de lá, fala o mascate apontando para a esquina. Vicente atravessa a casa e abre as portas da venda, assustando-se com a nova carroça do mascate, bem maior e mais larga, agora puxada a quatro mulas. --- Oxenti, mais num é que o cumpadi tá prugridínu? --- Pois eu vai contá uma coisa bra cumpadi. As incumenda vai armentãno e a gente num pode desagradá as freguêis, diz o turco destravando a porta lateral. Após descarregarem as mercadorias de há muito aguardadas, o mascate pega uma caderneta e a folheia lentamente, intercalando as folhas com uma lambida seca no indicador de unhas escurecidas. --- Seu Jorge, num dá pra nóis acertá num ôto dia? fala Vicente meio envergonhado e olhando para o lado. --- Com essa carga já intéra dois barrí, seniór Bicente, diz o mascate fechando a caderneta, inquirindo o amigo ora vexado. --- Eu vô niguciá meu gado por esses dia. Pá sumana nóis acerta. O cumpadi num vai ficá pessas banda? --- Tá certo, seniór Bicente, a tua palavra é uma só, avaliza o mascate cortando uma fatia do toucinho exposto no balcão. --- Mas o cumpadi num vai cumê com a gente? Fizemo paçoca inda ônti, retruca Vicente com a mão no ombro do amigo, agora bem mais aliviado. --- Gardicido cumpadi, mas inda tem muita mercadurínea pá intregá, fala o mascate dirigindo-se para fora e seguido por Vicente Maciel, que o ajuda a enferrolhar a lateral da carroça. O turco dá a volta e pega um embrulho de dentro de uma canastra que traz escondida debaixo de fardos de tecido. --- Truxi uma lembrança pru seu minino, o Antôim Bicente, e esse veio lá da Recife, diz entregando-lhe o embrulho. --- Mais óia, o que havera de sê, hômi de Deus? indaga Vicente Maciel com olhar ressabiado. --- É um caderno prá modi ele escrevê cumpadi, e tem uma porção di coisa desenhada na capa. É uma mapínia, e tem os lugá donde vévi o mundo, num sabe? E essa aqui é uma lapizínia, fala o mascate despedindo-se e subindo na carroça. Entrelaçadas as rédeas na mão suja e calejada ele resmunga a senha que é de pronto atendida pela mula ponteira. --- Liluúia, e as duas parelhas de mulas sai a passos lerdos. --- Vai cum Deus cumpadi, despede Vicente levantando a mão e observando a carroça que corta a rua da praça seguida a pé pelas crianças que brincam no largo e tentam subir na trazeira. Antônio Vicente desenha com um graveto a parte da frente de uma casinha com porta, janela e chaminé, observado atentamente pelas irmãs que acompanham o deslizar da varinha no chão do quintal ainda fresco, com brisa de manhã recente. --- Antôim, diz o pai com o embrulho chegando à cozinha que dá para o quintal. O garoto olha prontamente e vê o pai balançar o embrulho, fitando-o com um sorriso raro. O garoto levanta-se e pega o presente abrindo-o às pressas. --- Foi o cumpadi Jógi que deu, Antôim, e num cobrô nadica de nada, fala o pai olhando as filhas que se empuleram em volta da mesa. Os olhos do menino se encantam ao ver o mapa do Brasil estampado na capa do caderno novo, detalhando a capital e algumas Províncias. --- Eu sei ondé qui nóis tá, meu pai, diz Antônio Vicente apontando com o dedinho sujo as terras do Ceará. --- Oxênti, mais é lá em riba? E é só desse tamanico? pergunta o pai com a mão na cabeça delineando o tamanho continente. --- E o professô falô que a capitá é bem aqui, afirma garboso o garoto indicando um pontinho, o Rio de Janeiro. --- É, meu fio, graças a Deus que nóis longe da puliticáia, num sabe? resmunga o pai adentrando a casa enquanto as crianças voltam para o quintal. E passam-se os meses na mesma preguiça dos dias quentes e intermináveis, até que Vicente Maciel recebe a visita de sua parente Helena Maciel, mulher destemida e corajosa que fizera fama no sertão do Ceará Grande acompanhando o irmão Miguel Carlos nas empreitadas vingativas contra os Araújos. E chega na boca da noite quando o meio irmão Vicente já embriagado, acabara de esfaquear a mulher Francisca que teimava em contê-lo na jogatina. Por sorte foi socorrida de imediato pelas duas vizinhas que a levaram para tratar um corte na nádega esquerda. As manchas de sangue ainda fresco no chão batido da venda mostram à entrante a natureza do embate. --- Louvado seja Nosso Sinhô Jisuis Cristo, diz Helena Maciel adentrando a venda onde Vicente está sentado detrás do balcão, com as duas mãos sobre a cabeça. --- Pra sempre seja louvado, tão bom senhor, responde Vicente ainda bêbado e com os olhos molhados de arrependimento. Helena Maciel o abraça e vai logo servindo-se de um gole da cachaça embarricada. --- Cunteceu arguma coisa? pergunta Vicente enxugando os olhos com as costas da mão. --- Eu é qui prigunto, hômi de Deus, responde a prima apontando para as manchas frescas de sangue. --- A, diacho, é essa mulé num mi respeita, num sabe? Vévi meteno o fucim nos negóço duzôto e é isso que dá. --- Vígi Maria, mais eu tô pricisano dumas coisa, num sabe? diz a prima caminhando até a porta onde fica olhando para a rua. --- A pois digui, minha prima. --- Cabô minha pórva e o meu chumbo tumém tá no fim. E eu tô pricisãno é pa ôgi, diz helena Maciel escarrando no chão. --- E aquêis dois ômi que tivéru aqui, já tão sangrado? Pergunta Vicente abrindo uma gaveta embaixo do balcão. --- Só um, Vicente, o ôto escapô. Mais é certeza ques é ômi dos Araújo e viéru aqui amódi pegá eu mais o Migué, meu irimão, num sabe? fala a mulher olhando o meio irmão que lhe entrega um chifre carregado com pólvora e uma lata de chumbo. O garoto Antônio Vicente que presenciou o pai esfaqueando a madrasta, ouve a tudo, deitado no silêncio do seu quarto. --- Aquele mulato cumprido, bem queu discunfiei da prosinha dêle, num sabe? --- Aquele nóis já dispachamo pru cão, mas o ôto vazô no mundo e já deve de tê contado prus Araújo que nóis tamo por aqui, fala Helena Maciel amarrando o polvorinho na cintura. --- Acho mió ceis sumí pruns tempo, aconselha Vicente vendo a prima montar num campião de crina curta. --- Dêxa acarmá a poêra qui eu vórto pá lhe pagá o favô, Vicente, e manda lembrança pro Antôim, retruca a mulher saindo em galope. Uma das vizinhas da venda que socorrera a mulher de Vicente se aproxima segurando um cuité coberto com um pano. --- Vim trazê o cumê das criança, sô Vicente. --- Num caréce, cumadi, diz o homem de cabeça baixa, envergonhado pelo feito. --- Óxênti, mas tá quentinha. Cabei de fazê inda agorinha, retruca a mulher tirando o pano e mostrando um cuscuz cheiroso. --- Cumé que ta a mulé, cumadi? pergunta Vicente entrando na venda seguido pela mulher. --- Já parô de sangrá, mas inda vai levá uns dia amódi sentá, reponde a mulher colocando a iguaria na mesa da cozinha. --- As criança tá no quarto, cumadi. Trais eis pá cumê que eu num tô cum fome, fala o homem cabisbaixo indo em direção ao quarto do filho. --- Antôim, chama tuas irimã e vai cumê que tem cuis-cuis. A cumadi Frorinda que feiz, ordena o pai ao filho encolhido na cama. Após fechar as portas da venda, Vicente Maciel vai para o seu quarto e deita-se sem mesmo tirar a alpercata, adormecendo ligeiramente em sono profundo denunciado pelo ronco que o seguiu noite adentro. Pela manhã, embutido numa casaca escura, o doutor José Antônio Pereira Ibiapina chega montado num burrinho e para em frente à venda, sendo cumprimentado por dois vaqueiros ombrados no portal que logo tiram o chapéu e vergam o corpo em reverência submissa. --- Dia, seu dotô. Jurista tratável e probo, fora nomeado juiz de direito de Quixeramobim em dezembro de 1835, mas demitiu-se logo em seguida quando o governo do Ceará acobertou a fuga do grupo dos Araújos onde ele, os havia condenado à prisão pelo assassinato dos dois irmãos da família dos Maciéis. --- Bom dia. O compadre Vicente está? --- Ta não, seu dotô, mas o Antôim deve de tá cos minino berãno a igreja. Qué que chama? --- Não carece, responde educadamente. Antônio Vicente está sentado ao chão da praça cercado por quatro garotos, todos de cócoras, a observar o colega que desenha no chão o mapa do Brasil com um pedaço de pau. --- Bom dia, fala mansamente o advogado José Antônio Ibiapina chegando subitamente junto aos garotos que logo ficam de pé. Antônio Vicente, ainda sentado, vira-se e vê um homem de cabeça volumosa, o mesmo que o abraçou e lhe dirigiu algumas palavras no enterro de sua mãe. Os mesmos olhos penetrantes e a mesma fala macia que a tanto não ouvia. --- Dia, seu dotô, responde o garoto ao homem que observa o desenho no chão. --- Não me diga que foi você quem fez? Pergunta aproximando-se e curvando o corpo diminuto. --- Foi, sim sinhô, responde o menino levantando-se e batendo as mãos no limpar da calça. --- Soube que você está estudando com o professor Ferreira Nobre. E então, como vai a leitura? Pergunta o advogado colocando a mão no ombro de Antônio Vicente. --- Como Deus qué, dotô, afirma sorridente. --- E vocês, também já aprenderam a ler e a contar? Pergunta aos garotos que negam com a cabeça. Por um momento o dr. Ibiapina fica absorto e olha para o céu. Fecha os olhos e dá um suspiro. --- Como vai a família, Antônio? Há muito que não vejo o compadre Vicente. --- Saiu amódi juntá o gado. Isturdia memo o pai tava falãno no sinhô. Diz que o dotô mudô pro Recife e antão-se num vem mais praqui... --- Em parte é verdade, Antônio. Mas sempre que posso não deixo de visitar os amigos do meu Ceará, diz em sorriso ameno. --- Antão-se é certo que o sinhô é diputado, dotô? Pergunta Antônio Vicente no acanhamento de um preá. --- Deputado, meu filho, mas isto não tem a menor importância. --- Antão-se é certo que o dotô já viu o Imperadô? --- Vi, meu filho, e lhe asseguro que ele é um homem bom e justo. E muito inteligente. Não se esqueça de dar lembranças minhas a seu pai, fala o homem despedindo-se dos garotos regozijados por uma atenção nunca dantes presenciada. --- Deus acumpanhe o sinhô, dotô. --- Fiquem com Deus, diz retirando-se rumo à igreja que se mostra de portas fechadas. Mudos, os garotos entreolham-se com sorriso de contentamento e voltam-se para o desenho riscado no chão poento. Pela primeira vez Antônio Vicente sente-se destacado e importante, ensinando sem a menor convicção aquela geografia rudimentar aos colegas que nunca ouviram qualquer palavra de um mestre escola. Sol a pino em tarde tediosa, muitos dos pacatos moradores da Vila testemunhariam o quebrar de mais um elo da corrente interminável da vingança nordestina. Manoel Araújo, irmão do noivo outrora assassinado em Quixadá, juntamente com três capangas atravessam a galope a pacata vila de Quixeramobim. Apeiam em frente a uma casa ao final de uma rua em cotovelo onde Miguel Carlos Maciel, jurado de morte, ali aninhava. Ao baterem à porta, percebem o caboclo em fuga repentina, transpassando uma cerca de taquara ao fundo da casa. A espingarda do cabecilha Manoel Araújo alveja certeira as costas da caça que cai em gritos de desespero, tentando em vão um engatinhar instintivo rumo à cerca ao fundo da morada, mas de logo interrompido. Para terminar a empreita, o caçador se aproxima de parnaíba em punho e puxa a perna do moribundo com a mão esquerda para esfaqueá-lo com a direita. Manoel Araújo, ainda com o braço erguido empunhando o aço frio é surpreendido bruscamente com o revés do cipó da raça. A faca de Miguel Carlos corta-lhe o pescoço em golpe único, expondo a carótida em jorro mortal, com o corpo caindo-lhe por cima, já desfalecido. Repentinamente ouve-se um disparo estrondoso de bacamarte quando Helena Maciel se aproxima da cena em berros aterradores, girando o corpo feito um redemoinho e abrindo fogo contra os capangas de Manoel Araújo que logo escapam sem revide, num galopar fugitivo. Delineada a tragédia, ela aproxima-se dos corpos entrelaçados. Com o cano da espingarda ela retira o corpo degolado de Manoel Araújo de cima do irmão que jaz segurando a faca embebida em sangue fresco. Faz o sinal da cruz e cai em prantos. Súbito, ela enrijece a face e pisa sobre a face de Manoel Araújo, calcando-o no chão. Olha para o céu e murmura com os olhos fechados, no ranger de dentes dos predadores vingativos. --- Juro por essa luz que me alumeia que eu vô ti vingá, meu irimão. No enterro, os parentes e os poucos amigos do falecido choram discretamente ao ver o corpo baixar sepultura. É que “dificilmente um assassinado entra no reino do céu”, assim reza a crendice. Antônio Vicente segura na mão da madrinha Maria das Dores e observa indiferente as cruzes velhas e apodrecidas fincadas disformes no campo santo. Nenhuma lápide, nenhuma indicação, apenas o capim e os arbustos invasores que crescem em destacado nas covas mais recentes, motivados pela rega constante dos vasos ressequidos daqueles que visitam o lar dos mortos. Aos poucos, esvazia-se a necrópole desleixada. Antônio Vicente vira-se um instante e presencia o sol em princípio de morte, descendo lentamente no horizonte desanuviado e destacando em silhueta cintilante das cruzes embaralhadas, na desobediência completa ao vértice do prumo gravitacional. Instintivamente o menino faz o sinal da cruz e entrelaça as mãos, contemplando a derradeira tangente do círculo avermelhado de mais um poente. Preparativos para um casamento A carruagem para em frente a escadaria do paço de São Cristóvão onde o ministro Aureliano Coutinho desce em apressado, carregando uma pasta escura. --- Como vai, meu caro? Recebe-o o mordomo e amigo Paulo Barbosa, a quem deve-lhe o posto de mordomo e mandatário de todos os serviçais da Casa Imperial. --- O Frei Pedro concordou em falarmos no assunto com o Imperador? Pergunta Aureliano caminhando em direção à sala do Monarca. --- Mas é claro, afinal foi pra isso que marcamos a audiência. Seja o mais objetivo possível que o resto cuidamos depois, diz o mordomo caminhando com as mãos entrelaçadas. O jovem Imperador está sentado em seu Gabinete lendo uma tradução de Virgílio, um dos seus poetas preferidos. O bater da porta e o entrar do mordomo Paulo Barbosa rouba-lhe a atenção. --- Ele acaba de chegar, Majestade. --- Que entre, diz o Monarca levantando-se e indo em direção a mesa de trabalho. --- Majestade, diz o ministro Aureliano na reverência de praxe. --- Então, senhor ministro, o que tens dizer? Pergunta o Imperador acenando para que se sente novamente. --- É sobre o casamento de vossa Majestade e o das Augustas Princesas. Tenho pensado muito a respeito e creio que devemos apressar as negociações com a corte da Áustria, já que vosso tio é o Imperador e, segundo consta, lá existem várias Arquiduquesas prontas para o casamento. Se vossa Majestade permitir eu mesmo poderei cuidar do assunto, fala o ministro observando o revelar da timidez do jovem Monarca que o evita com um olhar de lado. --- Tem mesmo que ser das cortes da Europa, senhor ministro? exclama o jovem Pedro de Alcântara olhando para o quadro da mãe que perdera com apenas um ano e nove dias de vida. --- Como nas demais monarquias, a sucessão do trono é uma questão política das mais relevantes, Majestade. Do contrário vossa irmã mais velha, a princesa Dona Januária é quem herdará o trono, caso não tiverdes filhos. Comentei o assunto com os outros ministros e também com o Frei Pedro, Majestade, e todos estão de acordo que tratemos desse assunto com uma certa urgência. --- Meu bom amigo Frei Pedro entende bem das ciências e das letras. Coisas da política não é o seu forte, responde o jovem monarca com um leve sorriso. --- Quanto ao casamento de vossa irmã mais nova, a Princesa Dona Francisca, o príncipe François d’Orleans já manifestou seu interresse na sua última estada no Brasil. O da Princesa Dona Januária ficaria pra mais tarde. Por hora trataremos do casamento de Vossa Majestade. Se me permite, o melhor seria arranjarmos dois príncipes irmãos da família dos Habsburgos para seguirmos a tradição da Casa de Bragança que vem de vosso bisavô Dom João V. Ele se casou com a Arquiduquesa Mariana, filha do Imperador Leopoldo, sua bisavó. --- Conheço muito bem minha ascendência, senhor ministro, mas prossiga. --- Mesmo se não arranjarmos dois príncipes irmãos, devemos primeiro ficar com a opção da corte da Áustria. O que achais, Majestade? --- Não creio que o povo, de bom grado, aprovaria o casamento de um ilustre desconhecido com a minha irmã, isto sem eu ter me casado antes, afirma o Imperador. --- Sábia dedução, Majestade. Se me permitis, sugiro que o Sr. Bento da Silva Lisboa encabece a missão que deverá ir a Europa. Não vejo ninguém melhor para tal função. --- Se conheces bem o Sr. Lisboa e confias nele para tal missão, tens todo o meu apoio, senhor ministro. E já que todos estão de acordo, desejo-lhes um bom trabalho. Enquanto isso conversarei com minha irmã a respeito, diz o Imperador levantando-se e aproximando-se da janela que dá para o cais. --- Vou encabeçar os preparativos e vos manterei informado, Majestade. Com sua licença, devo me retirar, fala o ministro curvando-se e deixa a sala. O mordomo Paulo Barbosa traz um refresco de caju e serve o Monarca que mantém-se na janela, olhando para o porto. --- Majestade, diz o mordomo colocando a bandeja de prata sobre a mesa. O jovem Pedro de Alcântara deixa a janela e aproxima-se do mordomo Paulo Barbosa com um olhar absorto. --- Peça para o Barão de Caxias vir almoçar comigo amanhã, às oito em ponto, diz o Monarca sorvendo o refresco. Um furo da imprensa Quatorze negros com grilhões no pescoço e em fila indiana são puxados por um homem à cavalo que atravessa o largo do paço, em direção ao cais Pharoux. Ancorado próximo a plataforma de desembarque, o cargueiro Liverpool ostenta a bandeira inglesa no mastro principal e mostra na marcação do calado, as quarenta toneladas de carga. No convés, o capitão aguarda a chegada dos estivadores. --- Lá vem eles capitão, diz um oficial da alfândega ao ver a fila de negros aproximar-se. --- Precisamos de cem homens e ali não vejo mais que vinte, diz o capitão olhando a prancheta. --- Daqui a pouco chega o resto. Marcamos para as oito horas e ainda falta meia hora, diz o oficial consultando o relógio. Enjaulados em cima e nas laterais por barras de ferro, quatro carroções de transportar gado chegam ao cais com uma carga de vinte e dois negros cada um, todos algemados pelo tornozelo direito. Dispostos em fila, o feitor chama o oficial que anota a plaqueta de metal argolada na canela esquerda de cada um. S G, é a marca em baixo relevo do primeiro carroção, indicando as iniciais de Silas Gomide, o proprietário. Segue a praxe com os outros três carros. Anotados e em seguida desalgemados, eles sobem nos botes que os levarão até o convés do navio para o trabalho rotineiro, a estiva. Raramente acontece algum castigo ou uma repreensão. Mudos, todos obedecem as ordens do capitão e fazem o serviço a bom tempo. Preferem o suor à chibata que já conhecem. Comem o que lhes dão e de cabeça baixa miram o chão, nunca o horizonte. No escritório da London Company Navegation os feitores recebem o pagamento pelo aluguel dos estivadores. --- Pricisãno é só chamá, diz um feitor ao oficial da companhia. --- Semana que vem chegam mais dois navios. Conto com o trabalho dos senhores, despede-se o oficial em continência desleixada. Novamente algemados, os negros lotam os carroções que deixam o cais rumo as fazendas de origem, descendo pela rua Direita e passando em frente ao Jornal do Commércio onde Arlindo de Castro conversa com o patrão Pierre Plancher encostado à parede. --- Seu Pierre, não consigo entender aquele embaixador inglês. Ele é contra a escravidão e faz vista grossa para a estiva com negros alugados. --- Como assim? Indaga o amigo e patrão. --- A companhia é inglesa, o navio é inglês e a mercadoria também. Quem descarrega são os negros que eles alugam. E ele ainda diz que a escravidão é um atraso, fala o jornalista Arlindo ao patrão que vê o carroção desaparecer na curva ao final da rua. Sentado em seu Gabinete, o jovem Pedro de Alcântara levanta com a esquerda um espelho de mão e passa lentamente os dedos no rosto corado, procurando com atenção o aparecimento de algum pêlo indicativo de barba. Pensativo e absorto, bruscamente levanta o peito imitando a pose do pai retratado num quadro ao alto e escreve, deslizando a pena num misto de pressa e seriedade. Assina e toca o sininho chamando pelo mordomo que entra sem demora. --- Majestade? diz Paulo Barbosa ao Monarca. --- Faça publicar na Gazeta Official para que cumpra-se o edital, diz o jovem Imperador ao mordomo entregando-lhe o documento. --- "...Pelos poderes a mim outorgados pela constituição, estão demitidos todos os ministros do meu gabinete...", diz o mordomo olhando para o Monarca que o observa com seriedade. --- Sábia decisão, Majestade, mas se me permites, está também incluído o ministro Aureliano Coutinho? Pergunta o mordomo segurando o edital. --- Estás louco? Este fica com a pasta dos Negócios Estrangeiros mas os outros serão trocados, diz o Monarca virando-se para o lado. A notícia põe a Corte e a Câmara dos Deputados em polvorosa. Furiosos, os liberais agora substituídos pelos conservadores arquitetam vingança previsível. Na redação do Jornal do Commércio, o jornalista Arlindo de Castro comemora antecipadamente uma grande tiragem. --- Seu Pierre, vamos vender como nunca, diz o jornalista em euforia ao patrão que contempla um exemplar. --- Tendes razão, Arlindo, os liberais não vão gostar nadinha dessa manchete, comenta o patrão esbofeteando o próprio rosto na esperança de abater o mosquito persistente. --- Agora somos conservadores, seu Pierre. Temos que ficar do lado da situação e apoiar o Imperador, mesmo com esse ministério palaciano. Mas pensando bem, aquele embaixador inglês bem que tinha razão. Aumentar os impostos vai contra o povo, e ir contra o povo é dar murro em ponta de faca, fala Arlindo de Castro não conseguindo evitar um bocejo de sono. O badalar do relógio na parede acusa 3 da madrugada. --- É verdade, Arlindo, mas acho que a coisa vai esquentar de vez. Não lestes o que O Sentinela publicou semana passada? --- Aquele artigo em que ele diz Paulo primeiro e Pedro segundo? --- Esse mesmo. E também afirma que o ministro Aureliano Coutinho e o mordomo Paulo Barbosa influenciam por demais o Imperador nas suas decisões. --- Ora, mas todo mundo sabe disso, seu Pierre, e não é a primeira vez que vamos publicar algo a respeito. Se quiserem falar, que falem, mas nós estamos apenas reproduzindo um fato. --- Amanhã é que veremos a repercussão da entrevista com o embaixador inglês. E ele foi bem claro ao dizer que a escravidão é uma barreira para o nosso progresso. --- Bem, agora já me vou. Uma boa noite, Arlindo, diz o patrão Pierre Plancher retirando-se vagarosamente. A reação dos liberais Chega à Fazenda Cachoeira um negro montando um cavalo que vem num galope suado e ofegante. O senador e o filho estão no terreiro junto aos escravos que esparramam o café recém colhido. De relance olham o mensageiro do padre Feijó que chega em carreira contínua segurando um embrulho. --- Dia senadô, o seu padi mandô intregá isso pru sinhô, diz o mensageiro entregando-lhe um embrulho. --- Que qui será isso meu Deus, resmunga o senador abrindo o pacote. A manchete do Jornal do Commércio em letras garrafais enruga-lhe a testa: “LIBERAIS FORA DO GOVERNO”. --- O que? Esse frangote tá brincano com fogo, diz o senador mostrando o jornal ao filho. --- Minha nossa, foi ontem de manhã, murmura Deucleciano olhando o pai batendo na própria bota com o rabo-de-tatu. --- Vamo pa cidade, meu fio, que eu tô quereno vê essa tribuzana de perto, num sabe? fala o senador espumando a boca em cólera nunca dantes presenciada. Um negro apeia de uma carroça coberta com pano e pega um cesto de pães, subindo em seguida a escada da casa do padre Feijó onde deixa a encomenda ao pé da porta, batendo-a em seguida na praxe cotidiana. --- Padêêêro... No quarto, uma mucama está na cama com o rosto próximo a cabeceira, nua e de quatro, realçando o contorno da bunda avantajada. O padre arreia as calças e inicia o coito matinal. De joelhos e com as mãos apoiadas na anca púrpura, enterra vagarosamente a verga eriçada na vagina melosa, logo alcançando um ritmo acelerado. Acima da cama, na parede, um crucifixo adornado com ramo seco nos quatro ângulos presencia a cadência em serrote que aumenta em aviso ao gozo iminente. Com os dentes serrados e os lábios abertos ele fecha os olhos e curva a cabeça por trás da nuca, apertando brutalmente as costelas da mucama que, ao perceber a apoteose carnal, afasta fortemente as nádegas, comprimindo-lhe a virilha peluda. --- Óh..., berra o padre em alarido, denunciando o jorro seminal, enquanto a mucama ainda remexe a bunda em sentido anti horário, pressionando o pênis que lateja em último respingo. Ainda cambaleando, ele pega um bule com salmoura morna previamente colocado no criado mudo. Com a mucama em decúbito ventral e com as pernas abertas, ele apanha um pequeno clíster de madeira e o introduz na vagina melada. Com cuidado e vagareza, ele injeta a salmoura, eliminando qualquer possibilidade de uma gravidez indesejada, prática adotada com sucesso ao longo dos anos. Em pouco ele deixa o quarto e dirige-se para o seu escritório. --- Se o senador chegar, traga-o pra cá, diz o padre Feijó ao mordomo que se curva em afirmativa. O advogado Basílio da Gama caminha sorridente pelo paço da cidade, batendo vez ou outra a perna com um jornal. Atravessa o largo e entra no Armazém Progresso onde o dentista Clemente Gonzaga e o boticário João Santana estão atentos ao desfecho da anedota contada pelo barbeiro Quintanilha: --- ''Não foi o barulho de um tiro, coronel, foi o cabo Osório quem peidou, finaliza o barbeiro em desfecho triunfante. --- Bom dia senhores, já sabem da última? Pergunta o advogado Basílio aos amigos que o aguardam na mesa de sempre. --- Como vai doutor? Vamos sentar, diz o boticário com o jornal em punho. --- Os liberais estão chamando o Imperador de boneco dos ingleses, diz o advogado pedindo uma cachaça ao português com o habitual estralar dos dedos. --- Eu achava que com o Imperador a frente do governo iríamos ter um pouco de paz por aqui, doutor Basílio, mas pelo jeito...,responde o dentista. --- Eu achei muito boa essa decisão do Imperador. Esses liberais só querem saber de aumentar impostos e de permanecer no poder a qualquer custo, fala o português servindo a cachaça ao advogado Basílio. --- Ora, ora, vejo que seu Pereira está tomando partido sobre os acontecimentos da Corte, responde o dentista com ar de brincadeira. --- O jornal diz que o Imperador tomou essa atitude porque os liberais rejeitaram a proposta de discutir o fim do tráfego de escravos na última reunião do parlamento, fala o advogado Basílio coçando o cavanhaque. --- E vocês acham que os conservadores vão acabar com o tráfego? Eles são tão escravistas quanto os liberais, intervém o barbeiro. --- Sei não, seu Quintanilha. Esse embaixador inglês tem muita influência no governo. Ninguém me tira a idéia de que ele é quem tramou os pauzinhos pra derrubar os liberais, fala o advogado sorvendo a cachaça. --- Eles caíram por si mesmos, retruca o barbeiro Quintanilha. Lembram quando assumiram o ministério da maioridade, quantas demissões eles fizeram? --- Se bem me lembro o senhor tem razão, intervém o advogado Basílio. Aquele déspota do Antônio Carlos Andrada e Silva demitiu com um simples traço de pena quatorze Presidentes de Província. --- E o irmão dele, o Martim Francisco? Como Ministro da Fazenda fez uma varredura na repartição do tesouro. Sem falar naquele Limpo de Abreu que varreu dezenas de juízes, exonerou chefes de polícia e também alguns comandantes e oficiais da Guarda Nacional. Aquele filho de uma égua deixou o meu irmão Honório Santana na rua da amargura, exclama o boticário João Santana sorvendo um cálice de vinho. --- Creio que o amigo está com a razão. No tempo da Regência também era assim. Agora é só esperar para ver quem é que vai pra rua, seu João, intervém o português coçando os bigodes. Um desmaio preocupante A carruagem dos Cavalcantis pára em frente à casa do padre Feijó. O senador e o filho entram apressados e de pronto são conduzidos à biblioteca. --- Sua benção padre, diz Deucleciano beijando-lhe a mão. --- Ora meu filho, deixe de formalidades. Como tem passado senador? Pergunta o padre vendo o amigo com cara emburrada. --- Isso aqui tá mi cherãno pórva, num sabe? fala o senador apontando o jornal e sentando-se na poltrona. --- Calma senador, já discutimos a situação com os nossos partidários e o melhor que temos a fazer é esperar as próximas eleições, diz o padre tocando o sininho. --- E os Andrada, tumém saíru du guvêrno? Pergunta o senador. --- Sim, responde o padre. E também vossos primos, os irmãos Cavalcanti, todos já foram afastados. Uma mucama entra na biblioteca com uma bandeja de café e serve os visitantes. --- É... Tô veno que o jeito é aceitá as coisa cumo tão e sondá esse imperadô. Arguém deve de tá butãno coisa na idéia daquele minino. Aquele embaxadô ingreis num é frô de se cherá, num sabe? diz o senador rodopiando a colher no café quente. Deucleciano fica assustado com a palidez repentina do padre Feijó que deixa cair a xícara e leva a mão esquerda à testa suada. --- Padre, estás te sentindo bem? Pergunta Deucleciano não dando tempo de amortecer a queda do amigo que cai em desmaio brusco. --- Santo Deus, diz o senador perplexo vendo o padre no chão, imóvel, respirando com dificuldade. Deucleciano pega o sininho e badala em continuado enquanto o senador agachado abana o padre com o jornal dobrado. A mucama entra apressada e leva a mão à boca ao ver o patrão deitado ao redor dos cacos da xícara estilhaçada. --- Manda chamá o dotô. Vai dipressa mulé, grita o senador sem desviar os olhos do padre que começa a mexer-se. --- Eu vou pegar um pouco d’água com açúcar. Continue abanando, diz Deucleciano levantando-se. --- Ah... grita o padre com os olhos vesgados e semi abertos assustando o senador. --- Carma padre, o dotô já tá chegano e vai dá um jeito nessa tuntiça. Fica carmo, diz o senador ventilando o rosto pálido e molhado do amigo que agoniza. --- Pronto meu pai, diz Deucleciano levantando a cabeça do padre e entornando lentamente a caneca com água doce nos lábios ressequidos. --- Vamo butá ele na cama enquanto o dotô num chega, ordena o senador ao criado que entra em repentino. Das andanças de um mascate No largo da praça central da Vila de Fortaleza, um carroção puxado a quatro mulas para em frente ao Bazar Coimbra, uma das poucas casas comerciais da capital da Província do Ceará. Vista do alto, percebe-se um homem bem vestido e de bigodes vistosos atendendo a duas senhoras que se deleitam defronte as peças de tecidos vistosos. --- Pode olhar a vontade, dona Ismália. Só um instante que eu já volto, diz o português indo até a porta receber o freguês que não via há quase um ano. --- Bom dínia, seniór Gusmão. --- Ora, seu Jorge, mais eu pensei que tinhas te mudado para o sertão, homem de Deus. --- É... Já faz um tempínia que eu não vinha na Fortaleza, seniór Gusmão. A seniór combrô mercadorínia nova? --- Esta semana chegou muita coisa do Recife, seu Jorge, e tudo coisa de primeira. Venha dar uma olhada. --- Seu Gusmão tá ficãno rico. --- Qual nada, as coisas não estão indo bem por aqui. Imagine o senhor, o ano passado quiseram até me matar. --- Dá tiro na seniór? --- Queriam expulsar os comerciantes do Brasil dizendo que não somos brasileiros, diz o português acompanhando o amigo até uma mesa ao fundo da loja. --- Eu ficá sabendo. Tão dizeno que morreu muita gente na Recife. --- Não sei até quando nós vamos agüentar, seu Jorge. Agora estão falando que vão aumentar ainda mais os impostos, diz o português levando o charuto à boca. --- Eu tamém ta pensano em mudá de vida, seniór. Na sertão eu já vi muita gente que tá matano pa robá. --- Graças a Deus que o Imperador assumiu o governo, seu Jorge. Senão, nem sei se eu ainda estaria aqui, fala o português coçando a cabeça. --- Mais um tempo e eu vai embora e larga esse fim de mundo, seniór. Dizem que na Corte é que está o futuro. --- Qual nada, seu Jorge, tu é que és feliz. Não tens mulher e nem filhos para criar, fala o português folheando um caderno. --- Que maié aguenta essa vida, seniór Gusmão? Vivê em cima do carroça conversando cas burrínea e tomando sol na cabeça a dia intera? Responde o mascate em resmungo aberto mostrando a dentição apodrecida. --- O que o senhor vai levar desta vez, seu Jorge? --- Aqui está a lista das mercadorínea que vai precisá. Agora eu vai até o cais comprar umas coisínea e amanhã nóis volta bra carregá o carroça. O português corre os olhos no papel rabiscado e solta uma baforada. --- Oito tonéis de aguardente, seu Jorge? --- É o que mais se vende na sertão, seniór. Ninguém gosta de ficá sem a pinguínia e sem a rapadura, responde o mascate levantando-se em despedida. --- Tu vais estar com as raparigas? --- É, seniór Gusmão, agora nós vai tirá a sujeira e proveitá um pouco das maié. Mas amanhã nóis entra de novo na sertão bra fazê as entrega, responde o mascate provocando risos no amigo que o ajuda a subir na carroça. Contornada a Praça do Comércio, o mascate adentra a uma rua estreita que dá para o cais do porto. Em pouco, estaciona a carroça defronte a um sobrado que escora acima do pé direito, uma tabuleta suja e desgastada, onde se lê com dificuldade Hotel América. Uma mulher maltrapilha e com a cabeleira em maçaroca, de seios grandes e realçados a meio decote, chega até a porta e olha desconfiada para o homem magro, barbudo e sujo que apeia em frente a hospedaria. --- Dona Imaculada, como vai a senióra? Diz o mascate aproximando-se com uma maleta às mãos. --- Deus do céu, mais num é que o turco vortô? responde a mulher em sorriso banguela, enquanto um anão sai do hotel e sobe na carroça com um salto de gato. --- Leva ela bra quintal e desarreia as mulínea, diz o mascate entrando na estalagem. --- Pó dexá que o Fuinha vai cuidá direitim das mula, seu Jorge. Antão-se, vamo tomá um banho pá tirá esse teu chêro de onça? diz a mulher em gargalhada e batendo-lhe carinhosamente nas costas. Sentadas num sofá, a esquerda do balcão, duas mulatas de meia idade e uma ruiva de cabelos trançados estão em cochicho, quando adentra a figura do mascate. Uma delas abre-lhe um sorriso malicioso enquanto leva a mão na genitália, mirando-o nos olhos. --- Mocínea nova, dona Imaculada? --- Primêro o banho, dispois o senhô pode escolhe quem quisé, num sabe? Dilurde, vai esquentá água amódi enche a barrica que seu Jorge se lavá, ordena a patroa. No quintal do velho sobrado, o anão desatrela as mulas e as coloca num pequeno cercado de ripas onde, ao canto, um cocho com água ladeia um outro com milho em palha. Após fechar a portinhola, ele ouve uma conversa vinda da janela da alcova, ao alto. Embutido dentro de uma barrica de madeira repleta de água quente, o mascate se deleita no conforto do único banho anual, tendo como ajudante uma mulata que o ensaboa carinhosamente, derramando vez ou outra uma caneca de água morna sobre aquela cabeça magra e fina, separada em destaque por um grande par de orelhas de abano. --- Pronto, agora o sinhô vai ficá cherôso cumo as frô, diz em voz macia enquanto esfrega-lhe o corpo com um sabão de cheiro, roçando-lhe vez ou outra os seios no rosto e tocando-lhe a verga em torpedo. --- Agora nóis vai bra quarto corta a barba e tomá um pouco de vínea. Dispois nóis í bra cama, fala o mascate cobiçando com o olhar os seios da mulata. --- A sinhora cunhece ele, Domaculada? Pergunta a ruiva de tranças enquanto desarrolha um tonel junto ao balcão, enchendo em seguida uma jarra de vinho. --- Todo ano ele aparece por aqui. Passa uns dia e dispois vai imbora, num sabe? Mais sempre paga a mais do que o cumbinado. É um hômi bão, o seu Jorge. Agora leva o vinho e fala pra Dilurde fazê tudo quêle quisé. Chegando ao quarto ela leva um susto ao ver um homem trajando roupa limpa, com barba feita e o cabelo penteado. --- Cadê a Dilurde? Pergunta a ruiva colocando a jarra de vinho sobre uma mesinha de canto. --- Foi broveitá a água quente brá lavá as buraquínea, diz o mascate em risos, escancarando a dentição pretejada. --- Se o sinhô quisé arguma coisa é só chamá. Na escuridão da noite, destacam-se na ruazinha deserta as luzes do pequeno hotel, percebendo-se alguns vultos e barulho de risos vindos de um dos quartos. O anão desce meia escada e faz um sinal para a dona do hotel que sobe em seguida, cuidando para não fazer barulho. No quarto ao lado do mascate, ela tira da parede um pequeno quadro e fica a espiar por um buraco diminuto. Com as pernas abertas, a mulata percebe a espia combinada enquanto abraça fortemente o mascate que persiste na gangorra buliçosa, instigando de imediato as fantasias da cafetina. --- Vem, diz em cochicho para o anão que se achega com um banquinho e o coloca rente as pernas da mulher. Sem tirar os olhos da cena, ela levanta a roupa e expõe as nádegas para o anão que, subindo no pequeno banco, inicia a cópula costumeira, intercalada por solavancos constantes e silenciosos. As investidas do mascate agora pega um compasso em crescendo, denunciado por urros abafados e pelo ranger da cama, imitado pelos solavancos do anão que responde de imediato ao sinal da patroa, que o faz comprimindo-o com o auxílio das duas mãos que arranhando-lhe os ombros. Súbito, a apoteose dos coitos se dá em concomitante, mas sem levantar qualquer suspeita no mascate que agora desmaia em sono profundo. Da rua, nota-se o apagar das luzes dos quartos e o silêncio volta a reinar noite adentro. Para qualquer mal, a sangria No largo do Paço de Santana as pessoas transitam habitualmente. Uma carroça desvia de um velho que, acocorado na rua e com a calça arriada, defeca em plena rua, na inocência de uma criança e na passividade dos loucos, contemplando vagamente a fachada do palácio. No Gabinete Imperial, o novo ministro da justiça entrega os editais ao jovem Imperador que os assina com a pose de um rei adulto. --- Como está a situação no sul? Pergunta o Imperador. --- Mesmo com a proposta de anistia oferecida aos revoltosos por Vossa Majestade, a guerra parece não ter fim. --- Mas e o presidente Saturnino, o que ele diz? --- Como Presidente da Província de São Pedro do Rio Grande, o doutor Saturnino de Oliveira tem nos dito que a situação é bem complexa, Majestade. Pelo visto, esse general Bento Gonçalvez é um osso duro de roer. --- E o conde do Rio Pardo, o que é que ele diz? --- Como comandante das armas, o Conde alega ter muitos desertores, Majestade. Na última carta ele se mostra preocupado com a diminuição do nosso contingente e diz não saber o que fazer para reverter esse quadro, responde o ministro entregando uma mensagem ao Imperador que se levanta e a lê passivamente. --- Quero uma reunião com todo o Ministério ainda hoje, aqui no palácio. E também mande chamar o general Luiz Alves. Temo que precisaremos da sua habilidade para lidar com essa gente, diz o Imperador ao ministro que se curva em reverência. Uma carruagem chega à casa do padre Feijó. Um homem de cartola e valise escura apeia do carro e adentra a mansão. --- Como ele está? Pergunta o Dr. Geraldo Senna. Deitado e imóvel, o padre Feijó está rodeado pelas mucamas e o senador Cavalcanti. Deucleciano está sentado à beira da cama e o abana com um leque. --- Foi de repente dotô. Num deu nem tempo de sigurá e o ômi foi pru chão, responde o senador. O médico toma-lhe o pulso com os olhos fitos no relógio de bolso. Abre a valise e pega uma pequena lâmina pontiaguda. --- Vamos tirar-lhe os sapatos, ordena o médico olhando as mucamas e batendo levemente o indicador na ponta da lâmina prateada. Os pés descalços exalam um odor que faz o médico levar um lenço ao nariz. O doutor Geraldo Senna passa levemente uma lâmina na sola do pé esquerdo do padre que responde com o encolhimento instantâneo dos dedos, o mesmo não acontecendo com o direito. --- Era o que eu temia, senador, diz o médico levando um lenço ao nariz. --- É grave doutor ? Indaga Deucleciano franzindo a testa. --- Vamos fazer uma sangria e aguardar alguns dias. Por enquanto ele deve ficar em repouso absoluto. Nada de carne ou gordura, somente uma sopa leve. Também devemos cortar o sal, fala o médico olhando para as mucamas que o fitam assustadas. Com o peito desnudo e o braço direito esticado, o padre assiste a tudo emudecido, acompanhando com olhar assustado os movimentos do médico que agora aproxima-se com o bisturi. --- Tenha calma, Eminência, não vai doer... A sarja no pulso é feito em golpe único, seguida de um esguichar contínuo que logo avermelha a bacia esmaltada. Aos poucos um pingar vagaroso indica o término da mais comum das cirurgias. Enrola-se uma tira de pano no corte em princípio de coágulo e areja-se o quarto com o arredar das janelas. O paciente fica à mercê das orações. O senador e o filho acompanham o médico até a carruagem estacionada defronte à casa. --- Então, dotô, ele vai morrê? Pergunta o senador Cavalcanti com a testa enrugada. --- Só Deus é quem sabe, senador, mas o que me preocupa é o pé direito que não reagiu, diz o médico entrando no carro. --- O que o senhor acha doutor? Intervém Deucleciano. --- É difícil dizer, mas só por um milagre ele voltará a andar, finaliza o médico batendo a mão na porta em sinal ao cocheiro que parte em seguida. Notícias da missão casamenteira Várias carruagens param defronte ao paço da cidade atiçando a curiosidade dos populares. --- O ministério está à sua espera Majestade, fala o mordomo ao monarca que veste o pesado uniforme verde com botões dourados. --- Deixe-os esperar mais um pouco, retruca o Imperador olhando-se no espelho. Na sala de reunião do palácio, o ministro Aureliano Coutinho está sentado com as mãos entrelaçadas, na cabeceira oposta à do Imperador, ladeado pelos novos ministros e o Barão de Caxias, todos conversando em voz baixa. Três batidas na porta e todos ficam em silêncio. --- Sua Majestade Imperial Dom Pedro Segundo, diz o alabardeiro em continência de estátua, ao que todos se levantam. Entra o jovem Monarca. --- Senhores, vamos logo ao que interessa, diz o Imperador sentando-se. --- Como sugeriu Vossa Majestade ao Ministro do Império, o Sr. Araújo Viana, a nomeação de meu irmão Saturnino de Oliveira parece não ter surtido efeito na província de São Pedro do Rio Grande, diz Aureliano Coutinho entregando-lhe um relatório. O general Luiz Alves de Lima, amigo íntimo e também professor de esgrima do Imperador, o observa com um leve coçar na barbicha grisalha. --- General, que achas de formar uma coluna de artilharia e sufocar de vez esta rebelião? pergunta o Imperador. --- Creio não ser tão simples assim, mas se esta é a vontade do Imperador, terei o maior prazer em colaborar, Majestade, diz o pequeno general de 38 anos dentro da farda diminuta. --- Depois conversaremos à respeito, general. Ministro Calmon, como estão as obras na estrada da Serra da Estrela? pergunta o Imperador com os olhos azuis voltados para o relatório de Aureliano. --- O major Júlio Frederico é quem está comandando os colonos alemães, Majestade, e o serviço já está bem adiantado. Os alemães pensam até em fundar uma colônia na fazenda Córrego Sêco, responde o ministro Calmon. --- E a construção do palácio de verão, senhor Araujo Viana? Como estão as obras? Pergunta o Imperador ao velho ministro. --- Em pouco mais de um ano, creio eu que esteja pronto, Majestade. --- Graças ao bom Deus. Não vejo a hora de livrar-me desse calor. Mantenha-me informado, sim? diz o Monarca ao velho ministro que o conhece desde menino. No canto extremo da mesa, o Ministro da Justiça Paulino de Souza mostra-se atento ao seu novo projeto de reforma do estado. Representante fervoroso dos conservadores no novo governo, mantém-se quieto. --- Quanto ao que te pedi, senhor Ministro, já tens algo redigido? indaga o Imperador a Paulino de Souza. --- Aqui está um esboço do que acho o mais importante, Majestade, responde o ministro passando às mãos do Monarca o projeto de lei. O Imperador lê o projeto e todos se mantêm em silêncio. --- Criar um Conselho de Estado e reformar o Código de Processo Criminal não me parece uma má idéia, comenta o Imperador coçando o rosto corado, ainda desprovido de pelos. --- Creio que para assegurarmos os poderes de Vossa Majestade devemos aprová-lo o quanto antes. O Imperador deve ter plena liberdade para exonerar os juízes e os chefes de polícia, afirma o Ministro apoiado pelos colegas com o aceno das cabeças em afirmativa. --- Neste caso, eles ficariam à mercê do Conselho de Estado e não diretamente subordinados a mim, diz o Imperador aguardando uma resposta. --- Mas se vossa Majestade é quem nomeia o Conselho de Estado, creio ser a mesma coisa, diz o ministro Paulino de Souza provocando descontração e risos contidos. --- Majestade, como Ministro dos Negócios Estrangeiros, gostaria de pedir-vos uma conversa em particular ao término dessa reunião para discutir um assunto de suma importância para o Estado, diz Aureliano Coutinho ao Imperador que levanta-se com as mãos apoiadas na mesa. --- Pois bem senhores, desejo-lhes um bom trabalho, diz o Monarca acompanhando com os olhos a saída dos ministros, ficando Aureliano na sala. --- É sobre a missão do Bento Lisboa, Majestade. Recebi uma carta ainda ontem, diz o ministro Aureliano entregando-a ao Imperador. --- Então a Europa já sabe? comenta o Monarca coçando o queixo. --- Não foi possível evitar Londres e Paris, Majestade. Os jornais descobriram o motivo da missão e publicaram tudo. Mesmo assim, o Lisboa foi muito discreto e deixou ótimas impressões em todas as Cortes, diz o ministro com as mãos sobre a mesa. --- Acho que não sou um bom partido, senhor ministro, diz o Imperador voltando-se para a janela. --- Creio que devemos abandonar Viena, Majestade. Mesmo com a influência de vosso tio, o Imperador da Áustria, a fama deixada pelo vosso augusto pai não é das melhores. Por um momento o ministro Aureliano sentiu que seria repreendido com tal afirmação a julgar pela reação do Imperador que fitou-o bruscamente com uma rigidez na sobrancelha nunca antes notada. --- Tendes razão. Acho melhor trazermos o Sr. Bento Lisboa de volta. Afinal, há quanto tempo ele está na Europa? --- Quase um ano, Majestade. Mas já está em contato com outras Cortes e em breve teremos notícias, fala o ministro apontando a carta que o Imperador relê caminhando lentamente pela sala. --- Tomara que tenhamos sorte desta vez, retruca o Monarca com um sorriso desgracioso. --- Com certeza, Majestade. Agora devo retirar-me. Com sua permissão, fala o ministro curvando-se. Rolam-se os meses e rompe o mês de julho daquele 1841 com a agitação dos jornais da capital massacrando o Gabinete Conservador com propaganda Liberal. Nos classificados, um anúncio muito em voga No cais do porto da capital uma multidão de curiosos se aglomera na plataforma de desembarque para assistir a chegada das celebridades vindas da Europa para a festa da coroação do Imperador. --- Deve ser o Duque da Áustria, diz o barbeiro Quintanilha que empunha um jornal apontando para um casal em traje de gala que está no convés. --- Como é que o senhor sabe? pergunta o rapaz ao lado. --- A barba e o pescoço meu jovem, só um Duque tem um pescoço tão destacado, retruca o barbeiro com convicção. Um homem louro e de barba branca desce calmamente puxando uma carriola que escora um rabecão encapado, seguido de um outro que segura uma maleta em forma de violino. --- A orquestra gente, diz o barbeiro apontando para os músicos que descem sorridentes a rampa do Virgínia. O guindaste abaixa uma rede com dezenas de malas que chamam a atenção dos populares pelo tamanho da bagagem. Um oficial com uma prancheta checa rigorosamente a carga que é colocada nos coches. --- Hotel Pharoux, ordena o oficial ao cocheiro que parte garboso redeando a parelha vistosa. O Armazém Progresso está repleto de fregueses que se deliciam com as notícias sobre a festa da coroação. --- A Europa está no Brasil, diz o advogado Basílio levantando-se da mesa lendo a manchete com o dedo em riste apontado para cima. --- Todos os países estarão devidamente representados no banquete de dezoito próximo, finaliza o advogado sentando-se e pedindo mais um vinho ao Sr. Pereira que escuta com atenção os comentários debruçado no balcão. --- Dizem que veio um cozinheiro da França especialmente para organizar o banquete e instruir os garçons, fala o boticário correndo os dedos no jornal. --- Será que vai dar para ouvir a música da frente do palácio? pergunta um velho de charuto em punho. --- Com certeza, e a orquestra vai começar logo que anunciarem a coroação, intervém o advogado mostrando-lhe o jornal com o bater do dedo. --- Será que os liberais serão convidados para a cerimônia? Pergunta o português passando a mão no bigode em imitação ao senador Cavalcanti e provocando risos em todos. --- Ora, seu Pereira, o posto de Senador do Império é um cargo vitalício. Não importa de que partido são, o fato é que eles só perdem o poder quando vão pro fundo da cova, retruca o advogado Basílio. --- É, essa festa eu queria ver, fala o Sr. Pereira servindo um prato de bolinhos de bacalhau que infesta os ares com o aroma convidativo. --- Hum...aposto que esse tal de cozinheiro francês nunca fez uma iguaria dessas, murmura o advogado mastigando com avidez a fritura ainda quente. --- Bondade sua doutor, responde o português. --- Bem senhores, até mais tarde, diz o advogado saindo do armazém. O negro coxo dá a volta à caminheiro ao palácio imperial com sua carriola vazia, mas ainda impregnada de bosta seca. Não se contém em ouvir um mexerico que vem de uma das janelas. Dentro do quarto, a Camareira-mor dona Mariana de Verna, preceptora das irmãs do jovem Pedro de Alcântara, observa com serenidade as princesas Januária e Francisca que se desmancham de alegria ao vestirem os novos modelos vindos da Europa. A princesa Januária coloca um colar de diamantes na irmã caçula. --- Estás linda Francisca, diz a irmã mais velha sorridente. --- Queria que o príncipe François d’Orleans me visse assim, murmura a princesa Dona Francisca tateando a jóia --- Que maravilha, diz a camareira espalmando as mãos ao ver a expressão de contentamento das princesas olhando-se no espelho. O jovem Imperador está na sala de ginástica praticando esgrima com o professor Luiz Alves de Lima, o mais jovem general e um dos comandantes do exército imperial, quando alguém bate a porta. --- Sim, diz o jovem príncipe de espadachim em punho ao ver entrar o mordomo Paulo Barbosa. --- Majestade, os convidados chegaram. Já estão todos acomodados no hotel Pharoux, diz o mordomo. --- E o Duque e a Duquesa da Linz? --- Já estão hospedados no Paço de São Cristóvão, Majestade, conforme vossa determinação. Vamos recebê-los no jantar. Um ar de satisfação revela-se no rosto corado de Pedro. --- E a orquestra, já terminou o ensaio? Pergunta o Imperador servindo-se de refresco. --- Sim, Majestade, terminaram há pouco. É magnífica. --- Gostaria que a Baronesa de Faial estivesse aqui para a minha coroação, murmura o Imperador pensativo dirigindo-se à janela. --- É verdade, Majestade, ela partiu tão cedo, e também era amante da boa música, fala o general Luiz Alves de Lima colocando o espadachim no armário. --- Os jornais que pediste já estão na biblioteca, Majestade. General, finaliza o mordomo deixando a sala. --- Esses jornalecos não se cansam em criticar vosso mordomo, o major Paulo Barbosa e também o ministro Aureliano Coutinho, Majestade. Me parece pura perseguição desses liberais que só pensam em si mesmos. --- Estás referindo ao Clube da Joana*, general? Pergunta o Imperador com ar de riso. --- Eles não põem medida nas palavras, Majestade. Dia desses publicaram que o major Paulo Barbosa não passa de um mulatinho atrevido apadrinhado do governo. Um outro disse que o ministro Aureliano tem uma varinha de condão que conduz os destinos do Império. --- Deixa estar, general. Qualquer ministério sempre terá um jornal que lhe fará oposição e, de certa forma, isto é ser liberal, replica o jovem Pedro guardando a espada. Na rua do Direita o movimento é o de um dia normal. O advogado pára em frente a um sobrado e levanta a cabeça lendo uma tabuleta já desgastada: JORNAL DO COMMÉRCIO. O jornalista Arlindo de Castro está sentado numa mesinha de dentro do balcão escrevendo apressadamente quando soa o sininho da porta denunciando um entrante. O advogado Basílio da Gama tira o chapéu e aproxima-se do amigo. --- Boa tarde, seu Arlindo, como tens passado? --- Doutor Basílio, como está? --- Vim para colocar um anúncio e quem sabe o senhor possa me ajudar. --- Mas claro, doutor, do que se trata? Pergunta o jornalista levantando o boné. --- Minha mulher está para ganhar criança e vou precisar de uma ama de leite, afirma o advogado entregando-lhe um papel. --- Ora, mas isto é fácil, doutor. Vou colocar na edição do próximo domingo. --- Sei, sei. --- Mas o senhor quer comprar ou alugar uma ama de leite, doutor? --- Eu não tinha pensado nisto, seu Arlindo, mas aqui está o endereço. --- Não se preocupe doutor Basílio, ama de leite é o que não falta por aqui. Já na Segunda feira o senhor terá muitas a escolher. --- Que Deus lhe ouça. Então, até logo, despede-se o advogado. Da festa da coroação Uma multidão concentra-se no largo do paço da cidade onde o palácio imperial mostra-se sentinelado na entrada por uma fila da cavalaria, todos empunhando lanças com bandeirolas amarradas nas pontas, formando um cordão de isolamento em meia lua. As carruagens vindas do hotel Pharoux chegam em fila e aos poucos desembarcam os convidados que correspondem com acenos aos reclamos da ovação popular. E segue-se o desfilar das celebridades, políticos e nobres, ostentando roupas e jóias nunca vistas pela massa de curiosos que se deleita em comentários. --- Víva o São Jórgi, grita um bêbado trajando um sobretudo roto ao ver o Duque e a Duquesa de Linz descerem da carruagem. Aos poucos o véu da noite cai, realçando a Vênus que se avizinha da minguante em destacado, adornando o contorno fosco e fumacento que se desenha no topo da montanha pedregosa. O burburinho das vozes que rondam o largo é cessado de súbito quando o som da orquestra ruge em repentino, num acorde pomposo e indicativo de abertura solene. O jovem príncipe caminha sereno e altivo rumo ao trono vazio, acobertado pelo manto outrora usado por seu pai que pouco conheceu. --- Eu não conheço o Brasil, murmura em pensamento. Eu não conheço essa gente, eu não sei nada meu Deus, dai-me forças... Teresa, onde estás? Pergunta a si mesmo, engolindo a saliva sem demonstrar qualquer insegurança, qualquer dúvida. Relembra o pai acenando no convés da fragata Volage e a mão grossa do tutor José Bonifácio afagando-lhe o ombro. Os olhares que o examinam não roubam-lhe a atenção. Sério e altivo, ele segue calmamente a trilha do veludo rubro que finda no altar reluzente da matriz Nossa Senhora do Carmo, a mesma catedral onde o avô Dom João VI sagrou-se rei e seu pai, o Príncipe Regente fora coroado Imperador. --- Dóminus vobíscum, diz o Arcebispo Dom Romualdo de Seixas ao jovem Príncipe que sente de imediato a halitose repugnante da boca ressecada do prelado. --- Et cum spíritu tuo, respondem todos. A cerimônia é feita nos moldes tradicionais das cortes da Europa, com Arcebispo coroando o monarca após o juramento de fidelidade à igreja e o amor em Cristo. Ao término de um Te Deum regado a incenso e orado de todo em latim, o novo Imperador faz o juramento constitucional diante do presidente do senado. Dom Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga é o novo Imperador, protetor e defensor perpétuo do Império do Brasil. Dezoito de julho de 1841. No baile, um flerte No banquete, o Imperador delicia-se mais com a música do que com os pratos devidamente enfeitados e preparados pelo maitre francês. As duas mesas dispostas em coluna são cuidadosamente observadas por um pintor francês que rabisca a perspectiva com rapidez notável. Não é percebido. Fala-se pouco e baixo, mas em tempo curto as vozes aumentam conforme o efeito do champagne e de uma pequena orquestra que estimula os convivas em pequenas ousadias, de logo reprimidas pelo medo de uma gafe iminente. --- Quem é aquela, meu pai? Pergunta Deucleciano vendo uma moça ao lado de um homem gordo e falante. --- Num sei o nome dela meu fío, mas é a subrinha do barão de Vassôra. Ele é cunhicido do povo cumu o rei do café, num abe? Reponde o senador Cavalcanti com a boca cheia, escondida por um guardanapo. --- Achei que fosse a filha, fala Deucleciano fitando a moça. --- Ela é adotada, meu fio, mas o barão a tem cumo fia, num sabe? --- Ele é do nosso partido? --- Ora, meu fío, a maioria aqui é da ôta banda. Mas num vamo falá de política, diz o senador erguendo a taça e sorvendo o vinho com uma deselegância destacada. Na mesa oposta, o mais recente general do exército de Sua Majestade, o senhor Luís Alves de Lima e Silva. Aos 38 anos, ostenta orgulhoso as inúmeras condecorações incrustadas na farda de gala, destacando-se dos demais convivas pelo seu tamanho diminuto e a maneira como morde o assado em gula apressada. --- Quem é aquele, padre, algum embaixador estrangeiro? Pergunta Deucleciano ao padre Feijó que, sentado em sua cadeira de rodas, vira-se de costas para identificar o homem. --- É o Barão de Caxias, o filho do Chico Regência. Um general que há poucos meses recebeu o título por ter pacificado uma revolta na vila de Caxias, na Província do Maranhão. Nunca ouviste falar nele? --- Meu Deus, então é ele? Pensei que fosse mais alto. --- E é, Deucleciano, a envergadura de um homem não se mede pela sua estatura. É um dos melhores homens que conheci, meu filho, e é amigo íntimo do Imperador, sabia? Ninguém se mete com ele. --- Quando o senhor foi Regente, não foi ele quem comandou as tropas a pacificou as rebeliões? --- Sim, meu filho, mas vamos mudar de assunto, responde o senador Feijó esquivando-se do olhar do general que o observa da mesa oposta. Em meio aos murmúrios de ceia, o Duque de Linz pega o garfo e bate suavemente na borda da taça de cristal, roubando a atenção dos presentes. Ele se levanta e dirige o olhar para o jovem Imperador, falando um português decorado num misto de alemão e francês. --- Uma brinde a l’Empereur du Brésil, diz o Duque erguendo o cálice. E todos o imitam, permanecendo sentados. O Imperador passa o guardanapo nos lábios e levanta-se delicadamente. --- Nós brasileiros, agradecemos a augusta presença de tão veneráveis visitantes e esperamos que tenham apreciado a nossa hospitalidade. Um brinde a todos, fala o Imperador em francês pausado e tímido, orgulhando os compatriotas. Segue-se um aplauso discreto. No paço, a multidão em vigília contempla a iluminação do palácio com os olhos mirados na sacada vazia. Na sala de recepção, situada na entrada do palácio, o porta voz da corte informa os detalhes da coroação aos jornalistas que o bombardeiam com perguntas inimagináveis. De repente, todos ficam em silêncio ao ouvir a música que sai das janelas abertas do segundo andar. Num instinto incontido, todos os populares começam a aplaudir, provocando um burburinho em crescendo seguido de um Viva o Imperador que é ouvido por todos os convivas que degustam o licor digestivo no salão de festas. --- É o povo, Majestade, querem ver o Imperador, diz o Conde dos Arcos fazendo a reverência ao monarca descontraído. --- Pois bem, senhores, vamos ao povo, fala o monarca estendendo a mão em ordenança ao mordomo que interrompe a música. Seguido pelos convidados, ele vai até a sacada com o manto e a coroa, levando os súditos ao delírio quando levanta com a direita o cetro imperial. --- Viva Dom Pedro, Viva o Imperador do Brasil, brada com as mãos em aceno a multidão entorpecida, correspondida pelos aplausos e acenos dos que rodeiam o Imperador. Muitos se ajoelham e abaixam a cabeça, outros com as mãos em prece vertem lágrimas contemplando os céus. Em cada rosto vêem-se nítidos e sem contra prova os traços da miscelânea étnica num embaralhar de fisionomias díspares, niveladas apenas pela única linha comum que os difere dos observadores da sacada imperial. A miséria. --- Nunca vi uma coisa dessas, afirma Deucleciano junto ao senador Feijó, que acena eufórico da sacada do palácio. --- Estão diante da divindade, meu caro, é isso que os fascina. E a ovação persiste. Deucleciano olha para a jovem que observara no jantar e é de pronto correspondido por um sorriso mimoso que aumenta-lhe a pulsação. A corte volta ao baile que se prolonga até altas horas da madrugada e aos poucos, raleia-se o paço. Amanhece. As carruagens de aluguel desde cedo estão defronte ao Hotel Pharoux a espera de algum estrangeiro que queira dar um passeio. Um garoto com um pacote da edição especial do Jornal do Commércio vem gritando a manchete do dia em rima improvisada. --- Extra, extra, Dão Pedo foi na festa. Esgota-se em minutos. Um desenho do jovem Imperador com manto, coroa e cetro é o suficiente para saciar a curiosidade dos analfabetos que contemplam o desenho do monarca desconhecido de muitos súditos. --- Mai num é quêle tá cricido, comenta um cocheiro escorado na parede do hotel ao colega que contempla o retrato. O dia seguinte As janelas da casa do padre Feijó abrem-se pela manhã com as braçadas graciosas de duas belas mucamas em nado de peito. --- Nunca vi uma festa igual a essa senador. Que orquestra, que música, murmura o padre Feijó, sorvendo o desjejum. --- Benza Deus padi, que musga. Mais o que eu mais gostei mêmu foi quando o imperadô foi abaná a mão po povo. Aquilo é que é pudê, num sabe? responde o senador Cavalcanti molhando o pão numa xícara de café com leite. --- E tu, Deucleciano, que achaste da nossa Corte? --- Não consigo esquecer aquela moça, padre, a sobrinha do barão de Vassouras. O senhor a conhece? --- Divagá com o andô, meu fío, o barão é homem de muita posse e já deve de te combinado argum pretendente pa moça, num é memo, padi? Intervém o senador sorvendo a sopa de fubá. --- Ah, a Lucíola, é uma sobrinha que o barão a tem como filha. Se quiseres poderemos ir até Vassouras fazer uma visita ao barão, afinal, ele é um dos que ajudam o nosso partido, retruca o padre Feijó estendendo a xícara para uma mucama que o serve em sorriso. --- Farias isso por mim, padre? --- Ora, meu filho, inventamos um pretexto qualquer e sondamos o barão a respeito do dote. Ou então, poderemos encontrá-lo aos domingos, na paróquia da Glória. O barão mantém uma mansão aqui na capital e nunca faltou à missa. --- Perfeito, padre. O que achas, meu pai? --- Acho mió o padi sondá a moça suzim, meu fio, dispois ele ti conta. --- Não falemos mais nisso, Deucleciano, pode deixar que eu cuido disso. Mas e a colheita senador, vai indo bem? --- Graças ao bom Deus, padi, esse vai sê um ano de muita fartura, reponde o senador levantando-se. --- Então até logo, padre, e muito obrigado pela hospedagem, diz Deucleciano tomando a benção. --- Deus te abençoe, meu filho, recebê-los é sempre um prazer. E não te preocupes, ainda esta semana eu descubro tudo a respeito da moça. Recomendações a sinhá Estefânia, diz o padre acompanhando-os até o alpendre. A esquina do ARMAZÉM PROGRESSO está com vários animais parados em frente, indicativo de um domingo movimentado. --- Bom dia doutor Basílio, diz o português ao ver o advogado entrar. --- Bom dia seu Pereira. E o jornal, já chegou? Pergunta sentando-se na mesa costumeira ao lado de dois amigos. --- Ora ora, doutor, então estás para ser pai? Indaga o colega mostrando-lhe o jornal. --- Mais um mês, seu Pereira. Deixa-me ver como saiu, murmura o Dr. Basílio olhando o anuncio. “Compro ou alugo ama de leite. Urgente. Paga-se bem” --- Esse jornalista é dos bons, murmura o advogado sorvendo a cachaça. --- E a festa, como foi? Pergunta olhando a primeira página com a manchete: O Imperador do Brasil. --- Está tudo aí, doutor. Dizem que foi até de madrugada, responde o português debruçado no balcão. --- Isto é que é vida. Olha aqui: As donzelas se encantaram com a música e não havia pares suficientes para as contradanças. O conde do Além Tejo dançou sete vezes com sete moças diferentes, murmura o Dr. Basílio com a mão no queixo peludo. --- E a Condessa, não ficou enciumada? Pergunta o colega da mesa. --- É meu caro, mais vale sete donzelas nos braços que uma velha sentada ao canto, responde o advogado provocando gargalhadas nos presentes. --- E então doutor, agora com o Império do Brasil reconhecido nos quatro cantos mundo, será que as coisas vão melhorar? Pergunta o boticário. --- Só o tempo é que vai dizer meu caro, reponde o Dr. Basílio afagando o cavanhaque. O Embaixador inglês lê um jornal Numa carruagem aberta estacionada defronte ao Hotel de França, dois homens fazem a corte a quatro mulheres que tomam assento. --- Até logo, senhoras, façam um bom passeio, diz um deles tirando a cartola. Dentro do hotel, os garçons competem-se em servir os hóspedes que hora se reúnem na sala de jogos, onde alguns se divertem no jogo de bilhar e outros nas cartas. Ao canto do salão decorado nos moldes franceses, um sofá e duas poltronas com estofado em veludo vermelho estão ocupados por quatro ministros estrangeiros que saboreiam charutos oferecidos pela casa. Um homem de caderneta em punho aproxima-se da roda e faz a reverência. --- Então, senhor embaixador, assistis-tes a coroação do Imperador, pergunta o jornalista Arlindo de Castro do Jornal do Commercio ao inglês que lê atentamente a edição especial de domingo. --- Isto é um absurdo, diz o embaixador mostrando-lhe o jornal. --- Sir? Retruca o jornalista perplexo. --- Veja este anúncio. Aqui os escravos são vendidos como charutos. --- Mas isto é comum, meu senhor, todos colocam um anúncio quando se quer comprar ou vender alguma coisa, retruca o jornalista espantado. --- Então o senhor acha que comprar e vender escravos é uma coisa comum? Muito bem, mas qual a sua opinião sobre a proposta do novo gabinete conservador de aumentar os impostos para os produtos importados? As atenções se voltam para o jornalista que engole a saliva ressequida, emudecido. --- Não sou um político, senhor, apenas um jornalista. --- Significa quebrar o país, meu jovem, fala o embaixador sorvendo o whisky na arrogância peculiar dos senhores do mundo. --- Mas, senhor, os conservadores agora são maioria no governo e não vai ser fácil reverter esse quadro, fala o jornalista esperando o revide com o caderno em punho. --- Os conservadores são maioria por vontade do Imperador. A meu ver, isto não é um parlamento, é corrupção. --- Mas aqui sempre foi assim, senhor embaixador. O que se pode fazer? --- Nada, meu rapaz, nada. Um país movido à escravidão e que é governado por leis que não passam de meras sugestões, jamais alcançará coisa alguma. Mas então, o senhor deseja fazer alguma entrevista? Retruca o embaixador levantando-se educadamente e dirigindo-se à sacada. --- Sim, senhor embaixador. E já fiz. O jornalista fecha o caderno e desvia o olhar para o Duque de Linz que dá uma tacada no bilhar, arrancando aplausos dos que rodeiam. Ciúme de mucama A carruagem do senador Cavalcanti estaciona em frente ao pátio da Fazenda Cachoeira, onde os escravos mais velhos e o feitor João Raposo se achegam para recebê-lo. --- Aconteceu alguma coisa? Pergunta Deucleciano apeando do carro. --- O preto Simão meu sinhô, a cobra pegô ele no terrêro. Tava bem embaixo do rodo. Sei não..., responde o feitor tirando o chapéu. --- Onde é que ele tá? irtervém o senador. --- Eu fiz do jeitim que o senadô falô quando acontecê. Cortei em cruiz e larguei ele no lugá. Mais num deu muito já cumeçô miná sangue na cara. --- Ai, ai, ai.., deve de sê urutu, num sabe?, diz o senador balançando a cabeça em afirmativa e subindo a escada. --- O que nóis faiz patrão? Pergunta o feitor rodeado dos negros que, mudos, acompanham a conversa com os olhos. --- Dispois do armoço nóis vamo dá uma oiada no Simão, agora póvórta pru sirviço, finaliza o senador adentrando a casa acompanhado do filho. A mucama Joana traz a panela enfumaçada e coloca na mesa quando Deucleciano e o senador entram na sala tirando o guarda pó. --- Hum... que cheiro bom, murmura o senador se aproximando da mesa. --- É frango meu sinhô, diz a mucama voltando-se para a cozinha. --- Cadê a mamãe? Pergunta Deucleciano. --- Ó...meu filho, que bom que oceis chegáru, diz a sinhá Estefânia saindo do quarto. --- E estamos morrendo de fome, responde Deucleciano beijando-a no rosto e sentando-se à mesa. A mucama Joana está no corredor e ouve a conversa. --- E a festa, como foi, meu filho? --- A mema coisa de sempre, mulé. Missa, reza, janta, festa, musga e baile, num sabe? resmunga o senador servindo-se de arroz com o frango ensopado enquanto a sinhá não resiste à curiosidade. --- Tinha muita gente importante, meu filho? --- Nem lhe conto, minha mãe, e muitos vieram da Europa só para assistir à coroação. Ah, já ia me esquecendo. Trouxe o jornal que a senhora pediu. Depois do almoço eu leio tudo pra senhora, do começo ao fim, diz o filho com os olhos no prato que saboreia em mastigar apressado. --- E as moça da Corte, cunheceu arguma? --- É mulé, tô achano que seu fío ingraçô foi cuma purtuguesinha, diz o senador com ar de riso. --- Quem é ela, Deucleciano, eu conheço? --- Acho que não minha mãe, ela é a filha do barão de Vassouras, um conhecido de meu pai. Joana franze os olhos e volta para a cozinha com a cara emburrada, lembrando talvez das noites de amor com o sinhozinho de que tanto gosta, mas com o coração ferido. Um sentimento nunca antes experimentado invade a quadra dos seus dezessete. Ouve o sininho chamando-a e sai pela porta dos fundos em direção ao riacho que corta o quintal do casarão. Senta-se na pinguela e balança os pés descalços na água cristalina que corre em rumorejo discreto. Chora. --- Cadê a Joana? Pergunta o senador à mucama que atende ao chamado do sino cabresteiro. --- Sei não, responde a negra de cabeça abaixada. --- Trais mais frango, ordena a sinhá. --- Se o preço do café continuá subino nóis vai ganhá uma fortuna, meu fio. Se ocê quisé nóis pode inté comprá mais uma tantada de nêgo amódi abri ôta fazenda. --- Não entendo nada de café meu pai, responde Deucleciano espreguiçando. --- Não tem segredo ninhum, meu fio, é só arranjá um feitô de cunfiança que o negócio anda suzim, retruca o pai. --- Me conta mais da festa do Imperadô, conta, diz a sinhá afagando o braço de Deucleciano que retribui com sorriso atencioso. Um jantar de despedida No salão principal do palácio imperial a orquestra toca uma valsa em pianíssimo fazendo fundo ao jantar oferecido aos hóspedes estrangeiros. O Imperador, sentado na cabeceira da grande mesa é ladeado pelos convidados que degustam as iguarias brasileiras com os seus temperos picantes. --- Os americanos estão acirrando a concorrência com os ingleses, diz o conde de Lages ao Duque austríaco num francês vacilante. --- Os amerricanos nom preocupam a Europa. Eles produzem o algodóm e vendem aos ingleses. Depois os ingleses vendem o tecido para os amerricanos, retruca o Duque abocanhando uma coxa de leitoa. --- Não é o que se vê por aqui senhor, os navios americanos estão abarrotando os portos do Brasil com muita coisa que os ingleses não têm, diz o conde sorvendo o vinho do porto. --- Ferramentas parra a agriculturra e a trigo parra fazer farrinha, diz o Duque arrancando risos dos presentes. --- O Imperador precisa conhecer as cortes da Europa, cochicha ao canto da mesa a Condessa portuguesa à mulher do comerciante inglês. --- Dizem que ele é muito bem educado e já fala três línguas, retruca a lady. --- Com aqueles olhos azuis não vai ser difícil arrumar um bom casamento, responde a Condessa. O Imperador permanece quieto, embora atencioso. O professor Antônio Cândido parece dar-lhe segurança ao conversar indistintamente com todos os convidados, transmitindo-lhes confiança e retidão. E a música persiste, encantando e roubando a todo o instante a atenção do jovem monarca que não se contém em marcar corretamente o compasso com os pés. Após o orgasmo, uma promessa O terreirão da Fazenda Cachoeira está repleto de escravos a esparramar as cargas de café que chegam amiúde nas bruacas das mulas e nos carros de boi. O senador Cavalcanti e o filho Deucleciano fiscalizam o serviço acompanhados por dois feitores. --- E o preto Simão, como ele está? Pergunta Deucleciano. --- Nóis dexô ele na senzala, meu sinhô. A canela dele tava inchada que só veno. --- Vamo vê cumé que tá esse nêgo, intervém o senador dirigindo-se à senzala. Com a bota de pouco uso, Deucleciano pisa o café espalhado fazendo ranger no chão batido do terreiro abarrotado. Na porta da senzala, um cão de guarda com a coleira argolada à uma corda comprida late em posição defensiva, acalmado de pronto por um dos feitores que levanta o porrete da ordenança. Em silêncio, adentram na morada de horrores, escura, e úmida. Com um piso de pedra e desprovida de qualquer mobília, o aposento é um retângulo mofado cheirando à urina e à repugnância. Ao canto último, um negro está deitado sobre o colchão de pedra fria, tremendo em calafrios e convulsões, ladeado por uma negra velha que o abana com um feixe de erva fresca. Aproximam-se. Um pouco acima do tornozelo, a picada revela-se em necrose viva com um inchaço descomunal em toda a perna direita. Deucleciano revida em olhar o enfermo. --- O prêto Tubía já benzeu? Pergunta o senador. --- Sim sinhô, responde a negra com olhar cabisbaixo. --- Tá veno, meu fio, eu num falei que é urutu? resmunga o senador com mão no queixo observando o moribundo que verte sangue por todos os poros da perna mutilada. --- Meu Deus, será que ele vai morrer? Pergunta Deucleciano à negra que responde em negativa com a cabeça. --- Inda bem. Escuta aqui, fala pa véia Sabina fazê um cardo de galinha prêta, num sabe? Diz co cardo tem sustânça e que é bão pras força, ordena o senador retirando-se apressadamente. Deucleciano deixa a senzala com o rosto franzido e o olhar pensativo. Não consegue evitar o vômito advindo do fedor do inferno. --- Ara, meu fio, imbruiô o estâmo? --- Eu nunca tinha visto uma coisa assim, responde caminhando junto ao pai. --- Ano passado nóis perdeu dois nêgo, meu fio. Um morreu e o ôto fico alejado, num sabe? --- Os dois picados de cobra? --- É, meu fio, urutu e jararaca nessas banda é que num farta. Mais andano de bota as bicha num pega. --- E onde ele está, meu pai, o negro que ficou aleijado? --- Eu dei arfurria prêle, meu fio. É cumo dizia o meu pai: Nego que num presta po sirviço é mió morrê, num sabe? Morto num come. --- Ele foi pra onde? --- Rangei prêle trabaiá na cidade. Tá fazeno o carreto da bosta do paláço de Santana, fala o senador olhando as horas no relógio de bolso. --- Então, meu pai. Vamos ver como está a colheita? --- Vardivino, ranja dois cavalo que nóis vai dá umas vórta, ordena o senador a um dos feitores que sai apressado em direção à cocheira. O crepúsculo na Fazenda Cachoeira faz-se com céu limpo em prenuncio de uma noite mais fria. As mucamas retiram a mesa do jantar e a sinhá Estefânia acomoda-se no sofá junto ao filho, no aguardo da leitura digestiva. --- Onde paramos, Deucleciano? Pergunta a mãe coçando a barriga. --- Na morte da princesa, diz o senador fazendo um cigarro de palha sentado na cadeira de balanço. Deucleciano levanta-se e pega o romance português "O Punhal da Traição", com a página marcada à pena de arara. Tão logo começa a leitura, as mucamas trazem o café para o senador e sentam-se no chão, atentas à fala do sinhozinho. --- Só o amor em Cristo poderá salvá-la das trevas do inferno, e o convento é a única salvação para as pecadoras, diz Deucleciano lendo com voz pausada, provocando um sinal da cruz de imediato na mãe que o observa com olhos de águia. Não chega a três páginas e o bocejar de sono do senador indica o encerramento da novela. As mucamas se recolhem e Deucleciano fecha o livro despedindo-se dos pais. Lua nova em noite fresca, Joana aguarda com a porta semi aberta a chegada do coito costumeiro. Em silêncio felino, Deucleciano adentra ao quarto iluminado por um candeeiro que queima em cima da mesa ao canto. O bronze do corpo desnudo da mulata destaca-se na cama limpa e bem arrumada, fomentando-lhe o inchaço da verga. --- Minha pombinha, murmura baixinho vendo a mucama com as pernas abertas e as mãos roçando a virilha tentadora. Hipnotizado, o sinhozinho despe-se em apressado, caindo em seguida no catre morno e prazeroso do pecado habitual. Vagarosamente ele esfrega os dedos na vagina molhada e a penetração se faz em segundos, provocando-lhe em sussurrar abafado seguido de um beijo ardente e inesperado que suga a esponja rubra dos lábios carnudos da mulata. Cumula-se o orgasmo com a mulata sentada sobre o seu colo, gangorrando o corpo num sobe e desce gradativo e violento que absorve o jato de sêmen com uma roçada de unha nas costas. Escapa-lhe um murmúrio em pensamento: Lucíola...Será que ela é como a Joana? A mulata enrijece o corpo e desmonta do colo bruscamente, como que pressentisse o que o amante imaginara. Deitada de costas, ela permanece muda, como que de pirraça. --- O que é que deu em você, minha nega? Pergunta Deucleciano acariciando-lhe as pernas. --- Eu vi o sinhozinho falano que vai casá, responde Joana com o rosto voltado pra parede. --- Onde é que já se viu uma coisa dessas? Tá com ciúmes? Fala Deucleciano fazendo-lhe cócegas no corpo enrijecido. --- Se eu me casar, eu vou morar aqui na fazenda, minha flor, e a gente vai continuar se encontrando, diz enquanto veste a camisa. --- Eu queria que o sinhozinho me levasse na missa, na cidade. --- Tá bom, domingo eu te levo. --- Verdade? Murmura Joana levantando-se em alegria. --- Amanhã mesmo vou falar pra minha mãe arrumar-lhe um vestido. Não conte nada às outras, viu? finaliza dando-lhe um tapinha no rosto e logo voltando a seu quarto. Depois da missa, um passeio no largo A criação do novo Conselho de Estado e a lei aprovada em 3 de dezembro de 1841 que reformou o Código de Processo Criminal deixa os liberais ainda mais enfurecidos, já que estão fora do poder e nada pode ser feito para reverter a votação. O sino da igreja da Glória badala em chamamento contínuo para a missa dominical. Aos poucos chegam os fiéis com seus cativos carregando cadeiras e bancos para o conforto dos senhores que adentram ao templo majestoso, embora desprovido de qualquer mobiliário. Duplas de escravos carregam as patronas em serpentinas que lotam a parte direita da igreja, já reservada em praxe costumeira. Outras vêm deitadas em palanquins escorados por ombros de mucamas atléticas, que ali ficam a sustentar o peso das sinhás que geralmente dormem em preguiça hereditária. --- Glória in excélsis Deo, Et in terra pax homínibus bonae voluntátis, diz o pároco abrindo a missa ladeado por alguns coroinhas que gangorram o incenso no altar enfumaçado. --- Laudámus te, Benedícimus te, Adoramus te, Glorificamus te, Grátias ágimus tibi propter magnam glóriam tuam, respondem os fiéis de pé. O senador Cavalcanti e a família chegam atrasados e tomam assento em duas cadeiras, ambas sentineladas pelas escravas da sinhá Estefânia que ostenta, radiosa, um penteado tapa-missa, também alcunhado de trepa-muleque . A mucama Joana acompanha a patroa na qualidade de dama de companhia. Traja um vestido amarelo ouro e um lenço de cores que cruza os seios delicados. Os pingentes de prata nos lóbulos da orelha e um turbante apertado realçam-lhe em muito o rostinho bem feito e de olhar reluzente, que traduz ao observador a alegria e o privilégio de ser uma mucama diferenciada, embora com os pés calçados. Assiste ao culto numa cândida curiosidade, apesar do latim incompreendido. Um homem calvo e bem vestido a observa em relances esporádicos, de logo percebido pelo olhar da mucama que corresponde com um sorriso feiticeiro. Acertado o alvo, o homem leva a mão ao bigode opulento e coça lentamente o pelame da conquista. --- Per ómnia saécula saeculorum, diz o padre finalizando o culto de hora e meia. --- Amém, dizem os fiéis virando-se para a porta de entrada, ávidos por um ar mais fresco. Na primeira fila, o barão de Vassouras está com a mulher e a sobrinha Lucíola, que, ao ver Deucleciano, fita-o surpresa e sorridente. Com uma piscadela, ele corresponde discretamente ao flerte. O largo da igreja se desenha rapidamente num mosaico vivo com o misturar dos trajes excessivamente coloridos, misturados na confusão de sons de feira, provenientes das barracas improvisadas de camelôs miscigenados. O senador Cavalcanti desce a escada com a mulher enquanto Deucleciano acende um charuto, seguindo a jovem Lucíola com olhar malicioso. --- Vou visitar a Baronesa de Cascalho, meu filho. Me ajuda aqui, Joana, diz sinhá Estefânia de leque em punho, acomodando-se na cadeira de arruar. --- Não queres ficar mais um pouco, Joana? Pergunta Deucleciano à mucama que responde em afirmativa sorridente. --- Mas ela nunca saiu de casa, Deucleciano, vai acabar se perdendo no meio dessa gente, retruca a sinhá com a cara fechada. --- Ora, minha mãe, não te preocupes. --- Então até logo, meu filho, e não se esqueça da hora. --- Té logo muié, mais tarde eu ti busco, retruca o senador em ordenança aos dois escravos que saem ombreando a liteira. --- Acho queu vô tomá um vinho lá no armazém do purtuguês, num sabe? fala o senador olhando o relógio de bolso. --- Está bem, meu pai. Vou ficar um pouco por aqui e depois eu passo por lá. --- Tá combinado, fala o senador colocando o chapéu. Numa barraca de doces ao canto da esquina, uma negra de turbante vistoso grita a guloseima que prepara em tacho fervilhante. --- Ááá, cocááda... --- Não queres um doce, Joana? Pergunta Deucleciano enfiando a mão no bolso enquanto cainha em direção à barraca. O homem que flertara com a mucama dentro da igreja se aproxima dos dois. --- Bom dia, dotór, fala o homem provocando um susto em Joana. --- Ora vejam, seu Adib, como tens passado? --- Muito bem obrigado, seniór, reponde o homem em curvatura, fitando a mucama com sorriso cortês. --- Qui bileza, dotór, a negrinha é do seniór ? Pergunta o comerciante levando a mão ao bigode e franzindo a sobrancelha rumo aos olhos da mucama em timidez de cachorro sem dono. --- Ora, seu Adib, essa é a Joana, uma das preferidas de minha mãe, responde Deucleciano com ar de riso ao ver o galanteio do libanês. --- E a ropínia dela, onde a dotór gombrô? --- Foi minha mãe quem comprou, seu Adib, acho que foi na Casa Paris. --- Ora, dotór, braguê num foi na minha logínia? Nóis faz brêço bom bra família da senador, Retruca o homem provocando um sorriso na mucama, agora mais descontraída. A Baronesa de Vassouras passeia com a sobrinha Lucíola e se aproximam da barraca de doces onde Deucleciano se diverte com a conversa do comerciante. Por um momento, a moça retarda o passo e discretamente lança um olhar para Deucleciano. --- Com licença, seu Adib. Será que o senhor poderia tomar conta da Joana um instante? Eu volto logo. --- Mas é claro, dotór. Deucleciano se aproxima da Baronesa e gentilmente a cumprimenta com um beijo na mão, seguindo a reverência em direção à jovem Lucíola, que cora a face rosada num misturar de susto e alegria. Um homem desce a escada da casa do padre Feijó e sobe numa carruagem que sai em seguida. Deitado na cama e de jornal aberto ao peito, o padre resmunga em voz alta quando a mucama adentra ao quarto com uma bandeja de chá e um pratinho com broas de fubá. --- Mas isto é um absurdo, murmura o padre colocando a bandeja no colo e servindo-se do dejejum. --- O dotô falô pru sinhô num fazê isfôrço e pa num lê jorná, diz a mucama que tanto prazer carnal lhe dera ao longo dos anos. --- Maria, mande alguém chamar o senador Cavalcanti. Ele deve estar no largo da Glória ou no Armazém Progresso, ordena o padre com olhar pensativo enquanto mastiga a guloseima predileta. No largo da praça, Deucleciano beija a mão da Baronesa e toca levemente a mão de Lucíola, visivelmente encantada com a prosa de minuto. --- Foi um grande prazer, diz em voz baixa. --- Doutor Deucleciano, quando vier à cidade não deixe de nos visitar, diz a Baronesa observando a alegria estampada no olhar da sobrinha que traz como filha. --- Certamente, minha senhora. Até logo. Deucleciano volta-se para a barraca e flagra o libanês em palestra festiva com a mucama que, estacada, ouve atentamente o gesticular do estrangeiro. --- Muito obrigado, seu Adib, até outra hora. Agora vamos, Joana, temos que pegar o meu pai no armazém do seu Pereira, diz Deucleciano despedindo-se do amigo. --- Até logo, dotór, qualquer dia vou até a fazenda mostrar umas novidades brá sinhora sua mãe. --- Será um prazer, seu Adib, apareça quando quiser, responde Deucleciano retirando-se. No virar da esquina onde as carruagens de aluguel fazem o ponto, Joana não resiste à curiosidade de olhar para trás e flagrar o comerciante parado no mesmo lugar. Ele acena discretamente e ela corresponde com um sorriso. Volta-se para o patrão e entram no carro de um cocheiro conhecido. --- Pois não, doutor. --- Vamos para o Armazém Progresso. --- Se estás à procura do senador, eu acabei de deixá-lo na casa do padre Feijó, senhor, diz o cocheiro segurando o chapéu sobre o peito. --- Então é prá lá que vamos. Na biblioteca do senador Feijó, um bule de latão esmaltado entorna lentamente o café enfumaçado numa xícara de porcelana servida ao senador Cavalcanti. --- E o pior é que não podemos fazer nada, senador, diz o padre Feijó sentado numa cadeira de rodas. --- Qué dizê que o amigo acha qui o Imperadô tem pudê prá fazê o qui quisé? --- Acho até que ele pode influenciar esse tal de Conselho de Estado a ponto de anular a eleição. Aliás foi pra isto que esse Conselho foi criado, responde o padre pegando o cigarro de palha do senador, tragando-o e devolvendo-o rapidamente. --- Ara, padi, o dotô mandô o sinhô cortá o cigarro, num sabe? fala o senador vendo o amigo definhado pela fatalidade. --- Não tenho muito tempo de vida, senador. Acho que vou vender minhas propriedades e mudar para São Paulo. Lá tenho meus parentes e pretendo passar o tempo que me resta perto da família, diz o padre absorto olhando a porta cerrada. --- Ara, padi, mais aquilo é muito longe. Logo o sinhô mióra dessa bucha e vórta a andá de novo. --- Não, meu amigo, eu sei o que estou dizendo e já me decidi. Mas prometo que manterei contato com os amigos. --- Já que o amigo tá dicidido, se o sinhô num si importá, eu posso ficá com a casa. É bom tê uma morada na cidade, padi, inda mais co Deucleciano quereno divogá, a friguizia do sinhô já passa prêle, num é certo? --- Ótima idéia, senador. Ficarei muito mais tranqüilo com Deucleciano ocupando a minha biblioteca e meu escritório. --- Antão é só o amigo butá preço qui nóis fecha negócio, diz o senador levantando-se e contemplando a estante abarrotada de volumes raros da jurisprudência lusitana. Eleições anuladas, o estopim A eleição para a Presidência das Províncias e para a Câmara dos Deputados se fazia em sala fechada e com voto declarado em aberto. Na maioria das vezes, contava com a presença de alguns poucos que sugeriam alguns nomes para a Câmara ou para ocuparem as pastas mais cobiçadas de primeiro e segundo escalão. A mesa, como sempre presidida pelos chefes políticos locais, aprova os nomes previamente combinados, ignorando por completo qualquer resultado contrário. Envia-se então a Ata das eleições para a aprovação do Imperador e dá-se a posse. Como Presidente de Província, o eleito nomeia os juízes e os delegados de polícia para todas as vilas e freguesias, ficando então com todo o poder local nas mãos, subordinado apenas pelo poder moderador, este exercido indiretamente pelo Monarca através do Conselho de Estado *. Não foi bem assim nas eleições de 1842. Os liberais fazem maioria para a Presidência das Províncias e para a Câmara dos Deputados. Pressionado pelos conservadores que alegam ter havido fraude nas eleições, a bico de pena o Imperador anula o pleito e nomeia os substitutos para tomar o lugar de alguns liberais que já comemoravam antecipadamente a vitória. Os jornais, na maior parte de propriedade dos liberais, se encarregam da publicidade pró revolucionária e uma grande campanha na imprensa e nos clubes agita a opinião pública das minorias letradas. Na Casa de Câmara e Cadeia de São Paulo, o então eleito presidente interino da Província, brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar acaba de prestar o seu juramento quando recebe a notícia da anulação de sua posse e da dissolução das Câmaras. Foi como uma punhalada nas costas. --- Cambada de filhos da puta, murmura o brigadeiro com a boca espumada subindo novamente à tribuna onde toma a palavra. --- '' Paulistas, os fidelíssimos sorocabanos, vendo o estado de coação a que se acha reduzido o nosso augusto Imperador por essa oligarquia sedenta de mando e riqueza, acabam de levantar a voz elegendo-me presidente da Província para debelar essa hidra de trinta cabeças que por mais de uma vez tem levado o Brasil à borda do abismo... Os descendentes do ilustre Amador Bueno sabem defender os seus direitos a par da fidelidade que devem ao Trono. A união e a pátria serão salvas...'' --- Excelência, mas o que se pode fazer contra uma ordem vinda do governo de Sua Majestade? Pergunta um assessor. --- Aqui ninguém toma posse da cadeira que é minha pela vontade dos eleitores paulistas, não enquanto eu for vivo, responde o presidente eleito Rafael Tobias. --- Mas, senhor presidente, não devemos nos precipitar. Ainda não temos a certeza de que Minas e as outras Províncias vão aderir ao nosso levante, argumenta o juiz Mena Coutinho. --- Mande uma mensagem ao doutor Teófilo Otoni e diga que contamos com a adesão de Minas para marcharmos juntos até a capital do Rio de Janeiro. Não fomos nós que declaramos essa guerra, doutor Coutinho, mas sim aquela corja de conservadores não admite derrota. --- Santo Deus, retruca o juiz em negativa com a cabeça prevendo uma carnificina sem precedente. O levante Um carro puxado por uma parelha de cavalos negros rompe o paço de Santana em velocidade diferenciada e pára defronte ao palácio, chamando a atenção da chusma de indigentes e camelôs que por ali se abeira. O jovem Imperador de 17 anos lê em voz alta um trecho de um romance em francês ao professor Félix Taunay, que o escuta com atenção. Ouvem-se três batidas à porta e irrompe o mordomo Paulo Barbosa numa reverência apressada. --- Majestade, soubemos que há um levante no interior da Província de São Paulo e que os revoltosos estão decididos a invadir a capital. --- Peça ao barão de Caxias e ao ministro da guerra que venham aqui imediatamente, ordena o Monarca fechando o livro em palmatória. Na manhã de 17 de maio de 1842, a vila de Nossa Senhora da Ponte de Sorocaba presencia uma cena histórica. Garbosamente montado a cavalo e com uma força de quase dois mil homens sob o comando do major Francisco Galvão de Barros França, o cabecilha do levante, Rafael Tobias de Aguiar faz um pronunciamento em nome do Imperador e conclama os paulistas a aderir ao movimento contra a anulação das eleições e a deposição do presidente imposto, barão de Monte Alegre. Formou-se, de chofre, uma gamela considerável de voluntários da Guarda Nacional, todos hipnotizados pela causa liberal explícita em discursos inflamados. Também na vila de Campinas organizam-se forças favoráveis ao levante. Com carta branca e total apoio do ministro da guerra José Clemente Pereira que já providenciara ao coronel Silva Castro da comarca de Curitiba o cerco de acesso à capital paulista dos liberais republicanos do sul, o general Luiz Alves de Lima e Silva deixa o Rio de Janeiro a 19 de maio e no dia seguinte chega à ilha de São Sebastião com um corpo de artilharia e dois batalhões de caçadores. Já em terra, o coronel Amorim Bezerra aproxima-se do barão de Caxias que está ladeado por alguns oficiais. --- General, meus homens já estão a postos, senhor. --- Coronel Bezerra, vamos mandar um batalhão de caçadores subir por terra até Guaratinguetá e fazer um cerco também em Mogi das Cruzes. Providencie o que for necessário, coronel, com urgência. --- E o corpo de artilharia, senhor? --- Vai comigo até Santos, coronel. Depois subimos a Serra de Cubatão e entraremos na capital, diz o general correndo o dedo num mapa. --- Nossas provisões estão à mingua, general. Não temos ração sequer para uma semana. --- Uma semana, coronel? Em dois dias tomaremos a vila de São Paulo e depois vamos cercar a estrada de Pinheiros. Por certo os rebeldes ainda não estarão lá quando chegarmos, retruca o comandante grifando a vila de Sorocaba com um círculo. As forças do brigadeiro Rafael Tobias chegam triunfantes na vila de Nossa senhora da Candelária de Itú e aumenta seu contingente de voluntários, partindo confiantes para a capital paulista na certeza de não encontrar qualquer resistência. Ao cabo de dois dias de marcha, um cavaleiro da Guarda Nacional de São Paulo chega ao encontro dos revoltosos. --- Alto, diz o major Francisco Galvão levantando a mão enquanto o cavaleiro se aproxima. --- Major, o barão de Caxias já tomou a vila de São Paulo e todas as estradas para a capital estão cercadas, senhor, diz o soldado abrindo o surrão da sela e entregando-lhe uma carta. De cima da montaria, o major lê a missiva coçando a nuca. '' Sr. Major Galvão. Que pretende? Quer, com efeito, empunhar as armas contra o governo legítimo do nosso Imperador? Não o creio, por que o conheço de muito tempo, sempre trilhando a carreira do dever e da honra. Eu aqui estou, e não lhe menciono minhas forças para que não julgue que exagero. Aguardo a resposta e peço que não se deixe fascinar por vinganças alheias'' Acampamento de Pinheiros, 26 de maio de 1842. Seu amigo e camarada, Barão de Caxias. --- Meu Deus, murmura o major dobrando a carta e desmontando o animal, entregando-a ao brigadeiro Rafael Tobias, fiscalizados por centenas de olhares indagativos. --- Creio que devemos acampar, major, depois veremos o que fazer. --- Desmontar, grita o major com a boca seca, voltando os olhos para o chão, batendo fortemente o quepe na farda empoeirada. A fama do abafador de revoltas põe grande parte dos voluntários do brigadeiro Rafael Tobias em prenúncio de mudança de opinião. Dão-se deserções incontáveis conforme corre o boato de que o destemido general não vai poupar os traidores de Sua Majestade. Passam-se poucos dias. Alheios às manobras do barão de Caxias, partem os revoltosos rumo a vila de Campinas com 400 homens e duas peças de ferro para tomar a cidade que também se encontra sitiada pelas tropas legalistas. Fatigados pela marcha forçada, a coluna dos revoltosos acampam nas proximidades do arraial da Venda Grande quando são atacados de surpresa pelas forças de cavalaria do Padre Ramalho e por um batalhão de 120 infantes de artilheiros da Guarda Nacional, todos comandados pelo coronel Amorim Bezerra. Em meio à refrega de tempo curto e a um tiroteio apavorante, os revolucionários paulistas caem em debandada descomunal, embrenhando-se mato adentro feito para não serem massacrados. Acampado junto a uma ponte sobre rio Pinheiros, o barão de Caxias está reunido com seu corpo de oficiais. --- O coronel Bezerra tomou a vila de Campinas, general. Houve um combate numa tal Venda Grande mas saímos vitoriosos, senhor. Ele está no aguardo de novas instruções, diz o coronel José Leite Pacheco apresentando-lhe o relatório. --- Muito bem, coronel, acho que chegou a nossa hora. Vamos ataca-los de frente, diz socando a palma esquerda com a destra fechada. Uma coluna seguirá para a vila de Itú onde encontrará com as forças de Campinas. Nós iremos em direção à estrada de Sorocaba. Mande esta mensagem ao coronel Bezerra e peça que parta o quanto antes, ordena o barão roçando a barbicha. No acampamento revolucionário do major Francisco Galvão, um cavaleiro chega montando um baio à rédea solta. Desmonta e vai de encontro ao major. --- O exérço já tomô a Vila de Campina, seu majó, e tão vino pra cá. --- Tomaram Campinas? E onde estão nossos homens? --- Nóis tava acampado na Venda Grande, seu majó. Foi quando eis chegaro numa galopêra que num deu tempo de fazê nada, meu sinhô. Deus do céu, nunca vi tanto tiro na minha vida. O major Galvão arregala os olhos, lamentando-se. --- Muitos mortos? --- Num deu pa contá, meu sinhô, mas deve de tê morrido muita gente. --- E o brigadeiro Tobias? --- Fugiu po mato, seu majó, e o resto tumém sumiu no mundo, diz o soldado sorvendo a água do cantil enferrujado. --- Então o brigadeiro também fugiu? --- Era muita gente do lado deis, meu sinhô. Era ficá e morrê, responde o soldado de cabeça baixa. Por instantes, o major Galvão tenta não transparecer esmorecimento aos que o rodeiam. Olha para o céu azulado e fecha os olhos, ficando imóvel e com as mãos entrelaçadas às costas. --- Capitão, vamos levantar acampamento e voltar pra vila de Sorocaba. Lá resolvemos o que fazer, retruca o major Galvão admitindo prevendo o fracasso. Volvendo pela mesma trilha, vez ou outra o major olha para trás e percebe o ralear da tropa já descrente e sem comando. As deserções ocorrem em repentino, com os fugitivos adentrando nas veredas desconhecidas a divorciarem-se do regimento que escasseia a cada légua interminável. Amanhece com tempo frio e seco, com o largo da Matriz da vila de Sorocaba em completo vazio, sem uma alma sequer. Uma carruagem se aproxima do adro guiada por um homem de cabelos esbranquiçados trajando uma farda rota e empoeirada, em companhia de uma mulher que traz a cabeça envolta num véu escuro. Apeiam e sobem a escadaria quando o padre abre a porta e os recebe com certa formalidade, como se já estivesse os esperando. Em pouco, adentram à igreja e a porta é trancada. --- Padre Romualdo, gostaríamos que o senhor celebrasse o nosso casamento. Já temos as testemunhas e queremos um cerimônia bem simples, diz o coronel apoiando o braço da mulher que se mantém calada. --- Mas, senhor, não é tão fácil assim. Antes, eu preciso ver os documentos, retruca o padre enquanto o homem retira do dólmã um envelope que traz o sinete do Bispo de São Paulo. --- Esta carta é destinada ao senhor, padre Romualdo. Foi escrita em novembro do ano passado, mas só agora é que pude lhe entregar. O pároco abre o papel lê pausadamente, quando leva a mão ao queixo num misto de espanto e perplexidade. ''Concedemos licença a qualquer Reverendo Sacerdote a quem esta for apresentada, para receber em matrimônio o coronel Raphael Tobias Aguiar com a excelentíssima senhora Domitila de Castro Canto e Mello, a Marquesa de Santos'' --- Meu Deus, é o senhor, coronel? Pensei estivesse lutando na Capital, diz o pároco a observar a amante do Imperador Dom Pedro I que se mantém calada. --- Estou aqui, padre Romualdo, em carne e osso. Queremos nos casar imediatamente. O que dizeis? --- Não posso deixar de atender a um pedido do Bispo, coronel. Podemos marcar para hoje à tarde, aqui mesmo na Matriz. --- Gostaria que fosse na minha casa, padre, ao meio dia, se estiverdes de acordo. --- Pode contar comigo, coronel. --- Sou-vos muito grato, padre, e gostaria que o senhor mantivesse sigilo sobre esse assunto. --- Não se preocupe, coronel, hoje à tarde vocês estarão casados, com a benção de Deus. Na hora marcada, duas carruagens estão paradas em frente à casa do brigadeiro Rafael Tobias Aguiar quando uma chuva rala cai sobre a vila despovoada. Na sala, defronte ao padre Romualdo, ajoelhados sobre um genuflexório almofadado, os noivos recebem uma borrifada de água benta ao término da curta cerimônia. --- Eu os declaro casados, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. O coronel se levanta e beija discretamente a noiva, recebendo em seguida os cumprimentos do pároco e das duas testemunhas. --- Onde é que assinamos, padre, diz o capitão Francisco Xavier de Barros embutido numa farda de gala. --- Aqui, capitão, logo abaixo dessa linha, diz o padre abrindo um livro grosso cheirando a medo. A outra testemunha é um homem velho, de cabeleira grisalha e face carrancuda que está sentado em uma cadeira de rodas. O pároco estende-lhe o livro e a pena, ao que ele assina com dificuldade: Senador Diogo Antônio Feijó, testemunhando a certidão no dia 14 de junho de 1842. No mesmo dia, após uma ceia modesta, partem os noivos numa carruagem com destino ignorado em meio a uma chuva fina. Cinco dias se passaram quando chega a Sorocaba a coluna do major Galvão já desfalcada em 200 homens. À frente, vem o comandante capengando na montaria estropiada. Um negro com parnaíba à cinta se aproxima do major, ajudando-o a desmontar do alazão emagrecido. --- As tropa tão chegano, meu sinhô, num tem légua e meia daqui, fala o negro apontando a furna que se desenha ao longe, presenciando a cara de espanto do major que vê uma mancha escura movimentar-se ao longo de uma capoeira distante, certamente o batalhão do Barão de Caxias no encalço dos rebelados. --- Não há nada a fazer, senhor, eles são muitos e tem artilharia pesada, diz um ordenança mirando a furna com um binóculo. --- Um dia haveremos de ver a justiça triunfar em nossa pátria, diz pausadamente o major, desmoralizado e visivelmente estonteado, saindo em debandada rumo a um trilho no meio de um mato fechado. Galga a restinga ao norte como uma raposa despistando os cães, sozinho e sem olhar pra trás. O mesmo se dá com os outros. Cada um para um lado, a esmo, abandonando as armas pesadas e as montarias aguadas sem mesmo tirar-lhe os arreios, embrenhando-se mato adentro feito saracuras amedrontadas, abrindo picadas a facão cego pelas veredas desconhecidas. E o sertão se revela, novamente, como a morada dos vencidos. De regente a prisioneiro A 20 de junho de 1842 as tropas do barão de Caxias entram triunfantes na vila de Sorocaba com uma minguada população gritando vivas ao Imperador. No alpendre de uma casa de esquina, o padre Feijó está sentado em sua cadeira contemplando o desfecho da derrota, estático e pensativo, por certo ruminando a tristeza de haver presenciado o evaporar do regimento que ele próprio idealizara. As tropas do exército chegam na praça com o general Luiz Alves de Lima e Silva à frente, garboso e de queixo empinado. O padre o vê desmontar e logo chegar um soldado a entregar-lhe um papel. O soldado aponta a casa onde está o padre e o general pára por um momento, contemplando-a na postura de uma catedral. Em pouco, caminha vagarosamente de encontro ao seu ocupante que agora o encara de frente, na passiva imobilidade dos rendidos. --- Em nome de Sua Majestade o Imperador, o senhor está preso, diz o general fitando a sobrancelha em circunflexo do regente que outrora fora seu chefe e que lhe ensinara ser impiedoso com os revoltosos. --- Como quiser, general, o que está feito está feito, responde o padre Feijó embutido na vergonha, imóvel na paralisia e cabisbaixo na impotência. Retorna o Barão de Caxias à capital trazendo seu único prisioneiro. No palácio do Campo de Santana, Sua Majestade o Imperador e todo o gabinete conservador recebem o general Luiz Alves de Lima no salão principal do velho casarão. --- Bom trabalho, general, fala o jovem Monarca, jubiloso, condecorando-o com uma medalha ao som de muitos aplausos. --- Majestade, sequer dei um tiro, responde o barão de Caxias provocando risos em todo o ministério. --- Não me diga, general, então não houve luta? --- Houve um combate nos arredores da vila de Campinas, Majestade. Sofremos duas baixas contra dezessete da parte deles. --- Fizeste prisioneiros? --- Somente uns quinze que ficaram feridos, mas o resto fugiu no rastro dos cabeças. Mas devo dizer que trouxemos um prisioneiro em especial, Majestade, o chefe do movimento. O jovem Pedro de Alcântara enche o peito e leva a mão ao rosto, acariciando a lanugem como se fora um homem feito. --- Bravo. E quem é o tal prisioneiro, meu general? --- O padre Diogo Antônio Feijó, Majestade. Ele é quem foi o mentor do levante em Sorocaba, juntamente com o brigadeiro Rafael Tobias Aguiar. Eles também mantinham um panfletário que usavam para denegrir a imagem do ministério. --- E esse tal jornal? --- Queimamos e lacramos a área, Majestade. --- E o brigadeiro Tobias, não o prendeste? --- Pelo que conseguimos apurar, esse também fugiu. --- E onde está o senador Feijó? --- Recolhido na cadeia do quartel aqui na capital, aguardando vossa augusta decisão, responde o general curvando a cabeça avolumada. --- Depois cuidamos do senador Feijó. Agora temos um assunto mais importante a tratar, diz o jovem Pedro apontando a sala de reunião aos ministros. Para ciúme dos ministros, o barão de Caxias toma assento ao lado do Imperador que abre uma maleta de couro. --- Senhores, parece que o clero quer nos derrubar, fala o Monarca abrindo uma pasta e provocando risos forçados. --- Majestade, permita que eu relate as notícias do norte? intervém o ministro da guerra abrindo um mapa sobre a mesa. --- Prossiga, diz o Imperador em afirmativa com a cabeça. --- Um certo padre Manoel Teotônio de Castro não aceitou a nomeação das autoridades na vila de Lorena e ameaçou de morte quem quer que fosse tomar posse. --- A história se repete, diz o general encarando o ministro. --- Um subdelegado da vila de Silveiras não deu importância aos proclames do padre Manoel de Castro e foi tomar conta do seu posto. Um pelotão chefiado pelo padre invadiu a cadeia, levou o subdelegado para a praça e o executou ali mesmo, sem julgamento e sob os aplausos do povo. --- O que tem a dizer, general? --- Creio ter que prender mais um padre, Majestade, responde o Cabo de Guarda do império, olhando o Monarca que o observa com as mãos entrelaçadas sobre a mesa. --- Não desta vez, meu caro barão. Com a notícia do fracasso da rebelião de Sorocaba, esse padre Manoel Teotônio de Castro e seus asseclas parece que desistiram da luta. --- Neste caso, creio que devo voltar para São Pedro do Rio Grande e por um fim na resistência Farroupilha do Bento Gonçalvez, diz o general acariciando a barbicha incrustada abaixo do lábio ressequido. --- Ao contrário, general, a guerra civil parece não ter fim, diz o Imperador apontando para o ministro da guerra José Clemente Pereira que novamente faz uso da palavra. --- General, uma outra revolta explodiu em Minas, precisamente em Barbacena, quase que ao mesmo tempo do levante de São Paulo. O líder é o coronel José Feliciano Pinto Celho, que foi eleito presidente da Província. E o pior é que o povo aderiu ao movimento com bastante entusiasmo, principalmente nas vilas do Pomba, Queluz, Caeté, Santa Bárbara, Sabará e sabe Deus quantas mais. Dizem que eles já tem um contingente superior a dois mil homens. --- E parece que já tomaram São João d’El Rei onde estabeleceram a sede provisória de um governo republicano, general, intervém o monarca mostrando indignação à fragilidade de seu posto. --- Meu Deus. O que sugere Vossa Majestade? --- Que partas imediatamente para as Minas Gerais, general, e sufoque de vez esta rebelião custe o que custar, retruca o jovem batendo o punho cerrado na mesa, rangendo a dentição já apodrecida. --- Vou precisar de mais duas colunas e também de artilharia pesada, Majestade. --- Faz o que achares melhor, meu caro barão, seja a que custo for, mas prenda esses bandidos, diz o Imperador levantando-se e pondo fim à reunião. Os ministros saem da sala mas o Imperador faz sinal para que o Barão de Caxias fique. Ao que todos se retiram o monarca vai até a janela e fica pensativo por instantes. Leva a mão à penugem do queixo e volta-se para o amigo. --- Conversaste com o senador Feijó? --- Sim, Majestade. Aqui tem algumas cartas que ele me escreveu contando o motivo que o levou a liderar o levante, responde o general entregando-lhe um maço de papel. O Imperador lê calmamente uma carta e volta-se para o barão. --- O motivo parece ser o mesmo, general, vaidade e rixa pessoal com os adversários políticos. --- O padre foi categórico em afirmar que não aceita a nomeação do barão de Monte Alegre para presidir a Província de São Paulo, Majestade. Pelo que sei, esta briga não é de agora. --- Então, o que faremos com ele? --- Creio que devemos mantê-lo na prisão, mas longe daqui, pelo menos até acabarmos com a revolta de Minas. --- De acordo. Mande uma escolta leva-lo à prisão da Província do Espírito Santo para aguardar o julgamento. --- Sábia decisão. É bom mantê-lo longe dos amigos e deixar que o tempo se encarregue de penitenciá-lo. --- Outra coisa, meu general, não deixe que o maltratem, sim? E providencie para que não lhe falte nada. Recolhido numa cela isolada, o padre Feijó passará seis meses em total isolamento, aguardando na condição de traidor do Império um julgamento por conspiração. O cotidiano Amanhece na Fazenda Cachoeira com a algazarra de pios da passarada silvestre. Pintainhos recém chocados desabrocham da asa mãe e vão na trilha do ciscar materno em busca do tesouro garimpado à pinça dos bicos diminutos, recompensado vez ou outra pela mão santa de um negro velho que atira-lhes um quinhão da quirera miraculosa. --- Pi, pi, pi... Sentados à mesa, Deucleciano serve o café e mergulha na xícara um pãozinho ainda morno, sorvendo-o em gula previsível. Fica a observar entretido no prato de sopa. --- Então meu pai, tens notícias do padre Feijó? --- Tem não, meu fío. Mas os cumentário na cidade é que o barão de Caxía cabô ca narquia de Sam Pálo, num sabe? O medo que eu tenho é do padi Fejó tê si metido nessa ingrizia. Sei não... --- E a correspondência, meu pai? --- Num chegô mais nenhuma carta depois que compramo a casa dele, meu fio. Pelo jeito, deve de tê acuntecido arguma coisa. O padi parô de escrevê duma hora pa ôta. --- Vou até a cidade e amanhã trarei notícias, meu pai, diz Deucleciano aproximando-se do porta chapéu e olhando-se no espelho. Joana está ombreada na porta do corredor da cozinha, ouvindo a conversa. --- E a moça, meu fío, aquela subrinha do barão de Vassôra? --- Pois é, meu pai, fui convidado para um sarau ainda hoje no palácio do barão, diz virando-se para o pai que solta uma risada bonachona espalmando as mãos. --- Num me fala. Qué dizê cocê já tá botano o zóio na frúita, meu fio? --- A Baronesa de Vassouras é quem me convidou, meu pai. Acho que ela faz gosto nesse casamento. --- Divagá com o andô, num sabe? Primêro pricisa sondá o dote. --- Ora, meu pai, ainda é cedo pra se falar em casamento. É só um sarau de um pianista que chegou da França. Dizem que ele vai ensinar na corte e a Baronesa quer recebê-lo com alguns convidados. --- Ããã...musga é bão, fala o senador levando o cigarro à boca. --- Até amanhã, meu pai, diz Deucleciano colocando o chapéu, vislumbrando a mucama Joana que está rente à porta do corredor da cozinha, escorando o pé direito na canela esquerda. Com uma peneira apoiada na barriga ela cisca o arroz e o segue com os olhos semi abertos, franzindo levemente a sobrancelha ao ver o amante descer a escada e galgar a carruagem. Um clarim nas Alterosas O segundo Gabinete de Dom Pedro de Alcântara, empossado a 23 de março de 1841, não só foi o responsável pela dissolução da Câmara e pela anulação da eleição dos Presidentes das Províncias, sob a alegação de fraude, o que motivou a chamada Revolução Liberal. As medidas de exceção impostas pelo governo de Sua Majestade Imperial vão mais além do que consta na versão oficial dos fatos: Exige-se o salvo-conduto para o livre trânsito na Corte e nas Províncias rebeladas, autoriza o governo mineiro na pessoa do seu Presidente ''legítimo'' Bernardo da Veiga a prender indivíduos suspeitos em crimes de conspiração e sedição, convocam-se às armas todos os guardas nacionais da reserva em gozo de licença para juntarem-se às forças legalistas, suspendem-se direitos constitucionais na Província do Rio de Janeiro e detém-se como suspeitos por adesão ao movimento os doutores Torres Homem e França Leite, além do desembargador Limpo de Abreu e outros tantos menos desavisados. A notícia se espalha rapidamente, surtindo o efeito desejado. Várias agremiações como Os Patriarcas Invisíveis tem seus membros perseguidos por suspeição de insurreição e conspiração. As prisões se fazem com violência e em tempo curto, ao contrário da lerdeza secular dos revolucionários mineiros que levam semanas debruçados sobre a ferrugem da dúvida, postergando uma ofensiva militar ainda em estado de limbo. Enquanto isso, as entradas principais da fronteira dos Gerais, bem como Ouro fino, Baependi, Rio Preto, Paraibuna e Sapucaia já estão vigiadas permanentemente para facilitar a entrada das tropas governistas, todas com regimentos bem equipados e sob o comando dos mais experientes oficiais. Dois dias após a chegada do general Luiz Alves de Lima ao Rio de Janeiro e sem o devido descanso que a campanha de trinta dias em São Paulo assim exigiria, ele parte em marcha forçada rumo ao topo dos lendários chapadões da fortuna, o berçário das gemas raras e dos veios colonizadores. Ao cabo de seis dias chega com 800 homens à vila de Barbacena, a sede da rebelião, que já se encontra tomada pelas forças aliadas. Não dá trégua ao cansaço. No quartel improvisado nas repartições da Câmara, reune-se apressadamente com seus comandados. Entre os oficiais está um de seus irmãos, o coronel José Joaquim de Lima e Silva, que acabara de chegar ao ponto combinado com outra coluna. --- Senhores, o tempo urge, diz o general abrindo um mapa enquanto sorve uma caneca de café. --- Quais os planos, general, pergunta o coronel José Feliciano de Moraes. --- Coronel, o senhor ficará no comando militar aqui em Barbacena até a chegada da coluna do Souza Freitas. Depois receberá as devidas instruções. O coronel José Joaquim mantém-se discreto, observando atentamente as ordens do irmão, o maior dos espelhos. --- E quanto a mim, general? Pergunta-lhe José Joaquim. --- Tua missão vai ser tomar a vila de São João d'El Rei, coronel, e deves partir ainda hoje. Quanto a mim e ao coronel Leite Pacheco, seguiremos para Ouro Preto. Alguma pergunta, senhores? Na lavra de candidatos à História, parte a cruzada de ociosos enfezados laçados à tentadora paga, com o soldo sobrepujando à causa, no encalço aos resmungos protestantes dos que advogam o justo libelo, tendo o general Luís Alves de Lima à frente da inscrição. As taperas mumificadas a jusante dos trilhos macabros e as choças sem qualquer resquício de mora, não o fazem esmorecer, ao contrário, as ignora, hipnotizado pela imensidão dos morros ferrosos e maninhos, irmanados pela infertilidade repelente que os divorcia de qualquer agricultura primitiva, qualquer assentamento duradouro, exceção feita somente à variedade imensa de arbustos doentios que persistem em residir na epiderme das fragas, amiúde ensaboadas pelo hálito pegajoso da neblina sempre em visita. Nenhum sinal de qualquer garimpeiro teimoso, vestígio algum dos posseiros da rocha. Ma são muitos os tropeços e empaques através dos caminhos pedregosos por entre aquele monstruoso cemitério de serras, adornadas por desfiladeiros temerosos e salpicados de ladeiras traiçoeiras, entremeadas de paredões trincados e aclives muita vez intransponíveis. As peças de artilharia, locadas na retaguarda da soldadesca afeiçoada à façanha de penitentes, são puxadas por bois de carro onde alguns negros munidos de foice e enxada aparam-lhes as dificuldades, quase sempre com o sucesso posto à deriva. Mas segue a coluna em passadas mancas e vacilantes vingando a ribalta dos picos solitários, estóica, embora em fastígio de promessa impensada, rumo aos outeiros gigantescos dos Gerais desconhecidos. --- Senhor, não achas que devemos descansar um pouco? --- Ânimo, coronel, ânimo. Boi que chega primeiro na lagoa é que bebe água limpa, retruca o comandante em chefe sem olhar para o coronel que não se farta em enxugar o rosto suado. --- Quantos dias de marcha o senhor calcula, general? --- Quantos forem necessários, coronel. O mais importante é chegarmos na capital antes do inimigo. Isto feito, ganhamos a batalha. Ao cabo de onze dias desde sua partida do Rio de Janeiro, para surpresa de toda a tropa, chega o barão de Caxias à vila de Ouro Preto debaixo de vivas dos populares, encabeçados pelo presidente nomeado da Província, Bernardo da Veiga. --- Graças ao bom Deus que chegaste a tempo, senhor barão. Venha, temos muito que conversar, diz o presidente cumprimentando o comandante visivelmente surrado pela marca de tempo nunca dantes alcançada. Tristonho e absorto após testemunhar o estado calamitoso de todos os povoados por onde passou, ele corre os olhos pelos viventes que o cercam, exemplos vivos de uma existência de estanho, todos na mais completa miséria humana, embora jubilosos pela chegada do herói a quem os panfletos situacionistas não se furtaram a propagar-lhe fama de O salvador de Minas. --- As outras colunas ainda não chegaram, senhor presidente? --- Pelas informações de que dispomos, devem chegar em um ou dois dias, senhor. Agora me acompanhe, seus aposentos já estão preparados, diz p presidente apontando para o monumental palácio da sede do governo, doravante a casamata da oficialidade. A muitas léguas de Ouro Preto, os revoltosos já se encontram acampados junto a um riacho nas proximidades da vila de Sabará. Reunidos numa barraca, os cinco líderes ignoram por completo que sua capital já fora tomada pelas tropas do barão de Caxias. O cabecilha José Feliciano mostra-se entusiasmado após o pequeno combate em Queluz onde as forças locais caíram em debandada diante da superioridade do exército revoltoso. --- Senhores, creio que chegou o momento de partirmos para Ouro Preto e aguardar as forças aliadas de São Paulo, se é que ainda não chegaram, diz o presidente José Feliciano entusiasmando os colegas. Entre eles, está o doutor Benedito Teófilo Otoni que toma a palavra. --- Assim é que se fala, senhor presidente, e tenho a plena convicção de que as províncias do sul também nos darão apoio, diz acendendo um cigarro quando o coronel Francisco Vieira Souto adentra à barraca com a notícia de uma fatalidade jamais esperada. --- Alguma novidade, coronel? Pergunta-lhe o comandante Antônio Nunes vendo a decepção estampada no rosto do amigo. --- Sinto muito desapontá-los, senhores, mas o levante em São Paulo foi esmagado pelas tropas do barão de Caxias. Soube que o padre Feijó foi preso e o coronel Tobias Aguiar está foragido. --- Santo Deus, exclama o comandante João Martins levando a mão à testa. --- E isto não é tudo, senhor presidente, o barão de Caxias já está na capital de Ouro Preto com todo o exército de Sua Majestade. É chegado o momento de pedirmos a paz e arcarmos com as conseqüências, diz Vieira Souto enxugando o rosto. --- Creio que o comandante Vieira Souto está com a razão, senhores. Permitam-me lembrar a frase de Bonaparte após ser vencido em Waterloo: Não importa a batalha, o importante é sair vitorioso na derrota, diz pausadamente o doutor Manuel de Mello Franco erguendo a destra em arremate. Teófilo Otoni intervém em socorro a única saída para o empasse. --- Diante dos fatos eu proponho que devemos ir para o Rio de Janeiro imediatamente, senhores, e pedir anistia ao Imperador. O que acham da idéia? Pasmado, o presidente José Feliciano não se contém e soca fortemente a mesa rangendo os dentes. --- Capitular? Justo agora que temos o reforço da coluna de Santa Bárbara e podemos alcançar um contingente de três mil soldados? O que devemos fazer é tomar Sabará e fortificar ainda mais as nossas posições para depois negociar a paz. Antes disso, jamais, finaliza o presidente recebendo o aval dos companheiros. Com a chegada do barão de Caxias a Ouro Preto, a antiga e pacata Vila Rica transforma-se de imediato numa caserna a céu aberto, com dezenas de pelotões a decifrar o labirinto das vielas em busca de posições defensivas, no aguardo suplicante dos reforços aliados que não tardam. Na igreja de Santa Efigênia, o único templo onde se permite a entrada de negros, o pároco Simão Vilela inicia o terço matinal para uma patuléia de enfermos, quando percebe uma avalanche de vozes despencando ladeira abaixo a quebrar-lhe a rotina. Assustado, ele chega à porta e testemunha o inusitado. Em êxodo espantoso, chega o poviléu de escravos fardados que humildemente adentram o santuário em cata à maior de todas as graças, um a um, em fila indiana, tateando a imagem dos santos feitos à sua cor e semelhança, em agradecimento à alforria adquirida em chantagem flagrante: defender a pátria que os escravizara. O pároco não os repreende, ao contrário, os abençoa em nome da Virgem que os espelha. Em pouco, ouve-se por todo canto um repicar de sinos misturado com a estridência das cornetas em recepção a mais uma coluna legalista que adentra triunfante a ninhada das igrejas centenárias, ora cedendo os inúmeros chafarizes a servir de bebedouro para a cavalaria em estado de pena. Após determinar a ordem do dia, o senhor da cidade sitiada resolve caminhar por entre as ladeiras na companhia de alguns oficiais e do presidente Bernardo da Veiga que, jubiloso, mostra-lhes os preciosos feitos da raça esculpidos pelo formão miraculoso de Antônio Lisboa, falanges entalhadas pela mão de um aleijado e adornadas com o mais puro ouro da terra. E persistem no garimpo de acervos quando, defronte a um solar imponente, o general estaca repentinamente, ficando a observar uma das janelas. --- Ela mora aqui, senhor, mas quase não sai de casa, a não ser aos domingos quando vai à igreja, diz-lhe o presidente ao pé do ouvido. Subitamente a janela se abre e a figura de uma velha se debruça no parapeito, fitando os militares com um breve aceno e um sorriso discreto, correspondida com um leve abaixar de cabeça do barão que permanece em silêncio. --- É ela, senhor, a dona Maria Dorotéia, diz o presidente ao general paralisado diante da musa do poeta Thomás Antônio Gonzaga, desterrado inconfidente. --- Marília, murmura o comandante tirando o quepe em reverência à octogenária que em seguida deixa o quadro. No princípio da tarde de 16 de agosto, um soldado vestindo uma farda em trapos da Guarda Nacional de Barbacena chega a galope à Praça do Manejo e apeia em frente ao palácio de governo. Entrega um envelope ao major Alencar e juntos sobem a escadaria que dá para o gabinete do barão de Caxias. --- General, acabou de chegar, senhor, diz o major batendo o coturno e entregando-lhe a missiva, tendo logo atrás o soldado que permanece em continência estatuária diante da figura lendária que vê pela primeira vez. O barão de Caxias lê o diminuto relatório e franze os olhos, levantando-se em seguida e batendo o indicador nos lábios. --- Então eles tomaram Sabará... Quantos homens eles têm? --- Num deu pa contar, meu generar, mais eis tava numa leva que só veno. Baseano por debaxo, acho que dava pa interar quaji uns dois mileiros, responde o soldado ainda ofegante, receoso em desfazer a continência. --- Não houve resistência? --- Uai, quando aquela tribuzana chego na vila tocano corneta e dano tiro pa tudo contéra banda, aí que nóis basiô a disvantage, meu generar. --- Sei, sei, e fugiram pra onde? --- Uma parte foi po Caeté, meu sinhor, e a ôta vazô po lado das Congonha, responde o soldado enquanto o coronel Leite Pacheco chega com outra missiva. O major Alencar o acompanha com os olhos. --- É para o senhor, general, vem da parte do doutor Manuel Mello Franco. Parece que eles já sabem da rendição de São Paulo e por certo querem propor um armistício, diz o coronel com ar de riso ao ver a postura do soldadinho esfarrapado. --- Será que estão pedindo a paz sem antes depor as armas, coronel? Pergunta o barão em tom de ironia quando lê o último apelo dos revolucionários. ''...Julgo que Vossa Excelência não irá recusar a gloria de ser antes o Pacificador do que conquistador da Província de Minas Gerais...'' 14 de agosto de 1842. --- Acertaste na mosca, coronel. Querem a anistia e com certeza uma saída honrosa. --- E então, senhor? --- Acho melhor afiar a sua espada, coronel, amanhã bem cedo seguiremos para Caeté, comenta o general aproximando-se do soldado, agora encarando-o a quatro palmos. --- Qual o seu nome, meu rapaz? --- Ismério da Sirva, meu generar, um despojo à vois servir. --- Pois bem, seu Ismério, o senhor acaba de ser promovido ao posto de cabo do exército de Sua Majestade o Imperador. Apresente-se ao major Alencar pela manhã, diz-lhe o barão de Caxias voltando-se para a mesa enquanto, imperceptivelmente, uma lágrima corria o rosto empoeirado do mais recente integrante da força legalista. Os poucos moradores da vila de Caeté nunca viram tamanho alvoroço com a chegada das tropas do destemido general de Sua Majestade. Mais de dois mil soldados além de cavalos e canhões estão espalhados pelo diminuto povoado em aguardo às instruções do comandante imperial que ora dá as últimas ordens a seus oficiais na Câmara local. --- Senhores, talvez tenhamos que combater em Santa Luzia, bem aqui, diz apontando o mapa. --- Vamos nos dividir em três colunas para impedir que eles fujam. Meu irmão José Joaquim vai com uma coluna de 1.200 homens pela estrada do arraial do Lapa, cobrindo todo o flanco direito. O coronel Athayde cobrirá o flanco esquerdo pela estrada do Morro da Vicença com uma tropa de 350 homens, bem aqui, diz grifando o itinerário. --- Quanto a mim, seguirei pelo centro tomando a estrada de Sabará com 800 homens. Nos encontraremos depois de amanhã, dia 20, e tomaremos Santa Luzia no dia seguinte. Alguma pergunta? --- E se houver alguma emboscada, senhor? Não temos como nos comunicar para socorrer um ao outro, indaga o coronel Athayde. --- Ora, coronel, a julgar pelas duas cartas do doutor Mello Franco pedindo anistia, me parece que esses mineiros não ousariam dar o primeiro tiro. Eles estão com medo e esse é o nosso trunfo. --- Entendido, senhor, nos encontramos a 21, diz o coronel José Joaquim fazendo continência ao irmão. --- Que Deus nos proteja, senhores, finaliza o comandante dobrando o mapa e em pouco deixando o vilarejo de Caeté. As mesmas dificuldades que o barão de Caxias encontrara para chegar a Ouro Preto tornam a se repetir, com as peças de artilharia atravancando a marcha que ora segue em toada preguiçosa rumo ao ponto combinado. Cai a noite. Uma lua quase cheia adorna os céus e sobe vagarosamente, clareando aos poucos e em nitidez de lusco fusco o contorno irregular dos morros assombrosos que circundam os regimentos legalistas, acampados à revelia naquela furna acidentada rente ao beiral de uma trilha deserta. Aos primeiros raios de sol, despertam os soldados com um clarim desafinado e inoportuno, com o toque da alvorada ecoando sibilante pelos ares anuviados daquelas paragens estéreis. Após levantar acampamento na manhã do dia 20, segue o general Luís Alves de Lima à frente da coluna ainda sonolenta e mal nutrida, ignorando por completo que seus homens já se encontram sob a mira de quase 2.000 revoltosos divididos em dois flancos, no aguardo paciente à ordem de fogo do comandante Antônio Nunes Galvão, nas proximidades do Morro do Tamanduá, a menos de duas léguas de Santa Luzia. --- Lá vem us hômi, genti, grita um cafuz com a face entalhada na clavina feita à mão, vendo a tropa legalista se aproximar a marche-marche, todos portando fuzis de longo alcance e calçados à baioneta. --- Fogo, grita o comandante Antônio Nunes surpreendendo a tropa do general com dois tiros de artilharia pesada seguidos de uma fuzilaria repentina e assustadora, pondo a coluna legalista em completo desespero em meio aos gritos dos feridos e dos animais que sapateiam em relinchos pavorosos. Ao primeiro lance de vista e sem perder o controle, o barão delineia algumas perdas mas consegue se posicionar em blocos e revidar ao ataque, ordenando de imediato uma bateria de canhões que rugem em explosão atordoante rumo às duas trincheiras adversárias, amenizando o sibilar das balas antagônicas com o disparo de várias descargas dos fuzileiros em direção à tocaia da esquerda. Uma outra descarga de canhões acerta o alvo e estremece a linha direita da resistência inimiga, afastando-a para uma posição desfavorável, avantajando-se em novo fôlego para mais uma bateria de carga grossa. Mas o troco vem à rapa: investe rumo aos legalistas uma outra descarga de balas, mas desta vez não conseguindo o intuito desejado devido a distância mal calculada. No frontal da refrega, uma jarda é uma légua. Ao cabo de quase cinco horas de combate e já no meio da tarde, as forças legalistas já haviam contabilizado 15 mortos e dezenas de feridos que, amontoados na retaguarda, urram de dor em meio à orgia da loucura. O major Alencar é visto aproximando-se do comandante que está posicionado junto a uma peça de artilharia avaliando o adversário com sua luneta, por certo arquitetando algum milagre. --- A munição está acabando, general, e os soldados já estão perdendo as forças. Não seria melhor recuarmos? --- Vamos esperar mais um pouco, major, a coluna do meu irmão já deve estar pra chegar. Aí mostraremos a eles como se amansa um redomão. --- General, mas hoje é dia 20, senhor, e ficou combinado de nos encontrarmos amanhã, diz o major presenciando a cara de espanto do comandante quando uma carga do canhão inimigo explode a poucas jardas dos feridos, fomentando mais uma bateria de berros desesperadores dos mutilados sedentos de zelo e trégua. --- Major, ainda temos quinze tiros de artilharia e pelo meus cálculos, a coluna de meu irmão não pode estar longe. Com sorte, eles ouvirão os estouros e virão ao nosso encontro. Vamos disparar oito cargas consecutivas rumo ao canhão inimigo, e é pra já. Comande a operação. A coluna do coronel José Joaquim está a caminho do ponto combinado, a cerca de uma légua de distância quando ouve ao longe o mugido peculiar da guerra, como o resquício de um trovão longínquo em tempo de seca. O coronel delineia o imprevisto e parte a galope com um batalhão de cavalaria e uma coluna de infantaria em socorro ao entrevero distante. Ao final da tarde, a coluna legalista já havia gasto toda sua munição de artilharia pesada embora com o êxito de ter conseguido desativar o único canhão inimigo. Mas o inevitável acontece em tempo curto. O toque de retirada é ouvido por toda a coluna legalista que se afasta às pressas do palco da batalha, já no mais completo esgotamento quando, ao cabo de minutos, ouve-se o tropel do batalhão da cavalaria aliada aproximar-se trazendo na retaguarda uma coluna de trezentos soldados com as armas em ponto de fogo. O coronel José Joaquim se achega ao irmão como um cantil em socorro ao poento caminheiro. --- Graças ao bom Deus que ouviste o meu chamado, diz o general afagando-lhe o ombro de cima da montaria, visivelmente reanimado com o reforço a tanto custo aguardado. O coronel vislumbra, ao longe, a investida da infantaria adversária que ora caminha pela estrada no encalço dos combatentes fugitivos, por certo ignorando a sua chegada. --- Olhe, meu irmão, pelo jeito eles ainda querem combater, diz o coronel José Joaquim apontando para o regimento inimigo. --- Disponha seus homens para a posição de tiro que eu vou dar boas vindas aos nossos patrícios, coronel, a baionetas, diz o general ordenando meia volta e partindo com seu regimento de encontro ao inimigo, como um paredão de farpas em acelerado constante. Desta vez não houve o revide esperado. A primeira descarga de atiradores da coluna do coronel José Joaquim põe os inimigos em fuga imediata, debandando-os para os confins dos Gerais e deixando para trás um rastro de 59 mortos e mais de uma centena de feridos espalhados por toda a banda, além de 200 prisioneiros que foram rendidos noite adentro no arraial de Santa Luzia. A batalha está definida, novamente a favor do mais forte. As tropas legalistas fazem o pernoite acampadas no pequeno vilarejo enquanto o general e seus oficiais hospedam-se na casa abandonada do líder revolucionário José Feliciano, fugitivo há dois dias. Em todas as vilas, nos mais distantes povoados, mais de 2.000 revoltosos se entregam e depõem as armas ao longo dos dias subsequentes. Os principais líderes do movimento são presos e levados à cadeia de Ouro Preto, a temida fortaleza de grades e pedras frias locada aos fundos do palácio de governo, palco de tantos horrores. A frente dos detentos, o seu maior expoente, o doutor Benedito Teófilo Otoni. Restabelecida a nova ordem na capital da província, o medo faz a lenda. Os pacatos moradores da vila de Ouro Preto assistem agora à partida das tropas legalistas na manhã do primeiro dia de setembro de 1842, em alívio notório. Na Praça do Manejo, o presidente Bernardo da Veiga despede-se do general Luís Alves de Lima que em seguida passa a tropa em revista montado um cavalo vistoso. Em continência e com os olhos voltados ao comandante, a coluna permanece estática, tendo na sua extremidade o cabo Ismério da Silva, embutido numa farda de tamanho exagerado. O general se aproxima e dirige-lhe a palavra. --- O que você faz aqui? --- Vim amódi despedir do senhor, meu generar, responde o cabo com a mão na testa, certamente vencendo uma aposta. --- Você não quer ir para o Rio de Janeiro? --- Não sinhor, eu gosto memo é de Minas. Se o generar permitir, eu fico aqui na vila amódi servir a nossa guarda. --- Coronel Flores, grita o general ao oficial que se achega. --- Senhor? --- Incorpore imediatamente o cabo Ismério na sua guarda. --- Com prazer, meu general. Ao saírem da praça rumo à estrada de Barbacena, o general Luís Alves de Lima sofreia o animal e volta o olhar para o largo do imponente palácio onde o cabo Ismério ainda permanece em continência, como uma estátua fardada mirando a figura de seu maior comandante, quando se ouve nitidamente, melodiosamente, o último clarim nas alterosas. Num sarau, o brotar de uma paixão O deslizar das mãos de um pianista francês flana o teclado em suavidade crescente, finalizando uma valsa em acorde maior. Os aplausos são de regozijo e entusiasmo, duradouro, embora num sarau doméstico. --- Que maravilha professor, o senhor mesmo a compôs, pergunta a Baronesa de Vassouras expondo a dentição amarelada ao concertista Pierre Fauvent. --- Non Madame, é Chopin, responde o pianista em risos servindo-se do licor. --- Venha, deixe-me apresentá-lo aos convidados, diz a Baronesa ao professor que sorve o cálice em gula notável. Deucleciano conversa com Lucíola ao canto da sala, ambos sentados na extremidade de um grande sofá vermelho, intermediados pela formal companhia de madre Pilastra, uma prima da Baronesa de Vassouras. Ao ver o concertista e a Baronesa se aproximarem, a madre Pilastra se levanta, deixando livre por um segundo o campo de visão para que Deucleciano fisgue o olhar de Lucíola com um piscar de lobo, de pronto correspondido por um sorriso de candura. --- Esta é minha filha Lucíola, e este é o mais novo advogado da Corte, o doutor Deucleciano Cavalcanti, diz a Baronesa apresentando-os ao pianista. --- Meus parabéns, professor, foi um grande concerto, diz Lucíola estendendo-lhe a mão. --- Mademoiselle, responde o músico francês em curvatura exagerada, cumprimentando Deucleciano em seguida. --- Agora vou apresentá-lo ao meu marido. Venha conosco irmã, diz a Baronesa conduzindo-os até a ante sala onde o Barão de Vassouras acometido de gripe conversa com amigos, todos barões do café. O único momento em que os dois ficam juntos desde a coroação do Imperador dá-se como que por encanto. Ali, diante de Deucleciano, a prenda mais cobiçada o examina com olhar caudaloso, à espera de palavras mais íntimas. --- Quisera falar-lhe dos meus sentimentos, mas agora tudo me foge, minha querida. --- Não digas nada, Deucleciano, apenas escreve-me contando tudo o que sentes por mim. --- Amanhã mesmo mando-te uma carta, diz olhando para os lados como que vigiado. --- Não, não quero dormir sem saber o que diz teu coração. --- Mas como? --- Venha, acompanho-te até a biblioteca, diz Lucíola tocando levemente o braço que a corteja. Um acorde vibrante dá inicio a outra parte do concerto que se estende por meia hora com sonatas de Franz Liszt, abrangendo em harmonia rara toda a atmosfera da vasta morada. O luar a meio zênite cintila por detrás da mansão repleta de janelas iluminadas, realçando em nitidez escura a silhueta dos coches parados em defronte, que aos poucos começam a movimentar-se. As luzes da casa se apagam e apenas uma permanece acesa, no andar superior. Sentada em frente ao espelho, Lucíola passa o pente nos longos cabelos e pega um papel dobrado de cima da penteadeira. Vai até a cama e deita-se calmamente para reler o acróstico. Levo meu olhar para o mar e Uma onda parece me chamar. Canto uma canção de Espanha Inspirado em teus lábios de mel. Ora vejo-me flechado por ti, Linda rosa que em meu jardim se abriu. Amor, se me queres, estou à tua espera. Os olhos de Lucíola cintilam, fazendo o corpo voar para a janela que dá para a rua. Abrindo-a em ansiedade, vê uma carruagem e o amado, de casaca e chapéu de abas largas, empunhando uma flor junto ao portão. Ela sorri e leva as duas mãos ao peito, enquanto Deucleciano beija a rosa e a joga rumo à janela, voltando-se para o carro que parte em seguida. Lentamente a janela se fecha e o vulto deixa o quadro. Um retrato arranjado A fragata Liverpool atraca ao longe do cais Pharoux rugindo o apito num resmungar de urso ferido, espantando de chofre um bando insistente de gaivotas e urubus que policiam o porto, atraídos pelo odor insistente de carniça em abundância. Uma carruagem, com o brasão imperial encrostado na porta, pára junto à plataforma de desembarque. Um homem baixo e gordo, portando uma valise de couro, desce a rampa e acena para um mulato calvo trajando um casaca preta, que o espera junto ao coche. --- Doutor José Ribeiro, fizeste boa viagem? Pergunta gentilmente o Ministro Aureliano Coutinho abraçando o colega. --- Graças ao bom Deus, senhor, reponde o secretário José Ribeiro levantando a valise num sinal de triunfo ao ministro que o ajuda a embarcar na carruagem oficial. Vencido pela curiosidade, o ministro Aureliano esfrega as mãos enquanto observa a maleta que balança no colo do secretário, seguindo o compasso irregular das ruas descalçadas. --- E então, secretário, missão cumprida? --- Sem falsa modéstia, devo dizer que eu e o doutor Bento Lisboa nos empenhamos ao máximo, senhor ministro. Tentamos de tudo, de Arquiduquesas a Princesas, todas pertencentes às famílias mais importantes da Europa. --- Muito bem, diz o ministro acendendo um charuto, contorcendo-se numa impaciência mal disfarçada. --- Primeiro sondamos uma Habsburgo, senhor, diga-se de passagem, uma bela mulher. Ah... que lindo rosto, senhor ministro, diria até que se assemelha a um arcanjo, com aqueles olhos azuis...e que corpo..., continua o secretário desenhando a onda dos quadris da donzela com a mão no espaço. Impaciente, o ministro interrompe a narrativa com tosse curta, seguida de uma baforada desdenhosa. --- Prossiga, senhor secretário, prossiga... --- Acho que a sorte não estava conosco, senhor. Talvez a renda anual de oitocentos contos de réis do Imperador e os comentários sobre as doenças que nos assolam no verão, não sei ao certo o motivo da recusa, senhor. --- Sim, doutor Ribeiro, mas logramos êxito? diz o ministro assustando o secretário ao arrancar um pelo grosso da sobrancelha eriçada. --- Sondamos também uma Hohenzollern, senhor. Longos cabelos louros e encaracolados... Uma boca perfeita, senhor ministro, diria até, um primor de criatura. --- Sim, retruca o ministro com as mãos entrelaçadas sobre o colo e batendo a planta do pé direito em contínuo notório. --- Também não logramos êxito, senhor. Talvez a fama de mulherengo deixada pelo Imperador Dom Pedro I a tenha influenciado a desistir da empreitada, infelismente. --- Óh...Meu Deus, retruca o ministro coçando a nuca. --- É verdade, senhor ministro. Dizem lá na Europa que o gosto dos Braganças por mulheres é hereditário. O doutor Bento Lisboa é testemunha disso, senhor, não é invenção de minha parte. O ministro Aureliano Coutinho tira um lenço da casaca e o esfrega na testa suada, mirando o secretário com os dentes serrados. --- Pôr favor, senhor secretário, vamos direto aos resultados. O que trazes de concreto da corte de Viena, uma Orleans, por certo? --- Uma Bourbon, senhor ministro, uma Bourbon legítima, reponde o secretário com ar triunfante, transformando a carcaça do ministro em total relaxamento. --- De Espanha, é claro? --- De Nápoles, senhor. --- Nápoles? --- Sim. Lá encontramos uma das mais belas Princesas que este século já produziu. Uma Bourbon legítima, senhor ministro, uma flor. --- Por acaso esta Princesa tem alguma ligação com os Bourbons de França? --- Na verdade, senhor, com a queda de Carlos X, todos eles foram expulsos da corte de França, e certamente não gozam de boa reputação por lá. Após uma minuciosa investigação descobrimos que ela pertence aos Bourbons de Nápoles, quer dizer, um dos ramos colaterais da família. Mas é irmã do rei, senhor. --- Do rei de Nápoles ou das Duas Sicilias? --- Dá no mesmo, senhor, ninguém sabe ao certo a natureza deste reino. --- E qual a idade dessa Princesa? --- Vinte. E está no auge da mocidade, na flor da idade, senhor ministro. A carruagem estaciona defronte ao palácio. --- Meu Deus, ela é mais velha que o Imperador? --- Só quatro anos, senhor ministro. --- E o contrato de casamento, trouxeste? --- Está tudo aqui, senhor, inclusive um retrato da Princesa para a apreciação do nosso augusto Imperador. --- A propósito, secretário, qual o nome dela? --- Dona Teresa Cristina Maria de Bourbon, senhor, diz o secretário entregando-lhe a valise. Em reunião com o ministério, o Imperador ouve um dos ministros quando entra, despercebido, o mordomo Paulo Barbosa. Curva-se na lentidão costumeira. --- Majestade, trago-lhe boas novas. --- Pois diga. --- O secretário José Ribeiro acaba de retornar da Europa. --- Que entre, diz o Monarca curioso, virando-se lentamente para a porta. O ministro Aureliano Coutinho adentra ao gabinete de cabeça em pé, portando uma valise de couro. --- Majestade, permita-me, diz o ministro sentando-se e roubando a atenção dos colegas. --- Onde está o Bento Lisboa? Pergunta o Imperador mal disfarçando a curiosidade estampada na face rosada. --- Ficou na Europa, Majestade. O secretário José Ribeiro é quem trouxe o contrato para a vossa apreciação, diz abrindo a maleta e entregando-lhe um pergaminho realçado por góticas em vermelho e preto. O Monarca sorri e prontamente lê o documento. Os ministros em concorrência silenciosa procuram decifrar os lábios do jovem Imperador que, entrecostando-os, devora em rapidez invejável o conteúdo do termo. --- Majestade, permita-me mostrar-lhe o retrato da nossa futura Imperatriz, dona Teresa Cristina Maria de Bourbon, a Princesa de Nápoles, diz o ministro Aureliano passando-lhe a moldura envolta em veludo azul turquesa. --- Senhores, peço-vos licença um instante, diz o jovem Pedro de Alcântara levantando-se com o retrato e o contrato de casamento preso às mãos, retirando-se calmamente do gabinete com ar de triunfo. O mordomo Paulo Barbosa conversa com Frei Pedro no salão principal quando o Imperador, embutido no uniforme de cinco quilos, passa por eles em visível ansiedade, subindo rapidamente a escada que dá para os aposentos reais. As princesas estão no quarto com a preceptora, dona Mariana de Verna, que lê em voz alta uma oração em latim. O bater na porta e o entrar do Imperador em sorriso de euforia interrompe a reza. --- Olhem, é o retrato da minha Imperatriz que acabou de chegar. --- Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, diz a preceptora levando as mãos à boca, beijando em seguida o missal. --- Óh, como ela é bonita! --- Veja, Francisca, a Imperatriz do Brasil, diz a Princesa Januária, sua irmã favorita, beijando carinhosamente o rosto do irmão. --- Dona Teresa Cristina, este é o seu nome, diz Dom Pedro olhando o contrato. --- Majestade, quando vamos conhecê-la, pergunta a preceptora com as mãos entrelaçadas ao peito. --- Creio que só no próximo ano. Mas o que importa é que agora terei um herdeiro para o meu trono. --- Com a graça de Deus, Majestade, murmura dona Mariana de Verna contemplando a felicidade dos órfãos que ela ajudou a educar, certamente a figura mais próxima de uma mãe que os três tiveram. --- Bem, se me dão licença devo voltar para a reunião. O Imperador desce a escada rumo ao salão principal e se surpreende com todo o Ministério de pé, a sua espera. Todos beijam-lhe a mão, vexando-o por completo. O Marechal Luiz Alves de Lima e Silva adentra ao salão e aproxima-se do Imperador que mostra-se surpreso ao vê-lo. --- Majestade, permita-me cumprimentá-lo por tão alegre notícia, diz o Barão de Caxias beijando-lhe a mão. --- General, vamos até o meu Gabinete, precisamos conversar em particular, diz o Monarca provocando ciúmes nos presentes. No cair a tarde do dia seguinte prossegue a agenda comemoração ao noivado do Monarca. Na sacada do Teatro Grande, ele saúda o povo com um aceno tímido. Ao vê-lo, a multidão transforma o largo do paço num emaranhado de aplausos, assovios e ovações. É o primeiro aniversário da proclamação de sua maioridade. --- Viva o Imperadô do Brasí, grita um ébrio desdentado no afã de escorar-se nas pernas em cambaleio. Volta-se o jovem Pedro com o pesado uniforme para o camarote imperial. A cerimônia é aberta com a execução do Hino Nacional e em seguida é encenada a comédia Amor protege amor, uma dança que alguns chamaram de Baile Anacreôntico. Termina o espetáculo com o ritual do beija-mão, deixando o Imperador ainda mais melancólico e introspectivo. Recolhido ao leito após o dia exaustivo, ele pega o retrato da futura esposa e o contempla com um leve sorriso, beijando-o em seguida. Senta-se e faz anotações no diário com um capricho diferenciado. Em pouco, boceja. Deita-se e fica pensativo, lembrando vagamente o semblante Ba Baronesa de Faial, homônima da sua esposa. --- Teresa, meu amor, enfim serei um homem feliz, diz em murmúrio cerrando os olhos. Nos jornais, a vitória de Caxias Amanhece na capital do Rio de Janeiro com o cair de uma névoa fina em prelúdio de tarde chuvosa. Em frente ao Jornal do Commercio, o jornalista Arlindo de Castro entrega os pacotes da edição dominical aos mulecos que saem em debandada, gritando a manchete do dia. --- Vitória em Minas. O advogado Basílio da Gama atravessa o largo do paço já com um exemplar preso na axila esquerda e segue em direção ao Armazém Progresso, o ponto obrigatório das manhãs de Domingo. --- Doutor Basílio, diz o português ao ver entrar o amigo que logo senta na mesa costumeira. --- Bom dia, senhores, responde o advogado sentando-se na mesa de costume, onde o barbeiro Quintanilha e o boticário Valadares degustam cachaça. --- Seu Pereira, um cálice, por favor, diz estalando os dedos para o português que o atende sorridente. --- Aqui está, doutor. Mas diga cá, já leste o jornal? --- Sim, e pelo visto o Barão de Caxias é o homem de ouro do Imperador, responde o advogado batendo com a costa da mão na manchete que estampa o busto do general chamuscado de condecorações. --- Dizem que o Imperador vai indicá-lo para a Presidência da Província de São Pedro do Rio Grande. Estão falando que só ele pode acabar com a revolução daqueles republicanos, intervém o boticário Valadares dobrando as pontas do bigode. --- A revolta de Minas Gerais, como a de São Paulo, fracassou por falta de organização e armamentos. Não achas, doutor? Indaga o barbeiro. --- Pode ser, mas creio que ela foi vitoriosa, senhores, ao menos pela ótica da justiça. --- Como assim, doutor. --- No fundo, todos saímos derrotados. O Imperador não pode deter o poder de anular uma eleição e nomear quem ele quiser, usando este tal de poder moderador como argumento. Isto foge a todos os princípios em qualquer Corte do mundo. --- Mas, doutor Basílio, é sabido que as eleições é uma mera formalidade, e que os chefes políticos das Províncias é quem indicam os seus protegidos para os cargos públicos. É a lei. --- Também está errado, meu caro. O sufrágio tem que ter a participação de todos, do contrário jamais seremos um estado democrata, responde o advogado observado por todos. --- Mas isso não vai acontecer, doutor, eles nunca vão deixar os pobres e analfabetos votarem, fala português apontando para um bêbado que urina a céu aberto, no meio da rua. --- Não vejo como mudar a situação sem antes acabarmos com a escravidão. Este é o maior dos nossos males, intervém o barbeiro apoiado por muitos pelo balançar das cabeças em concordância. --- E esse tal de Teófilo Otoni, doutor, o senhor já o conhecia? Indaga o português. --- Ele está preso como todos os outros líderes, meu caro. Renderam-se. Que Deus tenha piedade de suas almas, reponde o advogado arrebatando a cachaça em gole único. --- Será que vão enforcá-los, doutor, pergunta o boticário Valadares. --- Para os crimes políticos a pena costuma ser exemplar, meu amigo. Dura lex, sed lex, finaliza o Dr. Basílio fechando os olhos e entrelaçando as mãos. No encontro com a Imperatriz, a decepção A fragata Constituição e as corvetas Dois de Julho e Euterpe, devidamente adornadas para buscar a futura Imperatriz do Brasil estão aportadas no cais Pharoux. Vigiados pelos olhares curiosos de centenares de populares, sobem à plataforma de embarque o comandante da esquadra, Teodoro de Beaurepaire-Rohan e sua mulher Dona Isabel, na categoria de açafata da Imperatriz, juntamente com a filha que vai como dama de honra. --- Que Deus te acompanhe, meu filho, diz a preceptora Dona Mariana de Verna despedindo-se de Ernesto Frederico, o escolhido para ser o mordomo mor da comitiva. --- Ora, minha mãe, não vejo a hora de por os pés no velho mundo e conhecer as maravilhas da Europa, responde em abraço demorado. --- Não te preocupes, Dona Mariana, logo estaremos de volta, diz sorrindo o médico Francisco Alemão subindo a rampa, acompanhado do capelão Cônego Manuel da Silveira. Ainda na comitiva oficial, como camareira da futura Imperatriz, vai a Marquesa de Maceió e Brás Carneiro Beléns como Secretário da Embaixada. Chefiados pelo Plenipotenciário e Embaixador José Alexandre Carneiro Leão, deveriam partir com destino a Nápoles no final do ano para então realizar a cerimônia do casamento, por procuração, de Sua Majestade o Imperador. Atrasa-se a viagem em quase cinco meses, pois havia poucos marinheiros brancos. Contornado o relevante pormenor, em 3 de março de 1843 os três vasos de guerra deixam o porto ao som de vivas e fogos, acenares e prantos, promessas e preces. Galgado o Atlântico, aguarda-os uma jornada de 57 dias. Rompe o setembro com tempo quente e seco. Uma descarga de canhão baforada do cais apinhado de populares, desvia o curso das aves que pululam nos céus daquela manhã de término outonal. O jovem Imperador está na biblioteca do palácio juntamente com Frei Pedro, que a passos lerdos lê em voz alta um capítulo do livro de Jó: --- Ah! Se pudessem pesar minha aflição e pôr na balança com ela meu infortúnio... Três batidas na porta indicam a presença do mordomo Paulo Barbosa, que entra em sorriso de boa nova. --- Majestade, a fragata Constituição acaba de aportar. Súbito, os olhos azuis do jovem monarca arregalam-se num sintoma de alegria e alegria, aumentando-lhe com certeza a pulsação do paladino dos sonhos. --- Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, diz Frei Pedro em agradecimento, fechando a bíblia e olhando para o teto. --- O escaler imperial já está a espera de Sua Majestade, diz o mordomo em curvatura. --- Mande preparar minha carruagem, fala o monarca saindo às pressas e subindo a escadaria que leva aos aposentos da irmã mais velha, já que a caçula estava em lua de mel recente com François d’Orléans, o Príncipe de Joinville. --- Januária, eles chegaram, diz o Imperador à irmã prostrada na penteadeira, sentinelada pela preceptora inseparável que choraminga a saudade do filho. O escaler com a bandeira içada e bordada com as armas do império levanta remo junto à escadaria da fragata Constituição. O Imperador e a irmã sobem a bordo, recebidos pelos aplausos do corpo diplomático que, sorridentes dão inicio à cerimônia do beija-mão, constrangendo ainda mais o Monarca, visivelmente eufórico. --- Majestade, missão cumprida, diz o Chefe-de-Esquadra Teodoro de Beaurepaire-Rohan ao finalizar o cumprimento. --- Onde ela está? --- Por aqui, Majestade, intervém o Embaixador Carneiro Leão indicando-lhe o corredor que dá para o salão nobre da Fragata. A passos lentos ele adentra à câmara suntuosa, toda revestida com veludo verde e amarelo, pisando na tapeçaria vermelha que conduz ao aposento requintado e adornado por um mobiliário luxuoso. Relembra o retrato da noiva que traz junto a cabeceira e não esconde o ar de curiosidade, observado a todo tempo pela irmã que o acompanha segurando em seu braço. Cercada pelas damas de honra e companhia, a Imperatriz sentada num sofá ao centro e com um leque ao colo, tomba a cabeça em movimento delicado, vencida pelo sono e o cansaço de 62 dias de enjôo em mar aberto. Ao vê-lo, as açafatas se levantam e fazem a reverência de imediato, despertando a Imperatriz que, desgraciosamente põe-se de pé, mal disfarçando a fadiga de noites mal dormidas. --- Majestade...Murmura a Imperatriz em voz grossa e afônica, ao jovem perplexo e desapontado com aquele rosto sem qualquer encanto, o corpo gordo e um porte diminuto, desmentindo por completo o semblante da consorte que imaginara. Franze os olhos e fica estático, preocupando a irmã que, ao lado, observa a decepção estampada na face rosada e trêmula do soberano calado que hora rumina o fel da decepção. --- Dona Teresa Cristina Maria de Bourbon, fala o Imperador num misto de indagação e perplexidade, curvando-se lentamente. A Imperatriz aproxima-se do esposo que a fita com ar ainda mais pavoroso ao perceber que ela coxeia, em muito, no compensar da esquerda maior que a destra definhada. --- Senhor Pedro de Alcântara, meu marido, diz a Imperatriz em sorriso desgracioso, mostrando-lhe a dentição escurecida e falha, contrastando em tudo que o retrato lhe mostrara e que sua imaginação vagueara por noites de insônia em aguardo ansioso. Diante da natureza tímida e desconfiada do Imperador, estaca-lhe uma mulher de 20 anos que ora expressa-lhe súplica e candura, refletida no engolir vagaroso da saliva merejada pelo inesperado, seguido do pingar demorado de uma lágrima que brota, sem contra prova, das nuvens de um coração amedrontado. Retirada a contra gosto do aconchego de seus familiares, é empurrada para o novo mundo apenas com o irmão, o Conde d’Áqüila, numa viagem estafante. Não conhece uma alma sequer, e não há passagem de volta, já que o casamento está consumado. Ambos fitam-se com olhar melancólico. Todas os sonhos, todas as promessas se mostram agora trincados na porcelana dourada de uma juventude abortada tragicamente por um destino caprichoso. Pensativo e mudo, vem à mente do Imperador os conselhos de Frei Pedro, talvez o único amigo em quem realmente confia até então: “A felicidade culmina em trevas e a alegria eterna só pode vir do Criador” Seguindo o protocolo previamente planejado, a Imperatriz só colocará os pés em terras brasileiras no dia seguinte à solenidade de apresentação ao Imperador. Com ar de tristeza ele se despede da esposa e deixa a fragata acompanhado da irmã Dona Januária. Recolhem-se ao palácio. Nesta noite, pela primeira vez alguém o vê chorar. --- Fogo, grita sobre o convés da corveta Dois de Julho o Capitão-de-Mar-e-Guerra Pedro Ferreira de Oliveira, em ordenança aos marinheiros enfileirados e de tocha em punho. O ribombar da artilharia naval seguido dos badalos repicantes dos sinos de todas as capelas e igrejas da capital anunciam a chegada da nova Imperatriz do Brasil. Colunas floridas e camarotes dispostos em fila, adornados por bandeirolas e arranjos de rosas brancas, abrigam as damas da Corte e a nobreza local, circundando o chão atapetado e coberto de flores por onde a Imperatriz, o Imperador e a Princesa Januária caminham até as carruagens que os levarão à capela imperial para a benção nupcial. Pompa, luxo e jóias agrupam-se ao som dos aplausos e da banda militar que, rufando em compasso festivo, ordena o abre alas para a passagem do cortejo imperial. Ladeada pela Princesa Januária, vai a Imperatriz numa carruagem dourada puxada por três parelhas de cavalos brancos, encabeçando o desfile rumo ao paço da cidade. Intercalados por um carro de honra, vem por último a carruagem do Imperador, engalanado num uniforme militar e portando uma espada que nivela seu posto, chamuscada de brilhantes coloridos e reluzentes. Sentado junto ao irmão da Imperatriz, o Conde d’Áqüila, segue o monarca acenando para os populares que atiram flores no caminho, soltando gritos de “Viva o Imperador, Viva a Imperatriz do Brasil.” O jornalista Arlindo de Castro, empoleirado em cavalete coxo, anota com avidez de agiota o frisante antagonismo da pirâmide social numa taquigrafia incompreensível. --- Pega, pega, grita um anão com a perna esquerda amputada e com os braços levantados, numa súplica de criança mimada. Erguido pelas axilas em solavanco único pelo jornalista, consegue o homúnculo ainda vislumbrar o perfil do soberano que logo mostra-se de costas conforme o desenhar da esquina. --- Eu vi, eu vi o Imperadô, grita em júbilo o homenzinho posto novamente ao chão, movimentando-se vagarosamente com o auxilio de um porrete que traz como muleta. Terminada a cerimônia religiosa, segue o cortejo para o paço de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, só que desta vez com o Imperador e a Imperatriz juntos, na mesma carruagem. A Princesa Januária e o Conde d’Áquila vão em outro carro. Preludia-se um romance entre os dois, fomentado e devidamente costurado pelo Embaixador e Plenipotenciário Carneiro Leão, avalizado de todo pelo corpo diplomático. Um casal de príncipes irmãos da Europa com um casal de príncipes irmãos do novo império do Brasil. Em breve, selar-se-á o destino da irmã favorita do Imperador, a futura Condessa d’Áquila. De como criar um veneno sem antes conhecer o antídoto. Com os sucessivos fracassos dos governantes do sul do Brasil em sufocar o separatismo revoltoso dos que se julgavam donos do território, Sua Majestade Imperial suplanta até os líderes adversários ao nomear como Presidente da Província de São Pedro do Rio Grande o então Marechal Luiz Alves de Lima e Silva, agora um dos mais influentes chefes militares do exército imperial. Com um efetivo superior a doze mil homens, destaca-se na infantaria do Barão de Caxias uma gama considerável de escravos, estes recrutados com a promessa do mais valioso de todos os soldos: a liberdade após a vitória. Do lado Farroupilha dá-se a mesma providência. Com uma força enfraquecida por nove anos de batalhas nebulosas e na gangorra intermitente de vitórias e derrotas, compõe-se a tropa revoltosa de mercenários malsinados e maltrapilhos desgraçados, de negros escravos e indigentes à cata de um quinhão de cidadania, todos munidos de lanças, pistolas ou clavinas, adagas e armamentos primitivos, a vestimenta de uma nacionalidade ainda em feto naqueles nivelados abaixo de uma miséria mais que absoluta. A recompensa são os horrores da guerra, a fome, a doença, membros amputados a frio por serrote ou machadinha. A morte, muita vez um alívio, puro e simples. A paga, um estipêndio duvidoso. O líder maior da revolução Farroupilha, o auto intitulado general Bento Gonçalves, perde o comando em meio a acusações de traição à causa revolucionária que terminam em duelo de ferro branco. Surge então, de repente, um argüir imprevisível nos anais da Brasília história. Rememoremos. Galvanizados na bastarda miscigenação pampeana, onde a rudeza da Ibéria sobrepuja a indolência do índio, emergem os sulistas em meio a uma civilização sem norte e sem lei, fundidos na têmpera da discórdia e da eterna vingança castelhana, alimentada secularmente pelo ódio racial e religioso advindo da repugnância aos mouros que outrora os dizimaram. Criados à larga e sem o vislumbre de qualquer cerca ou divisa, esses peregrinos sempre se guiaram pelo o rumo das estrelas, cantando à deriva desde o ventre donde brotaram, pois o cantar é a única bíblia dos andarengos pampeanos; o gaúcho. Peleadores instintivos, esses lendários guerreiros que, sozinhos brigam com a própria sombra, denotam bravura e coragem indizíveis. Num tardio remoto, para não morrerem de fome, agregam-se instintivamente aos posseiros da planura, uma peste vicejante em abundância em toda aquela geografia sulina. E seguem a exterminar os charruas e os bugres, estendendo seu domínio naquele Saara sem dono com a semente do estupro e do berro dos degolados, na paga de um quinhão de munição de boca composto apenas de carne sapecada ou charqueada, mas sem o renovar das vestes em trapos e das botas surradas pelo tempo. A intempérie dos dias chuvosos e o calor das refregas de quase uma década encarregou-se a forja-los naquela figura medieval em plena era moderna, donde se lhes advém o apelido: Farrapos. Os charqueadores da banda oriental, os gaúchos uruguaios, açougueiros platinos e proprietários de uma leva grandiosa de negros cativos, a princípio relutam em ceder seus escravos para engrossar as fileiras anti imperialistas em eterna formação. Mas a causa Republicana e Liberal, imposta pelo desejo separatista da índole gaúcha, aliada a um contrato de fornecimento da carne charqueada ao exército molambo, mitiga-lhes a ponderação. Recrutados amiúde numa ação mais violenta que seu próprio estado de cativo servil, os escravos são acorrentados pelo pescoço e levados à ferrão de boi para as frentes de combate. Dispostos em fila e separados por colunas, a princípio assombra-lhes o temor de uma execução em massa. Confunde-os o aproximar dos negros Farrapos que, aos poucos, os presenteiam com ponchos remendados e pedaços de charque, tudo em meio à confusão temerosa dos deboches gauchescos. Encurralados na condição de crucificados agonizantes, resta-lhes apenas o instinto animal de devorar os nacos da carne salgada, o que o fazem com gula impressionadora. Surge-lhes, de súbito, a garbosa imponência do caudilho Davi Canabarro, o novo chefe dos Farrapos e vencedor da batalha de Ponche Verde, onde os lances de barbárie com que executava seus prisioneiros o fizeram temido por todos os seus comandados. Com um quepe entufado sobre a cabeça empinada, monta um gateado lobungo que sapateia, bufando em concomitante, em círculo, conforme o cutucar das esporas vistosas calçadas em bota de fole e estribadas num par de argola bronzeada. Vem acompanhado pelo negro Anastácio, um campeador de cara franzida e porte hercúleo, uma sombra de pés descalços, montando à pelo um Cimarron recém domado. Seguem-lhes pupilas assustadas. Súbito, um estrondo de bacamarte rompe a ceia dos esfomeados e os faz engolir em bolo único o tufo seboso da carne dura e mal mastigada, cessando por completo a ruminação quando o chefe balbucia em floreio discursório uma convocação desnecessária. --- Vamos lutar contra as forças do demônio, contra um império que quer nos matar e nos escravizar, grita o caudilho com a espada em punho, hipnotizando a multidão de quatrocentos novos escravos. Atônitos, se fazem compreendidos na empírica tradução do negro Anastácio que, imitando o chefe, levanta o chapéu e repete aos gritos a flagrante controvérsia numa pantomina auxiliadora. --- Após a vitória, todos os escravos serão alforriados e libertados, em nome da causa divina que é um pedido de Deus, berra o líder Canabarro com a boca espumada em doudo frenesi. Os gritos e acenares vindos dos peleadores farrapos que, ao lado e atrás dos escravos ouvem atentos a palestra repetitiva, põem a coluna dos soldados novos num interrogar de cochichos e expressões indagativas, de logo sanada pela versão do negro Anastácio, instigando-lhes aos poucos um sentimento nunca dantes experimentado: a confiança. --- Para os vencedores, nós daremos a liberdade. Para os traidores e os desertores, daremos apenas o castigo da morte no cipó de boi e na chibata, continua o caudilho apontando a espada para uma carroça ao lado, onde um negro debutante em refrega recente foi dado como fugitivo. Capturado a laço, o desertor é trazido para uma jaula onde aguardou em jejum de dois dias sua trágica sorte. Despido e amarrado num carroção de quatro rodas, o prisioneiro urra em clemência não atendida. Diante da tropa emudecida, três batedores portando chicotes de duas tranças e verga de boi ressecada se aproximam do infeliz, aguardando o sinal da execução. Em pouco, ruge no espaço um disparo de pistola. As chicotadas e as pancadas se dão intermitentes e contínuas, provocando no condenado um esperneio de afogado e um repertório de gritos indizíveis. Diante da platéia emudecida, revela-se o som do inferno. De costas para o açoitado, o comandante Davi Canabarro assiste ao cumprimento da pena montado a cavalo, fiscalizando os olhares indignados da tropa voluntária que, em silêncio, presencia a agonia do escravo implorando em vão a misericórdia de um fuzilamento. Ao cabo da execução, antecipada por uma degola de gravata, uma nova porção de carne crua e salgada é dada aos novos soldados que agora se dispersam e deitam-se sobre a macega batida, numa compostura notória de medo e indignação. O cair da tarde e o baixar da temperatura os atrai para o derredor das numerosas fogueiras dispostas ao longo do acampamento. Sobre o braseiro que nunca se apaga, três varas de ferro sustentam um caldeirão com água fervente onde se mistura o capim seco da relva nativa que logo é servido em cuités decepados, um mosto de fel que é passado de boca em boca. O caldo amargo e quente ameniza-lhes o desconforto do minuano cortante das madrugadas hibernais do Rio Grande. Aguarda-lhes em breve, apenas o calor de uma batalha inglória. Selado um acordo entre o marechal Luiz Alves de Lima e Silva e o chefe do governo Uruguaio, Manuel Oribe, para que os Farrapos não se refugiem na banda oriental, resta ao caudilho Canabarro aceitar do governo imperial um tratado de paz, posto que as derrotas dos gaúchos vem-se acumulando ao longo de quase dez anos e sem uma única trégua. Encontram-se os embaixadores do lucro para definir os termos da capitulação e solucionar o crucial problema de um inciso relevante do parágrafo quarto: “Serão reconhecidos como livres todos os escravos que serviram a causa da República.” Mas como manter livre uma população imensa de negros, possuidora de coragem, bravura e disciplina invejáveis? Poderiam ao longo do tempo formar um exército considerável, recrutando novos cativos para juntarem-se à causa da libertação de toda aquela massa escrava que habitava os pagos em serventia aos senhores dos pampas. Revela-se então o rosto lúgubre da conspiração, mascarado num genocídio que a historiografia servil se encarregaria de ocultar, nascido da cartada mais pusilânime de toda aquela campanha. --- Marechal, uma mensagem do comandante Davi Canabarro, fala o coronel Francisco Pedro de Abreu adentrando a barraca do Barão de Caxias que, descansando o corpo raquítico numa rede ao canto, põe-se de pé em bocejo de sono. Ao ler a missiva, leva o indicador esquerdo ao bigode grisalho e murmura pensativo. --- Porongos... --- Sim, marechal? Indaga o coronel enrijecendo o corpo na continência rotineira. --- Quero uma reunião com todos os oficiais, coronel, imediatamente, ordena o barão de Caxias vestindo em seguida os cinco quilos da farda chamuscada de condecorações. Apenas um leve movimento da cabeça volumosa do general faz com que uma índia deixe de imediato a barraca. Em minutos, todos os comandantes estão diante do chefe supremo. --- Que dia é hoje, coronel? indaga o general fazendo um círculo num mapa sobre a mesa. --- Dia doze, senhor. --- Ainda temos dois dias. --- Vamos combater, senhor? intervém o capitão Pontes. --- Depois de amanhã, em Porongos. O coronel Francisco Abreu franze a testa. --- Mas senhor, como vamos surpreender à vigilância de Canabarro? --- Já está tudo arranjado, coronel. Vamos por na coluna de frente todos os soldados negros da nossa brigada e armá-los apenas com lanças. Não podemos desperdiçar munição. --- Desculpe, general, mas eles serão massacrados, diz espantado o major Sampaio. --- É este o intento, major. Após a batalha, Davi Canabarro irá renunciar e pedir a paz. Será o fim desses republicanos separatistas e da soldadesca escrava. --- Vamos usar a artilharia, senhor? Indaga o capitão Pontes. --- Vamos nos posicionar de tal forma que não sacrifiquemos os índios e os brancos, estes devem ficar na retaguarda. Poderemos precisar deles algum dia, fala o general sorvendo uma cúia de mate amargo. --- Neste caso devemos levantar acampamento amanhã e fazer pernoite próximo a Lagoa Santa, fala o coronel Abreu grifando o mapa com um xis. --- Exatamente, coronel. Desnecessário dizer que o que se passou aqui jamais será comentado com alguém, sob pena de traição ao exército de Sua Majestade e cuja pena todos nós sabemos, afirma o barão de Caxias contornando a mesa em devagar. Reina um silêncio torturante. --- Mais alguma coisa, senhor? Indaga o coronel em posição de sentido. --- Alimente-os bem, coronel, hoje e amanhã. Barriga cheia vai instigá-los a lutarem com brio. Após a continência, os oficiais deixam a barraca, com exceção do coronel Francisco Abreu. O general entrega-lhe um pergaminho atado com um laço de fita verde e amarelo. --- Encaminhe com urgência esta mensagem ao comandante Canabarro, coronel, imediatamente. A d’alva persiste em fogoneio cintilante no romper da aurora seguinte. Acampados em Porongos, entre as cabeceiras de dois pequenos arroios, os Farrapos ainda dormem margeando as fogueiras raleadas que se espalham ao longo da macega. Despertados por um galope que aflora em repentino, cessa-lhes o susto ao ver um oficial conhecido apear de um baio ofegante e adentrar à barraca do comandante Davi Canabarro. --- Mi capitan, diz o oficial Silveira entregando um escrito ao caudilho entrincheirado num pelego de carneiro. Ao ler o pergaminho timbrado com o brasão das armas do império, Canabarro empina o corpo e se debruça frente ao espelho. Remexe o rosto em devagar e acaricia a barbicha crespa em movimento circular, arregalando os olhos avermelhados numa expressão quixotesca. --- Encilhe o meu pingo e chame cá os imediatos, ordena ao oficial que, maltrapilho, sai em pressa desengonçada. A soldadesca esfarrapada passa o dia na desconfiança, indagando-se sobre um movimentar diferenciado naquela casamata cigana. Breve, ao começar a tarde, sete carneadores de tropa desembainham as facas e começam a afiá-las diante de dois novilhos pilhados a laço numa estância abandonada. Trazidos a cabresto para o varal do abate, o berro relutante atrai os olhares remelentos do regimento esfomeado. Degolados à moda gaúcha e suspensos nas traves por ganchos fisgados no tendão de Aquiles, retiram o couro e as vísceras em rapidez impressionadora. As carcaças são rachadas ao meio por machadadas certeiras. Esquartejadas, são de logo salgadas e penduradas em rente, atraindo as varejeiras que brotam miraculosamente dos ares em zumbidos festivos. Os braseiros são formados em cova rasa e em derredor a carne é espetada em varas, aguçando aos poucos as narinas poerentas dos combatentes desvalidos que aspiram ansiosos o odor da ceia majestosa. Até o fim da tarde alonga-se o banquete festivo, quando o chegar dos sentinelas que vigiam os extremos da coxilha põe a tropa saciada em prenuncio de prontidão. Acalma-lhes a visão do líder Canabarro que se aproxima montando o pingo conhecido, instigando-lhes um levantar apressado e colocarem-se em forma. Ecoa um bacamarte em chamariz. --- O exército Caramuru está nos propondo a paz. A guerra está no fim, grita o caudilho levantando a espada para a multidão que responde em gritos e gestos triunfantes. --- Nós que sempre lutamos em favor da liberdade, agora lutaremos pela integridade da nossa pátria, urra o líder farroupilha provocando um delírio generalizado na massa alucinada. --- Com a benção de Deus e a proteção da Virgem Maria, logo seremos livres e dormiremos o sono dos justos, finaliza o caudilho ao som de vivas, volvendo em seguida com a montaria vistosa para a barraca posicionada em relevo acentuado. Ainda em lusco fusco de crepúsculo douradilho, as colunas dos farrapos escravos são dispostas em quadrados na cabeceira do acampamento, distanciando-se do retângulo vizinho num vácuo aproximado de cinquenta braças. Armados com lanças e espingardas de pederneira, acocorados em derredor das fogueiras confortantes, a guarda formada de negros tomba aos poucos em sono profundo, anestesiada pela canha servida com fartura e o frio cortante que boceja da imensa planura campejana. O candeeiro reluzente provindo da barraca do caudilho Canabarro desenha agora a silhueta de uma índia abraçando o amante de quepe realçado. Conhecida da tropa como papagaia, os cabelos longos e os seios destacados no corpo alto e desnudo, é fiscalizado em relance silencioso por centenares de olhares agoureiros. Delineia-se uma masturbação generalizada, acobertada somente pelos ponchos rotos e a escuridão dos céus, mas de logo cessada pelo avançar da noite gélida. O silêncio das constelações, realçadas pela nova de novembro, fazem-lhes agora a única companhia. Persiste a hibernação estatuária dos farrapos adormecidos. A alvorada surge em lentidão desértica, abrindo em gradual progressiva a íris do clarão solar que, rompendo em raios vivíssimos, alveja as faces semi mortas dos que dormem com o rosto colado à terra. Com o ouvido rente ao chão, o negro Anastácio percebe um som longínquo e contínuo que vem em crescendo, como uma manada pisoteando um chão batido. De imediato ele verga o corpo e mira o sol nascente, desconfiado. Um feixe de luz o faz levantar o braço esquerdo em auxílio ao amenizar os olhos lacrimosos. Confunde-o a silhueta das farpas e das cabeças que se aproximam em cadência de ataque, no marche-marche conhecido da investida militar. A lança serve-lhe de apoio para um levantar espantado, brusco e estóico, acompanhado de um coçar da ramela que enfumaça-lhe a visão. Delineia de imediato a matilha de fardas vermelhas que se aproxima velozmente, rugindo em gritos dopados, acordando em desespero os moribundos companheiros que, no perceber do ataque, enfileiram-se instintivamente de lança em punho no aguardo do embate descomunal. --- É o demo, grita o negro Anastácio sacando a garrucha com a esquerda e empunhando a lança com a destra calejada. Dispara a pistola contra a tropa galega num calcular de trinta braças, e esta vem em saltos doudos, numa investida sem volta contra a coluna desprovida de armas de fogo. Dá-se o choque num emaranhado de gritos e terror sem precedentes. A tropa farroupilha, ainda dormindo e esparramada ao longo do acampamento, acorda ao som da refrega que se trava na extremidade, posicionando-se para o combate aos berros alucinados dos comandantes mal acordados. A coluna de carabineiros farrapos ao perceber a chegada da cavalaria que cobre a retaguarda da coluna de escravos legalistas, dispara rumo a massa avermelhada em descarga simultânea. Abatem dezenas de combatentes e estimulam um revide redobrado. Dividido em três flancos de atiradores, os imperialistas do general Luiz Alves de Lima e Silva obriga os antagonistas a formar duas trincheiras nas extremidades do corpo a corpo de lanceiros negros, misturados ao centro num embolar troiano de bordoadas e balas perdidas, com facadas e disparos a queima roupa, locupletando a histeria insana de uma porfia de loucos. Galgado soberbo na montaria à porta da barraca e com a luneta de um óculo, o chefe Canabarro delineia o embate à distância, cuspindo vez ou outra para o chão, mas sem dar importância alguma ao entrevero alucinante. Assiste estatuário a peleja em mano a mano entre a escravaria esfarrapada e os cativos fardados. No calcular de hora e meia de refrega ininterrupta, rompe a corneta legalista em toque de retirada, volvendo de imediato a cavalaria imperialista que os sitiava em meia lua, deixando o palco da batalha em galope instantâneo e acovardado. Deitado junto a uma pilha de cadáveres mutilados e com o braço esquerdo decepado rente ao ombro por golpe de espada, o negro Anastácio ainda consegue forças para erguer-se e vislumbrar a fuga dos Caramurus. Não entende como os imperialistas em maior número e com a batalha ganha deixa a peleia em alvoroço repentino. Realça-lhe então o brio instintivo da bravura guerreira, ainda que na trágica figura de um cego a beira de um penhasco. --- Tão fugino, galego dos inferno, grita orgulhoso e com a boca seca, voltando o olhar para o ferimento que ainda borrifa o sangue em cadência decrescente. Num misto de dor e sede, ouve gemidos ecoando de todos os cantos. A seu lado, estirado ao chão e com uma faca cravada no pescoço, um soldado inimigo evoca preces misturada a delírios intermitentes. Olha para traz e vê, ao longe, o chefe Canabarro palestrando com os oficiais em completo desdém à rinha agonizante. --- General... Grita o negro Anastácio com os olhos em prantos quando sente um coice nas costas seguido do som de um disparo. Volta o corpo e reconhece o atirador que o fita com riso sarcástico, cuspindo em devagar o fumo mascado e embainhando a pistola enfumaçada. No cair da cabeça o negro ainda vê o peito estilhaçado e compreende o enredo daquela traição combinada. Tomba o corpo rente ao inimigo ainda vivo e tira-lhe em fisgada única a faca do pescoço, cravando-a no coração do infeliz e antecipando o triste fado daquele soldado escravo que também morrera ingloriamente. Dos quase 1400 negros entre farrapos e galegos ocultados pela historiografia oficial, apenas 120 sobreviveram. Alguns permanecem no exército legalista e outros serão dispersos para outras Províncias e posteriormente revendidos como escravos, longe do palco da batalha que a historia intitularia como Surpresa de Porongos, devido a incansável vigilância atribuída ao chefe Davi Canabarro. 14 de novembro de 1844*. Burburinhos localizados Com o ar fresco e o céu ainda acinzentado por nuvens de chuva, a praça de Quixeramobim é povoada aos poucos pelos molecos que brincam nas poças d'água formadas por minúsculos taludes do terreno irregular. Com a boca aberta e voltada para a copa de um Juazeiro frondoso, competem os garotos no abocanhar as bátegas que merejam das folhas em respingos volumosos, num contentamento radiante em caça à prenda tão límpida e rara, um diamante a tanto custo achado. No ralear do chuvisco passageiro, brotam repentinamente de todos os cantos do povoado encarangado, as rezadeiras e as viúvas, peregrinando em grupos diminutos na direção da capela que badala em chamamento desnecessário. E chegam aos montes, com a cabeça coberta por lenços pretos ou panos rotos, úmidos e fétidos, entoando um burburinho misto de prece regozijada e ladainhas melodiosas, acariciando os rosários envernizados pelo coçar de décadas em beliscões vingativos. Seguem-nas as filhas menores e as solteiras, todas com os olhos fixos no rastro débil e penitente da pequena caravana que em procissão, certamente caminhava para o nada. Uma delas porém, desvia a atenção para a praça e deleita-se em sorriso tímido com a brincadeira dos garotos que, em correria barulhenta, chutam as poças d’água na candura inocente daquela puberdade antecipada. --- Brasilina, cria modo minina, diz a mãe dando-lhe um aperto com a unha em alicate, acompanhado de um tapa na cabeça ao que a mocinha obedece envergonhada, voltando o olhar choroso e cabisbaixo para a marcha silenciosa dos calcanhares rachados. Junto aos moleques que brincam na praça, um rapazola magro e de pouca fala, diferenciado dos outros pela altura pouco avantajada, observa o corretivo à distância e aos poucos afasta-se, sorrateiro, encostando o ombro direito no Juazeiro ainda respingante e seguindo a moça com olhar cauteloso. Surpreende-se ao vê-la entrar na igreja e virar-se de súbito, fitando-o como potra em primeiro cio, aguçando-lhe o plano de fazer parte do terço em agradecimento ao padroeiro Santo Antônio de Quixeramobim, a este atribuída a dádiva pela chuva miraculosa. Já próximo ao primeiro degrau da capela em desleixo, sente um gancho calcar-lhe o ombro esquerdo e um frio correr-lhe o corpo. --- Vai ajudá teu pai na venda que ele tá suzim, rosna em rouquidão familiar a madrasta ao enteado estacado. Mudo, o rapaz consente com a cabeça e dá um sorriso desgracioso, tentando enfiar a mão direita no bolso único de uma calça em súplica de remendo. Os dois cavalos que estão amarrados a meio pau no esteio fincado defronte a venda, indicam-lhe que o pai está na jogatina. Ele aproxima-se lentamente e ouve um grito em concomitante a uma paulada, seguido de grunhidos e latidos de um cão surrado. O animal voa pela porta como que lançado por uma catapulta, caindo na rua feito um barril em morro abaixo, ganhando picada em rumo reto, aproveitando por certo o impulso da alpercata golpeadora. --- Antôim, passa pá dento, ordena Vicente Maciel escorando o corpo cambaleante no portal da entrada. Envelhecido e neurastênico, com os bigodes mais esbranquiçados e bem mais crescidos, o que o ajuda a camuflar a gengiva desfalcada, diria qualquer viandante que aquele homem era a própria figura de um fruto podre e em queda livre, um fósforo tentando clarear o dia. --- Bença, diz Antônio Vicente evitando-o com o olhar em desvio, galgando logo o posto de todas as tardes: o banco por detrás do balcão. Entre levar vez ou outra uma caneca de pinga que é passada de boca em boca pelo pai e os companheiros da bisca, aproveita a mesmice da tarde e retoma a lição escolar dada pelo professor Ferreira Nobre, a tradução de uma oração em latim tirada de um breviário presenteado pelo mestre. Não consegue concentrar-se na leitura que é interrompida amiúde com risos fanfarronados provindos dos homens que abocanham aos poucos o já corroído patrimônio da família. Levanta-se e vai até a porta, virando o olhar para a igreja que rumoreja ao longe, em ecos oscilantes as melodias rotineiras das ladainhas demoradas. Fica pensativo e tristonho, vislumbrando o semblante da prima Brasilina Maciel que ultimamente passou a trata-lo de um modo diferenciado, provocando-o com olhar malicioso. --- Será que ela gosta de mim? Murmura em pensamento enquanto olha a praça vazia. --- Antôim, vai na reza chamá a muié pa fazê o cumê que as minina já deve de tá com fome, ordena o pai na oratória vacilante da embriaguez cotidiana. Estóico, segue ele em direção a igreja movido por uma sensação de maturidade nunca antes experimentada. Invade-lhe um sentimento de impotência ao ver as rezadeiras deixando a igreja antes do esperado, com os grupos seguindo as mesmas trilhas e a sua madrasta de parelha com a vizinha vindo ao seu encontro. Rodeia o olhar pela praça e não vê a prenda que ainda cutuca-lhe o pensamento, engolindo em desgosto solitário a saliva merejada pela emoção do descontentamento. --- O pai tá chamano, diz com a cabeça baixa à madrasta com quem a afinidade nunca chegou além das mesmices caseiras. --- Ele tá na pinga, Antôim Vicente? Indaga a vizinha com os olhos mergulhados num crânio enrugado, realçando o anel esbranquiçado da catarata dos velhos. O gesto de afirmativa é o suficiente para que a madrasta Francisca faça o sinal da cruz expressando o temor de uma surra iminente. --- Santo Deus, resmunga a vizinha em apoio de comadre. Volve o trio em mudez epidêmica e a tarde cai, com o vento balançando levemente a copa das árvores raras, soprando em alternado a brisa fresca da estação do inverno, a estação das poucas chuvas. Aos poucos, os pirilampos que perambulam vivíssimos na noite escura, se embatem na discreta concorrência provinda do clarão das candeias que fervilham nos lares do povoado que ora adormece anestesiado, por certo desde o ventre, pela mucosa dos tédios e a quietude contagiante. Não raro se reúnem ao redor das lendas e dos causos duvidosos, alcovitados em palestras messiânicas, geralmente ditas por anciãos mandingueiros. Um deles é Januário Golveia, talvez o mais antigo morador da vila. Sentado num banco estreito em frente a morada e cortando lentamente um fumo de corda, logo é cercado por alguns moradores que, de cócoras ou ombrados no reboco descascado da tapera, ouvem hipnotizados as histórias daquele velho que se diz com mais de cem anos. E as narrativas estupendas de feitos contraditórios são temperadas com o humor de bravatas heróicas, palestradas num misto tupi lusitano e vencidas sempre com o aval do Todo Poderoso. Prende-lhes a atenção o arremate hilariante das parábolas ingênuas onde os conterrâneos já falecidos e os patriarcas remanescentes derrotaram em lances de punhaladas certeiras os não tementes à Deus. Antônio Vicente e os demais companheiros deliciam-se em particular com os feitos de um certo conselheiro Guedes, possuidor de sabedoria, bondade e bravura, requisitos indispensáveis aos paladinos sertanejos, personagens retos e caridosos que, certamente alcançaram por mérito divino o reino dos céus e que ora conseguem tocar as vestes do Altíssimo. --- O sinhô cunheceu o conselheiro Guedes? Pergunta Antônio Vicente ao velho que se jubila quando alguém se mostra interessado. --- Óia minino, ele era um homi muito bão, num sabe? Saiu lá do Pernambuco e andô por esse sertão de meu Deus ajudano os pobre e tirano o diabo do corpo dos incréu, daqueis que veve rino das desgraça dos ôto, responde a ossada centenária, ora coçando a aba do chapéu de couro ou esfarinhando com perícia de índio o fumo cortado, no sovar persistente dos dedos petrificados que rangem na concha ressequida da mão de amparo. --- Mais pruquê quele era chamado de conselheiro? --- Ara minino, nessa idade inda num viu falá? Ele vivia dano conseio pros homi e pas muié se arrependê dus pecado e entregá as arma pra Nosso Sinhô Jesuis Cristo... Pramódi si livrá do fogo do inferno, meu fio, finaliza o velho fazendo o sinal da cruz juntamente com a platéia emudecida. Em pouco, o frio da noite põe fim ao burburinho localizado. Antônio Vicente volta pra casa e vê, rente a porta, o vira lata que o pai expulsara da venda em desdém ornamentado, visivelmente com fome pelo abanar do rabo e coçando em desespero a carcaça raquítica dominada em quase toda pela carne viva da sarna. Ele corta um pedaço da carne seca exposta no balcão e presenteia o animal. --- Num pode entrá aqui, diz com o dedo em riste ao cão que, saciado, se deita na obediência imediata. As portas do povoado se fecham e as candeias se apagam, ignorando por completo uma estrela cadente que se fragmenta em átimos lampejantes, fazendo um risco curvo e majestoso na escuridão dos céus da noite sertaneja. Uma cruz na estrada. Os vilarejos que se formavam nos sertões da Ceará Grande, como foi chamada a região nos Oitocentos, brotavam quase todos com as mesmas características de qualquer núcleo de povoação. Uma capela com cemitério ao fundo, uma delegacia com cadeia afamada e alguns poucos estabelecimentos comerciais, normalmente abastecidos pelos mascates que traziam do litoral os bens de consumo não produzidos no interior. Oásis em meio ao deserto das caatingas, eram pontos de parada dos vaqueiros e das gentes que habitavam as inúmeras fazendas sabidas de dono, mas nem todas providas de documentação oficial ou qualquer legalidade. Calcadas na demarcação do empirismo vigente, o costume e a palavra, eram fiscalizadas de há séculos pela sabença incontestável dos seus mais fiéis cães de guarda, os vaqueiros. Incomparáveis guardiões das restingas e das capoeiras onde habitam as rústicas boiadas criadas ao largo das míseras pastagens nativas e dos bebedouros localizados. Por certo não carecem de heróis, a penúria e a crendice religiosa lhes basta como referencial. Nascidos em meio a uma catequese que impunha-lhes as vantagens da servidão e da fidelidade ao seu dono, viviam todos numa escravidão imposta não pela chibata, mas pela própria rudez e a inospitalidade do meio. Os patrões, na maioria fazendeiros que moravam em povoados distantes, muitos até no litoral, encontravam-se com seus servos num intervalo de ano a ano, e ombrados sobre as pranchas dos currais é que separavam o que é de um e de outro. Predominava a paga calcada em praxe secular, com um quarto das cabeças ficando com o vaqueiro e o restante com o patrão, também chamado de Coronel, pois detinha acima de tudo o mando sobre a Guarda Nacional e as nomeações para os poucos cargos públicos existentes. O nepotismo brasileiro é bem mais velho que o Brasil. O sino do galo badala o sertão. No romper do clarão majestoso, um matuto atravessa o largo da praça de Quixeramobim tocando uma vintena de cabras de leite com crias ao pé, todas madrinhadas por um bode malhado que, na cabeceira, vai guiando a manada com um sinete amarrado ao pescoço. O garoto Antônio Vicente abre as portas da venda e se encanta com a obediência do pequeno rebanho, comandado com maestria por um velho de barba comprida e que apoia a mão direita num cajado roliço. --- Dia, seu Zé, diz o rapazola ao velho Zé do Bode, conhecido morador do povoado. --- Dia, Antôim, responde o homem de cabelo já tordilho, atraindo como um passe mágico a companhia do cachorro que dormira rente a porta da venda. --- O criãme tá ino qué uma beleza, seu Zé, afirma Antônio Vicente com as mãos na cintura, apreciando a caravana caprina estacada diante do condutor. --- Vô levá os bixim a modi pegá um pastim berãno o rio da páia, Antôim, responde em sorriso banguela o matuto erado, enfiado em trapos sebosos e rasgados pela tortura dos anos, tomando logo a trilha de chão batido em passadas vagarosas, estimulando o som melancólico do berreiro das crias. --- Vai cum Deus, sô Zé, diz Antônio Vicente desviando o olhar para um vaqueiro calçado em armadura de couro que corta o largo da praça rumo à venda, puxando à cabresto dois cavalos arriados. De volta à cozinha ele presencia a madrasta socando um pilão e o seu pai içando uma tina da cisterna, mergulhando várias vezes a cabeça naquela água suja e intercalando o feito com reclamos blasfemosos. --- Bença, pai. --- Diabo dus inferno, resmunga Vicente Maciel em protesto vingativo à ressaca persistente. --- Onti o sinhô falô que vai vandê o gado? --- É... O mascate vem por esses dia e eu tenho que acertá umas conta, num sabe? Já mandei avisá o cumpadi Clemente pro ceis juntá as reis. Inté já arrumei compradô. Um susto invade o semblante de Antônio Vicente que o faz levar a mão na cabeça. --- O tio Clemente da tia Francisca? Indaga perplexo. --- Oxénti, e quem havera de sê?, intervém a madrasta golpeando o pilão. A imagem da parenta Brasilina Laurentina de Lima, filha de Clemente e Francisca Maciel vem-lhe a mente em bote certeiro. Passar um tempo junto ao pai da moça talvez fosse proveitoso. --- Será que vai dia, meu pai?. --- Acho mió levá a matula, responde o pai enfiando a mão no pilão e jogando goela abaixo um naco da carne seca macerada. --- Antão eu vô pegá a sandáia, meu pai, diz o moço com ar aventureiro, entrando em devagar no corredor que dá para os quartos. --- Anda logo, minino, num vê que o sór tá arto? Grita o pai com a boca enfarelada. Sentado à cama, Antônio Vicente calça a alpercata de pouco uso e coloca as perneiras de couro curtido. Pela primeira vez a sensação da madureza bate-lhe a porta, erguendo altivo a carcaça fina e desengonçada. Olha para a imagem do Nazareno embutida na igrejinha em cima da mesa e relembra a mãe, Abrindo a gaveta e apanhando o rosário de contas presenteado pela madrinha Maria das Dores. Beija o crucifixo, atento a uma algaravia que ouve em frente a venda. --- Louvado seja Nosso Sinhô Jesus Cristo, diz Clemente adentrando a venda. --- Prá sempre seja louvado, cumpadi, responde o parente Vicente Maciel. --- Antão, cumpadi, o cabra já tá pronto pa lida?, indaga o vindouro em voz alta, espalhando o desafio pitoresco ao sobrinho que se aproxima timidamente. --- Bença, tio, diz Antônio Vicente beijando a mão do parente. --- Bençoe. Mas num é que ele tá criscido, cumpadi? Responde o tio dando-lhe um abraço afetuoso. --- Toma aqui, meu fio, essa tráia eu ganhei do seu avô quando eu casei com a tua mãe. Ela que mi prutigia dos ispim da catinga, num sabe?, diz garbosamente o pai entregando-lhe um colete e um par de luvas de couro de veado, fazendo em simultâneo o sinal da cruz em louvor aos falecidos. --- Que Deus os guarde, cumpadi, responde Clemente endossando o gesto. --- Eu já fiz o acerto com o coroné Silvino Borja. Ele já deve de tá esperãno, diz Vicente Maciel mordendo o cigarro apagado. --- Pó dexá, cumpadi, num intéra meia lua e nóis tá de vórta. --- Bão, acho mió oceis andá logo que o cumpadi Macambira já deve de tá esperãno, fala Vicente Maciel dando um bornal de paçoca ao filho e um outro mais volumoso para o cunhado que logo o amarra na argola do arreio. E saem os dois galgados a meio galope, rumo às veredas desconhecidas pelo cavaleiro de primeira viagem. Assalta-lhe, aos poucos, um sentimento de liberdade ao transpor a linha onde já caminhara outras vezes, acompanhando as rezas e as procissões das romarias domésticas. --- O pai falô desse tal de Macambira, meu tio, mais eu num me alembro desse homi. --- Ele andô fazeno uns sirviço pru finado Migué, aquele quéra meio irimão do vosso pai, num sabe? Dispois ele teve de andá sumido puluns tempo, amódi que tinha gente quereno dispaxá ele pôto mundo, Antôim. Agora ele vevi suzim, lidano com o gado de uns pouco amigo que ainda tem. Mais é um homi bão, meu fio. --- E a paga, é boa, tio? --- Mas num sabe, oxenti? Parece qui us istudo num tá vogãno pa nada? De cada quato cabeça qui nasce o vaquêro leva uma. Eu memo já vi muita gente inricá nessa lida, retruca Clemente --- Benza Deus. --- Num tem um lugá por esse mundão de meu Deus que eu num finquei minha marca, num sabe? E caminham. --- No tempo que a tua mãe era viva, eu trabaiêi muitos ãno pro coroné Pedo Ferrêra e morei em muitos lugá, comenta o matuto feito uma muralha feita em ruínas, na passividade flagrante de uma preguiça atávica, corcoveado no campião que caminha desengonçado sobre a estradinha batida. --- Eu nunca lidei com gado, meu tio, resmunga Antônio Vicente. --- Eu sei, meu fio, e é por isso que o teu pai me mandô te ensiná umas coisa, num sabe? As coisa do ofíço. --- Mais num sei se eu vô da conta, meu tio. --- As abeia tumém num nascero sabeno fazê o mé... Mas na hora que as frô tão-se abrino, Deus insina, responde o tio freando o animal e tirando o chapéu em respeito instintivo a uma cruz fincada à beira da estrada, chamuscada de vela queimada e sombreando uma imagem da Virgem Santíssima. Antônio Vicente repete o gesto. --- O sinhô cunhicia o morto, meu tio? --- Não, meu fio, essa cruis taí desde o tempo do meu finado pai, num sabe? responde o tio cutucando levemente o animal com o calcanhar desprovido de esporas. Após três horas de marcha batida, os cavaleiros avistam uma tapera junto a um pé de um mulungu vistoso, afastada umas vinte braças à jusante da estradinha tortuosa. Ao fundo, um pequeno curral a céu aberto abriga um cavalo magro e uma cabra de leite. Aproximam-se da morada onde um mulato magro está sentado numa rede sombreada por uma meia varanda de capim seco, cortando um fumo de corda com uma parnaíba de três palmos. --- Louvado seja Nosso Sinhô Jesus Cristo, diz Clemente apeando do cavalo. --- Louvado seja, cumpadi, responde o homem se aproximando num andar preguiçoso. --- Deus do céu, mais num é que o mininu já tá um hômi... Ô mãe, vem vê o fio du cumpadi, grita sorridente o matuto cumprimentando Antônio Vicente. Uma velha põe a cabeça envolta em lenço escuro no vão da porta e se aproxima do jovem de cara orgulhosa e vexada, tateando-lhe o rosto com o tremular peculiar da mão das velhas. --- Benza Deus, meu fio, mais num é a cara da cumadi Maria Chana? Diz a anciã em trunfo de sabença, realçando o encarquilho da face. --- A senhora conheceu minha mãe? --- Ara minino, quando ocê veio nu mundo foi eu e a cumadi Das Dô que ajudemo a te lavá, diz a velha acariciando-o e levando um cachimbo à boca. --- Dona Firmina, óia o que o cumpadi Vicente mandô, fala Clemente tirando o bornal do arreio. --- Minha Nossa Senhora da boa sorte, diz a velha irradiante ao ver dois tijolos de rapadura. --- Mais vamo chegá e bebê uma água, Antôim Vicente, diz o matuto Macambira convidando-os a adentrar no cubículo enfumaçado. Sorvem a cabaça refrescante na paciente cerimônia do boca a boca, empoleirando-se em seguida no banco tosco para o deguste da paçoca rançosa. Saciados, calam-se obedientes àquela hibernação canicular. Passada a quadra esturricante, enveredam os três vaqueiros para o planalto desabitado, seguindo a trilha dos cascos e do esterco fresco, a pegada inconfundível da boiada criada à larga. Avistam-na próxima à uma ipueira renovada por chuva recente e aproximam-se em devagar, na felina camuflagem que a vestimenta propicia. --- Ôôa... boi..., berra Clemente Mendes partindo em galope repentino pelo flanco direito do rebanho assustado, enquanto Macambira contorna em oposto com abôios conhecidos, evitando a dispersão da boiada pelos confins do labirinto garranchento. Antônio Vicente segue imitando o tio e curva o corpo para frente, esquivando-se da flora espinhosa e urticante, no instinto natural do vaqueiro que, em galope retilíneo, segue a trilha do garrote desgarrado e mandingueiro que se embrenha nos dédalos espinhentos, revelando-se inconteste o astro maior das primitivas vaquejadas. Aos poucos, destaca-se a superioridade do campião nas destemidas investidas sobre o emaranhado de cerca viva e pontiaguda formada pelos arbustos entrelaçados. Em pouco, cede a rês em notória desvantagem ante a azáfama barulhenta do rapazola que ruge em bramidos triunfais de pegureiro iniciante. --- Êêê... boi... Não tarda e toda a manada teimosa é de logo vencida pelo cansaço e a persistência dos zagais destemidos, obedecendo em tempo curto aos chamamês ordinários do madrinheiro Macambira que, tomando a dianteira, impõe a superioridade de domador invencível ao entoar as cantigas hipnotizantes dos aboiados melodiosos. Antônio Vicente e o tio Clemente cobrem a retaguarda, acompanhando incontinentes a malemolência dos passos da dúzia cansada dos vacuns de meia idade. Chegam na boca da noite e Antônio Vicente, embora visivelmente cansado e com fortes dores nas pernas, não se deixa esmorecer. Após dar de beber aos animais, debruçam-se no desconforto mais próximo para o descanço natural da musculatura sovada. Abombados, postam-se de cócoras ou ombrados em qualquer apoio e falam do feito como se este fora uma empreita realizada há décadas, minuciada por detalhes nem sempre percebido por todos, mas que ninguém ousa contradizer o interloculor, principalmente quando este está com a palavra. É quando num rebojo da noite, em pico de cheia, uma candeia centelha em lusco brando adornando os feitos narrados no exagero habitual dos palestrantes cautelosos. Em demasia, Macambira e Clemente persistem nos causos incríveis e nas façanhas duvidosas, ouvidas por Antônio Vicente em paciência e concordância estatuária. E o desafio persiste sem a desfeita de qualquer réplica ofensiva, o que é sabido, não raro, já terminou em investidas inconseqüentes, geralmente sem o menor aviso. A fogueira defronte a casinha é alimentada amiúde por lenho grosso, e aos poucos, a prosa bravateira cede lugar ao combinado. --- O cumpadi Vicente mandô levá o gado na fazenda do coroné Sirvino, num sabe, cumpadi? Diz que já tá tudo acertado, fala Clemente levando um tição ao pito de sabugo. --- Num dá duas légua, cumpadi. Pegãno cedo, quando fô de tardinha nóis tá lá, retruca Macambira passando uma pedra no fio da parnaíba. Empuleram-se. --- Antão vamo drumí que amanhã a labuta cumeça cedo, fala Clemente estendendo o corpo na rede ao canto da varanda coberta de capim seco, a morada da chupança. Macambira adentra ao casebre e em prazo curto traz um bacamarte que chama a atenção de Antônio Vicente. --- Tá carregado cumpadi, é mió o sinhô drumi perdêle, num sabe? diz em tom sério entregando a arma ao mulato Clemente. --- O minino drome aqui dento, o sereno é pa quem tá custumado, retruca a velha Firmina apontando um catre de ripas encostado ao fogão rebocado de picumãs. O frescor da brisa mansa e o clarão da lua destacada estimulam a sinfonia de grilos que martelam incessantes no cenário sombrio de noite velha. O curral recém habitado exala o aroma inconfundível de esterco verde e os garrotes começam a movimentar-se. Clemente, deitado na rede, sente a presença familiar de um perigo invisível e traiçoeiro. Com o bacamarte em punho, acaricia o gatilho com os olhos arregalados ao sentir a inquietude do gado que pisoteia em crescendo. Devagar e sem o menor ruído, contorna a tapera e delineia o curral que se mostra em silhueta nítida. Percebe o andar de um vulto escuro que para repentinamente junto a cerca, pondo a garrotada em alarido de mugidos alarmantes. Sente o semblante negro mover-se e estacar-se novamente, colocando-o na massa de mira num calcular de dez braças. A descarga troveja o espaço em estampido assustador, seguido de um rosnado acusador de tiro certeiro, entufando de chofre a boiada no canto estremo da curralama de pau podre. --- Cumpadi, vem vê o tamanho da bicha, grita Clemente em tom apoteótico, tranqüilizando os companheiros. Macambira abre em devagar a portinhola da morada e se apresenta alicerçado num machado em ponto de golpe. Pega um tição ainda ardente e se aproxima do curral com o aval do companheiro. --- Benza Deus, cumpadi, mai num é que é das grande? Fala Macambira ao clarear o semblante da suçuarana abatida. Clemente arrasta a caça pelo rabo até a frente do casebre, colocando o troféu ao lado da fogueira. --- Antôim, vem cá minino, diz garbosamente o tio, contemplando a pontaria desenhada em ferimento descomunal. --- Vamo marrá a bicha no pau a módi as frumiga, cumpadi. Amanhã nóis tira o coro, diz Macambira apanhando um laço. Não muito, voltam para o sono interrompido. No levantar da cheia fluorescente, nota-se à distância a taperinha lacrada, tendo à frente os galhos contorcidos do mulungu nativo que ancora em amarras de couro as patas esticadas em aberto da sussuarana majestosa, balançando mansamente ao sabor do vento, dependurada feito um Cristo num crucifixo de amarras. Amanhece na vila e Vicente Maciel abre as portas da venda com o pensamento voltado para o filho e o compadre Clemente, ausentes há vários dias. Olha para a igreja e vê um aglomerado de crentes junto ao vigário do Crato, que veio especialmente para as celebrações da festa do padroeiro Santo Antônio de Quixeramobim. Um dos companheiros de jogatina de Vicente Maciel corta a praça e junta-se à pequena multidão, despertando-lhe a curiosidade. --- Ôh, muié, o Tião Vintura agora deu pa í na igreja? Vigia o barcão queu vô dá uma oiada naquilo, diz em ordenança batendo perna rumo a igreja. Aproxima-se calmamente do círculo de mexiricos e vê um negro de meia idade deitado junto ao portal, com os braços abertos e a cabeça voltada para o céu, no mostruário inconfundível de cadáver abandonado. O sinal da cruz é feito como que por instinto em remedo ao padre que rapidamente encomenda a alma do indigente. Envolto num pano sujo e suspenso por um varal ombrado por dois homens, o corpo é levado para o quintal da igreja onde se desenha o campo santo. Numa vala destinada aos sem nome e aos sem posse, o defunto é enterrado às pressas, sem o privilégio de uma missa de corpo presente, indulgência restrita aos que pagam em dízimos antecipados a apólice da derradeira caminhada; a subida de sua alma devidamente escoltada pelos soldados do céu, a guarda angelical de São Gabriel. Mesmo sem tê-lo conhecido, não importa os seus antecedentes. Agora o partinte tem o respeito dos vivos que oram pela sua absolvição no tribunal divino. A família do falecido por certo não tem posse alguma, e não raro, cadáveres são abandonados na porta das igrejas para desfrutarem o repouso eterno em solo bento. O curral dos mortos, o cemitério, sendo propriedade exclusiva do clero, também assume um aspecto de consolo. Ao contrário dos infelizes sepultados em veredas sombrias que tem apenas o respeito de minuto de qualquer viandante que, de chofre, tira o chapéu e verga o corpo num ajoelhar instintivo, na crendice de amenizar o sofrimento post mortem do pecador desconhecido e libertá-lo do purgatório penitenciário. Diante de uma cruz abandonada, indicativo temeroso da última morada, a crendice se revela como o fruto de uma catequese centenária, forjada na bigorna milenar de um Papado intocável, santificado e venerado como o porta voz de Deus para a leitura de uma escrita divina destinada os ouvidos de uma malta ingênua e miserável. Cumula-se na idólatra penitência moldada na mais antiga de todas as tradições: a hierarquia. Uma mobília almofadada é destinada ao conforto da rótula comprimida dos ricos em detrimento ao chão pedregoso e castigante, o genuflexório dos pobres. Um atentado abortado. A fragata Constituição deixa o cais Pharoux e se embrenha no atlântico rumo às Províncias do sul, acompanhadas por uma fragata Norte Americana e de um brigue inglês. A bordo da Constituição, o jovem Imperador Pedro de Alcântara e a Imperatriz Teresa Cristina, além de uma centena de serviçais que formam a comitiva para a primeira viagem do monarca pelo interior do país. A recém formada Província de São Pedro do Rio Grande é o objetivo principal da visita imperial, visando a priori formalizar a paz entre os caudilhos gaúchos republicanos e o governo de Sua Majestade após uma longa e sangrenta luta, a revolução Farroupilha. Chegam a Porto Alegre a 21 de novembro de 1845 onde, como anfitrião da comitiva está um dos articuladores da visita, o chefe militar de maior prestígio no império, o já então Marechal-de-Campo Luís Alves de Lima e Silva, agraciado com o título de Conde de Caxias, também nomeado senador e Presidente da Província. E desfilam em carro aberto pelas principais ruas da cidade, estando o Imperador ao lado da Imperatriz e o Conde de Caxias que vai sentado no banco oposto da carruagem, que ao passar em marcha lenta pelas ruas enfeitadas, causa um grande frenesi em toda a população que se aglomera por detrás do cordão de isolamento para ver de perto a figura do Imperador. --- Marechal, não esperava do povo gaúcho uma recepção tão calorosa, diz o Monarca sorridente acenando para a multidão juntamente com a Imperatriz. --- Só mesmo com vossas augustas presenças é que os gaúchos irão consolidar o fato de que são integrantes de uma única nação, Majestade. --- Viva o Imperador Dom Pedro, grita um velho ruivo de bigodes vistosos, acenando para a comitiva com uma boina vermelha, ao que o Imperador corresponde a saudação com uma meia continência. Após o demorado Te Deum na catedral e o banquete oferecido pelo Conde de Caxias em sua residência oficial, todo o corpo diplomático da Província cumprimenta o monarca seguindo o rigoroso praxe do beija-mão. O Imperador aguarda com certa ansiedade que alguns chefes militares da revolução Farroupilha venham também cumprimentá-lo. Enfim chegara o momento, numa cartada de mestre que o Conde de Caxias habilmente tira da manga. --- Majestade, o General Bento Gonçalves, diz o Conde de Caxias apontando para o famoso líder revolucionário que traja um uniforme militar. --- Majestade, em nome de todo o povo do Rio Grande, é uma grande honra receber o homem mais ilustre da nação brasileira, diz o general Bento Gonçalves em tom pausado, dobrando o joelho e beijando-lhe a mão, repetindo o mesmo gesto com a Imperatriz, mas saindo discretamente do recinto após a apresentação. O Imperador faz um discurso agradecendo a recepção e em seguida convoca todos os convivas para o momento mais esperado: o baile. E persistem por longo tempo, noite adentro, as contra danças onde o Imperador não se farta em bailar, ao acaso, com algumas das damas gaúchas, provocando em todas um misto de júbilo e lágrimas. Simultaneamente, na pequena vila de Petrópolis, o mordomo imperial Paulo Barbosa está recolhido em sua casa escrevendo ao Imperador para dar-lhe notícias dos filhos, especialmente do Príncipe Dom Afonso que ficara no palácio de São Cristóvão sob a guarda de duas amas. Um barulho na porta o faz levantar-se e checar o ocorrido, ao que, num relance, vê através da vidraça lateral, dois homens estranhos embutidos em capa escura, apontando para a sua cabeça duas carabinas em ponto de tiro. O susto e o pânico se dão em concomitante, fazendo o mordomo soltar vários gritos de desespero enquanto se atira em salto felino atrás de uma poltrona, acordando a esposa e os serviçais que o acodem em ponto de desmaio. --- Querem me matar, eles querem me matar, grita o mordomo em prantos apontando para a porta da sala que se mostra fechada. Um dos guardas, ainda em trajes de dormir e com uma espingarda em punho, acende um lampião e abre a porta, fazendo uma rápida revista em volta de toda a casa, não encontrando sinal algum dos supostos atiradores. Rente à escada que dá acesso à casa, um vulto estático chama-lhe a atenção. Aproxima-se devagar e leva o lume junto ao objeto. --- Meu Deus, diz o guarda afastando-se temeroso ao ver o enorme cão de guarda morto ao pé da escada, degolado, com a língua entre os dentes. --- Mataram o cachorro, diz o guarda entrando na sala. --- Eu não disse, eles querem me matar, berra o mordomo aos prantos e entrincheirado atrás da poltrona. --- Pelo amor de Deus, homem, eu quero ir embora daqui, grita a mulher do mordomo com gestos histéricos agachando-se junto ao marido que soluça com os olhos que parecem saltar-lhe do rosto. --- Soldado, mande avisar o Major Koeler imediatamente, ordena o mordomo retirando-se com a esposa para o quarto que tranca a sete chaves. Tão logo rompe o dia na pequena vila, o mordomo ainda em estado de choque encontra-se na escrivaninha escrevendo ao Imperador. "A sua Petrópolis vai em progresso. Creio que em março ou talvez em fevereiro mesmo, possam Vossas Majestade Imperiais vir ver esta minha Petrópolis, que será um monumento de eterna glória para o seu reinado. Já tenho mais de 400 famílias arranchadas. O que era há quatro meses matas virgens é hoje uma povoação branca, industriosa, alegre e bendizente de Vossa Majestade Imperial. Sua Alteza Imperial tem passado bem, segundo as quotidianas notícias que da Corte me chegam. O jornal A Sentinela ou O Brasil disseram que a ama está tísica...Digo tudo isso para tranqüilizar Sua Majestade a Imperatriz, quando por acaso lhe chegasse tal artigo à mão." A esposa do mordomo Paulo Barbosa se encontra na cama quando o marido se achega. --- Como estás? --- Já escreveste ao Imperador sobre o atentado? Responde a mulher embutida no cobertor. --- Não devo importunar o Imperador com meus problemas particulares, ainda mais ele estando em viagem oficial. --- Eu quero ir embora dessa terra, aqui eu não fico mais nem um dia, responde a mulher em quadro de histeria. --- Tenha calma, mulher. Logo vou informar o Imperador e pedir-lhe que me remunere em por-nos daqui para o polo oposto, responde o marido fechando a janela e ajoelhando-se em prece angustiosa num genuflexório ao canto do quarto. Nos sertões, um leilão de prendas Antônio Vicente e o tio Clemente chegam na Vila de Quixeramobim no meio da tarde e vão direto para a venda onde, o pai, em raro momento de sobriedade, está no balcão a alimentar um filhote de avoante junto às filhas Maria, Francisca e a caçula Rufina ao colo, esta, fruto de seu último casamento. Um susto invade o ambiente. --- Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, diz Clemente atirando um saco volumoso ao pé do balcão, atiçando a curiosidade das crianças. --- Pra sempre seja louvado, cumpadi, responde Vicente Maciel em sorriso de sapo estendendo a mão para o filho que a beija jubiloso. --- Bença, pai. --- Eu tava esperãno ocêis pra ônti, cumpadi. --- Pois é, cumpadi, o coroné Sirvino num dexô nóis vortá sem isprimentá o gosto da posada, num é memo, Antôim? --- É, pai. A dona Genózia mandô lembrança, fala Antônio Vicente beliscando uma rapadura e levando à boca a cabaça d’água. --- E o gado, cumpadi, tava gordo? --- Nus conforme de Deus, num sabe? Mais tava tudo contadim. --- E a paga? --- Das doze cabeça o cumpadi Macambira apartô as trêizi quéra dele. O resto nóis levemo po coroné. --- Tá qui, meu pai, diz o filho entregando-lhe o dinheiro envolto no embornal empoeirado. --- O cumpadi Macambira mais a dona Firmina mandô lembrança, diz Clemente tirando o chapéu e espiando o cunhado Vicente Maciel contar o dinheiro na paciência de quem lambe o indicador a cada nota. --- Tá certo. Mais me diga. E o meu Antôim, é bão de lida, cumpadi? --- Ora, inté parece qui o minino foi criado no mato, num sabe? Dá uma oiada, cumpadi, diz Clemente abrindo o saco e estendendo o couro da suçuarana no balcão. --- Minha Nossa Sinhora! Exclama Vicente Maciel levando a mão na testa. --- Foi ocê qui matô, meu fio? --- Não, meu pai, foi o tio Clemente. Só deu uma carga, responde o rapazola apontando o buraco na couraça em fedor acentuado. --- Virge Maria... Agora vai, Antôim, leva as criança pa dento amódi eu acertá as conta co cumpadi. --- Bença, tio. --- Deus te abençoe, Antôim. Carqué hora vai lem casa amódi nóis trocá uma prosa. --- Mais o sinhô num vem na festa? --- Mais óia, cumpadi, num é queu já tô variano? Retruca Clemente olhando o sobrinho que leva o troféu para a cozinha, enrabichado das três irmãs. Um aglomerado de romeiros vindos de toda a vasta redondeza locupleta a vila de no dia do seu padroeiro, Santo Antônio de Quixeramobim. Um altar colocado abaixo de um cruzeiro fincado ao centro da praça é ladeado por centenas de fiéis que assistem à missa campal. O pároco, vindo do Crato, celebra batizados e casamentos comunitários para a grande monta de amasiados que vão em busca da benção divina. Casais com crianças ao colo e moleques ao pé se ajoelham no chão batido para repetirem o juramento sagrado ministrado pelo enviado de Deus. Antônio Vicente assiste à missa com a atenção voltada às palavras do padre Cosme, entremeada com citações em latim que ele acompanha atentamente, na tentativa fracassada de imitá-lo com o abrir e fechar dos lábios. Ao término do sacramento coletivo, a paga da Santa Missa se dá pela oferta de pequenas prendas que são leiloadas em prol da conservação da capela e do cemitério. Rompe a noite e um foguetório invade o espaço. Rojões e foguetes abrem a festa com os fiéis dando vivas ao padroeiro e cumprimentando-se uns aos outros. Dezenas de animais vivos são argolados em corda única, amarrada junto ao pé do juazeiro central. Doces variados e assados diversos ficam expostos numa prancha em volta a uma grande fogueira onde, o padre, com a ajuda dos festeiros, dão início ao leilão de prendas. --- Óia a cabra, minha gente, óia a cabra. É uma oferta do coroné Quintino Piruá amódi ajudá o santo padi, grita o beato Zé da Lazinha segurando o caprino ao colo. As mulheres e principalmente as crianças se deleitam com os apelos e os trocadilhos do leiloeiro. --- Quem tem criança em casa deve de tê uma cabrita dessa a modi dá de bebê pus bixim, num sabe? Fala o beato esguichando um jato de leite no rosto de um moleque, pondo em risos a platéia de desvalidos. A cachaça é sorvida a esmo pelos convivas que, ao cabo de tempo curto, entoam desafios e repentes improvisados, desviando a atenção dos recém casados para a roda da função. Passada a quadra de insultos e bravatas regada a um humor inofensivo e tacanho, logo se enveredam para a tão esperada dança de roda onde, o choradinho e o atavismo tapuia se revela nítido e vivaz, na gangorra cadenciada e torpe dos folguedos sertanejos. Forma-se então a quadrilha, a dança predileta dos matutos reprimidos, desenhada em alternado com pares frente a frente e uma fila indiana que circunda a fogueira, seguindo o compasso festivo das cantigas casamenteiras atribuídas ao santo padroeiro. Antônio Vicente observa a brincadeira com reservada timidez, decepcionado com a ausência da prima Brasilina. Súbito, um cotucão nas costas enrijece a carcaça do rapazola distraído. --- Viva o Santo Antôim, minha gente, grita Clemente ao lado da filha, abraçando o sobrinho assustado e vexado. --- Oxênti, responde o moço, deparando-se de frente com a prenda de há muito cobiçada. --- E o cumpadi Vicente, Antôim, num tá na festa? --- Ele tá na venda, meu tio. Vim de lá gorica memo, responde Antônio Vicente desviando o olhar da prima que o encara sorridente. --- Antão-se eu vô lá tomá uma pinga mais o cumpadi, num sabe? Dá uma vigiada na minha fia que eu vórto logo, diz sorridente o tio, dando-lhe um tapa no ombro. --- A festança tá qui é uma buniteza, fala a prima desavexada em tentativa de intimidade com o primo notoriamente acanhado. --- É, responde olhando para o chão. --- Cê num gosta de dançá, Antôim? --- Sei não, nunca exprimentei, responde olhando-a nos olhos. --- Aquele dia da chuva eu oiêi ocê na praça, num sabe? Diz ela com voz de cochicho. --- E eu num vi? --- O pai falô que gostô muito docê, Antôim. Falô pa mãe que faz gosto ni nóis, diz Brasilina vexando ainda mais o rosto de Antônio Vicente. --- Bão...eu tumém faço, responde em voz baixa. --- Cê sabe iscrevê o meu nome? --- Ara, num tem um nome que eu num escrevo, num sabe? --- Eu quiria aprendê o meu só pa vê cumé qui é o risco. --- Pois eu te insino, mais vai demóra muito, Brasilina. --- Num tem portânça. Vai lem casa um dia e leva os papé a modi eu vê? --- Cê num qué um doce? Pergunta Antônio Vicente olhando para a barraca onde um bêbado urina apoiado no pé direito da barraca improvisada. --- Virgi Maria, quero sim, responde Brasilina sorridente, tocando-lhe levemente a mão. Uma sensação de medo e alegria invade-lhe o coração. --- Pó pega queu pago, fala Antônio Vicente colocando a mão no bolso da calça sem remendos, um artigo raro naquelas paragens. Sobe a noite e aos poucos raleia-se o largo, ouvindo-se ainda resquícios de prosa minguada que ecoa nos cantos da cidadela em calmaria. Antônio Vicente está sem sono. Deitado ao leito, fita o telhado iluminado pela candeia de meia chama. Leva a mão ao pênis enrijecido e sente uma gosma brotar-lhe à ponta, lembrando de imediato a conversa que tivera com o professor Ferreira Nobre a respeito da procriação dos animais. A imagem da prima vem-lhe despida, com os dois a sós e abraçados, como Deus os colocou no mundo. Repentinamente, um jorro inexplicável brota da verga semi ereta e causa-lhe uma sensação nunca dantes experimentada, borrando em caldo grosso o pano encardido do forro tosco feito lençol. Levanta-se num salto e cai de joelhos diante do pequeno altar posto à mesa, levando as mãos entrelaçadas ao peito e sentindo o coração em batedeira crescente. Leva a mão à testa suada e debulha o rosário de contas em orações apressadas, num misto de culpa e arrependimento. Aos poucos, sente a pulsação refrear-se e agradece à Deus a prece atendida. Senta-se na cama e arquiteta o lavar do lençol borrado no dia seguinte, mergulhando em seguida em pensamentos indagativos. Os pecados da carne tão propalados pelos sermões dos padres, das Madalenas apedrejadas e o Cristo perdoando a todos com palavras doces... Em pouco, faz o sinal da cruz e encolhe o corpo, caindo em sono profundo. Um documento duvidoso --- Aôôô...Boi... Grita o velho carreiro de ferrão em punho, alvoroçando um bando de pombas que povoa o mangueirão dos porcos criados à solta, na encosta do casarão da Fazenda Cachoeira. --- Maiááádo... Berra novamente o negro velho cachimbando o pito apagado, caminhando ao lado do carro de oito juntas a ranger as rodas com o raspar do eixo grosso, seguindo pela estrada aberta em meio à mata exuberante e ao som da passarada em anúncio a mais um dia. O casarão já está com as janelas abertas e a chaminé começa a borrifar em fumo denso. A mucama Joana apoia a sola do pé direito no joelho esquerdo e côa o café junto ao fogão de meio fogo. Ouve o ranger do carro de bois se aproximar da cozinha. --- João Raposo, vai chamá os hômi a modi impiá a lenha, vai? Diz ao feitor que está junto à porta, observando-a com olhar de macho. --- Tá braba, Joana? Inté parece que ocê num tá gostano que o dotô Deucreciano tá morano na cidade mais a patroinha, diz sarcasticamente o feitor levando a caneca ao coador enfumaçado que mereja o café quente. --- Ai qui, João Raposo, o patrão inda vai te pô, viu? Responde a mucama retirando uma forma de pão de queijo do forno, entornando-a num cestinho de bambu. --- Brigado, minha santa, diz o feitor assoprando um pãozinho quente, mas saindo rapidamente ao ouvir a voz do senador Cavalcanti. A mão da sinhá Estefânia chacoalha o sininho cabresteiro. --- Vô tê qui na cidade a modi buscá o padi Damião, num sabe? fala o senador sorvendo a sopa de fubá. --- Não esquece de falá po Deucreciano que eu tô com saudade. Ele parece qui num gosta mais daqui. --- Ara, mulé, casadim de novo ele deve de tá é muito cansado, num sabe? Retruca o senador com ar de riso. Joana adentra à sala e serve o café à patroa. --- Sinhô, meu marido, quantos nêgo o padi Damião vai batizá dessa veiz? --- Acho qui uns cinquenta ou sessenta. --- Meu sinhô, eu inda num fui batizada, diz Joana de cabeça abaixada. --- Puis vai sê, minina. E acho mió ocê matá uns frango que o padi chega amanhã. Ele vem pa jantá e vai posá na fazenda, diz o senador servindo-se de café. --- Joana, num esquece de limpá o quarto dos óspi e trocá os pano. Quero tudo briãno, ordena a patroa à mucama que sai em apressado, não escondendo seu contentamento. --- Bão, dêxa eu batê perna qui o dia é curto, mulé. Inté minhã, fala o senador diante do espelho da chapeleira. A velha casa do padre Feijó mostra-se agora com pintura nova e com o jardim refletindo zelo. Ao pé de todo o mural, uma coluna de coroa de cristo floresce em vermelho vivo, circundando toda a fachada. Dentro do terreno, um negro despeja um balaio de esterco nos canteiros povoados por roseiras brancas e cercados por alamedas de hortênsia que exibem um roxo claro, desabrochadas no viço recente e esplendoroso da estação chuvosa. Uma carruagem para em frente a casa e uma mulher de meia idade em traje de luto chega ao portão. --- O doutor Deucleciano está? Pergunta ao negro que cavuca o jardim. O jardineiro se aproxima e a conduz até a varanda repleta de samambaias e orquídeas que parasitam os xaxins ainda respingantes. Deucleciano abre a porta e cumprimenta a visita esperada, conhecida através de uma carta. --- Dona Dolores, como tens passado? diz estendendo o braço e beijando-lhe a mão. --- Como Deus quer, doutor. --- Fizeste boa viagem? --- O mar me deu um pouco de enjôo, mas não foi tão ruim. Formalmente ele a conduz à biblioteca transformada em escritório. --- Sente-se, por favor. Aceitas um café? Pergunta Deucleciano puxando a cadeira. --- Obrigada, doutor, és tão gentil. --- Poder servir a irmã de um grande amigo é sempre um prazer. Mas me diga, como foram os últimos dias do padre Feijó? Ele não deu mais notícias, comenta Deucleciano desviando o olhar para a mucama que chega com uma bandeja repleta de quitutes e um bule fumacento. --- Pois é, doutor, o meu irmão Diogo saiu da prisão e foi absolvido graças ao senhor. --- Não fiz mais que minha obrigação, dona Dolores. Aliás, quem preparou a defesa foi ele próprio. Eu apenas fiz o papel de um interlocutor, seguindo tão somente o que ele escrevera. --- Então, doutor. Depois ele mudou-se prá São Paulo e se trancou num quarto. Conversava pouco e vivia debruçado nos livros, sempre criticando a questão do celibato, diz a mulher sorvendo o café quente. --- Entendo. Mas, me diga, o que a trouxe para o Rio de Janeiro? --- É a respeito de uma criança, doutor Deucleciano, que mora aqui na capital, diz a mulher entregando-lhe uma pasta. Perplexo, Deucleciano lê rapidamente os documentos. --- Mas isso é uma procuração, e feita em meu nome, responde. --- Exatamente. Ele a redigiu junto a um amigo da família, o juiz Pedro Cândido, tendo apenas eu e o doutor Clovis Bitencourt como testemunha. E falava sobre o senhor e o menino Joaquim o tempo todo, como que pressentisse a morte lhe rondando. --- Joaquim Aparecido, é esse o nome, diz Deucleciano correndo o indicador no documento. --- E todas as economias do meu irmão estão depositadas no banco do Brasil, doutor, em nome do menino Joaquim. --- Meu Deus, mas é muito dinheiro, diz Deucleciano lendo o recibo bancário. --- É o que pensamos, eu e o doutor Cândido, mas meu irmão Diogo quis assim. --- Agora eu entendo. Ele me nomeia o tutor da criança e pede que cuide da sua carta de alforria e também da sua educação. --- É isso, doutor. Nossa família desconhece o fato e o desejo de meu irmão era confiar-lhe esse favor. --- Meu Deus, ele nunca comentou nada à respeito. --- Por certo isso o vexara, mas ao final da vida talvez a piedade ou o remorso de alguma coisa deve ter-lhe batido à porta. Contudo, doutor Deucleciano, tenho certeza de que ele morreu em paz depois de tudo acertado como ele queria. --- Que Deus o tenha em bom lugar, responde Deucleciano levantando-se com o documento à mão. --- Então doutor, o que dizes? --- Temos que procurar a mãe dessa criança e atender a vontade do vosso irmão. Com esse dinheiro não teremos qualquer problema em educá-lo. --- Aqui está o nome da escrava e a descrição do mocambo em que vivem, doutor. O Diogo comentou que ela foi sua mucama até ele ir para Sorocaba e que a deixou aos cuidados de um irmão. Disse que é conhecido como João Pescador, e que moram num casebre próximo a uma praia deserta que alimenta o grande lago, fala a mulher entregando-lhe o papel. --- Eu já vi esse homem, dona Dolores. Fique tranqüila, não será difícil encontrá-los. Ele vende peixe no mercado. É gente conhecida. --- Benza Deus, doutor, não sei como agradecer-lhe, diz a mulher enxugando os olhos. --- Ora, dona Dolores, não chores. O que eu não faria para retribuir os favores daquele que foi, por certo, o maior amigo de meu pai? --- Que Deus lhe pague, doutor. --- Vamos descer sua bagagem. És minha hóspede até acertarmos tudo, diz Deucleciano ajudando-a a levantar-se. --- Não quero incomodá-lo, doutor. Prefiro ficar num hotel por uns dias e depois voltar à São Paulo. --- Nada disso. Não vais regressar sem antes atendermos o pedido de vosso irmão. Vamos descer a bagagem e dispensar o cocheiro, diz Deucleciano conduzindo-a até a sala. Uma carruagem entra na Rua do Comércio e para defronte à Casa Cosmopolita. O senador Cavalcanti desce calmamente e tira o relógio do colete ao ouvir o sino repicar em três batidas. Adentra à loja. --- Bas tarde, senadór, diz o proprietário pincelando o espanador de pó feito de penas nos tecidos expostos no balcão da calçada. --- Tarde, seu Adíbi, diz o senador tirando o chapéu. --- A seniór vei combrá vestidínia ba batrôa? Pergunta o comerciante mostrando-lhe a vitrine. --- O que eu tô quereno é outra coisa, num sabe? O sinhô por um acaso num tem image de santo? Fala o senador observando o mosaico de bugigangas expostos no armarinho central. --- Aqui, senadór. Tem Santo Agostínia, Sam Bicente, tem o Jesus Cristínia, tudo que a senadór quiser, responde o libanês mostrando-lhe um catálogo. O senador corre o dedo no folheto e para por um instante, observando uma figura com ar de desconfiança. --- Que qué isso? --- É Nossa Senióra Aparecida, seniór, a santínia das negrínia. --- Imbrúia uma dessa queu vô levá, ordena em desdém. --- Eu vai lá dentro um poquínia e vai trazê uma bem bunitínia bra senadór, diz o comerciante saindo em apressado. O senador vai até a porta e nota uma aglomeração no lado oposto da rua, rente ao seu coche. --- Aqui está, senadór, diz o comerciante entregando-lhe a imagem embrulhada em papel vermelho. --- Quanté que é? --- Bra seniór eu faiz um breçinho bom. Mil réis. --- Antão-se até logo, seu Adíbi, diz o senador dando-lhe uma pataca com a efígie do Imperador ainda menino, desviando o olhar para um tumulto que se forma no lado oposto da rua. Com as mãos na cintura o senador observa o berreiro. --- Ocê fugiu, nêgo dus inferno, diz o fazendeiro Manoel Simões segurando o colarinho de um negro. --- Por Deus, meu sinhô, eu num sô um fugidô, responde o negro vestindo casaca e sapatos, encurralado por uma malta de brancos. --- É ocê sim, nêgo fio duma égua, grita o homem pegando uma página de anúncios classificados do Jornal do Commércio. O senador Cavalcanti atravessa a rua se aproxima da roda. --- Tá qui, minha gente. Vê si num é ele, ó? Diz o fazendeiro ao ler o reclame: “Fugiu um negro de uns vinte anos, cabeça raspada, canela fina, orelha carnuda, nariz de jatobá, magro, alto e que atende por nome de Tição.” --- Tá veno? Cumé que num é ocê? grita o fazendeiro com o dedo em riste ao negro acuado. --- Meu sinhô, eu fui criado ca sinhazinha dona Lica, muié do coroné Vardumiro. Foi ela qui mi deu arfurría pa pagá uma promessa no dia da festa du padruêro São Sebastião, em humenáge ao Imperadô, diz o negro em clemência com o documento à mão. --- Cê tá mintino, nêgo fujão, eu cunheço a tua cara. Vamo vortá pá fazenda que eu vô te botá no tronco a modi ocê aprendê, grita o homem agarrando-o pelo braço. --- Que qui tá aconteceno? intervém o senador em voz alta e colocando a roda em silêncio. --- Senador Cavarcanti? diz o fazendeiro tirando o chapéu em cumprimento respeitoso. --- Me adiscurpe, mais cumé que o amigo sabe que o nêgo é da tua lavra? Pergunta o senador. --- Já fáiz uns quinze dia, senadô. Eu levei o barbêro na fazenda a módi fazê a tósa da negrada e no ôto dia eu dei por farta desse aqui. Butei o anúncio no jorná e saí prucurano o bicho. Cabei de achá êle agorinha memo, explica o fazendeiro. --- Se má lhe pirgunte, cumaé qui o amigo sabe quesse é nego fugidô? Indaga o senador. --- Quando eu vi o nêgo passano eu gritei o nome dele e na mesma hora ele virô pá traizi. Só pode sê ele, senadô. Si num fosse num avéra de atendê pulo nome. --- Cumaé o nome dele? --- Tição, responde o fazendeiro provocando risos nos curiosos. --- Por Deus, senadô. Eu num cunhêço esse sinhô, num tô discarço e aqui tá meus papé, diz o negro entregando-lhe a carta de alforria. --- É... O amigo deve de tê si inganado, num sabe? O nêgo se chama Eufrázio e ele tá ducumentado, diz o senador ao fazendeiro que responde em carranca vituperiosa. --- Nêgo atôa, diz o fazendeiro retirando-se e calçando o chapéu. --- Deus qui paque o senadô, diz o infeliz em prantos guardando seu único documento, o mais valioso de todos os títulos. Uma carta de alforria. Ao que parece, um salvo conduto de cego, um documento duvidoso... Um presente abençoado A madre Imaculada observa a boca do padre Damião que abre em devagar, soltando o hálito fumacento rente a borda de um castiçal dourado. Com um lenço branco ele esfrega levemente a taça, polindo-a em devagar até deixá-la brilhante. Abre a portinhola do pequeno altar e pega um outro cálice cheio de hóstia, ajoelhando-se em seguida para fazer o sinal da cruz. Ouve alguém bater à porta do alpendre. --- Ah! Deve ser o senador, irmã, diz em ordenança à freira que vai até a porta. --- Bom dia, madre, o padre Damião já se levantou? Pergunta uma velha envolta em luto. --- Ah! Muito obrigada, dona Lica, não precisava se incomodar, responde a freira levantando as três galinhas amarradas num tolete. --- Tão gorda que é uma beleza, diz a velha cutucando a coxa de uma carijó em reclamo ao agradecimento do dízimo rotineiro. Uma carruagem para defronte a casa e rouba a atenção da freira. --- Então, até logo, dona Lica, e que Deus abençoe a senhora e a sua família, diz a freira entregando as pressas um santinho à velha que sai radiante. --- Bom dia, irmã, cadê o padi Damião?, diz o senador Cavalcanti adentrando à casa. --- Ora, ora, mas que surpresa, senador. --- Cumé qui vai, padi? --- Como Deus quer, senador. Aceitas um café? A irmã acabou de coar. --- Brigado, padi, acabei de tomá um na casa de meu fio, num sabe? --- Ah! E Deucleciano, como tem passado? --- Vai bem, padi. Ele mais a minha nora vai assisti a missa na fazenda, num sabe? --- Que bom, senador. Não os vejo desde o casamento. --- Antão-se padi, vamo batizá a negrada? --- Podemos ir, senador. Irmã, cuide bem da casa, sim? Volto em dois ou três dias, diz o padre colocando os castiçais dentro da mala. Rente à senzala da Fazenda Cachoeira, dependurado e árvore seca, um couro de boi esticado com farpas de bambu, flanando ao sabor do vento, indicativo de uma matança recente. Ao lado, uma cozinha improvisada abriga quatro escravas que se revezam a mexer dois tachos de cobre abarrotados da carne picada. Fervilhando na salmoura misturada à gordura desprendida dos ossos, a carne exala o aroma convidativo da mistura rara que, na fumaça, espalha-se pelo terreiro, aguçando o apetite dos quase trinta negros que separam um lote de café em ponto de pilar. Acostumados com o cheiro rançoso do angu salgado e do feijão preto acrescido de miúdos e restos de capado, subitamente a escravaria entoa em cânticos chorosos os reclamos de um atavismo deixado além mar, igualando-se à querência de uma boiada que muge confusa distante do nascedouro, lembrando o piar entristecido de uma pomba do mato em viuvez crepuscular. A mucama Joana troca os lençóis no quarto de Deucleciano, agora com uma cama de casal e um guarda roupa gigantesco. Cantarolando, ela abre uma das portas e deleita-se com a sua imagem de corpo inteiro refletida no espelho. Leva as mãos aos seios e sorri, murmurando o nome do sinhozinho rente ao vidro e beijando a própria boca. Encanta-se com o embaçar da peça provocado pelo hálito bocejado e ouve o latir persistente do cão que guarda a senzala. Corre à janela que da para a frente da casa e debruça-se ansiosa no peitoral de madeira à espera do sinhozinho. --- Meu amô..., murmura baixinho com um sorriso largo, franzindo bruscamente a face ao reconhecer o grito do cocheiro. A carruagem do senador chega ao pátio do casarão com a parelha de cavalos respingando o suor das quatro horas de marcha batida. --- Ôôaa... diz o feitor João Raposo segurando as rédeas dos animais ainda ofegantes. Enclausurado na sotaina preta e visivelmente abatido pelo calor do meio dia, o padre Damião desce do carro e tira o chapéu preto e de abas largas, passando em seguida um lenço à testa molhada. --- Bença, sô padi, diz o feitor beijando-lhe a mão. --- Pega as mala do reverendo e leva pa riba, ordena o senador. Uma mucama se aproxima com uma bandeja portando dois copos e uma jarra de prata. Serve o refresco ao padre que bebe em gula apressada. --- Hum...Limonada, mas que delícia, diz o padre passando a mão no canto da boca. --- João Raposo, quando acabá o sirviço ocê junta uns quato ômi amódi aprontá o artá. Pode sê aqui memo em frente da casa, num sabe? Dispois pede a patroa quéla ti dá os instrutivo, fala o senador com um embrulho às mãos acompanhando o padre na subida da escadaria de dois vãos. --- Sua benção, padre. Já não via a hora de poder me confessar, diz a sinhá cumprimentando-o junto à porta. --- Deus lhe abençoe, senhora dona Estefânia. E não se preocupe, logo mais a tarde tomarei sua confissão. Já vim preparado para isso. --- Louvado seja o nome do Senhor, retruca a sinhá embevecida. --- Vamos entrano, padi, que a casa é du sinhô, fala o senador tirando o guarda pó defronte a chapeleira. --- Mas que beleza de lugar, senador. Já tinha ouvido falar muito da sua fazenda, mas não sabia que a casa era tão grande, diz o padre com os braços cruzados correndo a sala com os olhos. --- É... padi, quando eu comprei a fazenda tava tudo no abandono, num sabe? A Baronesa de Boa Vista inviuvô e resorveu mudá pa cidade, dexãno o irimão tumano conta. Num deu um ano e o mato já tava tudo crescêno nos pasto e as criação sem tê o que cumê, diz o senador sentando-se à mesa. --- O senhor senta aqui, padre, diz a sinhá apontando a cadeira vizinha ao senador. --- Eu ouvi dizer, senador. O homem ficou louco e teve um fim muito triste. --- Lôco nada, padi. O hômi garrô na cachaça e enveredô po lado duma nêga, num sabê? Num deu seis mêis e a peste tumô o dinhêro dele e sumiu no mundo. Aí internaro o bicho e a Baronesa teve que vendê a fazenda. --- Uma boa compra, senador, diz o padre olhando a panela de frango que borrifa uma fumaça tentadora. --- Mais vâmo cumê, hômi de Deus. Ô mulé, manda a Joana trazê o vinho a módi o padi bebê, fala o senador em riso bonachão. Joana ouve o sininho da sinhá e adentra à sala com uma jarra, chamando a atenção do padre pela sua beleza e a delicadeza com que serve o tinto na taça de cristal. --- Ô, criatura, eu já ia esqueceno, num sabe? Aquilo é procê, diz o senador apontando o embrulho vermelho em cima da cristaleira, rente à chapeleira na porta da entrada. Os olhos da mucama realçam num brilho de contentamento. --- Pode pegá, minina. Mais num vá contá pas ôta queu num quero sabê de fuxico, num sabe?, ordena o senador à mucama que sai em apressado com o embrulho às mãos. --- A sua saúde, senador, diz o padre erguendo a taça e sorvendo o vinho. --- Quais as novidades na capital, padre? Pergunta a sinhá. --- Na mesmice de sempre, senhora dona Estefânia. --- E o Imperadô, padi? Diz que o nasceu o fío dêle? --- É verdade, senador, agora temos mais um príncipe nascido no Brasil. --- Cumaé o nome dele? --- Dom Afonso, senador. E devo dizer que tive a honra de participar junto ao arcebispo na cerimônia de batismo. Foi uma grande festa. Nunca vi o Imperador tão feliz, diz o padre com a boca lambuzada, degustando o frango. --- Será que Deucleciano e a minha nora chegam hoje? Pergunta a sinhá ao senador. --- Ele falô que se num vim até o fim do dia ele vem amanhã, num sabe? Diz que tinha umas coisa pá resorvê a módi uma mulé que chegô de Sãm Palo. Diz qué irmã do finado padi Fejó. --- Ela está hospedada em casa de Deucleciano? --- Deve de tá. Ele falô que tinha umas coisa pá resorvê e que dispois me contava, num sabe? --- Eu não sabia que o padre tinha parentes, ele nunca falou de sua família, retruca a sinhá. --- É... a morte carregô ele mais cedo do que a gente achava, murmura o senador em negativa com a cabeça. --- Eu não cheguei a conhecê-lo. Dizem que era um homem muito culto e muito rígido, comenta o padre. --- Que Deus o tenha, padre, diz a sinhá fazendo o sinal da cruz. Uma alforria caída do céu Cheguemos próximos ao mar. Ouçamo-lo. Observando a orla desenhada à jusante de uma duna qualquer da Fazenda Ipanema, vê-se o vai e vem das ondas a rebater na costa pedregosa com a força descomunal de um gigante endoidecido, parecendo repudiar o continente de há pouco emergido da preguiça mesozóica. O cíclico duelo travado entre o dinamismo revoltoso das águas e a estática armadura da trincheira rochosa deixa por testemunha apenas o burburinho espumante que se esvai rapidamente a cada recontro, no coicear intermitente e interminável de voragem assustadora. Galgado numa pedra ao extremo da pequena baía, um negro alto e sisudo contempla um cardume que aparece nitidamente na copa das ondas, segundos antes da arrebentação. De repente, uma onda maior se levanta e o pescador empunha um pequeno arpão de três pontas, arremessando-o rumo ao vórtice espumante e buliçoso. Amarrado a um cordão de crina, o dardo é içado quase sempre sem sucesso, mas o remexer da peça sentida pela vibração de um pequeno repuxo em ziguezague indica-lhe a visita da sorte. Habilmente o pescador retira a prenda que hora se contorce em lambadas nervosas e protestantes, minimizada aos poucos com o ultimato de uma forquilha atravessando-lhe a guelra roxa e vivaz. Retornando o matuto com o jantar às costas, surpreende-se ao ver uma carruagem estacionar defronte à sua morada de taipa. Amoitado, vê a irmã com o sobrinho ao colo atender ao homem que desce do carro acompanhado de uma mulher. Achega-se devagar. --- Maria? Pergunta Deucleciano Cavalcanti tirando o chapéu ao reconhecer a mucama predileta do padre Feijó. --- Sinhô dotô? Cumé que o sinhô foi mi achá nesse fim de mundo, minha Nossa Senhora das Boa Saúde ? Comenta a mucama sorridente. --- Tarde, meu sinhô? diz o pescador aproximando-se com o pescado à mostra. --- João, esse é o dotô Diocreciano, o fio do senadô. O pescador o fita nos olhos e calado abaixa a cabeça, adentrando em seguida à casa. --- Esta é a dona Dolores, Maria, uma amiga que veio de São Paulo pra te conhecer, diz Deucleciano apresentando a visita à mucama desconfiada. --- Posso pegar a criança? Diz Dolores levando as mãos ao mulatinho de uns três anos, desnudo e com olhar arregalado. --- Precisamos conversar, Maria. É a respeito do padre Feijó. --- O inhô padi vortô? indaga perplexa. --- Não, não, na verdade ele morreu já faz um bom tempo, retruca Deucleciano olhando dona Dolores com a criança nos braços. Perplexa, ela faz o sinal da cruz e não contém as lagrimas. --- Calma, Maria, há males que vem prá bem, diz Deucleciano levando o chapéu ao peito. --- Antão-se o que o dotô qué di mim? Murmura a mulher ajoelhada na areia, de cabeça abaixada. --- A criança, esse menino, ele é filho do padre Feijó? Pergunta Deucleciano à mulher que se levanta num salto e tira o filho das mãos de Dolores, entrando aos gritos para dentro da casinha. --- O meu Quinzim ninguém vai levá não, seu dotô. O padi mi deu um papé e falô que nóis num é mais escravo de ninguém, diz a mulher aos prantos enquanto o irmão, o pescador, sai de arpão em punho e cara fechada, estacando-se na porta. --- É, dona Dolores, agora tenho a certeza que o menino é mesmo o que eu pensava, diz Deucleciano sorridente com as mãos na cintura. --- Maria, venha cá. Ninguém vai roubar o seu filho, diz Dolores com voz doce, convencendo o pescador que adentra à morada e guarda o arpão. A mulher abraçada ao filho e ainda com o rosto molhado põe-se à porta. --- Joaquim Aparecido, é esse o nome da criança, não é? pergunta Deucleciano. --- É, sim sinhô, seu dotô, reponde desconfiada. --- Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, diz Dolores com as mãos entrelaçadas ao peito. --- Maria, de agora em diante você e seu filho Joaquim não serão mais escravos de ninguém nesse mundo. O finado padre deixou-lhes uma herança de noventa contos de réis. Seu filho vai ser um doutor como eu, mulher, ou até um padre, diz Deucleciano olhando-a nos olhos dilatados. --- Por Deus, seu dotô. Eu já sufri demais nesse mundo... O que o sinhô qué de mim? Responde a negra em voz suplicante. --- É verdade, Maria. Agora vocês poderão comprar o que quiserem. Uma boa casa, roupas novas, sapatos, o que quiserem, diz Deucleciano afagando-lhe o ombro. --- Eu sou irmã do padre Diogo Feijó, Maria, e tia do seu filho Joaquim, à quem meu irmão confiou a sua educação. O Joaquim vai estudar e vai ser um advogado, como o meu irmão, que Deus o tenha em bom lugar, diz Dolores olhando os céus. --- Vigi Maria, antão-se é verdade memo? Deucleciano intervém. --- Venha, vamos comprar algumas roupas e depois cuidaremos dos papéis. Ah! Você me disse que o padre Feijó lhe deu a carta de alforria. Onde está? --- Pega lá, João, tá debaixo do São Jorge, diz a mulher ainda em estado de choque. --- Muito bem, Maria, agora podemos ir. Você também, João, venha com a gente e traga o peixe, assim teremos o que jantar, diz Deucleciano ao pescador que estampa um sorriso. A carruagem sai em devagar pela estradinha estreita e rodeada de uma vegetação rasteira, contornando o fim da pequena baía repleta de dunas de uma areia esbranquiçada onde, dois morros gêmeos, um ao lado do outro, delineiam o referencial da orla deserta. Transpondo a barreira do areal estéril, logo deparamos com pequenas manchas de floresta nativa recentemente derrubada à machado e que ora dá lugar a pequenas covas de café. Plantadas em desalinho e em desnível, na mais completa desordem e contrariando os mínimos conceitos de uma agricultura voltada à conservação do solo, vista à cavaleiro da serra, nota-se uma confusão de moitas que teimam em frutificar no habitat úmido e favorável ao organismo dos ouricuris. A crisma antecipada Seguindo a trilha em que se desenha o vaso sangüíneo da estradinha em meio ao oceano de matas, chegamos à Fazenda Cachoeira na boca da noite e observamos ao longe um clarão de fogo circundado de gentes e vozes. --- Santificai, Senhor, os dons que vos são oferecidos e pela intercessão de São João Batista, purificai-nos das manchas de nossos pecados..., diz o padre Damião diante de uma multidão de escravos composta de variadas eras, todos ajoelhados defronte ao pátio do casarão. Rente à escadaria da entrada, um enorme crucifixo de madeira verde tem ao pé um altar vistoso, composto de uma mesa coberta por uma toalha branca e uma bíblia aberta com um marcador de fita vermelha. Ao lado direito, um cálice dourado e reluzente está coberto na extremidade por um lencinho rendado, contrastando com um pequeno frasco de vidro lotado em vinho tinto. Em frente ao palco santificado e sentados em cadeiras de encosto alto, a sinhá Estefânia e o senador Cavalcanti assistem à missa campal ao lado da mulata Joana e mais três mucamas da casa, todas sentadas em banco único. --- Não há no mundo um trabalho mais parecido à paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo que o vosso: a colheita do café..., diz o padre ao escravos que o observam, emudecidos pela imposição do nivelamento desvantajoso. --- Glória à vós, Senhor, responde uma dúzia de escravas no flanco direito, destacas pela vestimenta salpicada de enfeites coloridos, previamente ensaiadas pelo reverendo. --- Bem-aventurados os que tem a glória do vosso estado, em tudo semelhante a nosso Senhor Jesus Cristo, o filho de Deus. --- Amém, respondem. --- Na colheita, vós sois a semelhança do Cristo crucificado, porque padeceis de igual forma ao que Nosso Senhor padeceu na cruz. --- Bendito seja o nome do Senhor, aclama o coro. --- A paixão de Cristo foi dia sem descanso e noite sem dormir, tal como serão os vossos dias. Cristo sem roupa e vós despidos, Cristo sem comer e vós famintos, Cristo maltratado e vós maltratados em tudo. Os açoites, os ferros, as afrontas e as chagas, em tudo sois semelhantes ao Salvador, que após o martírio recebeu a recompensa divina; Estar no paraíso e sentado junto ao Pai. --- Glória a vós, Senhor..., agora destacando-se a voz do senador. --- Não sirvam vossos senhores como servem aos homens, mas come servem a Deus, porque não servis como cativos, e sim como livres, nem obedeceis como escravos, mas sim como filhos...,fala de braços abertos o padre à escravaria perplexa que não disfarça a incompreensão do termo, a julgar pelas faces mudas e que se refletem com a luz das tochas que fumegam em círculo ao grande pátio. Ao som de um canto em louvor à Virgem Maria, os cativos em fila são conduzidos para junto do altar onde, um a um, são tocados pelo polegar direito do sacerdote que, mergulhando o dedo num pote com óleo, desenha-lhes na testa o sinal da cruz. Chama-lhe a atenção um escravo de cabelos esbranquiçados que se aproxima com dificuldade, auxiliado por um cajado onde escora uma carcaça envelhecida e levemente arqueada. Mudo, o ancião ajoelha-se e ergue a face diante do padre. --- Kist, Kist, Kist, diz o cura ungindo-lhe a fronte com o óleo bento que se espalha nos afluentes minúsculos desenhados pelo encarquilho das rugas daquela testa centenária. E persiste a crisma antecipada... O silêncio e a cara fechada do senador Cavalcanti instiga-lhes a imitação, ao que todos retornam à marca anterior na mais completa mudez, indagando a si mesmos o motivo do ritual incompreendido. Após a eucaristia e a comunhão dada exclusivamente ao senador e a sinhá, o padre abençoa a todos num latim sibilante, frisando ser o único porta voz do Criador. --- Pax Dómini sit semper vobíscum... --- Amém, responde o coro das escravas. O levantar do senador em espreguiçada bonachona indica o término do culto de hora e meia. --- João Raposo, grita o senador, tira a mesa do artá e dispois já pode acendê a fuguêra e dá carne amódi a negada cumê. --- Meus cumprimentos, padre Damião, foi um grande sermão, diz a sinhá beijando-lhe a mão. --- Que Deus lhe abençoe, dona Estefânia, mas foi uma pena o doutor Deucleciano não ter vindo. --- É verdade, padre, o mensageiro disse que eles virão amanhã. Agora vamos à ceia, diz a sinhá subindo a escadaria. --- É memo, padi, o amigo deve de tá cum fome, retruca o senador apontando a casa. Saciados pela carne refogada servida em abundância, os escravos sentam-se ao redor da fogueira e ouvem atentos a fala do ancião Tobias. O velho de fala mansa e cabeleira esbranquiçada prega aos cativos o dever da concórdia e da paciência, e é tido como a balança entre a fuga quase sempre malogra e a obediência que será recompensada por Deus no dia do juízo. Todos o respeitam. --- Quem é aquele, senador? pergunta o padre Damião debruçado junto ao amigo no parapeito do alpendre a apreciar a cantoria dos escravos. --- É o véio Tubía, padi. Esse nêgo é do tempo do meu finado pai, num sabe? --- Então o senhor o trouxe do engenho de Pernambuco? --- Truxi, padi. Foi uma promessa que meu pai me fez fazê, diz o senador acendendo um cigarro de palha. Uma ocasião, minha finada mãe tava pa ganhá criança e infebrô, num sabe? Entrô numa gimura que tava de fazê dó. Pois num é que o véio Tubía feis uns chá, dano a cantá umas musga trapaiada, e num é que sarvô a criatura? fala o senador gesticulando mansamente. --- Ora, senador, certamente quem a salvou foi a vontade de Deus e o poder das orações à Nossa Senhora do bom parto, retruca o padre. --- Quando a minha finada mãe miorô, padi, ela pidiu pro meu pai sortá o nêgo amódi agradecê dela tê sarado. --- Então o senhor lhe deu alforria, senador? --- Qui nada, padi, o nêgo chegô inté ajoeiá, num sabe? Pidino pa fica na fazenda... E o amigo bem sabe que pedido de benzedô é mió a gente atendê, num é memo? --- Desculpe, senador, mas não posso concordar com a doutrina da feitiçaria. --- Sei não, padi, mas é mió trata bem dessa gente pruquê as praga de nêgo véio quando pega, mata. --- Ora, senador, não me diga que o amigo acredita nessas coisas? --- Já vi muita coisa nesse mundo, padi. O mundo é surtido, diz o senador arredando-se para a sala do casarão. Não tarda e as luzes se apagam. Persiste ainda em diminuto gradual um canto triste e choramingado provindo da fria senzala, o catre de pedras dos desvalidos. Um pêndulo macabro As ruas que dão acesso à Ponta do Calabouço registram naquela manhã de céu azulado um número maior de viventes, todos caminhando em apressado rumo ao circo previamente noticiado pelas charges e deboches a mais um negro sentenciado à forca por homicídio. Diferente da maioria dos cadafalsos onde o público rodeia uma rinha suspensa e o executado cai na vertical ao desfazer-se o piso em forma de alçapão, uma escada lateral e desprovida de corrimão nos leva ao topo de um paredão rochoso onde uma trave de cerne grosso está fincada na pedra, escorada por uma viga disposta em diagonal. Nos porões da cadeia central, oito soldados acompanham um padre que balbucia um credo sobre a remissão dos pecados. Adentrando ao corredor iluminado à tocha, o pároco leva um lenço ao nariz tentando livrar-se do fedor de urina que se sobrepõe na atmosfera rarefeita. Logo chegam a um cubículo onde um negro de meia idade contorce-se na dor de fraturas múltiplas, debruçado sobre uma poça de sangue certamente vertida pelas narinas maceradas em conseqüência visível de espancamento recente. Aberto o portão de ferro com o ranger das dobradiças enferrujadas, o infeliz se ajoelha em prantos, resignado, como que agradecido ao ver chegar o fim da maior de todas as torturas, um viver de escravo. --- Água, pelo amor de Deus, padre, água... --- O senhor é meu pastor, nada me faltará, diz o padre borrifando-o com água benta. No largo do paço um homem de chapéu e casaca adentra ao Armazém Progresso. --- Bom dia, seu Pereira, diz o entrante ao português que, por trás do balcão está debruçado sobre um jornal. --- Doutor Basílio, como estás? Responde o comerciante afagando os bigodes. --- Mas que movimento é esse em plena Terça-feira? Pergunta o advogado apontando para a porta. --- Então não leste o jornal, doutor? Olhe cá, diz o português mostrando-lhe a manchete do Jornal do Commercio. --- Ora, então é isso? Vão enforcar mais um negro para distrair o povo. --- Não é bem assim, doutor. O negro assassinou um tropeiro e como tal deve pagar pelo que fez, diz o português servindo-lhe a cachaça. --- Se fosse o negro que tivesse morrido, seu Pereira, por certo nem haveria processo. --- É, doutor Basílio, isto lá é verdade. Mas aqui sempre foi assim. O que se pode fazer? Lembra daquela negra que era amante do coronel Isidoro? A pobre criatura foi esquartejada à machado e ninguém fez nada, doutor. E todos sabem quem foi a mandante. --- A mulher do coronel... balbucia o advogado. --- A pois, pois, é bem certo que foi ela, todo mundo sabe. --- Bem, seu Pereira, o enforcamento está marcado para as dez, diz o advogado tirando o relógio de bolso. --- O senhor vai assistir a execução, doutor? --- Não se tem nada pra fazer, não é mesmo? Até mais ver, diz o doutor Basílio tragando a cachaça em gole único e batendo em seguida o copo no balcão. Deucleciano desce a escada de sua casa acompanhado da esposa Lucíola e de dona Dolores Feijó. Adentram na carruagem que os espera defronte ao portão. --- Mais umas quatro horas e estaremos na fazenda, diz Deucleciano em tom sarcástico segurando a mão da mulher que responde com um sorriso meigo. --- Sempre quis conhecer a senhora sua mãe, Deucleciano. Meu irmão Diogo falava tanto da comida e nos doces que ela faz, diz dona Dolores abanando o leque. --- Eu também não conheço a fazenda, dona Dolores, diz Lucíola olhando para o marido que lê um jornal franzindo os olhos. Com os pés e os braços acorrentados e puxado por dois soldados, o condenado sobe a escadaria do paredão da forca ao som da multidão que o achincalha com uma vasta gama de palavrões nefandos. Retiradas as correntes, um laço de corda grossa é colocado rente ao pescoço do réu e os seus braços são amarrados por trás do corpo. O padre declama agora a última quadra da extrema unção. --- Eu o absolvo de todos os pecados, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, diz o vigário com a mão estendida. Diante da sacada estreita e sem parapeito, a ribalta é apenas um horizonte aberto e o chão batido locado a uns vinte metros abaixo onde a platéia circunda um vazio em meia lua. Súbito, um rufar de tambores emudece a multidão quando o carrasco se aproxima do condenado prostado rente ao abismo com um capuz sobre a cabeça. Com as duas mãos espalmadas ele empurra bruscamente o infeliz que cai no precipício acompanhado de um grito protestante onde, ao final de sete metros de queda livre, o tranco brusco do fim da corda quebra-lhe o pescoço num repuxo seco, locupletado pelo deleite da multidão endoidecida. --- Morre, assassino...diz a manada maltrapilha em êxtase de gozo diante do corpo que se contorce num rodopiar de horrores. A carruagem de Deucleciano Cavalcanti passa rente a multidão que agora se dispersa, chamando-lhe a atenção o balançar de um corpo ainda trêmulo dependurado junto ao paredão. --- Deus meu, o que é aquilo? Pergunta Lucíola levando a mão na boca. --- Não olhes, mulher, acabaram de enforcar um assassino, responde Deucleciano olhando o vai e vem do corpo que balança levemente, o desenho vivo de um pêndulo macabro. Um coito inevitável Defronte ao pátio da Fazenda Cachoeira, ouve-se um cantarolar que vem da cozinha dos escravos, situada rente à senzala. Nove negras de meia idade estão sentadas no chão batido descascando mandioca, enquanto uma outra, já velha e de pito à boca, despeja as raízes mal raspadas num tacho com salmoura fervente. --- Disque a Joana ganhô do patrão uma santa pretinha iguala nóis, fala uma escrava em tom de fuxico. --- Quéta, minina. O padi já num falô que a inveja é pecado mortá?, retruca a velha remando a fervura. --- Ela é que feliz... Mora na casa do patrão, ganhô sapato, come du bão e do mió, e todo meis inda vai na cidade a módi vê a missa, diz uma outra amamentando o filho. --- Ara, vê se para de cramá e caba logo o sirviço, retruca a velha cuspindo o pigarro gosmento. Um caldo escuro e fervente é despejado num coador de pano locado acima de um bule esmaltado, exalando de imediato o aroma do café quente. --- Que cheiro bom, diz o padre Damião adentrando à cozinha com a batina raspando no chão, surpreendendo a mucama Joana que côa o café escorando o pé direito no joelho esquerdo. --- Bença, padi, diz a mucama de cabeça baixa. --- Então, Joana, onde está a imagem de Nossa Senhora que o senador lhe deu? Não queres que eu benza prá você? Pergunta padre levando uma caneca no coador. --- Eu já vô buscá, diz a mucama estendendo-lhe um cesto repleto de pão de queijo. Sorridente, em pouco traz-lhe a imagem e o flagra mastigando a iguaria com os olhos fechados. --- Hum..., murmura o padre tirando do bolso um pequeno frasco de vidro com água benta. --- Pronto, Joana. Agora ela te protegerá para sempre, diz após respingar a imagem com o líquido sagrado. De volta ao quarto, Joana recoloca a imagem na mesinha do canto e faz o sinal da cruz, desviando a atenção ao ouvir a sinhá gritar da sala. --- Chegaram, padre, eles chegaram. Depressa, Joana vai até a sacada de um dos quartos e vê Deucleciano descer da carruagem acompanhado de duas mulheres. --- Deve ser aquela, murmura pensativa ao ver a sinhá abraçar a nora Lucíola, deixando em seguida o quarto e voltando para a cozinha na expectativa de logo rever o sinhozinho que a fez mulher. Cai a tarde e os escravos voltam da colheita, aglomerando-se na porta da senzala para receberem a terceira e última ração do dia. Em fila e visivelmente abatidos pelas doze horas de trabalho, deleitam-se com a porção de mandioca cozida que é servida em cuias individuais e devorada com o auxílio de um único talher: a própria mão. Saciados pelo bolo pastoso e salgado, aglomeram-se às pressas na escura senzala a procura de um espaço para esticar os corpos fétidos e suados, que logo adormecem entrelaçados uns aos outros. Na sala de jantar do casarão a noite é de festa. Sinhá Estefânia não disfarça a alegria de ter o filho e a nora ao seu lado. --- Então, Lucíola, estás gostando da comida? Pergunta a sinhá. --- Óh..., minha sogra, está uma delícia. Bem que Deucleciano me falava do frango e do cuscuz. --- A receita é la do norte, num sabe? retruca o senador esticando o prato para que a sinhá o sirva novamente. --- A propósito, minha cara. O barão de Vassouras não tem vindo à missa dominical da paróquia da Glória. Ele está a viajar? Pergunta o vigário. --- É verdade, padre. Na época da colheita o meu pai dificilmente deixa a fazenda, responde Lucíola. --- E ele tá certo, num sabe? É o zóio do dono que engorda o porco, retruca o senador provocando risos. --- E a colheita, meu pai, está conforme o senhor previa? Pergunta Deucleciano. --- Mió. Eu nunca vi tanto café cumo deu esse ano. Se tudo saí nos conforme e os preço num baxá eu tô achano que o padi Damião num vai tê dificulidade a módi comprá mais banco pa ponhá na igreja, diz o senador. --- Bendito seja o nome do Senhor, diz o padre sorridente. Súbito, as atenções se voltam para Lucíola que deixa cair um cálice de vinho sobre a mesa e leva a mão à testa. --- O que é isso, meu Deus, diz a sinhá acudindo-a. Deucleciano se levanta e toma nos braços o corpo gélido e já em desmaio anunciado, levando-o para a cama. --- Ela precisa de ar fresco, diz o padre abrindo a janela. Aos poucos a mulher retoma os sentidos e abre os olhos, fitando a todos com o rosto pálido. --- Acalme-se, minha filha, está tudo bem, diz a sinhá afagando-lhe a face. --- Peça prá Joana trazer um copo de água doce, diz a sinhá em ordenança a dona Dolores que sai em apressado para a cozinha. Um soluço seguido de vômito abundante põe a todos em polvorosa. --- Virgem Maria Santíssima, diz o padre arregalando os olhos. --- Deucleciano, é mió nóis levá ela pa cidade pruquê isso num tá me cherãno bem, num sabe? diz o senador encostado à porta. --- Parece que ela está melhorando, diz a sinhá enxugando-lhe o rosto. --- Sei não, muié, diz o senador. Eu já vi muita gente parti desse mundo dum dia pô ôto, num sabe? --- Ora, senador, não digas bobagem. Não vês que foi só um mal estar? Retruca o padre. --- A mucama não está na cozinha nem no quarto, diz dona Dolores trazendo uma caneca com água doce. Após um quarto de hora Joana chega sorrateiramente e adentra ao quarto com uma bandeja, encarando a carranca da patroa. --- Foi a mãe Barbina que mandô dá, diz a mucama na esperança de absolvição. --- Que cocê tinha de tinha de contá pá veia? pergunta o senador. --- Ora, senhor meu marido, deixa estar. Mas o que é isso Joana? Pergunta a sinhá com olhar interrogativo. --- A mãe Barbina falô que é chá de frô do campo. Diz que a sinhazinha vai ficá boa e que vai ganhá criança num intéra trinta lua, diz a mucama gaguejando o recado decorado às pressas. A risada bonachona do senador invade o quarto e todos caem também na gargalhada. --- Meu Deus, é verdade. Como eu não pensei nisso antes, diz a sinhá cheirando o copo. --- Por que estão todos a caçoar de mim? Pergunta Lucíola com ar assustado. --- Acalme-se, minha filha, não é nada. Estamos rindo porque você vai nos dar um neto. --- O quê? pergunta Lucíola ainda pálida. --- Você vai ganhar um filho, minha nora, é só isso, diz a sinhá dando-lhe o chá amargo que é engolido com cara feia. Põe-se a cantar o jaó e rompe a aurora. Como um toque de alvorada, desencadeia a sinfonia embaralhada e barulhenta daquela fauna magistral. Abre-se a porta da senzala e a escravaria começa a movimentar-se, aglomerando no pátio defronte ao casarão. Deucleciano abre a janela e se espanta com a quantidade de escravos que, divididos em três colunas ouvem atentos as ordens do feitor João Raposo. Desengonçado e em remedo a um oficial em campanha, ele distribui as tarefas para oito negros que chefiam a tropa de quarenta mulas amarradas à jusante, todas seladas com bruacas de jacá. Presas umas às outras por uma tira de couro e em grupo de cinco, parte na frente o comboio seguido pela leva de escravos que caminha silenciosa em direção ao eito mais próximo. Em bocejo de noite mal dormida, Deucleciano volta-se para a cama e acaricia a esposa ainda sonolenta. --- Acorde, Lucíola, já é dia, diz afagando-lhe o rosto. Três batidas na porta chamam-lhes a atenção. --- Estás acordado, meu filho? Pergunta a sinhá. Deucleciano abre a porta e sente o cheiro da sopa que ainda fumega na caçarola. --- Deixe que eu cuido dela, meu filho. Seu pai quer que você o acompanhe na fazenda, diz a sinhá achegando-se à cama. --- Agora você vai se alimentar e ficar de repouso até se sentir melhor, diz a sinhá levantando a cabeça de Lucíola, servindo-lhe o caldo. --- Então, senador? Preciso estar na cidade ainda hoje, como combinamos, diz o padre Damião na mesa do café. --- O padi num carece de ficá matutãno, num sabe? Logo dispois du armoço o Vardivino vai levá o amigo, responde o senador sorvendo o desjejum. --- Não queres andar um pouco conosco e conhecer a lavoura, padre? Pergunta Deucleciano. --- Ora, meu filho, já não me dou para estas coisas. Prefiro aguardá-los e aproveitar a manhã para fazer uma caminhada aqui por perto. A propósito, será que ainda tem jabuticaba, senador? --- Ara padi, os pé deve tá que é pura birruga. Pede pa Joana te levá no quintá, berano o corgo. Lá o amigo vai vê a fruta na abundança. --- Obrigado, senador, diz o padre esfregando as mãos em ar de contentamento. ---Antão-se até mais ver, padi. Vamo, meu fio, que os cavalo já deve de tá arriado, diz o senador calçando o chapéu. Espalhados ao longo das moitas de café dispostas em desalinho, os escravos levam as mãos nas ramas repletas de grão maduro e a derriçam em repuxo contínuo, lotando em pouco a peneira de palha amarrada à cintura. Estas são despejadas nos balaios que abastecem as bruacas seladas às mulas que voltam para o terreiro transportando o ouro garimpado a dedo. Deitado à sombra de um angico locado rente à cabeceira da furna recém destocada, o feitor João Raposo fiscaliza o trabalho debruçado na límpida e nítida preguiça da raça, vez ou outra atraiçoado por um cochilo perdulário. O senador e o filho Deucleciano chegam na montaria a passos lentos e flagram o feitor na cesta antecipada. --- Tá drumino, fio duma égua? Grita o senador pondo o infeliz em despertar apavorante, qual bêbado que cambaleia na tentativa de se escorar no ar. --- Dia meu patrão, o sirviço tá ino qué uma buniteza. Inda agorinha dispachei mais uma dúzia de mula po terrêro, responde o feitor procurando o chapéu que se perdeu no solavanco do susto. O senador apeia do animal e se aproxima do feitor com a cara amarrada. --- Escuta aqui, João Raposo, ocê tá na pinga, homi? --- Não, meu sinhô. Só tava tirãno uma páia a modi esperá a ôta leva, responde o feitor olhando Deucleciano que se deleita em risos. --- Fala pro Ovídio que amanhã ele vai ficá no teu lugá, num sabe? E quando terminá o dia vai lá na fazenda que eu quero tratá umas coisa. --- O patrão num vai mais pricisá dos meu sirviço? --- Decerto que vô, seu cabra. Amanhã ocê vai na fazenda do cumpadi Tertuliano a módi escoiê uns treis nêgo bão de cruza. Essa negrada tá pricisano de misturá o sangue, ordena o senador. --- O sinhô qué que traiz da mema raça daqueis úrtimo? --- Escói uns mais arto e das canela fina. Tumém num pode sê muito gordo que nem da ôta veiz, pruquê aí nasce uns bicho muito cumedô, diz o senador montando o cavalo. --- O patrão pó dexá que amanhã destarde os nêgo já tá qui, responde o feitor dobrando a aba do chapéu junto ao peito. De volta ao casarão, Deucleciano e o senador apeiam dos animais e sobem até a varanda onde, deitado à rede e com as mãos entrelaçadas sobre a barriga, o padre Damião dorme no acompanhamento de um ronco embutido. --- O amigo parece que não dormiu de noite? Pergunta o senador aproximando-se. --- Ora, mais já chegaram? É que eu comi muita fruta e caí no sono, responde o padre ao senador que senta-se a seu lado tirando o chapéu. Deucleciano vai até o quarto onde Lucíola está deitada com um livro aberto ao peito. --- Então, mulher, melhoraste? Pergunta afagando-lhe o rosto. --- Sim, responde Lucíola em sorriso. --- Acho melhor vocês ficarem por aqui mais uns dias, meu filho. É muito ruim sentir-se mal e não ter alguém de confiança por perto, diz a sinhá fazendo croché numa cadeira de balanço ao canto do quarto. --- Está bem, minha mãe. Agora vou apanhar umas frutas, responde afagando a mão de Lucíola que corresponde ao carinho. Joana está na cozinha junto a duas mucamas mais velhas que rodeiam o fogão em brasa. Um cheiro de assado povoa o ambiente. --- Hum, que cheiro bom. Joana, pegue uma cesta e vamos apanhar jabuticaba, diz Deucleciano atravessando a cozinha em ordenança à mucama que o atende prontamente. Seguindo o sinhozinho com um cestinho de bambu na mão direita, chegam a um trilho que em pouco desemboca num riacho que corre em devagar, quase sem barulho. Deucleciano para em cima da pinguela de duas pranchas e fica a olhar a limpidez da água que flui sobre o cascalho branco. Em pouco pega ele uma moeda e a joga na água cristalina, voltando o olhar para a mulata que se mostra encabulada. --- Se você acertar o valor da pataca ela é sua, Joana. O níquel de cem réis reluz nitidamente ao fundo da pedra. --- Eu num sei lê dinhêro, reponde a mucama provocando uma risada no patrão. --- Está bem, Joana, ela é sua de qualquer jeito. Vamos, pode pegar. Joana levanta o vestido branco até a coxa e senta-se na prancha, tocando a ponta dos pés na água fria que provoca-lhe um arrepio. Com o vestido apoiado ela deixa a bunda escorregar e toca o fundo do riacho, pisando na moeda com o direito e colocando-a entre os dedos. Vagarosamente ela levanta a perna e a cruza no joelho esquerdo, olhando para Deucleciano que se agacha e apanha o níquel, tocando-lhe no pé molhado e roçando lentamente a perna até a coxa rígida e arrepiada. --- Pronto, o dinheiro é seu, Joana, diz tirando a mucama com as mãos presas às axilas peludas. --- Dá pa comprá um sapato? --- É claro, sua bobona, mas vamos até lá, diz Deucleciano apontando o fim da alameda de jabuticabeiras situada na margem oposta. Em pouco chegam a última árvore onde Deucleciano toma-lhe o cesto e o coloca no chão, abraçando-a de costas e levando o bigode ao pescoço desnudo. Com os olhos fechados ela vira-se bruscamente e aperta-lhe a verga avolumada, desabotoando em seguida a braguilha e tocando o pênis que lateja eriçado. Súbito, ela levanta o vestido e ele a toca na vagina, esfregando o anular direito na vulva suada e viscosa, arrancando-lhe murmúrios abafados pelo beijo demorado. Encostado ao pé da árvore, ele agora tira o cinto e arreia a calça, colocando-a de costas. A penetração se dá prontamente e a fornicação prossegue até o gozo anunciado por um gemido de prazer e arrependimento. --- Você me mata, Joana, diz Deucleciano vestindo rapidamente a calça. --- O sinhozim num vai me levá pa cidade a modi servi a casa? Pergunta Joana com voz vexada. --- Que é isso Joana, estás louca? Retruca Deucleciano retirando-se às pressas. Ao passar na pinguela ele para por instantes e fica novamente a olhar o riacho que corre lentamente sobre as pedras, como que hipnotizado. Volta os olhos para a mucama que, indiferente, agora apanha jabuticaba com o cesto preso ao braço. Leva a mão direita ao rosto e com o indicador roça vagarosamente o queixo barbado, soltando um resmungo que logo se transforma em sorriso. A passos lentos ele retorna ao casarão com o pensamento voltado ao coito inevitável. Sufrágio? Uma pedra no sapato O novo mordomo mor da casa imperial atravessa o salão principal do palácio acompanhando Conselheiro Manoel Alves Branco que traja uma casaca verde com realçados botões amarelos. --- Senhor Conselheiro, aguarde só um instante, diz o mordomo batendo levemente a porta do gabinete do Imperador com dois toques pausados. O monarca está em sua mesa, compenetrado nas anotações do seu diário. Ao ouvir o toque em combinado, marca a página com uma tira roxa e fecha o livro, colocando-o na gaveta. --- Majestade, o Conselheiro Manoel Alves Branco, diz o mordomo introduzindo-o ao gabinete e retirando-se após a reverência. --- Majestade, diz Alves Branco curvando-se com elegância. --- Senta-te, por favor, Conselheiro. O documento já está redigido e acho melhor relermos os primeiros parágrafos para sanarmos qualquer dúvida. O que achas? Diz o Imperador entregando-lhe uma cópia. --- Antes de tudo, Majestade, gostaria de externar o meu agradecimento ao cargo que me confiaste. Irei exercê-lo com a mais profunda lealdade. --- Ora, ora, senhor Conselheiro, deixemos o juramento para a ocasião da solenidade de posse. Aliás, já devo chamá-lo Ministro. Queria também parabenizá-lo pelos resultados que obtivemos com o seu brilhante trabalho, a nova tarifa alfandegária. Aumentamos em muito a nossa arrecadação. --- Não fiz mais do que servir a minha pátria, Majestade, responde Manoel Alves Branco abrindo a minuta do "Parlamentarismo Monárquico Constitucional". Ao contrário do parlamentarismo inglês onde o executivo é representado pelo Primeiro Ministro e este é subordinado ao parlamento, a figura do Presidente do Conselho de Ministros do Brasil não passa de um testa de ferro do Imperador. O Presidente do Conselho nomeia o seu Ministério que por sua vez nomeia os Presidentes das Províncias e estes controlam as eleições com a indicação dos seus respectivos deputados. A um simples toque de pena, o Imperador destitui o Presidente do Conselho que por sua vez troca o Ministério e assim é derrubada toda a cadeia de Presidentes das Províncias que também substituirão os deputados adversários por seus correligionários e também os Delegados de Polícia e Magistrados. Desta forma, o poder Judiciário e o Poder Legislativo na Monarquia Parlamentarista do Brasil nascem subordinados ao Poder Executivo, este exercido indiretamente pelo Imperador. Ser nomeado senador é que é estar no poder. Os senadores detêm um cargo vitalício e não correm o risco de serem destituídos, restando-lhes apenas fazer as vontades do Monarca para algum dia ocupar algum alto posto no executivo, requisito indispensável para se galgar um título na nobiliarquia nacional. --- Está tudo às claras, Majestade, e muito bem redigido. A Monarquia Parlamentarista Constitucional é, sem dúvida, o melhor regime de governo para dar um basta nas discórdias que assolam nossa pátria, comenta o Conselheiro Alves Branco com voz serena. --- E como chefe do Partido Liberal, ninguém melhor que vossa excelência para exercer a Presidência do Conselho de Ministros. Tenho certeza de que formarás um Ministério à altura das aspirações do povo e também do Partido Conservador, retruca o Imperador roçando a barba ruiva, agora bem mais encorpada. --- Ora, Majestade, nem sei como agradecer tão augusto elogio, diz o senador abaixando a cabeça. --- Não comentes com ninguém o conteúdo de nossa conversa, senador, principalmente a respeito da indicação de vosso nome para presidir o Conselho. E também contarei com vosso esforço para que o Partido Liberal aprove, sem embargo, a emenda constitucional, diz o monarca levantando-se. --- Majestade? Se me permite? --- A pois diga. --- É sobre o mordomo Paulo Barbosa, eu soube que ele foi transferido para a Rússia após o atentado? --- Foi nomeado para a Legação em São Petersburgo. --- Sabia decisão, Majestade, assim como a indicação do doutor Aureliano Coutinho para presidir a Província do Rio de Janeiro. Um homem a altura de seu cargo. --- Senhor Conselheiro, desejo-lhe um bom trabalho à frente da Presidência do Conselho de Ministros, finaliza o monarca em notória repúdia àquela bisbilhotice. --- Sempre fui e sempre serei um soldado fiel à serviço de Vossa Majestade, diz Alves Branco curvando-se demoradamente. --- Recomendações à vossa família, senhor ministro, finaliza o Imperador dando-lhe as costas. Ignorou-se por completo um pormenor relevante; o voto secreto e inviolável. Uma cisco no olho que fora extirpado com um assoprar desdenhoso. Mas até quando? Dos olhos azuis, um pingo d’água brotava A fragata inglesa Liverpool aporta no cais Pharoux pela manhã. No escritório da London Company Navegation, um oficial inglês bate um carimbo num papel timbrado e o entrega a dois agentes de estiva que o aguardam de pé, impacientes. --- Desejo-lhes um bom trabalho, senhores, diz o oficial. Os dois empreiteiros abrem as portas das cinco carroças em formato de jaula e descarregam os escravos para o trabalho rotineiro. A bordo, a escravaria já acostumada à estiva se põe em fila, alinhada, aguardando as instruções dos empreiteiros que por sua vez esperam as ordens do capitão. E este chega portando uma prancheta. --- Quanto tempo, senhores? Pergunta o oficial a um dos gatos. --- Talvez dois dias, capitão, trouxeram muita coisa desta vez, responde um deles com as mãos entrelaçadas nas costas e caminhando em devagar, observando os seus escravos que se mostram mudos. --- Podem começar. --- Atenção. Formem duas filas e comecem por este lado, grita em voz de domador o empreiteiro à escravaria que o obedece de pronto. --- Seus homens são eficientes e bem treinados, senhor. Como consegue faze-los compreender e trabalhar assim? Pergunta o capitão acendendo o cachimbo. --- Este é o melhor professor, meu capitão, responde o empreiteiro levantando o chicote enrolado que traz na direita. --- Bem, senhores, vou descansar um pouco. Qualquer coisa estarei no escritório. Tenente Hoover, assuma o comando, diz o capitão descendo a rampa. Na Rua do Comércio o movimento é de um dia comum, com o vai e vem das quitandeiras e mendigos de toda sorte. Um homem baixo e magro, trajando casaca e cartola atravessa a rua e adentra à Casa Europa. --- Doutor José Barbosa, que bom que o senhor chegou, diz o comerciante em cumprimento cortês. --- Como estás, senhor Caldeira? A minha encomenda já chegou? --- Aqui está, doutor, responde o português mostrando-lhe uma caixa fina e comprida com a inscrição CRYSTER D’J.& B. HOPKINSON. --- Óh, mas que beleza, diz o médico abrindo-a com cuidado. --- Esta é regulável, doutor. Serve para crianças e adultos. Todas as instruções estão no folheto. --- Que ótimo, seu Caldeira, mas quanto lhe devo? --- Aqui está a nota doutor. Houve um pequeno acréscimo..., o senhor sabe, os impostos... --- De quanto? --- Dezoito por cento. --- O que? --- Aumentaram de novo a tarifa alfandegária, doutor Barbosa, responde o português apontando o indicador para um caderno de notas. --- Ladrões... --- Não queres ver mais nada, doutor? Chegaram navalhas da Alemanha. --- Por hora não, senhor Caldeira, já estou atrasado, responde o médico despedindo-se. --- Até mais ver, doutor. Recomendações para a dona Custódia, diz o português pegando as doze patacas de dois mil réis. Três homens apeiam de uma carruagem defronte a um palacete e sobem a escadaria que dá para o segundo andar. --- O doutor Eusébio já chegou? Pergunta um deles ao alabardeiro de plantão que abre a porta do gabinete. Entrincheirado numa mesa cheia de papéis e volumes abertos, um homem de cabelos ondulados, barba grisalha e sem bigodes escreve calmamente num livro grosso. Uma tabuleta a frente da mesa indica o seu posto do antigo e temido chefe de polícia da Corte. DR. EUSÉBIO DE QUEIRÓS MATOSO CÂMARA DESEMBARGADOR DA RELAÇÃO DO RIO DE JANEIRO --- Doutor? Diz um deles tirando o chapéu aproximando-se do chefe. --- Então? Quais as novas? Pergunta o desembargador entrelaçando as mãos e afastando o corpo na cadeira de mola. --- Mais dois cruzadores ingleses aportaram no cais, senhor. Todos com artilharia pesada, diz um dos informantes entregando-lhe um relatório. --- Ah... Então depois da bill Aberdeen esses ingleses acham que são os donos do nosso país? Murmura o magistrado correndo os olhos no relatório. --- E não é só isso, senhor. Soube no porto que eles afundaram um navio a poucas milhas da costa, com toda a tripulação a bordo. --- Santo Deus... E a carga? --- Todos os escravos também foram a pique, senhor. --- Filhos da puta, grita o desembargador esmurrando a mesa. --- Doutor Eusébio? Há espiões ingleses por toda parte e de acordo com essa lei eles tem plenos poderes para dar busca nos navios e nos depósitos de negros. O que vamos fazer? --- Calma, precisamos agir discretamente. Avise os traficantes para ficarem de molho e não descarregar mercadoria nos arredores da Corte. Pelo menos por enquanto, diz o Dr. Eusébio levantando-se e abotoando o paletó. --- Mais alguma coisa, senhor? --- Fiquem de olhos abertos. Quero um relatório diário sobre tudo o que eles fazem, com quem andam, onde moram, enfim, sigam os seus passos. Uma auxiliar bate à porta e adentra à sala pisando em ovos. --- Licença, doutor. --- Já não disse para não me interromper? Vamos, o que aconteceu? Pergunta em voz autoritária. --- Uma tragédia, senhor. --- Fale logo, homem. --- O Príncipe Dom Afonso, senhor, acaba de falecer no paço São Cristóvão. --- Meu Deus, reponde o desembargador levando a mão na testa. Uma salva de tiros de canhão ecoa nos ares do Convento de Santo Antônio, como um brado retumbante. Vestido com o uniforme militar, o Imperador permanece estático e absorto, enquanto o Arcebispo penitencia os presentes com uma longa missa de corpo presente. O pequeno caixão está coberto pela bandeira do Império e ladeado pela maioria dos políticos da Corte, todos em silêncio absoluto. Felizmente, para muitos, a prédica dos defuntos dita em latim pelo Arcebispo sinaliza o final do culto de quase uma hora. --- Pleni sunt caeli et terra gória tua... Benedíctus qui venít in nómine Dómine. Hosánna in excélsis... --- Amém, murmura o Imperador com resignação, provocando soluços de choro aos que o cercam. * CONFIRMA-SE A LENDA DO FRADE FRANCISCANO DE QUE A DESCENDÊNCIA DOS BRAGANÇA NUNCA PASSARIA PELOS PRIMOGÊNITOS. DOM PEDRO I NÃO FOI O PRIMOGÊNITO DE DOM JOÃO VI; DOM PEDRO II NÃO FOI O PRIMOGÊNITO DE DOM PEDRO I E O PRIMOGÊNITO DE DOM PEDRO II FALECE AOS DOIS ANOS DE IDADE. Finda a cerimônia, o Imperador e a Imperatriz que ora carrega uma gravidez de oito meses, retornam ao palácio acompanhados dos criados e de alguns poucos políticos ligados à intimidade do paço. O Arcebispo consola a Imperatriz descrevendo o trono que Deus reservou para o seu anjinho de apenas dois anos; uma Corte angelical desprovida das agruras terrenas. --- Onde está a minha filha? Pergunta o Imperador adentrando ao palácio em passadas lentas e regulares, como um autômato a olhar para lugar algum. --- Majestade, diz o médico Sigaud oferecendo-lhe um chá, ao que ele recusa com um gesto delicado. --- Ela está no quarto com a Dona Mariana de Verna, Majestade. Ela chegou e insistiu em ficar ao lado de Sua Alteza até acabar a cerimônia, intervém o mordomo. Subindo a escadaria que dá para os aposentos particulares, ele para por um instante e volta o olhar para o salão onde todos o fitam, imóveis, mudos. --- Por favor, deixem-me a sós, e dá-lhes as costas. Ao abrir a porta do quarto da filha, a velha preceptora Dona Mariana está sentada à beira da cama a debulhar um rosário de contas. Ao ver o Imperador ela se levanta e estende-lhe a mão, com os olhos em prantos. --- Majestade, Deus o levou tão cedo, diz ao monarca que a abraça como nunca dantes o fizera. --- Foi a vontade do Pai, murmura o Imperador em voz seca. Ao canto do quarto, sentada em uma poltrona, uma negra vestida de luto amamenta uma criança no balançar mimoso da gangorra que antecede o sono. --- Isabel Cristina? Diz o Imperador aproximando-se da escrava que amamenta a Princesa Isabel, uma criança de nove meses. Acanhada, a ama de leite fita o Imperador com olhar sereno, apontando-lhe em expressão facial a ironia de um destino ainda por vir. Delicadamente ele ajoelha-se diante da escrava e toca levemente o rosto da filha que, com os olhos fechados, sorve do seio rubro o maior de todos os tesouros. --- Isabé, a rainha do Brasí, balbucia a escrava encarando-o com a ternura dos servos, a não mais que três palmos, como uma candeia diante do sol. Os olhos azuis, realçados na face rosada e acobertada numa barba ruiva, aos poucos drenam a água provinda de um coração encharcado na teriaga mais amarga que a fatalidade lhe serviu: a morte do Príncipe herdeiro, ceifado no limiar da existência. Dizem que o jovem Imperador soluçava, e da lagoa da alma, um pingo d'água brotava.
capítulo 2 - O coito O COITO Murmúrios de guerra Um tílburi com dois passageiros corta o largo do paço da cidade e segue em direção à rua do hospício, parando logo na primeira quadra defronte ao último sobrado que tem como vizinho um mato baldio. Um dos passageiros apeia e bate fortemente o portal com a bengala. --- Doutor Eusébio? Diz uma mulher colocando meia face entre a porta, tentando em vão disfarçar um hematoma no olho esquerdo. --- Onde está o primo Guido? Pergunta Eusébio de Queirós embutido numa casaca azul e adentrando sem demora à saleta raleada de mobiliário. --- Já vou chamá-lo, senhor. Aceitas um café? Pergunta educadamente a mulher virando o rosto. --- Não tenho muito tempo, minha senhora, retruca com a voz aguda e afeminada. --- Senhor meu marido, o doutor já chegou, grita a mulher mirando a boca para um cubículo escuro situado abaixo do vão da escada que dá acesso ao andar superior. --- Já toíno, muié, responde o mercador de escravos Guido Queirós saindo em apressado da alcova fedorenta, amarrando a calça em relaxo flagrante. --- Ora, senhor desembargador, como vão os negócios? Diz aproximando-se. --- Precisamos resolver algumas coisas, primo. --- É verdade, recebi o recado. Tens novidade? Pergunta o traficante roçando uma enorme cicatriz na face esquerda. --- Vamos até o depósito. Lá conversaremos com calma. --- Aconteceu alguma coisa? --- São os ingleses. Estão dando busca em tudo que é lugar. Não podemos nos arriscar a perder o estoque, responde Eusébio coçando a barbicha grisalha e tentando desviar os pés dos escarros espalhados pelo chão. --- Virgem Maria, então teremos que levar a mercadoria para algum lugar mais seguro, é isso? Pergunta o homem franzindo a testa. --- A fazenda do nosso primo Gregório é o lugar mais indicado. Já acertei com ele. Mas vamos precisar de uns três carroções e alguns homens. --- Pode deixar que eu arranjo os homens, doutor. --- Ótimo. Com sorte, até o final do dia a carga estará em segurança, diz o magistrado tirando o relógio do colete e conferindo-o com o da parede enquanto o traficante Guido Queirós vai até a janela, mostrando-se desconfiado. --- Quem é aquele? pergunta apontando o indicador para um homem que conversa com o cocheiro. --- É o Severo Viana, um dos meus informantes. Ele ficará aqui para nos avisar de qualquer imprevisto. Fique sossegado, primo, ele é de confiança. --- Tranque bem a porta e não deixe ninguém entrar, minha senhora. Se perguntarem por mim diga que volto amanhã. E não esqueça de mandar a nêga limpar a latrina, diz em ordenança à mulher que responde em afirmativa com a cabeça. A mulher fica por instantes com meia face junto à porta observando o doutor Eusébio que dá algumas instruções ao seu informante. Em pouco, os dois tomam assento ao carro que sai em marcha batida. Ela volta-se para a cozinha onde uma mucama de meia idade está defronte ao fogão, mirando incontinente as bolhas que brotam de uma tachada de doce de abóbora. --- Zumira, vá descarregar a bosta que eu cuido do tacho. E não precisa ter pressa, viu? Ordena à mucama que a obedece sorridente, como que cúmplice de alguma coisa. O tílburi com o desembargador Eusébio e o primo Guido Queirós contorna uma viela ao final de uma rua desabitada e chega a um prédio comprido e desprovido de janelas. Apeiam e dão a volta pelos fundos, onde um homem empunha uma espingarda junto a um cavalo amarrado à sombra de uma mangueira. Assustado, o vigia tira de imediato o chapéu em cumprimento ao patrão. --- Sim, sinhô... A poucas jardas do único portal disposto ao centro do edifício, um tacho grande e vazio está sobre um fogão de alvenaria a céu aberto. Nota-se um tição apagado. --- Dito, vá chamar o Tavares e diga pra ele trazer três carroções com cinco vigias. Me dê a chave do depósito e vê se não demora, ordena Guido Queirós ao homem que monta rapidamente o cavalo e sai em disparada rumo à uma estradinha deserta. Aberto o cadeado que prende um novelo de correntes no portal do prédio, o fedor da escravaria há dias faz o doutor Eusébio levar o lenço ao nariz, ao mesmo tempo em que um burburinho lamentoso de vozes agonizantes invade o espaço. Acorrentados pelos pés e deitados rente às paredes do prédio, quase uma centena de escravos semi nus imploram com gritos roucos e gestos piedosos por água e comida, numa clemência generalizada. Muitos levam as mãos aos olhos, esquivando-se da claridade. Outros apenas contemplam os vindouros com olhar de espanto e piedade. Ao centro do prédio e fora do alcance dos negros, uma barrica povoada de moscas mostra apenas o cabo de uma pá de madeira. --- Eles devem estar com fome. Bem que eu disse ao Tavares que uma tachada de fubá não daria por muito tempo. Veja só, já está vazia, diz o traficante chutando levemente a barrica. --- Ora, meu caro Guido, qualquer imbecil percebe que eles estão sem comida há mais de dois dias. Olha esse aqui? Já deve estar doente, diz chutando a costela de um escravo que agoniza deitado sobre uma poça de urina. --- É verdade, doutor. Acho melhor fazermos outra tachada antes da viagem, diz o traficante abrindo um saco com meia carga de um fubá carunchado. --- Tens razão. Mas primeiro vamos sair daqui que este cheiro me dá nojo, retruca Eusébio de Queirós com o lenço ao rosto voltando-se para o portal onde, ao canto, um enxame de vespas baila em zumbidos persistentes sobre uma bolota de excremento humano ainda fresco. --- Deve ser do guarda noite, senhor. Já cansei de falar pra ele fazer o mato, intervém o primo Guido Queirós franzindo a testa realçando uma cicatriz em meia face. --- Escória, murmura o doutor Eusébio afastando-se da porta. Ainda no final de tarde, a mucama Zumira é vista carregando um vaso de cerâmica sobre a cabeça e se aproximando de uma plataforma de madeira construída por cima de uma veio da praia. Ao chegar na extremidade, ela despeja a tina abarrotada de excremento sobre a água escurecida onde as gaivotas chegam aos montes, fazendo festa com a fartura do lixo. De volta pra casa e com a tina vazia sobre a cabeça, ela para num chafariz localizado defronte ao paço de Santana, alimentado pela água límpida e cristalina desviada do riacho da carioca. Outras mucamas que fazem a mesma tarefa encontram-se costumeiramente no bebedouro. Os mexericos tomam forma em lunduns populares, parodiados com repentes ingênuos que fluem num rogar de pragas vingativas, cessadas amiúde com a aproximação de alguma alma suspeita. Um bico d'água saindo na horizontal da boca de um leão a meio metro serve para a lavagem das tinas impregnadas de estrume. --- Uái, Zumira, tá sumida? Inté parece que imbuxô?, Pergunta uma mucama mais velha, arrancando risos das comadres. --- Víge Maria, dona Justina, vira essa bôca prá lá, responde a mucama esfregando o interior da cerâmica com a mão nua. --- Disque o seu Guido gosta mais das nêga do que da muié dele. Num é verdade, Zumira?, indaga uma outra. --- Pode até sê, mais comigo ele nunca buliu. A patroa é que aproveita os dia que ele num tá em casa. --- Uái, Zumira, que cocê tá falãno, minina? Pergunta a velha Justina cuspindo de lado. --- Inda agora memo deve de tê um hômi na cama do inhô Guido, diz a mucama com expressão maliciosa. --- É verdade, minha fía, a minha iáiá é iguarzinha a tua. Só num vê quem num qué, retruca uma outra levando um balde d'água à cabeça, recomeçando o cantarolar lamentoso das ladainhas mal entendidas. A mulher do traficante Guido Queirós está deitada de bruços, com um pano preso entre os dentes. O coito de dá em estocadas bruscas e regulares, fazendo ranger a cama a cada investida dada pelo informante do desembargador. Com a calça arriada até os joelhos, ele usa as botas para apoiar o corpo na extremidade da cama, bufando vez ou outra palavras ininteligíveis no ouvido da mulher que geme em abafado, mordendo o pano como que amenizando a dor de um parto, molhando o rosto com o suor do gozo que revira-lhe o branco dos olhos. Súbito, ela sente o peso do parceiro dobrar sobre suas costas desnudas. --- Já acabas-te, Severo? Murmura a mulher ainda em estado de torpor. --- Devo voltar logo ao meu posto, se a senhora me der licença, retruca o homem com ar de triunfo, amarrando as calças num apressado notório. --- Não tenhas pressa, Severo, eles só voltam amanhã, diz a mulher enxugando o rosto com o pano sujo e seboso. --- Mesmo assim, senhora, não devemos levantar suspeitas. --- Daqui há pouco vou esquentar a comida. Não estás com fome? --- Não precisas se preocupar, eu me ajeito. Com sua licença, diz o homem saindo do quarto pisando na ponta dos pés. De volta ao posto defronte à casa, retoma o informante à vigília na rua deserta. Em pouco, a mucama Zumira se aproxima sorrateiramente e o flagra coçando a genitália com expressão raivosa. Surpreso, ele disfarça o gesto e acende um cigarro. Calada, ela adentra ao sobrado e sai em seguida portando uma pequena cabaça e uma caneca. --- É água limpa, diz a mucama estendendo-lhe as mãos. --- Obrigado, responde o homem bebendo em apressado, retornando de logo a mão na virilha, tentando aliviar a coceira persistente. Cai a noite e o largo do paço esvazia-se aos poucos. Um homem de casaca escura deixa o prédio da câmara dos deputados e dirige-se para a praça já deserta. No Armazém Progresso ainda se vê o desenho das portas e janelas, iluminadas pela luz tosca e amarelada dos lampiões de cera. Alguns jogam cartas numa mesinha ao canto e os fregueses de sempre estão de prosa na mesa central, por certo aguardando o bocejo de sono do português que, do lado de dentro do balcão apanha uma faca e corta uma fatia do toucinho amarrado a um pequeno jirau. O jornalista Arlindo de Castro adentra ao armazém indo direto ao balcão. --- Boa noite, seu Arlindo, pergunta o português ainda ruminando a iguaria enquanto o jornalista cumprimenta os presentes com um leve baixar da cabeça. --- Como estás, seu Pereira? --- Como Deus quer, seu Arlindo. Aceitas um cálix do porto? --- Sim, e veja também como está minha conta, reponde o jornalista sorvendo a taça enquanto os companheiros se achegam. --- Então, seu Arlindo, como foi a sessão na câmara? Ouvi dizer que vai ter guerra no Recife , pergunta o advogado Basílio já meio embriagado. --- É verdade, doutor. O Imperador não aceitou a indicação para o senado do Chichorro da Gama, do partido liberal. Os deputados liberais estão temendo uma nova mudança no governo. --- Mas o Presidente do Conselho de Ministros, além de ser do partido liberal é homem de confiança do Imperador, intervém o português coçando os bigodes. --- A coisa é mais complexa, seu Pereira. Os conservadores alegam que esse tal Chichorro da Gama tem insuflado o povo com um programa que contraria a vontade do império. --- Li um artigo do senhor à respeito de um dos chefes do partido da praia. É esse o tal homem? Indaga o advogado Basílio. --- Não, doutor, é outra pessoa. O chefe do partido da praia chama-se Antônio Pedro, se não me engano, mas são da mesma facção. Eles querem o trabalho livre e a retirada do monopólio dos portugueses do comércio. Dizem que a grande parte dos pernambucanos aderiram ao movimento e que já morreu muita gente no Recife. Creio que não resta outra alternativa ao Imperador do que autorizar uma intervenção. --- Mas, seu Arlindo, a abolição da escravatura e a nacionalização do comércio é uma reivindicação antiga dos pernambucanos. Não vejo novidade alguma no programa dos liberais, argumenta o advogado Basílio. --- Não é só isso, doutor. Os liberais armaram uma arruaça para pressionar o Imperador e, creio eu, o tiro saiu pela culatra. Além do mais eles dizem querer também a proclamação da República, o voto universal e a liberdade de imprensa, vejam os senhores, responde o jornalista pedindo mais uma taça de vinho com o gesto habitual. --- Meu Deus, e o que vai acontecer, seu Arlindo? Pergunta o português abrindo a garrafa. --- Os líderes conservadores estão reunidos com o Imperador no paço de São Cristóvão. Isto está me cheirando a pólvora, seu Pereira. --- Quer dizer que o ministro Alves Branco vai deixar o governo, seu Arlindo? Indaga o português perplexo. --- Não tenho mais dúvidas que o ministro Alves Branco é bananeira que já deu cacho, seu Pereira, responde o jornalista arrancando risos dos que jogam baralho numa mesa ao canto. --- Seu Arlindo, me responda uma coisa? Se o Imperador colocar um conservador na Presidência do Conselho de Ministros, isto quer dizer os liberais irão de novo pro olho da rua? Pergunta o boticário adentrando à conversa. --- Não só os Presidentes das Províncias, mas também todos os cargos subalternos serão substituídos, meu caro, principalmente os delegados e juízes. Este, a meu ver, é o grande problema da nossa Monarquia Parlamentarista. Não há como evitar a perseguição política e o nepotismo, diz o jornalista. O advogado Basílio acende o charuto e fica pensativo por instantes. --- Eu não consigo entender uma coisa, seu Arlindo. Os chefes políticos do partido liberal de Pernambuco não são os Cavalcanti, os donos de quase todos os engenhos de açúcar da província? --- Sim, doutor Basílio. --- Como é que eles podem ser a favor do trabalho livre se possuem mais escravos do que pés de cana? Retruca o advogado arrancando risos. --- Sem dúvida, é uma controvérsia, doutor. Por trás disso tudo há uma charada que eu também não consigo compreender, a não ser o desejo de se tornarem uma República independente, seja a que custo for. --- Mas isso é uma loucura, seu Arlindo, ninguém até hoje conseguiu vencer o exército de Sua Majestade, e não vai ser meia dúzia gatos pingados que o fará, comenta o português desviando o olhar para um pequeno quadro com o retrato do Imperador. --- Bem, senhores, chegou a minha hora. Até amanhã, fala o advogado. --- Ainda esta semana devo receber mais notícias do Jornal do Recife, doutor Basílio. Na edição de domingo já teremos mais novidades, responde o jornalista olhando o relógio de bolso. Amanhece na capital e as pessoas seguem em direção ao cais Pharoux, atraídas pelo som de uma banda de música que ruge em desafino permanente as notas do hino nacional. Aos poucos, como numa gota de mel cercada por formigas, destaca-se o jornalista Arlindo de Castro com a caderneta de bolso a rabiscar uma taquigrafia ininteligível. A corveta Cruzeiro do Sul e mais duas fragatas estão abarrotadas de soldados do batalhão de artilharia e infantaria, comandados pelo coronel Belmiro Cantareira. Setecentos homens, canhões e farta munição já estão à bordo com destino ao porto do Recife. --- Coronel, já estamos prontos para zarpar, diz o capitão da corveta aproximando-se da proa. --- E as fragatas, capitão? --- Tudo em ordem, coronel. --- Solte as amarras, capitão, ordena o coronel Cantareira roçando o cavanhaque pontiagudo junto ao tombadilho da proa do Cruzeiro do Sul. Rente à uma janela do palácio imperial, no paço da cidade, entrincheirado atrás de uma luneta, o Imperador observa passivamente o deslocar da esquadra que se afasta vagarosamente do cais Pharoux. Calmamente ele ergue o óculo e foca a bandeira imperial que flana no alto do mastro. --- Aetérnum et universale regnum, murmura o monarca passando vagarosamente a língua nos lábios ressequidos. E no rufar de uma marcha pomposa, parte pela manhã a soldadesca desforme e assustada, visivelmente hipnotizada pela imensidão do atlântico revoltoso, recrutada com promessas de soldo gordo e carreira promissora. Rumo ao desconhecido, deixam para trás uma multidão de curiosos, nobres, miseráveis e alguns parentes que acenam festivamente do cais, sem mesmo saberem para que e para onde estão indo. Nos sertões, uma manchete caducada O ex juíz e ex chefe de Polícia, o então advogado e deputado José Antônio Ibiapina está de passagem pela vila de Quixeramobim. De manhã é visto sair da delegacia e tomar assento numa pequena carruagem puxada a burro, mirado por incontáveis olhares que se camuflam nas portas e janelas entreabertas dos poucos mocambos que compõem a vila. Contornado o retângulo da pequena praça, ele chega à venda de Vicente Maciel onde, ombreado ao batente central, um rapazola magro, alto e de pés descalços o observa com a timidez peculiar dos pobres. --- Bom dia, Antônio Vicente. Parece que não lembras mais de mim? pergunta com a voz serena, apeando a carcaça diminuta embutida num guarda-pó escuro. --- Dia, dotô, responde o rapaz cabisbaixo, ao pé da hierarquia sertaneja. --- Veja só. Já estás um homem, Antônio, diz galgando a porta e estendendo-lhe a mão chamuscada de vitiligo. A mesma mão que outrora afagara sua face com palavras ternas por ocasião do sepultamento de sua mãe, mostra-se agora mais áspera e seca, realçando o contorno das veias e o encarquilho dos anos. --- Sua benção, dotô, diz o rapaz ainda vexado pela atenção que a maior autoridade da região lhe dispensa. --- Como vão os estudos, Antônio? Seu pai me disse que quer fazer de você um padre? Pergunta o juiz olhando o interior da venda desabitada. --- Já faiz tempim que o professô num vem. O sinhô num tem notícia dele? --- É verdade, meu rapaz, soube que ele adoeceu e foi procurar a cura com um médico da capital, diz o juiz servindo-se da cabaça d'água. --- Tomara Deus que ele vorte logo, dotô, responde o rapaz observando o juiz sorver a caneca que transborda nos extremos da boca seca ao final do último gole. --- A leitura é o melhor dos professores, meu filho. Trouxe-lhe um presente. Pegue, diz o doutor entregando-lhe um pequeno livro. Antônio Vicente arregala os olhos e não se contém de alegria. --- Nossa, dotô. Que livro é esse? --- É um livro de orações, meu filho. Chama-se Horas Marianas, muito bom para você exercitar o latim e o português. Mas e o compadre Vicente, como está? --- Saiu mais o tio Clemente a módi juntá um gado. Ficô de vortá amanhã, responde o rapazola na pressa de quem dá uma notícia importante. O homem olha para o alto da parede e fita por instantes a imagem da Virgem com a criança ao colo. O sopro de uma brisa repentina balança suavemente as teias de aranha que contornam o quadro. --- Dê lembranças minhas a seu pai, Antônio. Agora tenho que ir até o Crato para cuidar de alguns injustiçados. --- É verdade que o dotô sarvô um home que ia morrê na forca? --- Ora, ora, mas quem lhe contou? --- O pai que tava falano. --- É verdade, meu filho. Felizmente a Justiça absolveu o pobre coitado de uma falsa acusação. Mas agora já me vou. Mande lembranças minhas a todos, Antônio. E não deixe de exercitar a leitura. --- Vai com Deus, dotô, fala o rapazola curvando a face em gesto respeitoso. Tão logo a carrocinha emboca na estradinha que leva ao Crato, emergem de suas tocas alguns moradores e vizinhos cercando a venda em apressado. --- Arguém tá preso, Antôim? pergunta uma velha sugando um pito de sabugo. --- Nada não, dona Sabina, o dotô só passô amódi deixá lembrança. --- Diz quêle mandô sortá o nêgo Tibério e o delegado obedeceu. O cabo Jona quem falô, retruca um vaqueiro roçando a barbicha sebosa. --- O dotô Ibiapina é advogado e sabe das lei dos homi e de Deus. E se o delegado mando sortá é pruque ele deve de sabê o que faiz, memo pruquê o nêgo Tibério nunca matô ninguém. O coitado só robô um borná de paçoca amódi que a fome anuvia a idéia, num sabe? diz Antônio Vicente com a voz firme, encantando-se com a malta que o fita na submissão dos não letrados. Aos poucos, cada um toma o rumo do nada e o rapaz corre para guardar o livro em seu quarto, uma relíquea que poucos desfrutavam. Súbito, ouve o berro suplicante de uma cabra faminta vindo do fundo da venda. Rente ao umbuzeiro que sombreia a cisterna d'água, deitada sobre uma cama de capim fresco, uma cabrita lambe a cria recém nascida, ainda tremulante ao ficar de pé. Um brilho invade os olhos de Antônio Vicente que, de imediato, acaricia o filhote em regozijo mimoso. --- Benza Deus, murmura tocando a pequena criatura, branca como o leite. Um burburinho de vozes adentra a casa acusando a chegada das irmãs e da madrasta, além de uma voz meio que familiar. --- O padim chegô, diz uma das irmãs aproximando-se do quintal e estacando-se de alegria ao ver a cabra amamentando a cria. --- Louvado seja Nosso Sinhô Jesus Cristo, fala Antônio Vicente indo às pressas receber o mascate de há muito esperado. Ao passar pelo corredor, põe a cabeça entre a porta do quarto das irmãs e surpreende a mais nova que experimenta um vestido novo defronte ao espelho do armário. --- Foi o sô Jorge que deu, diz a menina com a candura dos dez anos. --- Maria, a cabrita panhô cria. Vai lá vê que coisa mais bunita, cochicha para a outra irmã que corre para o quintal. --- Vai lá ajudá o sô Jorge, homi de Deus, tem muita coisa pa decê, diz a madrasta em ordenança ao enteado adentrando ao corredor com um embrulho às mãos. Na porta da venda, a carroça do mascate está de lona abaixada, repleta de caixas e baús, além de um varal servindo de cabide para dúzias de panelas e réstias de alho. Ele tenta sozinho descer um saco de farinha e não receia em pedir ajuda ao moço que chega sorridente. --- Mais num é que o Antôim já tá ficano grandínea, Deus da céu? Vem ajudá seu Jorge desce as mantimento, fala o mascate erguendo um saco às costas em reclamo costumeiro. --- Nóis achô que o sinhô num vinha mais, seu Jorge, responde Antônio em cumprimento respeitoso. --- A cobra picô a burínea, Antôim, e nóis ficá muito tempo pa achá ôta. E a cumpadi Vicente? Num tá jogano cartínea? Pergunta o mascate colocando o saco rente ao pé do balcão. --- Ficô de vortá amanhã, seu Jorge, mas dexô o dinhêro amódi eu acertá as conta, num sabe? --- Então vem ajudá seu Jorge decê as caixínea. O carroção de quatro mulas ora descoberto atrai novamente os moradores que se deleitam ao ver as mercadorias vindas da capital. Achegam-se em grande cópia e por fim a curiosidade vence a paciência. --- Sô turco, quanté qui o sinhô tá pidino num parmo de fumo? Pergunta um mulato cheirando um rolo envolto em palha de milho. --- Dêxa nóis decê mercadorínia que depois nóis negucia ca seniór, responde o mascate levando às costas uma manta de carne de sol. Com um pé de cabra o mascate abre as caixas e confere a mercadoria com Antônio Vicente que, de lápis e papel em punho anota vagarosamente os volumes de farinha, rapadura, sal grosso, toucinho, fumo de corda, bacalhau, cachaça, ferramentas e miudezas diversas. --- Tá tudo nos conforme, seu Jorge. Novecentos e trinta mil réis. Eu já vô pegá o dinhêro, diz Antônio Vicente retirando-se para dentro da casa. O mascate volta-se para a carroça levando a mão à testa suada. --- A seniór qui tá quereno comprá cigarínea? Indaga o mascate ao mulato que contempla a carroça com o corpo arqueado. --- Quanto é que tá o parmo? --- Nóis só vende a rolo fechada. --- Num dá pa fazê no picado? --- Mas é pra isso que tem a vendínea do seu Vicente, seniór. --- E a marvada? Quanto é que tá valeno a caneca? Insiste o mulato. --- Eu num vende cachacínea de caneca, seniór, só vende a corote fechada. --- Oxenti, sô turco, mais aí é muito pra mim, num sabe? retruca o homem arrancando risos da turba que o rodeia. --- Então num vai dá negócio, meu seniór, diz o mascate içando a lona e cobrindo o carroção. Dispersada a grei, o mascate ergue o banco e pega um embrulho empoeirado, adentrando em seguida à venda. Antônio Vicente chega com um embornal volumoso e confere o dinheiro diante do mascate, com a calma dos velhos. --- Tá aí, seu Jorge, diz o moço entregando-lhe a paga. --- Isto aqui eu truxi procê, Antôim. O povo anda falãno umas coisínea que eu num tava entendeno direito, fala o mascate entregando-lhe o pacote. Um exemplar do Diário de Fortaleza estampa a manchete: O RECIFE ESTÁ EM GUERRA, tendo uma caricatura dos soldados do exército disparando um canhão contra os civis na praça central da cidade. --- Santo Deus, diz Antônio Vicente levando a mão na testa. Abaixo do cabeçalho, a data chama-lhe a atenção. "Novembro de 1848". --- Mas isto foi o ano passado, seu Jorge, comenta o rapazola mirando o desenho. --- Eu sei, Antôim. É que eu passei na Crata pa dexá uma incumenda pro coroné Libório Golveia quando ele tava veno as figurínea da jorná. Aí mi priguntô se eu tinha ouvido falá arguma coisa dessa guerra. Foi quando eu disse bra coroné se ele num mi dava o jorná amódi eu vê cum carma. Já tá fazeno bem uns cinco mêis, num sabe? --- O sinhô num vai posá na vila, seu Jorge? --- Apois certo que vô. Pruquê? --- Dêxa o jorná cumigo preu lê divagá que amanhã eu conto tudim o que é que tá iscrito, num sabe?, diz o moço em desafio inconteste. --- Antão eu vai fazê mais visitínea e amanhã ocê conta tudo branóis, fala o mascate despedindo-se e galgando o carroção. --- Vai com Deus, seu Jorge. --- Lilúúúia..., grita o mascate para a mula ponteira que com o par de orelhas voltadas para trás o atende de pronto, liderando a parelha do coice que desloca lentamente o pesado carroção em direção ao riacho da palha. Fugindo ao costume de fechar a venda tarde da noite, Antônio Vicente arreia as portas tão logo cai a tarde. Na quietude da casa e sem a jogatina do pai, após o jantar ele se recolhe ao quarto com o jornal preso na axila, debruçando na mesinha de estudo. Com o auxílio do indicador, delineia-se uma leitura ainda capenga, intercalando as sílabas com a dificuldade dos semi analfabetos, mas inteirando-se por intuição no dizer as palavras nunca dantes ouvidas: ''... O exército de Sua Majestade o Imperador coloca em fuga o séquito revoltoso de Joaquim Nunes Machado, que pretendia acabar com a Monarquia e proclamar a República do Recife...'' --- Cambada dos diabo, murmura o moço ao término do minúsculo editorial, ausente de maiores informações, abordando apenas o contingente da tropa legalista e não mencionando sequer a morte do líder dos rebeldes, Joaquim Nunes Machado e tantos outros. Novamente ele relê a manchete e se lembra do sermão do padre por ocasião da festa do padroeiro onde o pároco alertava os fiéis sobre o terror da guerra que se travaria no dia do juízo final. --- Esses bandido vão tudo ardê no fogo dos inferno, murmura o moço em pensamento, na inocente argüição dos crentes, alvejado na mosca pela grotesca propaganda monarquista de um jornal do Partido Conservador. Aquela noite mostrava a ausência de lua, com a copa das árvores balançando ao compasso de um vento constante, fazendo vibrar nos telhados e nas janelas o ronco tenebroso das almas que perambulam penitentes escuridão afora, aflorando as lendas e os ecos soturnos, assombrando as mentes e calando os vivos que adormecem sob o medo na imensidão da noite sertaneja. Uma matilha de Cérberos em vigília do Trono O largo do paço do Campo de Santana em dia de Sábado se mostra com menos movimento que os dias comuns. Acudindo ao burburinho festivo dos camelôs e das negras quitandeiras, as pessoas se dirigem para a Rua do Comércio onde o mercado aberto que vão em busca de um pescado fresco, da carne verde, das guloseimas e dos doces que, tão prematuramente apodrecia-lhes a dentição e antecipava-lhes talvez, o maior dos pavores. Após a missa, o advogado Basílio da Gama caminha com a esposa e mais duas mucamas bem vestidas que os seguem logo atrás, e logo volteiam diante das inúmeras barracas montadas a céu aberto que expõem seus produtos sob a incansável vigilância das moscas varejeiras que não arredam o vôo diante de tanta carne morta. Um grupo de pessoas se aglomera próxima a uma carroça que traz em sua boléia um pequeno panfleto pregado a martelo. Um homem lê em voz alta algumas palavras intercaladas com risos da malta que o rodeia. --- Espere um pouco que eu já volto, sim? Diz o advogado à sua mulher, aproximando-se do da cena. --- O que é isso? Pergunta o advogado pedindo passagem. --- Ora, ora, bom dia, doutor Basílio. O senhor ainda não leu? Está espalhado por toda a cidade, responde o homem entregando-lhe o panfleto que tira do bolso. No cabeçalho em negrito, apenas uma inscrição: O LIBELO DO POVO. --- Posso ficar com este? --- Ora, doutor, é claro que pode. Mas quem é que esse tal Timandro que escreveu uma coisa dessas sobre o Imperador? --- Não faço a mínima idéia, senhor, mas obrigado, diz o advogado indo ao encontro da esposa. --- Dona Alzira, faça as compras e depois volte pra casa, sim? Aqui está o dinheiro, fala o advogado entregando-lhe algumas patacas. --- Mas o que foi, senhor meu marido? --- Depois eu lhe conto, dona Alzira. Ah, não abuse das jabuticabas, mulher, bem sabes que tu não cagas a dois dias, diz o advogado saindo em direção ao largo do paço. Visto ao longe, o Armazém Progresso mostrava-se repleto de fregueses a julgar pelo número de cavalos amarrados no jirau da entrada. --- Vocês viram? Diz o advogado adentrando ao armazém com o folheto a mão. --- Está espalhado por toda a cidade, doutor Basílio. Deve ser ofício de algum louco que se diz chamar Timandro, fala o português por detrás do balcão enquanto um homem bem vestido se aproxima. --- Só mesmo um poeta ou um jornalista poderia escrever tamanha ofensa à família do Imperador, diz o deputado José de Alencar cumprimentando o amigo. --- Será que o Imperador já sabe, deputado? --- É evidente que sim, meu caro. Do jeito que a coisa se espalhou, com certeza será o assunto do dia, responde o deputado do Partido Liberal servindo-se de cachaça. --- O bastardo Dom João IV, inerte, pusilânime e incapaz. Dom Afonso VI, um crápula vestido de Rei..., murmura o advogado lendo alguns trechos. --- Mas sobre o Imperador ele foi mais fundo, doutor Basílio. Veja aqui: Dom Pedro II é um moedeiro falso e vendido aos interesses estrangeiros, estagnando a industria nacional que se vê atada de pés e mãos à Inglaterra. --- Meu Deus do céu, retruca o barbeiro Quintanilha levando a mão à boca. --- E também sobre Dom João VI, aqui embaixo; um refalsado e suspeitoso, irresoluto e poltrão, beato sem fé e sem costumes, continua o deputado José de Alencar em voz alta apontando algumas linhas. --- Coitado do Imperador, deputado, já não bastam as fofocas dos jornais e agora mais essa, diz o português debruçando o queixo sobre as mãos. --- Pelo estilo, deve ser um homem culto. Não achas, deputado? --- Sim, doutor Basílio, mas acima de tudo um homem com o orgulho ferido tentando avacalhar a instituição da Monarquia. E pelo visto ele conseguiu, responde o deputado José de Alencar sorvendo a cachaça em trago único. Na sala de leitura do paço de São Cristóvão, o Imperador se encontra com a filha de três anos ao colo, que ouve atentamente uma história lida pelo pai. --- Os dois irmãos estavam perdidos no bosque até que um anjinho veio dos céus e lhes trouxe agasalho e comida. Depois ensinou aos pequeninos o caminho de volta para a casa... --- Majestade, está na hora da Princesa Dona Isabel Cristina se alimentar, diz o criado Antônio Joaquim após entrar na sala em passos delicados. --- Precisamos de arranjar alguém para cuidar a educação das crianças, comenta o Imperador marcando o livro. --- Mas Sua Alteza gosta tanto de ouvir vossos augustos ensinamentos, Majestade? retruca o mordomo em elogio. --- Não sei se terei tempo o bastante para dedicar-me a eles. Precisamos cuidar deste assunto com urgência, diz o Monarca envolto num robe de veludo verde e com as bordas em amarelo ouro. A Imperatriz Teresa Cristina Maria adentra à sala acompanhada de duas aias, ao que o criado faz a reverência e o Imperador põe-se de pé. --- Isabel Cristina, minha filha, vamos tomar o caldo, diz a Imperatriz estendendo-lhe as mãos. --- Onde estão os pequeninos?, pergunta educadamente o Imperador. --- Dona Leopoldina Teresa já deve estar no berço, senhor meu marido, mas Dom Pedro Afonso ainda não largou o peito da ama de leite, responde a Imperatriz achegando-se até a filha com o andar coxo, denunciado pelo fato da perna direita ser um tanto mais curta. --- Mas primeiro, dois beijinhos no papá, fala o Imperador aproximando a face barbada ao rostinho diminuto da Princesa Isabel Cristina. --- Senhor Dom Pedro, não vá dormir muito tarde, retruca a Imperatriz deixando a sala. --- O Conselheiro Antônio de Arrábida deseja uma audiência em particular com Vossa Majestade, diz o criado pausadamente. --- O Frei Arrábida? Mas o que será de tão importante? --- O Frei Benígio, do Convento de Santo Antônio é quem trouxe a missiva, Majestade. Não quis adiantar sobre o assunto, mas disse que ele não goza de boa saúde e por isso deseja falar-lhe. --- O Conselheiro Arrábida terá o que pede. Marquemos para amanhã. Mande convidá-lo para o jantar. A Imperatriz gostará de tê-lo à mesa, diz o monarca guardando o livro na estante. Noite alta, límpido céu. Num pequeno quarto iluminado à vela, um homem já velho, de estatura mediana, gordo e com apenas a auréola de pelos a circundar-lhe a cabeça raspada, veste um camisolão marrom escuro e se deita calmamente numa cama de colchão volumoso. Entrelaça as mãos e mira o olhar para o teto, pensativo. Uma freira adentra ao quarto com a bandeja vespertina. --- Aqui está, Frei Arrábida, diz a freira servindo-lhe o chá costumeiro. De há muito deixou de tagarelar sobre as coisas da política e o cansaço da velhice o fisgou por companhia. --- Obrigado irmã, mas agora deixe-me a sós, responde o Frei sentando-se na cama e mirando o chá. Sorve-o na paciência dos velhos. Após colocar a xícara sobre a mesa de cabeceira, verga novamente o corpo e se deita. --- Tenha uma boa noite, Monsenhor, diz a freira retirando-se e fechando a porta. --- O Senhor estará comigo, de nada temerei..., murmura o prelado adormecendo em pouco na postura dos sepultados. Amanhece na capital e o céu se mostra repleto de nuvens escuras, prenunciando um dia de lama. Uma caleça para defronte ao sobrado do advogado Basílio, ao que apeia em postura retilínea o médico José Barbosa que porta uma valise escura. --- Óh, vamos entrar, doutor Barbosa, diz o advogado recebendo o colega. --- O senhor já leu O Libelo do Povo? --- Não me interesso por política, doutor Basílio. São coisas passageiras. A medicina e as ciências é proverão o futuro. Esses mexericos políticos são como as múmias, doutor Basílio, nos levam à coisa alguma. Mas e a sua esposa, como ela está? --- Queixando-se de dores na barriga, doutor. Quase não dormiu à noite e está a reclamar de tudo, retruca o advogado acompanhando-o pela escada até o quarto. Deitada em cama larga e sentinelada por uma mucama, a mulher de meia idade contorce o corpo e fita o médico com olhar de súplica, realçando a palidez do rosto suado. O médico achega-se. --- Como vai, dona Alzira? --- Dói muito, doutor, responde a mulher com as mãos sobre a barriga inchada. --- Traga-me uma bacia com água quente e uma outra vazia, ordena o médico à mucama. --- Doutor Basílio, por favor, queira nos deixar à sós, sim? --- Se precisar de alguma coisa é só chamar, doutor Barbosa, estarei na sala. Calmamente o médico toca-lhe o ventre com delicadeza e apalpa em círculo o abdome endurecido. Como de costume, murmura conjecturas de maus presságios. --- Minha Nossa Senhora da Boa Morte, diz fomentando o pavor de uma tragédia iminente. --- Ai, meu Jesus, chegou a minha hora, doutor Barbosa? retruca com os olhos chorosos. --- Vamos ter que fazer um clister, dona Alzira, e logo a senhora irá se sentir melhor, fala abrindo a valise e montando às pressas um estranho aparelho dividido em duas peças. A paciente observa o médico pegar um funil de madeira e um tubo cilíndrico de dois palmos de comprimento que é conectado na extremidade. --- Não vai doer, doutor? Pergunta a mulher arregalando os olhos ao vê-lo montar o estranho aparelho. --- Ora, ora, dona Alzira, a prisão de ventre é que está lhe incomodando. Vamos cortar o mal pela raiz, minha senhora, retruca o médico em tom benevolente enquanto a mucama se achega com uma bacia transbordando em água morna. --- Tranque a porta e fique aqui. Vou precisar da sua ajuda, ordena o médico à negra que permanece estacada. Desenroscada a extremidade do aparelho, o doutor José Barbosa despeja um pequeno vidro contendo um óleo transparente e completa a dosagem com água morna, observando atentamente o marcador de nível. --- Um litro... Deve ser o suficiente, diz pausadamente. --- Víííxi, murmura a mucama arregalando os olhos, fazendo em simultâneo o sinal da cruz. --- Dona Alzira, por favor, vire-se de lado e levante as roupas de baixo, sim? Ordena o médico passando ungüento na ponta do tubo. --- Mas toda a roupa, doutor? --- Sim, dona Alzira, precisamos de toda a área descoberta. Não tenhas medo, diz o médico observando as nádegas que se desnudam aos poucos, mostrando-se gordas, peludas e fétidas. Com um pano umedecido em água morna, o médico limpa a área esfregando o tecido por entre as nádegas que se contraem a cada passada, repetindo por três vezes a operação. Vagarosamente, ele introduz meio palmo do tubo de meia polegada de diâmetro no anus de borda roxeada, enquanto a paciente avexa-se em resmungos choramingados pelo ato nunca dantes experimentada. --- Pronto, minha senhora. Está a doer? --- Por hora não, doutor. Em prazo de meio minuto ele injeta vagarosamente o excipiente e interrompe a operação, conservando o tubo na profundidade inicial. --- Ô, criatura? Traga a bacia e a coloque junto à cama, depressa, grita o médico para a mucama que o atende de pronto. --- Agora está doendo um pouco, doutor. --- Tenha calma, minha senhora, responde o médico tirando lentamente o tubo, quando, em estrondo repentino, um jacto de água escura é borrifado por toda a cama, não deixando ilesa sequer a casaca do médico que é alvejada de frente, agora se mostrando toda salpicada de estrume e pontilhada com os respingos da lavagem. A atmosfera é invadida por um fedor diferenciado, provocando na paciente um choro misto de alívio e vergonha, mas de logo socorrida por palavras de consolo. --- Pronto, dona Alzira, o pior já passou. Agora é só se lavar em banho quente e depois tomar uma sopa leve. Nada de carne, doces e principalmente jabuticaba. Creio ser esta fruta o principal responsável por todo esse infortúnio, diz o médico limpando em vão a casaca bosteada. O advogado Basílio está na sala a ler um jornal quando o doutor Barbosa sai do quarto e desce a escada, ainda esfregando um lenço sobre a casaca. --- Já terminaste, doutor? Como ela está? Pergunta o advogado levantando-se. --- Um pouco assustada, mas ela vai ficar boa. A ciência triunfará, meu caro doutor Basílio, mas um pouco de fé sempre ajuda. --- E quanto é o serviço, doutor? --- Por hora devo voltar para casa e trocar de roupa, doutor Basílio. Apareça em meu consultório no final da tarde que eu lhe passo a receita. Até mais ver. Um feitor montado a cavalo passa defronte ao paço da cidade puxando a laço um escravo com as mãos amarradas e com uma máscara de ferro na cabeça. Atravessam o largo do Paço de Santana em marcha folgada, despertando a atenção de uns poucos que proseiam em frente a Barbearia Castelo, situada ao meio da rua. --- Tá fugino, nêgo à toa?, grita um mulato forro arrancando risos dos que o rodeiam. --- Agora cê vai sambá na tunda de casca de boi, nêgo fujão, berra um outro cuspindo para o negro arrastado em cambaleio, vertendo o suor do pânico. Uma caleça de parelha vistosa contorna o paço passando defronte a barbearia, desviando a atenção da malta zombeteira que a acompanha com olhar silencioso. --- Mas será que é o bispo? Indaga um deles vendo um homem baixo e gordo, trajando batina e chapéu de três pontas galgar a escadaria do palácio imperial. --- A pois certo que não. Acaso não sabes que chapéu de bispo é redondo, ó homem sem cachola, retruca um outro coçando a cabeça. Sentado numa espreguiçadeira e com os pés desnudos dentro de uma bacia, o Imperador fiscaliza o doutor Jobim que vasculha pacientemente algum indício de ferimento após o lava-pés rotineiro. --- Majestade, não encontrei nada de anormal. --- Mas está a coçar a ponta do dedão, doutor, reclama o Monarca com as mãos na cintura em tom de impaciência. --- Vamos ver. Ah, tendes razão, Majestade, aqui está ele, quase que debaixo da unha. E é dos grandes, diz o médico Jobim aproximando a lupa do dedo avermelhado. --- É grave, doutor? --- Vou precisar de um bisturi, Majestade, diz o enquanto abre uma valise. --- Vais cortar minhas unhas, homem de Deus? --- Ora, ora, Majestade, é só um bicho de pé. Deve ser de suas andanças na fazenda de Santa Cruz, responde em tom sarcástico, arrancando de chofre uma gargalhada imperial. --- Graças ao bom Deus, retruca o Imperador relaxando o corpo enquanto um criado se aproxima. --- O Conselheiro Arrábida acaba de chegar, Majestade. Está na biblioteca, diz o criado observando o doutor Jobim naquela cirurgia de minuto. --- Ai, doutor, agora doeu, reclama o Monarca repuxando o pé direito em tranco brusco. --- Pronto, aqui está o que lhe incomodava, Majestade, diz o médico mostrando-lhe na ponta do indicador um pequeno grão escuro. --- Mande servir alguma coisa para o Frei Arrábida que já vou estar com ele no meu gabinete. --- Pronto. Agora não deveis usar sapatos para não apertar o ferimento, Majestade, diz o médico enrolando um pano no dedo ferido. Na biblioteca do palácio o Frei Arrábida caminha com as mãos entrelaçadas às costas e os olhos voltados para o chão, como que demonstrando alguma preocupação. Nascido em Portugal, Frei Arrábida era professor no Convento de Mafra quando veio para o Brasil junto com a Família Real. Foi o mestre e o confessor do Príncipe da Beira, o futuro Imperador Dom Pedro I e também o diretor da educação literária do Príncipe Dom Pedro de Alcântara na sua primeira infância, cargo que aceitou mesmo sendo Diretor da Biblioteca Nacional, nomeado desde os idos de 1822. Sempre exerceu com retidão todos os cargos que lhe foram confiados, como os de Bispo titular de Anemúria e também ode Reitor do Colégio Nacional. Aos 78 anos, ora exerce com a lucidez dos sábios o cargo de Conselheiro de Estado Honorário. O mordomo abre a porta e o flagra debruçado sobre a janela, contemplando o largo do paço na passividade dos velhos. --- Eminência, o Imperador vai recebê-lo no Gabinete. Queira me acompanhar. Sentado à mesa de trabalhos, o Monarca de 24 anos mantém-se compenetrado na leitura do panfleto O Libelo do Povo. Os dois toques na porta desviam em concomitante o par de olhos azuis. --- Ora, ora, meu bom Frei Antônio, dê-me sua benção, diz o Imperador indo ao seu encontro e estendendo-lhe as mãos, sem dar tempo do mordomo anuncia-lo. --- Majestade, que Deus o abençoe, diz o Frei debruçando o joelho direito e beijando-lhe a mão. --- Mas afinal, que notícias tens a me contar? Pergunta o Monarca fazendo um discreto sinal para o mordomo se retirar. --- A consciência, Majestade. Sinto que a morte está a me rondar e não poderia partir sem antes contar-lhe algumas coisas. --- Mas então deixemos as formalidades, Frei Antônio. Temos todo o tempo que quiseres. Senta-te, por favor. --- Trouxe-lhe um presente, Majestade. Aqui está, diz o Frei entregando-lhe um livro. --- É uma cópia que fiz de próprio punho da Flora Fluminense, de autoria do Frei Conceição Veloso. --- Ora, mas que beleza, Frei Arrábida, mas vamos ao assunto. --- Ah, como é bom vê-lo governar e conduzir tão sabiamente os destinos do Brasil, Majestade, esta minha amada pátria a qual dediquei toda a minha vida. --- Ora, meu bom Frei Arrábida, não me digas que marcaste uma audiência só para dizer que amas o nosso país? --- Creio que o pior já passou, Majestade. Agora sinto que a paz reinará por esta terra e que o povo não mais se levantará contra o Império, diz o prelado levando um lenço aos olhos que se mostram avermelhados e em pranto contido. --- Vós é que deveis ser meu confessor, Frei Arrábida. Mas, por Deus, o que o aflige? Não vais me dizer que a falcatrua deste tal Timandro é que o preocupas? --- Não, não, Majestade. Isso deve ser obra de algum vadio a mando dos maçons ou de um outro clube, nada mais sério. O que me preocupa e ter de evocar os mortos numa palestra de vivos. --- A pois diga, homem de Deus. --- É sobre o finado Ministro José Bonifácio, Majestade, diz o Frei colocando um surrão de couro sobre a mesa. --- Sou todo ouvidos, Frei Arrábida. --- Quando o Ministro José Bonifácio de Andrada e Silva foi nomeado para ser o Tutor de Vossa Majestade, ele mandou me chamar no Convento e incumbiu-me de cuidar da vossa educação e das Augustas Princesas. Até então não pairava em mim qualquer dúvida a respeito da sua idoneidade e retidão de caráter, embora fosse público que ele colecionava inimigos, aos montes. --- Isso é verdade, Frei Arrábida. Em toda a Corte sempre ouviu-se burburinhos à respeito. --- Mas após a sua destituição, o Marquês de Itanhaém assumiu o cargo e me chamou a atenção para alguns documentos, até então desconhecidos de todos. --- Que documentos, Frei Antônio? --- As cartas que vosso augusto pai lhe escrevera de Portugal, Majestade. Quase todas foram escondidas pelo Tutor José Bonifácio, mas felizmente as encontramos. Depois de examiná-las, fiz uma minuciosa investigação e tive acesso a outros documentos que revelaram as facetas não de um amigo fiel ao Imperador Dom Pedro , mas de um homem que sempre conspirou contra o Império sob a égide dos maçons e do demônio, creio eu, diz fazendo o Sinal da Cruz. --- Mas que documentos, que cartas são estas, Frei? --- É uma longa história, Majestade, mas se tiveres tempo devo contá-la do princípio para que tireis suas próprias conclusões. Só então estarei com a consciência em paz para atender ao último chamado do Senhor. O Imperador debruça-se na mesa e leva a mão esquerda ao queixo, mirando os olhos azuis na face bronzeada do velho mestre. --- Sou todo ouvidos, Frei Arrábida. --- Serei breve. Quando José Bonifácio deixou a província de São Paulo, sua terra natal, ele tinha 20 anos de idade, Majestade, e foi para a Universidade de Coimbra. Terminados os estudos ele seguiu para Lisboa e conseguiu, graças a amizade com o Duque de Lafões, entrar para a Real Academia das Ciências onde, ao cabo de pouco tempo, formou uma comissão científica que viajou dez anos por toda a Europa. Depois regressou a Portugal onde foi nomeado Lente da Universidade de Coimbra. Ocupa sem demora o cargo de Intendente Geral das Minas de Portugal e também o de Desembargador do Porto. --- Mas isto não é novidade, Frei Arrábida. Todos sabemos dos feitos e da competência do Ministro Bonifácio. --- É verdade, Majestade, mas quando Bonaparte invadiu Portugal obrigando a Família Real a fugir para o Brasil, ele incorporou-se ao corpo militar acadêmico e foi comissionado Tenente Coronel, onde foi combater as tropas francesas. Vitoriosos, ele permaneceu em Portugal como Intendente da Cidade do Porto até perceber que o vosso avô, o Príncipe Regente Dom João VI e toda corte não mais voltariam a Portugal. Convicto que a sede da Monarquia Portuguesa era então a cidade do Rio de Janeiro, decide regressar ao Brasil, mas o fez só em 1819, Majestade, após 36 anos de ausência. --- Tanto tempo assim? --- Não é difícil imaginar que o ministro José Bonifácio não nutria sentimento algum pela sua terra, Majestade. E ele volta ao Brasil justamente para tirar mais algum provento além dos que já recebia da coroa, diz o frei entregando-lhe alguns documentos. --- O que vem a ser, Frei Arrábida? --- A lista dos cargos com os devidos proventos que ele continuou a receber no Brasil, Majestade, mesmo estando ausente de Portugal. --- Mas ele não se exonerou desses empregos? --- Talvez pensasse em regressar um dia para o velho Reino onde possuía seus verdadeiros amigos, ou quem sabe, acumular fortuna para garantir algum imprevisto, responde o Frei folheando mais alguns papéis. --- Intendente Geral das Minas e Metais do Reino, Professor de Metalurgia da Universidade de Coimbra, Superintendente do Rio Mondego e das Obras Públicas de Coimbra, Desembargador e Intendente da Cidade do Porto? Pergunta o Imperador perplexo. --- Alguns deputados da Corte de Lisboa apresentaram projetos de lei para suspender esses proventos, Majestade, mas ao que se sabe, não houve aplicação no Brasil. --- Tantos ofícios e não servia a nenhum, fala o Imperador roçando a barba. --- E não é só isso, Majestade. Em maio de 1822 os maçons aqui fundaram a loja do Grande Oriente Brasiliano e o nomearam Grão Mestre da Maçonaria. Logo em seguida, quando ele foi nomeado Ministro do Reino e dos Negócios Estrangeiros de Dom Pedro, vosso augusto pai, aí sim, Majestade, ele teve que exonerar-se de todos os cargos em Portugal. E para isso lavrou um decreto proibindo mais de um ofício reunidos em uma só pessoa. E como argumento ele arrancou do pó dos arquivos várias cartas régias do início do século XVII, mas que ele nunca se cansou de desrespeitá-las. --- Dezoito de junho de 1822. Bem às vésperas do 7 de setembro? comenta o Imperador contemplando o enorme quadro do pai na parede. --- O curioso é que ele sempre foi contra o movimento de separação do Brasil do Reino de Portugal, Majestade. Quando soube que as cortes de Lisboa queriam o regresso do Príncipe Regente Dom Pedro a Portugal e também a sua prisão por desrespeitar as ordens de Lisboa é que ele habilmente aderiu ao movimento separatista liderado pelo liberal Gonçalves Ledo, seu arqui-rival. --- E o meu augusto pai sabia disso, Frei Arrábida? --- Não de tudo, Majestade. Quando vieram as ordens de Portugal para que vosso pai partisse para a Europa e se entregasse às Cortes de Lisboa, o ministro José Bonifácio sabia que certamente o Príncipe Dom Pedro seria feito prisioneiro e que a sua própria cabeça também estaria a prêmio. Encontrando-se vosso pai em São Paulo, escreve-lhe o Ministro José Bonifácio dando o seu parecer para salvar-se da prisão. E como hábil e astuto conselheiro, sugeriu que a melhor solução seria o Imperador proclamar-se Rei do Brasil. --- Então é isso, Frei Arrábida? Meu pai leu a carta e tomou a decisão sozinho, sem consultar ninguém? --- O Padre Belchior, que era muito amigo e também confidente do Príncipe Dom Pedro estava com ele, Majestade, arranchados no Campo de Ipiranga, na Província de São Paulo. Contou-me depois que o Imperador o consultou e pediu-lhe um conselho a respeito. O Padre Belchior então deu o seu parecer: "Não há outro caminho". --- Então foi assim que se consolidou a nossa independência, no 7 de setembro? --- Não, Majestade. Na verdade bem sabes que o Brasil continuou a ser um Reino unido a Portugal e Dom Pedro o Príncipe Regente, mesmo porque não daria tempo de Portugal inteirar-se dos acontecimentos. A separação definitiva só se firmaria a 12 de outubro. Propositadamente no dia do descobrimento da América e também do aniversário de vosso pai. Os liberais de Gonçalves Ledo e toda a maçonaria, aproveitaram-se do momentoe impuseram ao Príncipe Dom Pedro que aceitasse o título de Imperador do Brasil. Por certo queriam eles a República, Majestade, do mesmo modo como arquitetaram a independência dos Estados Unidos. Mas a obtiveram através da Monarquia Constitucional. --- Eles quem, Frei Arrábida? --- Os demônios, Majestade, os banqueiros judeus e essa confraria maçônica que acabou por incendiar toda a Europa, insultando até o Santo Papa. O monarca se levanta e vai até a janela, onde fica a mirar o paço. --- Desta feita, o mérito da independência do Brasil foi atribuído ao Ministro José Bonifácio? --- Quando o movimento se tornou vitorioso, ainda mais com a cumplicidade do Príncipe Regente, o Ministro José Bonifácio passa a dirigi-lo dentro da nova ordem da Monarquia Constitucional. --- Um oportunista se fazendo passar por um patriota, murmura o Imperador pensativo. --- Aí começou a perseguição a Gonçalves Ledo e seus partidários, Majestade, creio que mais por vingança pessoal do que por qualquer razão de Estado. Tanto o Ministro José Bonifácio como os seus irmãos Martim Francisco e Antônio Carlos usaram de todos os recursos para atribuir ao grupo dos liberais um golpe de Estado para derrubar a Monarquia. Mas era tudo invenção, pois nada disso ocorreu. O Gonçalves Ledo, coitado, teve de refugiar-se numa fazenda, mas logo depois, disfarçou-se não sei do que para livrar sua cabeça, tomou um barco na calada da noite e se exilou na Argentina. --- Espere um instante, Frei Arrábida. Mas nesta ocasião o Ministro José Bonifácio e seus irmãos não foram afastados do governo? --- Foram, mas ao cabo de poucos meses estavam de volta colocando-se na condição de vítimas e de liberais perseguidos. Em todos os lugares eles espalhavam a calúnia, a discórdia e a desconfiança, Majestade. Nos clubes, nas ruas e até nas reuniões da Assembléia que estava a elaborar nossa tão almejada Constituição eles conspiravam. E tudo para solapar as bases do trono. Chegaram até a plantar boatos para a plebe com o intuito de colocar em dúvida a lealdade do Imperador para com o Brasil, dizendo que o vosso augusto pai era contrário a alguns artigos da Constituição que dificultaria a remessa de dinheiro para Portugal, diz o Frei entregando ao monarca alguns recortes de jornais datados de 1824. O Imperador dá uma olhadela nos artigos e calmamente volta-se para a mesa, sentando-se novamente. --- Por favor, continue, Frei Arrábida. --- Foi então que o Imperador soube dos boatos e num daqueles seus gestos impulsivos, dissolveu a Assembléia Constituinte e mandou prender todos os Andradas, inclusive seus comparsas. Todos eles foram mandados para o exílio, Majestade, para o velho continente. --- Não foram para a França? --- Exatamente, todos eles. --- Por quanto tempo eles ficaram exilados? --- Ao cabo de seis anos o Imperador os anistiou e permitiu que voltassem. Creio eu que este foi talvez o maior erro da sua vida. --- Como assim, Frei Arrábida? --- Aproveitaram novamente da crise que assolava o país, da incompatibilidade do Imperador ser regido pelos caprichos da Marquesa de Santos com boatos em toda a Corte sobre as dificuldades do vosso pai governar o país. Foi então que o Exército e a Armada voltaram-se contra a autoridade do Imperador Dom Pedro e ele foi obrigado a renunciar o Trono em favor de Vossa Majestade. Mas foi tudo uma conspiração, creio eu. --- Mas porque meu pai nomeou o ministro Bonifácio para ser o meu tutor e também de minhas irmãs? --- Provavelmente ele convenceu o Imperador de que a única pessoa confiável para o cargo seria ele próprio e deve ter-lhe jurado fidelidade, apelando para o fato de serem confrades na loja maçônica, coisa que eu sempre duvidei. --- Então meu pai não era mesmo um maçom, Frei Arrábida? --- O nomearam membro da sociedade sem que o próprio Imperador soubesse ao certo as intenções dessa confraria de demônios, Majestade. Essa gente faz qualquer coisa para estar sempre com o poder nas mãos. Eles tem espias por toda parte e conspiram contra qualquer um que ouse obstruir seus planos. --- O senhor me diz que ele conspirou para conseguir a tutoria real? --- Minha suspeita se confirmou, Majestade. Um dia antes da abdicação, através da posse de uma carta em que vosso augusto pai assinou, ele fora o escolhido para tutelar vossa Majestade e as Augustas Princesas. Com esse documento ele obteve a aprovação da Assembléia ele saiu-se vencedor. --- Então ele conseguiu o que sempre pleiteava, Frei Arrábida, o poder absoluto para tratar dos negócios do Brasil? --- Exatamente, Majestade. E foi por essa ocasião que ele, provavelmente a pedido do Imperador, me incumbiu de cuidar da vossa educação e também das Princesas. Nesta época eu não imaginava que pudesse haver coisa alguma contra a sua integridade e lealdade para com o Imperador. --- Mas porque então ele logo foi destituído do cargo de Tutor, Frei Arrábida? --- Ele conspirava contra a Regência e espalhava boatos de toda sorte. Disse que havia um plano para assassinar Vossa Majestade e suas Altesas, coisas desse gênero. Todo o paço vivia um clima de terror. Certa vez ele mandou que todos fugissem no meio da noite para o palácio de São Cristóvão, e ordenou que Vossa Majestade e as Princesas não mais poderiam vir para o paço da cidade. Espalhou para todo canto que havia um plano para assassiná-los. --- Eu me lembro desta noite, Frei Arrábida. Não foi o senhor quem me carregou no colo até a carruagem? --- Sim, é verdade, e devo dizer que agora me sinto bem mais aliviado em contar-lhe a verdade, Majestade. --- Diz-me cá, meu bom amigo Frei Arrábica, como se deu o afastamento do ministro Bonifácio do cargo de Tutor? --- O então Ministro da Justiça Aureliano Coutinho reuniu em sua casa todo o Ministério para assistir a um sarau. Ao final da noite, eles assinaram a destituição de José Bonifácio e nomearam o Marquês de Itanhaém para substitui-lo. Logo no dia seguinte José Bonifácio foi preso por conspiração. --- Mas por que o senhor também foi afastado do paço? --- O ministro Aureliano convidou o engenheiro Paulo Barbosa para chefiar a mordomia e este mandou chamar Dona Mariana de Verna para ser a preceptora das Princesas e o Padre Mestre Frei Pedro como aio de Vossa Majestade, responde entregando-lhe um outro documento. --- O que é isto? --- Algumas cartas que seu pai lhe escreveu da cidade do Porto, sempre queixando-se da falta de notícias por parte do Tutor José Bonifácio. O Imperador as lê calmamente e aos poucos os olhos azuis avermelham-se em mescla de angústia, saudades e desprezo. --- Creio ser este fato o maior golpe que vosso pai recebeu, Majestade. A falta de notícias dos filhos doía-lhe em muito o coração. O Imperador lê em voz alta. "Muito sentido estou porque o ministro José Bonifácio não tem escrito nem uma só palavra até a data desta. Diz-lhe que se lembre de mandar notícias tuas, como me prometeu a bordo da nau Warspite, e pelas quais suspiro, e as quais tenho direito como pai. Diz-lhe que assim como ele não gostaria de não receber notícias de seus filhos, também eu não gosto. Diz-lhe finalmente que eu espero que ele me corresponda àquela prova de amizade e confiança que lhe dei entregando-lhe o que tinha de mais caro, mandando-me notícias tuas e de tuas lindas manas... Faz os meus cumprimentos à Regência e também aos Ministros, com muita especialidade ao mui honrado Paulista, que tem sabido conter os anarquistas e apoiar os homens de bem. Janeiro de 1832". Após aleitura o Imperador permanece estático. --- Creio que ele agiu assim para vingar-se dos anos em que passou no exílio, Majestade. Quase dez meses depois que vosso augusto pai deixou o Brasil, o ministro não lhe havia escrito uma carta sequer. --- Mui honrado paulista, murmura o Imperador cerrando fortemente os dentes, deixando o Frei Arrábida em notória preocupação. --- Quem mandava notícias de Vossa Majestade e das suas augustas irmãs para o Imperador era a Dona Mariana de Verna, coitada, sempre escrevendo às escondidas. Aí estão mais outras cartas que vosso pai lhe escreveu, as quais José Bonifácio fez questão de esconder, mas felizmente as encontrei. --- E meu pai ainda o considerava um amigo, Frei Arrábida, diz o monarca com os olhos em prantos. --- Esta outra é de março de 1833, Majestade, quando o Imperador Dom Pedro se encontrava em Portugal, em plena campanha restauradora. "Tu farás os meus cumprimentos ao meu amigo e teu Tutor, ao qual tenho escrito diferentes vezes e do qual ainda não tive resposta alguma; e lhe dirás que eu julgo que esta falta não provenha dele, mas sim das circunstâncias delicadas e críticas em que desgraçadamente se tem achado, e que o forçam, por seu bem, a obrar contra o que desejara". O monarca leva as mãos ao rosto e cai em prantos, desta vez com soluços intercalados. --- Mas porque ele traiu a meu pai após ter-lhe jurado fidelidade? --- O mundo está repleto de judas e maçons, Majestade. Talvez pelo sentimento de vingança, por inveja ou pura ganância. Confesso que não sei. Mesmo depois que ele foi preso e exilado na sua própria residência na Ilha de Paquetá, os seus dois irmãos, Martim Francisco e Antônio Carlos também fizeram das suas. Primeiro diziam ser a favor da causa restauradora, fomentando a volta do Imperador Dom Pedro I, depois vestiam a carapuça de liberais perseguidos. Lembras do episódio de vossa maioridade, do Quero Já? Foram eles e os Cavalcanti que o arquitetaram, Majestade, com o intuito único e claro de ficarem no poder. Lembras com quem ficou a pasta do Ministério da Fazenda? Com o deputado Martim Francisco de Andrada e Silva, a cópia mais autêntica do irmão mais velho. --- Uma matilha de cérberos em vigília do trono, murmura o Imperador. --- Não deveis ficar com o coração ferido, Majestade. É dever de todo Monarca ponderar até o imponderável, responde o Frei levantando-se e acariciando-o no ombro. --- Perdoe-me, Frei Arrábida, mas gostaria de ficar sozinho. Sou-lhe muito grato por tudo o que fizeste por mim e pelo meu pai. --- Deus estará sempre do vosso lado, Majestade, e que estes fatos sirvam para alertá-lo contra os falsos amigos que o mundo está sempre a produzir, finaliza o Frei abençoando-o na formalidade dos bispos. O Frei Arrábida deixa a sala e o Imperador Pedro de Alcântara mantém-se imóvel, com os olhos fixos nas cartas. Em pouco, o mordomo se aproxima. --- Já são duas horas da tarde, Majestade. Posso mandar servir o jantar? --- Sim, mas mande preparar a carruagem que mais tarde eu devo ir até a lagoa praticar o remo, ordena em disfarce o rosto choroso. A carruagem imperial deixa o paço ao final da tarde com uma retaguarda de doze lanceiros da Guarda Imperial. Chegam ao grande lago onde um pequeno bote de dois remos está amarrado junto a uma plataforma de ripas. O Imperador ajeita-se no banco único e sai em devagar, com remadas espaçadas rumo ao centro da lagoa, escoltado por dois barcos que se mantém à distancia. Fica pensativo por quase meia hora até que leva a mão direita na água e molha o rosto, repetindo várias vezes o gesto num crescendo que acaba por molhar as vestes. Ao cabo de uma hora entra na carruagem que se dirige para paço de São Cristóvão. A Imperatriz Teresa Cristina está sentada a um dos sofás da sala de leitura lendo em voz alta uma fábula para as Princesas que brincam ao canto com duas bonecas, parecendo não prestarem atenção ao conto. A aia da Imperatriz e duas camareiras acompanham a leitura em postura retilínea quando o barulho da carruagem chama-lhes a atenção. --- É o papá, diz a Princesa Dona Isabel Cristina com uma boneca ao colo, olhando para a janela. --- Sim, minha filha, e logo já vai estar com vocês, diz a Imperatriz com um livro às mãos. Os passos do Monarca subindo a escadaria de madeira faz a filha mais velha levantar-se e ir ao encontro do pai. --- Minha pequenina, diz o Imperador levantando a Princesa até o alto, depois agasalhando-a no colo. --- Senhor Dom Pedro, por onde andaste? Estas todo molhado, comenta a Imperatriz levantando-se com a ajuda das damas. --- Não foi nada, minha senhora. Estava muito quente e resolvi dar um mergulho na lagoa, só isso. --- Ouça os conselhos do Padre Mestre, Dom Pedro. Deves tomar um banho quente para não adoeceres, responde a Imperatriz tirando-lhe a filha do colo. --- Está bem, Dona Teresa, mas logo vamos ler algumas páginas de história para as crianças, responde o Imperador levantando a filha Leopoldina Teresa e beijando-lhe o rosto. --- O Conselheiro Arrábida não quis jantar conosco? --- Ele não estava se sentindo bem, Dona Teresa. mas mandou recomendações à Imperatriz e às crianças, responde o Imperador sorridente, mas com olhar desviado para o nada, absorto. --- Senhor meu marido, estás bem? Pergunta perplexa a Imperatriz ao ver o Imperador com o corpo tremulando, o rosto transfigurando aos poucos e tomando a feição de ira, com a boca se abrindo e soltando um grito sufocado e gutural, caindo em queda livre e batendo fortemente a cabeça contra o chão, o corpo contorcendo-se como a fúria de um felino que tenta escapar das malhas de uma rede, soltando pela boca um líquido viscoso e esbranquiçado que põe a Aia da Imperatriz e as duas camareiras em gritos de desespero. O médico e o Padre Mestre chegam e acodem em pânico o Imperador que se bate fortemente contra o chão num quadro de loucura e terror, levando a Imperatriz a um desmaio momentâneo, amparada pelas duas aias que, em prantos histéricos, a colocam no sofá. Em meio à crise do Imperador entremeada por espasmos que o transfigura, contorcendo os músculos em cãibra generalizada, o médico tenta enfiar os dedos na boca do Monarca para puxar-lhe a língua que se mostra retraída, podendo causar-lhe a morte por asfixia. Ao tempo de minutos que pareciam intermináveis, o ataque de epilepsia se esvai, aos poucos, deixando para trás um quadro de horror e perplexidade aos que o presenciaram. Aos prantos, uma das damas de companhia da Imperatriz retira as duas Princesas que ficaram encolhidas ao canto da sala, testemunhando de chofre a manifestação de algum demônio encarnado no corpo do pai. O médico Sigaud e o Frei Pedro levantam o Imperador ainda desacordado e o levam até o quarto, colocando-o na cama enquanto alguns criados do paço se achegam, aguardando boquiabertos alguma ordem do médico. --- Frei Pedro, creio que devemos fazer uma sangria, diz o médico em voz baixa segurando os pulsos do Monarca. --- Não, doutor, creio que não será necessário, reponde o Frei enxugando a testa suada do Imperador que ainda tremula em calafrios, enquanto faz um sinal para a criadagem deixar o quarto. --- Então, Frei Pedro, o que aconselhais? --- Não há nada que possamos fazer, doutor. Sua Majestade precisa de repouso e uma alimentação mais leve. Nada de visitas ou coisas que o façam lembrar do ocorrido, diz o prelado cobrindo o Monarca com um grosso cobertor. --- Eu nunca vi um quadro destes, Frei Pedro. O que pode ter acontecido? --- É a opilência, doutor, o mal comicial. Ainda menino o Imperador sofreu um ataque semelhante. O mesmo mal que acometia os seus avós paternos e também a seu pai. Creio ser um mal de família e contra o qual não podemos fazer coisa alguma. --- Santo Deus. Então devemos colocar uma pitada de sal sobre a língua do Imperador, Frei Pedro. --- Isso mesmo, doutor. Muitos dizem que o sal pode ajudar. --- Frei Pedro, será que os ataques poderão se repetir? --- Sim, doutor. Em alguns dias, ou quem sabe em alguns anos, ou talvez nunca mais se repita. Ninguém pode prever. --- E o que faremos? --- Vamos manter sigilo e orientar a criadagem para não comentar com ninguém sobre o ocorrido. Devemos comunicar o Presidente do Conselho de Ministros, o Visconde de Olinda e formarmos uma junta médica para ver se já descobriram algum remédio contra esse mal. --- Santo Deus, murmura o médico olhando a face adormecida do Imperador. O silêncio paira sobre toda a noite de uma lua crescente. A d'Alva cintila em destaque enquanto o mar sopra uma brisa fresca que cai sobre a cidade adormecida. Boa safra, reforço de braços A carruagem do senador Cavalcanti chega à Fazenda Cachoeira no começo da tarde acompanhado do Padre Damião, agora um amigo íntimo e confessor da família. O senador apeia mostrando-se mal humorado, subindo às pressas a escadaria do casarão com um jornal em uma das mãos, deixando para traz a lentidão do cura aos cuidados de um cativo que o ajuda a descer do carro. --- Deucreciano? Grita o senador adentrando à sala, assustando a mulher e a nora que estão a conversar no sofá. --- O que foi, senhor meu marido? Pergunta a sinhá Estefânia levantando-se. --- Nada, não, mulé. Chegô uma carta prêle, num sabe? --- Deucleciano está com os feitores acompanhando a colheita, meu sogro, diz educadamente a nora Lucíola cumprimentando-o. --- Antão tá bão, minha fia. Mulé, óia quem veio passá uns dia na fazenda, diz o senador apontando para a porta. --- Padre Damião, mas que prazer, vamos entrando, diz a sinhá Estefânia em tom amável, tomando a bênção do cura. --- Joana? Grita o senador indo em direção à cozinha. Já passando dos vinte, a mucama Joana está junto ao fogão em vigília às panelas de frango ensopado, arroz, polenta, feijão preto, linguiça e farofa, o cardápio predileto do padre. --- Sim, sinhô, responde Joana com a cabeça voltada para o chão ao ver chegar o patrão. --- Vê se caba logo a comida que eu já tô cum fome, criatura. Adispois vai arrumá o quarto dos hóspi que o padi Damião chegô, num sabe?. --- Então, dona Estefânia, não tens ido mais à missa? A madre Maria do Carmo vive a perguntar da senhora, comenta o padre acendendo o charuto. --- Não tenho andado bem de saúde, padre. Outro dia mesmo quase caí da escada. Não fosse a Joana me segurar... --- É, padi. Já faz tempim que eu tô quereno levá a mulé no dotô Barbosa amódi ele dá uma oiada nela, mas ela diz que num qué nem vê falá naquele tar de "cristé", num sabe? fala o senador achegando-se. --- É verdade, senador, o doutor José Barbosa é um especialista na lavagem do corpo, mas ela só é boa se lavarmos também o espírito. --- Deus me livre disso, padre. Ainda confio mais no chá da preta Sabina e nas orações pra Virgem Santíssima. --- A propósito, dona Estefânia, trouxe-lhe um presente . Aqui está, diz o padre entregando-lhe um pequeno embrulho. --- Ah, que maravilha, o livro do ano, diz a sinhá transbordando em contentamento ao folhear um almanaque. --- E nesse volume tem de tudo, dona Estefânia. Um calendário ilustrado com as imagens de todos os santos, receitas vindas da Europa, as roupas que as damas da corte estão a comprar e até o conselho de alguns médicos para os males terrenos. --- Muito obrigada, padre. O senhor é tão gentil. --- Não há de que, dona Estefânia. --- Cadê o meu neto Diogo? Pergunta o senador. --- Está no quintal com a ama de leite a brincar com os negrinhos, meu sogro. Ainda ontem ele perguntou pelo senhor, responde a nora Lucíola. --- Antão vai lá buscá ele, minha fia, que eu truxi uns doce de muleque. --- Que belo nome tem seu neto, dona Estefânia. É alguém da família? --- Não, padre, foi uma homenagem à memória do padre Diogo Feijó. Foi ele quem costurou o noivado de Deucleciano e Lucíola. --- Esse minino parece que gosta mais de ficá aqui na fazenda brincano cus negrim do que morá na cidade, num sabe? --- Já vou mandar chamá-lo, meu sogro. --- Bem que eu gostaria que o Diogo ficasse com a gente, padre, mas Deucleciano não quer nem ver falar no assunto. --- É, muié, mas pensano bem, ele tá certo. Na cidade tem mais ricurso do este fim de mundo, num sabe? responde o senador acendendo o cigarro de palha. Mais de cem escravos estão espalhados na lavoura disposta em moitas ao longo de um imenso vale de há pouco derrubado a machado. Mãos calejadas e hábeis derriçam os frutos maduros e secos que caem numa peneira presa ao colo, em seguida despejados em balaios dispostos entre as ruas. Os negros de musculatura realçada cuidam do transporte até as bruacas calçadas em burrada vistosa que aguarda em fila indiana. O feitor João Raposo e Deucleciano fiscalizam o serviço montados a cavalo, a meia distância. --- Patrão, eu nunca vi tanto café como deu esse ano, comenta o feitor olhando a escravaria espalhada por todo o vale. --- É verdade. Acho que vamos precisar de mais escravos, responde Deucleciano olhando a imensidão de pés de café ainda por colher. --- Patrão? Já vai tarde. Eu acho mió levá a negrada pa fazenda inhanti de escurecê. --- Está certo. Vamos parar por hoje. O feitor João Raposo retira um pequeno chifre amarrado ao arreio e o leva a boca, fazendo ecoar o clarim chamativo e tão aguardado pela cabilda esfomeada. Em pouco, volvem todos em fila para o terreiro onde descarregam a última carga do dia, indo em seguida para a senzala onde empilham-se uns aos outros atendendo ao chamado dos músculos sovados. Logo, uma ceia de mandioca com carne cozida anestesiará aqueles corpos cansados, um prefixo para a cantoria desenhada quase sempre em lamentos atávicos, o banzo manhoso que persistirá até alto da noite. --- Deucreciano, mais isso é hora, meu fio? pergunta o senador ao ver o filho adentrar à sala já iluminada pelos candeeiros. --- Nunca pensei que o dia fosse tão demorado pra passar, meu pai, responde Deucleciano com ar de cansaço e tirando a capa empoeirada. --- Precisas de um banho, meu filho. Já vou mandar encher a banheira, diz a mãe em tom de zelo. --- Onde está o meu filho Diogo? --- Lucíola já o levou para a cama, Deucleciano. O pobrezinho nem bem comeu e já estava abrindo a boca de sono. Deucleciano vai até o quarto e entra devagar. Lucíola está em vigília à criança adormecida em sono profundo num berço disposto ao canto. Ao ver o marido se aproximar, leva o indicador aos lábios em sinal de silêncio. --- Como é que ele está? --- Brincou o dia todo, meu marido. Nem jantou direito, responde a mulher levantando-se e dando um sinal para saírem do quarto. --- Vou me lavar, mulher. Depois mande colocar a mesa que estou morrendo de fome, diz Deucleciano indo direto para a alcova disposta no corredor da cozinha, tirando às pressas a roupa molhada de cansaço. No cômodo diminuto, os bispotes lotados de excremento abaixo dos banquinhos com furo ao meio fomentam o cheiro da bosta e da urina que infestam o ar. Ao canto, uma banheira com água quente enfumaça o recinto, e o corpo suado e cansado de Deucleciano emerge com rapidez no banho confortante. Após a ceia, as mulheres se recolhem e os homens vão para o alpendre na última cesta do dia. O senador e o padre Damião proseiam sentados nas duas cadeiras de balanço dispostas lado a lado, enquanto que Deucleciano folheia um jornal debruçado no parapeito. --- Vejam isso. O engenheiro François de la Fontaine afirma que o Brasil será um país de mestiços e negros, pois estes já são a maioria da nossa população. --- É mintira, meu fio. Cumé quêle cunsiguiu contá tudo os vivente desse mundão de meu Deus? --- Ele é um estudioso de uma nova ciência, meu pai, a estatística. --- Istá... o que? --- São os avanços da ciência, meu pai. --- Mas isso é que bão, meu fio. Nêgo é que num vai fartá amodi prantá e coiê, responde o senador arrancando um riso discreto do padre. --- Veja o que ele diz aqui: A escravidão e a mestiçagem são inimigos do progresso. Uma nação não pode se desenvolver às custas do trabalho escravo, continua Deucleciano. --- Bobage, meu fio. De certo esse francêis tá variano, num sabe? Será quêle qué que os branco vai trabaiá pus nêgo? --- O senador tem razão, Deucleciano. Os negros já nascem vocacionados para o trabalho. Está na sua índole, retruca o padre. --- Mais, então, meu fio, o que cocê achô da coiêta ? O sirviço tá andano direito? --- Bem que o senhor falou, meu pai. Já tem muito café no chão. Não sei se vamos dar conta. --- Tá veno? Num é atôa que eu chamei o padi Damião, num sabe? retruca o senador cruzando as pernas. --- Como assim, meu pai? --- Cabei de comprá mais oito dúzia de nêgo do coroné Artino Feitosa, meu fio. Deve de chegá por esses dia, com a graça de Deus. --- Então parece que vamos ter missa, padre? --- É verdade, Deucleciano, eu já vim preparado para isso. Mas agora, se me derem licença, devo me recolher. --- Eu tumém vô pra cama, padi. Prumiti pro meu neto Diogo que aminhã a gente vai dá umas vórta à cavalo amódi ele cunhecê a cachuêra. --- Sua benção, padre Damião. Tenha uma boa noite, diz Deucleciano. --- Eu já ia esqueceno, meu fio. Chegô essa carta de São Paulo de um tá de padi Virgílio. Ocê cunhece? Pergunta o senador entregando-lhe o envelope. --- Não, meu pai. Nunca vi esse nome, responde Deucleciano levando o papel próximo ao lampião. "Prezado Sr. Dr. Deucleciano Cavalcanti. Atendendo ao pedido dos familiares de dona Dolores Feijó, sinto informar-lhe que esta faleceu no dia 15 do corrente, vitimada pelos miasmas que tanto mal vem causando em nossa tão assolada Província. Cumpro a promessa que fiz a senhora Dolores em seu leito de morte para rogar-lhe a continuar a tutela da educação do menino Joaquim Aparecido. Na certeza que Vossa Mercê honrará a sua palavra, despeço-me mui agradecido. Que a benção do Altíssimo caia sobre vós e toda sua mui honrada família. Padre Virgílio Fanti, Paróquia do Pacaembú, 16 de julho do ano da graça de 1849." --- Meu Deus, murmura Deucleciano olhando a carta. --- O que foi, meu fio? --- A Dona Dolores faleceu, meu pai, a irmã do padre Feijó. --- Vííígi. --- E esse padre Virgílio é quem foi seu confessor. --- Minha nossa... Bem queu ví a úrtima veiz quéla têve aqui, padi. O zoim déla tava mei fundo. --- O que ele diz na carta, meu filho, pergunta o padre Damião. --- Ele pede que eu não esqueça de zelar pelo menino Joaquim Aparecido, o filho da mucama do padre Feijó. O senador intervém. --- Mas o minino já num tá no zelo dos padi? --- Sim, meu pai, ele já está no Recife aos cuidados do Frei Ambrozio, no Convento do Carmo, responde Deucleciano com o semblante pensativo. --- Não te preocupes, meu filho, o Frei Ambrozio foi quem me educou. Com certeza essa criança está em boas mãos. Hoje mesmo vou rezar pela alma da falecida, diz o padre recolhendo-se. --- Obrigado, padre, tenha uma boa noite. Em pouco Deucleciano vai para o seu quarto em penumbra de vela. Num berço ao canto, o filho dorme em sono profundo enquanto Lucíola está na cama, acordada, em aguardo ao marido. --- Porque demoraste, Deucleciano? Ele passa a tramela na porta e se despe, conservando a ceroula que tem por hábito servir-lhe de pijama. Sentado à cama e ao lado da mulher, ele solta um bocejo e dá-lhe as costas, talvez com o pensamento no menino Joaquim Aparecido, agora uma peça definitiva em sua consciência. --- Você não quer mais um filho? Diz Lucíola em voz abafada, tocando-lhe levemente as costas. Cumprindo a obrigação de varão, ele tateia a roupa íntima da esposa tentando, sem apetite, encontrar o rasgo bordado destinado ao coito. Uma mecha de cabelo em maçaroca indica-lhe o alvo, fétido e seco. Relembra das horas com a mulata Joana e também com a mucama que tem na cidade, mas o apetite não lhe chega. --- O Diogo não vai acordar? Diz baixinho, tentando esquivar-se, enquanto a mulher toca-lhe levemente com a esquerda na verga em meio pavio, fazendo com a destra o sinal da cruz. Aos poucos, a ereção o faz levantar o corpo e deitar-se sobre a mulher que se mantém estática e com os olhos fechados. Após algumas investidas sobre o pano com furo ao meio, a penetração se faz demorada, com a aspereza da vulva peluda e seca. Em pouco, um resquício de secreção vaginal conforta o ato que termina brevemente por estocadas bruscas e violentas, culminada em gozo precoce. Sem qualquer palavra, ele desmonta do corpo estático e estira-se na cama, fingindo adormecer, em meio a um forte cheiro que paira no quarto. Vista à distância, a chama da fogueira defronte a senzala balança suavemente ao sabor do vento, indicativo certeiro de um noite mais fria. Ainda se ouve, ao longe, o gorjear soturno de um curiango solteiro ecoar na escuridão. Logo ao primeiro clarão solar, uma algazarra canora desperta os escravos que, defronte ao pátio do casarão, se põem em fila para mais um dia de colheita. Após um desjejum rançoso, alicerçado com mandioca cozida na salmoura, segue a escravaria descalça e maltrapilha a mando do preto Bastião, que os coloca dispostos em grupos de três dúzias, no aguardo das ordens do feitor João Raposo. --- Jisuíno, grita o feitor montado a cavalo. Ocê mais o Tenório pega essas duas leva e pó cumeçá no taião do Angico. Salustiano, ocê pega essas duas e me acumpanha no taião da Lagoa, diz com o chicote em riste. --- Vardivino. Ocê mais o preto João Manco leva a burrada na frente, finaliza João Raposo diante do comboio que se põe em andadura de procissão. Deucleciano abre a janela de seu quarto e fica por instantes a observar a escravaria que caminha ao compasso de uma cantoria manhosa, puxada pelas escravas que se colocam na retaguarda das filas. O filho Diogo desperta em resmungo choramingado, levando a mão ao rosto para esquivar-se da claridade vivaz que invade o ambiente. --- Então, meu filho, não vais passear com o vovô? Pergunta o pai em tom de chamego, acariciando a criança ainda entrincheirada no cobertor. --- Deucleciano, peça para a Joana servir o café com leite que o Diogo não pode sair sem comer, diz Lucíola se espreguiçando na cantoneira da cama, com ar de pura felicidade. --- Esta bem, mulher, mas não demores. Bem sabes que meu pai não gosta de atraso, responde fechando a porta. Rente ao contraforte do Morro do Macuco, um jorro d'água borrifa em contínuo por uma fenda na rocha plantada ao alto, desenhando um véu esbranquiçado que cai sobre uma lagoa rasa em forma de meia lua, mantendo o ar refrescado em constante pelas gotículas formadas com o repartir dos pingos que se dividem durante a estupenda queda, formando um pequeno arco íris que se modifica conforme o avançar do dia. O senador Cavalcanti com o neto ao colo na cabeça do arreio chega ao pé da cachoeira após uma hora de cavalgada onde ficam a contemplar o espetáculo majestoso, adornado pelo barulho da água e o sibilar incessante das maritacas que fazem seus ninhos nas frestas do paredão de rocha, nos flancos da queda d'água. --- Tá veno, meu fio? É essa água que passa no riachim no fundo de casa, num sabe? É água limpa, comenta o senador acariciando o neto encolhido de frio. --- Tá chovendo, meu vô?, pergunta o garoto tentando se esquivar dos respingos que lhe batem no corpo. --- Não, meu fio, não é a água da chuva. Mais agora o cê já sabe o pruquê que a fazenda leva o nome de cachoeira, num abe? responde o senador esporando levemente o alazão de meia idade, aproveitando o passeio para ensinar o neto a guiar o animal. De volta ao casarão, notam uma carruagem parada junto ao pátio, rodeada por dois cocheiros desconhecidos que dão de beber às duas de cavalos castanhos, uma igual a outra, mas que ainda se mostram suadas e ofegantes. --- Que beleza de animá? Mas quem havéra de sê?, resmunga o senador apeando o neto rente a escada, acudido de pronto por um cativo que segura o animal. --- Marcilino, quem é que chegô? --- Sei não sinhô, responde o escravo de cabeça baixa. --- É o coroné Artino, senadô, acabô de chegá, responde sorridente um dos cocheiros tirando o chapéu em gesto respeitoso. --- Marcilino, ocê leva o Diogo amódi ele vê disarriá o animá e dispois traiz ele aqui, ordena o senador subindo a escadaria. Enfim, chegara o momento do dia mais esperado pelo sinhozinho Diogo, o de puxar o cavalo. A passos lentos e a meio cabresto, o menino segue pela estradinha que contorna o terreiro dando, vez ou outra, uma olhadela para trás, certificando-se da obediência do animal que o acompanha com a cabeça levemente abaixada, na mesma andadura do pequeno condutor. Um pouco atrás, surgidos do nada, seguem-lhes quatro negrinhos seminus que entremeia a caminhada com risos de inocência e ruídos de duendes, no intento flagrante de agradar o rei. Chegando à baia, o sinhozinho desnecessariamente amarra o cabresto num esteio fincado junto à porta e dá dois tapinhas na paleta suada do alazão, levando a mão ao rosto para certificar-se do odor já conhecido. Súbito, um grunhido contínuo de porco na peia rompe os ares esvoaçando as rolas e as galinhas que migalham no mangueirão da fazenda, arregalando os olhos do menino Diogo que permanece estacado em susto notório. --- Nada não, sinhozim. Se grito vogasse os porco num morria. Loguim nóis vai sangrá o bicho, diz o cativo Marcelino ao tirar o arreio do alazão, arrancando risos maliciosos dos negrinhos que os espreitam à meia distância. --- Marcelino? Me leva pa vê o porco morrê? --- Tá bão, sô Diogo, mais primêro vão pidi pa sinhazinha, responde o cativo tirando o freio do alazão. Joana e mais duas mucamas estão a limpar uma mesa de prancha avermelhada disposta ao quintal do casarão, sombreada por um tamarineiro vistoso logo ao pé da cozinha. É quando o cativo Marcelino chega, trazendo às costas um saco de palha de milho que despeja no chão varrido. Em pouco, dois negros com a tintura do melro chegam arrastando um Cuié cevado pelas patas traseiras e o colocam no calabouço improvisado, ao lado do monte de palha. --- Joana, me passa o punhá, diz Marcelino acalcando com o pé direito no pescoço do porco que se estrebucha em berreiro alucinante. A gritaria persiste. Lucíola se achega com o filho ao colo mas se mantém à distância, ombreando-se no portal da cozinha, em tempo de ver o negro Marcelino colocar o joelho esquerdo sobre a barriga do capado e levantar-lhe a pata direita, apunhalando-o em golpe único, certeiro, cessando de imediato a gritaria protestante que se desdobra em bufadas mudas, asfixiantes. Em feito de artesão, ele retira o punhal da axila tremulante e apara a torneira de sangue com uma cuia de meia cabaça, entregando a prenda cobiçada aos dois companheiros que, por certo, mais tarde irão sorver a iguaria a tanto custo achada. --- Cruz, credo, diz Lucíola levando a destra aos olhos do filho, esquivando-se da cena. --- Antão é isso, senadô, o buato que tá correno na cidade é que o Imperadô tá sofreno dos nervo e variano da idéia, num sabe? O deputado Pantoja tumém falô que o Visconde de Olinda já tá cus dia contado, e que mais dia, menos dia ele vai saí da presidênça, argumenta o coronel Altino Feitosa acendendo o cigarro de palha. Deucleciano está numa poltrona ao canto da conversa, compenetrado no jornal O Brasil enquanto o padre Damião se deleita diante de uma bandeja abarrotada de biscoitos. --- Tá veno, meu fio, eu num te falei quessa cambada dos cunservadô é capaz de fazê de tudo pá num perdê o pudê? --- Não creio, meu pai. Os melhores nomes de que o partido liberal dispõe para a Presidência do Conselho de Ministros já estão todos testados e desgastados. E além disso, o nosso Imperador já não é mais uma criança. Isso ficou bem claro com a intervenção do exército na revolução de Pernambuco. --- Ara, meu fio, num vai me dizê que agora ocê tá do ôto lado? --- Não se trata disso, meu pai. Veja o que diz o editorial do SENTINELA: "A política adotada pelo Visconde de Olinda junto ao governo do ditador argentino Don Juan Manoel de Rosas não está de acordo com a vontade do Imperador. Todos os ministros e também o alto escalão do exército estão insatisfeitos com a amizade que o Sr. Visconde de Olinda mantém com Don Tomás Guido, o Ministro do caudilho Rosas na Corte do Rio de Janeiro, tratando as intenções do ditador em banho-maria". --- Neste ponto eu devo discordar desse jornal, Deucleciano, retruca o padre Damião. --- A intenção do Ministro Visconde de Olinda é evitar uma guerra que poderá nos custar o trono e a própria instituição da Monarquia. Além disso, não temos armas e nem dinheiro suficiente para combatermos em pé de igualdade o exército de Rosas, ainda mais se ele tiver o apoio do Uruguai. --- É... Nisso o padi tem razão tem razão, num sabe? intervém o senador. Mais se o Visconde de Olinda fô intimado a dexá a pasta, quem é que o Imperadô vai butá no lugá dêle? --- Não sei, meu pai, mas os fatos indicam que dificilmente o Imperador nomeará alguém do partido liberal. --- Isso eu também concordo, Deucleciano. Mas o Imperador, com a graça que o criador lhe deu, por certo encontrará uma solução. Afinal, é para isso que ele existe, retruca o padre. --- Mais mudãno um pôco de assunto, padi, eu queria priguntá o coroné Artino se a carga vai chegá amanhã, nos conforme do cumbinado? --- Se Deus quisé, senadô. Nêgo é que num vai fartá amódi o cumpadi terminá a coiêta, num sabe? Já tá tudo contadim, senadô, apartado no dedo. Incrusive deve de tê mais de meia dúzia que o cumpadi pode usá pa cruzá cas neguinha mais nova, amódi apurá araça, responde o coronel levantando-se e baforando o cigarro de palha. --- Mais o cumpadi num qué ficá pa janta? O capado já deve de tá no tacho. --- Num carece, senadô. A mulé já deve de tá cramãno. Ela num gosta de ficá suzinha e mais logo já deve de escurecê, fala o coronel Altino olhando pela janela o principiar da tarde. --- Então, até amanhã, coronel. Gostaria de mais uma vez agradecer a doação que o amigo fez à nossa paróquia. O dinheiro chegou em boa hora. --- Num foi pa igreja que a minha santinha quis dá o dinhêro, padi, foi pa Deus, responde o coronel olhando para o alto e tirando o chapéu. --- Recomendações à dona Jacinta, coronel, e faça uma boa viagem, diz Deucleciano retirando-se para a cozinha enquanto o senador acompanha o amigo até a carruagem. Firma-se de vez a autoridade do Imperador No paço da cidade, a carruagem do então Ministro da Justiça Eusébio de Queirós, para junto a porta do palácio imperial chamando a atenção de alguns viventes. --- Boa tarde, senhor Ministro, o Imperador está a sua espera, diz o criado Antônio Joaquim recebendo-o. Sentado à mesa do seu Gabinete, o Imperador, como de costume, faz algumas anotações em seu diário. ... Protesto contra qualquer anexação de território estrangeiro..., quando ouve uma batida na porta. Rapidamente ele fecha o livro e empina o tórax. --- Majestade, sua excelência o Ministro da Justiça, diz o criado em voz alta, anunciando-o na praxe protocolar. --- Majestade, fala o ministro Eusébio de Queirós em cumprimento ao monarca que se mostra um tanto mais magro. --- Senhor ministro, queira sentar-se, diz o Imperador em tom amável. O Imperador entrelaça as mãos e o mira nos olhos. --- Creio não ser necessário dizer que esta nossa conversa é estritamente particular. --- Tens a minha palavra, Majestade. Sou todo ouvidos. --- É a respeito do Visconde de Olinda, doutor Eusébio. Como Ministro chefe da Presidência do Conselho e titular dos Negócios Estrangeiros, ele não está correspondendo às nossas expectativas de colocar um basta nas ambições de Rosas. Está mais do que claro que este caudilho quer a reconstituição do antigo Vice-Reinado do Prata, mas isso não podemos aceitar de forma alguma. --- Também acho, Majestade. A propósito, já conversei com os demais ministros e todos estão de acordo com o vosso augusto parecer. --- E o que Ministro do Império pensa à respeito? --- Não só o ministro Monte Alegre, Majestade, mas também Rodrigues Torres e Manuel Felizardo. Todos estão em discordância com a animosidade do Visconde de Olinda. E a história nos mostra que em certos assuntos é preciso lidar com mão de ferro. --- Gostaria de pedir-te um favor, senhor ministro. --- O que quiseres, Majestade. --- Comunique aos demais ministros sobre o meu descontentamento com a política adotada pelo senhor Visconde de Olinda. E isto não deve ser adiado. --- E quanto ao Visconde, Majestade? Não achas que o ministro Monte Alegre é quem deve inteirá-lo dos fatos? --- Não, doutor Eusébio. Creio ser o senhor a pessoa mais indicada. Informe aos demais ministros sobre a nossa conversa e depois comunique ao Visconde de Olinda sobre a minha decisão. Ele deve ser substituído com a máxima urgência. --- Vossa Majestade já pensou em alguém para substituí-lo? --- Marque uma reunião com o ministério para daqui a dois dias. Até lá eu devo decidir quem ocupará a presidência. --- Sábia decisão, Majestade. Vosso pedido será feito de imediato, finaliza o ministro Eusébio de Queirós deixando o Gabinete. Um comboio com cinco carroções de quatro rodas, puxados cada um por três parelhas de burros, segue em marcha troteada rumo ao casarão da Fazenda Cachoeira. A bordo, uma tripulação de noventa e seis escravos com grilhões no pescoço chacoalha dentro das jaulas com armações de ferro. A escolta se faz por dez homens armados que lhes cobrem a retaguarda, todos ao comando do coronel Altino Feitosa que monta um zãino crinudo. O som da caravana chega em sopetão até a cozinha disposta rente à senzala onde alguns cativos estão a mexer, com pás de madeira, vários tachos abarrotados com mandioca e pedaços de carne de sol, enquanto algumas mucamas alimentam o fogo com lenho seco. --- Vííígi Maria, diz uma das escravas fazendo o sinal da cruz. A comitiva chega ao pátio do casarão onde, quatro feitores estão a postos ao canto esquerdo, segurando com dificuldade os cães de captura que tentam avançar na escravaria enjaulada, desencadeando um som contínuo de rosnados e latidos apavorantes. O senador Cavalcanti e o padre Damião, observam a cena acotovelados no parapeito do alpendre. --- Dia senadô, diz o coronel Altino Feitosa subindo a escadaria. --- Se achegue, coroné. Cumé que foi de viagi? --- Tudo nos conforme, senadô. A negrada já tá amansada e quaji num deu trabaio pa embarcá, num sabe? --- Sua benção, padi, fala o coronel tirando o chapéu. --- Deus o abençoe, coronel. --- Vamo entrá amódi acertá as conta, coroné, mais inhanti, vamo tumá um café que o cumpadi deve de tá cansado. --- Isso é verdade, senadô. Duas légua em riba dum arreio seca a guéla de carqué vivente, num sabe? --- Vardivino, grita o senador. --- Ocê ajunta mais um tanto e pó descarregá as gaiola, mais uma de cada veis. Adispois leva a negada po barracão novo a módi o Marcilino dá de cumê. Alicerçados da mudez e no medo, a escravaria seminua segue em fila indiana rumo à nova morada, ansiando por um quinhão que possa matar-lhe a sede e a fome, a única esperança possível. Junto ao portal da senzala, um preto velho os recebe batendo-lhes levemente nos ombros suados com um tufo de ramos murchos, abençoando-os na mandinga ininteligível de cânticos melancólicos. Desacorrentados, são de logo saciados com o mingau miraculoso, servido com fartura em cuias apodrecidas e morféticas. A grande maioria já sabe o que o destino lhes reserva, e deitam-se com o rosto colado ao chão da pedra fria, seu único travesseiro, o único confidente. --- Antão, coroné? Esse lote tem muita fêma? Indaga o senador sentado na escrivaninha. --- Dezesseis, senadô. Mais tem só quato que tá embuchada, conforme o cumpadi pediu. Mais é tudo preta que tá custumada na enxada. --- Bão. Antão, fazeno as conta, coroné, vai dááá... Vinte e quato conto de réis? Pergunta o senador mostrando-lhe a conta rabiscada num livro grosso. --- Isso memo, senadô. Duzentos e quarenta mil Réis por cabeça. --- Tá certo, coroné. Aqui tá o dinhêro, contadim, diz o senador entregando-lhe um maço de notas envolto em um pano. O coronel Altino Feitosa passa o polegar direito nos lábios e desfila nota por nota, colocando-as uma sobre a outra, intermeando a contagem com grunhidos de ganância. --- Louvado seja Nosso sinhô Jesuis Cristo, diz o coronel guardando o dinheiro. --- O coroné num qué ficá amódi assisti a missa? --- Num carece, senadô. Inda tem muito chão até em casa, num sabe? Inté mais vê, diz o coronel despedindo-se. Na rua Direita, à esquina do largo do paço da cidade, Antônio Silveira, o criado do Imperador, trajando casaca e cartola, apeia de um tílburi e adentra ao Armazém Imperial, aparentando estar com pressa. --- Pois não, meu senhor, diz o velho comerciante de avental com um lápis preso atrás da orelha. --- Me veja um maço de fósforos e quatro garrafas de Álcool de Parati. Mas tem que ser da boa, fala o criado levando um lenço ao nariz e virando de lado, como que disfarçando o rosto para o advogado Basílio que entra em seguida. --- Aqui está, senhor. Esta cachaça é a melhor que temos, responde o comerciante embrulhando as garrafas. --- Quanto é? --- Deixa-me ver... Dois mil e duzentos réis, senhor. --- Aqui está. Obrigado, diz Antônio Silveira jogando as patacas no balcão e saindo em seguida. O advogado Basílio o segue com os olhos e leva a mão no cavanhaque. --- Eu conheço esse homem não de onde, seu Joaquim. --- Ele aparece de vez em quando, doutor Basílio. Está sempre com pressa e também não é de muita conversa. Mas é um bom freguês, senhor. Sempre paga à vista. --- Ah, seu Joaquim, agora eu me lembrei. Esse homem trabalha no palácio de São Cristóvão e deve ser um dos criados do Imperador. --- Não me diga, doutor. Já faz quase um ano que ele tem vindo aqui, a cada quinze dias mais ou menos, e sempre compra a mesma coisa. Fósforos e Cachaça de Parati. --- Mas será que tem alguém no palácio deu pra tomar bebida de negro? Diz o advogado arrancando risos do comerciante. --- Qual nada, doutor Basílio. A grande maioria dos meus fregueses preferem a cachaça ao vinho do porto. O senhor mesmo diz que, além de ser de mais barata, o efeito é o mesmo. --- É verdade. Mas já que é assim, me dê logo uma trago, homem de Deus, retruca o advogado estalando os dedos em risada bonachona. Reunidos no Gabinete do Imperador, os quatro Ministros de Estado aguardam a presença do Monarca que chega em repentino, sem o anúncio protocolar. --- Senhores, diz o Imperador sentando-se à cabeceira da mesa, ao que todos ficam de pé. O Visconde de Olinda permanece de pé e logo se dirige ao Imperador. --- Majestade, após o comunicado feito ontem pelo doutor Eusébio, creio que devo atender ao vosso pedido e renunciar ao meu posto. O Imperador leva a mão ao queixo e bate levemente o indicador nos lábios. --- Por favor, queira sentar-se, senhor Visconde. --- Majestade, diz o ministro Eusébio de Queirós mediando a situação. --- O que me preocupa é o fato de que a renúncia, pura e simples do Visconde de Olinda possa abrir uma brecha para que a oposição tome partido da situação. --- E se dissermos que o ministro Visconde de Olinda não se encontra bem de saúde, Majestade, talvez isso convença a oposição de que a substituição se faz necessária? sugere o ministro Manoel Felizardo tentando amenizar o visível descontentamento do Visconde de Olinda. --- Protesto, senhores. Quando fui empossado Presidente do Conselho de Ministros jurei lealdade ao Imperador e à constituição. Estou disposto a aceitar qualquer decisão de Vossa Majestade, mas ser conivente com uma mentira, jamais, retruca o Visconde com o rosto em carranca. --- Sendo assim, gostaria de informar ao senhor Ministro Visconde de Olinda que o Império se sente mui gratificado por todos os serviços que Vossa Excelência tem prestado na Presidência do Conselho. Para substituí-lo, nomeio o Ministro Monte Alegre que também ficará com a pasta do Império. E quanto a pasta dos Negócios Estrangeiros, nomeio o Ministro Paulino José Soares de Souza, diz o monarca em tom austero, assinando um despacho previamente redigido. Todos ficam calados. Como último Regente e um dos mais antigos conselheiros da nata conservadora, Visconde de Olinda sempre esteve na mais alta cúpula das figuras do Império, testemunhando a entrada na política de inúmeros companheiros e também dos seus atuais colegas de ministério, isto quando estes ainda eram fósforos de pouca luz. Por certo, o fato de estar demissionário ferira profundamente seu orgulho. Notoriamente abatido, ele se levanta e entrelaça as mãos. --- Gostaria de externar a minha mais profunda gratidão à Vossa Majestade e desejar ao ministro Monte Alegre que logre êxito à frente da Presidência do Conselho, diz o Visconde com voz em soluço, fazendo a reverência ao monarca e em seguida retirando-se do Gabinete, calmamente, mas sem se despedir dos colegas. O Imperador percebe claramente o constrangimento do velho Regente e fica em silêncio por instantes. --- Senhores ministros, diz Dom Pedro de Alcântara levantando-se. --- Vamos ao trabalho, finaliza o Monarca esfregando as mãos em trunfo de vitória, agora sim, um homem notoriamente mais amadurecido, um pai de família dono dos seus atos, estóico e independente, alicerçado numa constituição que lhe garante o controle total e absoluto para governar, nomear e demitir, entrincheirado no manto que a constituição de 1824 criara, o então chamado, poder moderador. Da sinfonia das goteiras Aceso o dia, a desolação se apresenta. Mas, ao final de tarde, no horizonte acinzentado do Atlântico, nota-se ao longe uma bateria de raios que brotam da escuridão das nuvens que parecem beijar o mar, desencadeando a artilharia revoltosa culminada pelo descambar majestoso das primeiras chuvas que acodem o clamor das serras, iniciando a estação mais quente do ano, o que para muitos, é a estação das mortes. Aos primeiros roncos dos trovões longínquos, a fauna barulhenta se cala em repentino, como que adivinhando o turno das águas em socorro às preces da flora agradecida. Os morros, as encostas e as vielas descalçadas da capital são lavados por completo, na faxina exuberante das enxurradas volumosas, que varrem em poucas horas os telhados empoeirados e os becos infestados de lixo e excremento, formando um chorume escuro e fétido que se mistura na correnteza pestilenta. Do ciclo natural das chuvas, ressurge aos olhos de todos o berçário da morte, até então ignorado pela medicina de todo o mundo. As águas que ficam estagnadas nos telhados, nos jardins e nos quintais das casas, assim como no perfilho de algumas plantas, formam o ambiente perfeito para a desova de um mosquito rajado, um incômodo onipresente em toda a cidade. Todos os anos, a febre amarela matava aos milhares, mas as mortes eram atribuídas aos miasmas provindos do fumo dos charcos apodrecidos, espíritos malignos que, quando inalados, encarnavam nas pessoas. Tão logo o mau tempo dá lugar a uma estiagem mormacenta e prolongada, o médico José Barbosa é visto com sua inseparável valise entrando na Pharmácia Real, situada ao final da Rua Direita. O boticário Afrânio Moraes está no balcão atendendo uma mulher que traz a cabeça embutida num véu preto. --- Aqui está, dona Ismália. Deves tomar o chá pela manhã e também à noite, quando fores dormir. É um ótimo calmante. --- Obrigada, senhor, ponha na minha conta, sim? diz a mulher saindo com a cabeça voltada para o chão. O médico se aproxima e coloca a valise sobre o balcão. --- Bom dia, doutor Barbosa, em que posso ajuda-lo? --- Estou precisando de sanguessugas, senhor Afrânio, de preferência as importadas, diz o médico tirando uma caderneta da valise. --- Que sorte a sua, doutor Barbosa, as bichas chegaram ainda esta semana. E são das boas. --- Mas que ótimo. --- O senhor prefere as portuguesas ou as francesas? --- Hamburguesas, senhor Afrânio, são as melhores. --- Ora, doutor Barbosa, bichas são bichas. E devo dizer que a minha freguesia nunca reclamou. --- Senhor Afrânio, minhas pesquisas demonstram que as sanguessugas alemãs são mais eficientes, principalmente nos casos de pneumonia. Além de sugarem mais sangue, elas se soltam com mais facilidade, não carecendo o uso do sal. --- Queira desculpar, doutor Barbosa, no momento não poderei ajuda-lo. Mas ouvi dizer que o seu Joaquim está a criar os vermes. --- O seu Joaquim da padaria? --- Ele mesmo, doutor. --- Muito obrigado, senhor Afrânio, mas caso eu não encontre as bichas alemãs, comprarei das suas. A propósito, quanto o senhor está pedindo por cada uma? --- Depende do tamanho e da quantidade, doutor. Mas fica em torno de vinte a trinta mil réis o cento. --- Então, até mais ver, senhor Afrânio. Tenha um bom dia. Defronte a mansão de Deucleciano Cavalcanti, dois escravos estão a cuidar do jardim enquanto são observados por uma mucama que está debruçada em uma das oito janelas. Uma carruagem para em frente a casa fazendo-a deixar o posto. Sentado junto a cama, Deucleciano segura a mão da esposa Lucíola que se mostra deitada e com o rosto suado. O padre Damião também lhes faz companhia, caminhando pelo quarto em vai e vem com as mãos entrelaçadas num rosário, balbuciando orações em sussurro sibilante. --- O dotô chegô, diz a mucama pondo meio rosto na porta. --- Pode deixar que eu mesmo o recebo, diz o padre saindo do quarto. Deucleciano toca levemente o rosto da mulher entrincheirada em grosso cobertor, tossindo na dificuldade dos combalidos. --- Boa tarde, doutor Deucleciano. Como ela está? Pergunta o médico José Barbosa adentrando ao quarto. --- Deve ser a febre, doutor, ela está muito quente. O médico leva a mão ao rosto de Lucíola e franze a testa. --- Minha Nossa Senhora da Cova Rasa, murmura enquanto abre às pressas a valise. --- O que vamos fazer, doutor? --- Preciso de um ovo fresco, uma bacia com água quente e outra com água fria, e também um pouco de açúcar. Creio que eles voltaram, doutor Deucleciano, diz o médico recolocando o padre Damião na vigília das rezas. --- Eles quem, doutor? --- Os miasmas, doutor Deucleciano, os miasmas. No ano passado muitas almas deixaram a terra por causa deles, diz o médico tirando um vidro da valise e colocando-o contra a luz. --- O que é isso, doutor? Pergunta Deucleciano enquanto duas mucamas se achegam trazendo os pedidos do médico. --- A salvação, meu caro. Agora deixem-nos a sós, fala o médico convidando Deucleciano e o padre a sair do quarto. Retirado o cobertor, o médico desabotoa a roupa íntima de Lucíola e a despe até a cintura. Com um pano embebido em água morna, ele esfrega vagarosamente a compressa no abdome e no rosto da mulher que responde em calafrios intermitentes, fiscalizado pelo olhar de espanto das duas mucamas que o observam na mudez peculiar dos cativos. --- Ô criatura, quebre um ovo, separe a gema numa xícara e depois misture um pouco de açúcar. E é pra já! Em pouco, uma gemada pastosa é espalhada por todo o tórax da paciente, colocando-a em estado de choro ao sentir as mãos do médico a lambuzar-lhe os seios despidos. --- Tenha calma, dona Lucíola, procure relaxar, diz o médico em voz de consolo ao terminar a massagem. O vidro repleto de sanguessugas é despejado na bacia com água fria e em seguida são colocadas uma a uma sobre o ventre melado. Tão logo em contato com a pele adocicada, o pequeno exército de vermes começa a sugar-lhe o sangue, deixando a paciente em estado de pânico ao sentir as bichas ferroando-lhe a carne com a aspereza das pinças. --- Procura te acalmar, dona Lucíola, quanto mais a senhora se mexer, pior será o resultado. Caso sentires que alguma desceu para a vagina, é só gritar que estarei por perto. E vocês duas, fiquem de olhos abertos, diz o médico lavando as mãos e deixando o quarto. Deucleciano e o padre Damião estão na sala quando o doutor José Barbosa se achega. --- Então, doutor, como ela está? pergunta o padre esbofeteando o próprio pescoço, no afã de alcançar um mosquito impertinente. --- Um pouco assustada, padre, mas isso é natural. Em algumas horas veremos o resultado. --- O senhor fez alguma sangria, doutor? --- As bichas, doutor Deucleciano, elas é que estão cuidando disso. Nestes casos é melhor tirar um pouco de sangue de várias partes do corpo ao invés de muito de um só lugar. Mandei que as mucamas ficassem de vigília para que os vermes não desçam até as partes íntimas. Neste caso teríamos que fazer um clister com salmoura. Mas creio que elas não vão descer. --- Santo Deus, murmura o padre. --- Senhores, posso acompanhá-los no café? --- Oh, por favor, sirva-se à vontade, doutor, diz Deucleciano acendendo um cigarro enquanto um bombardeio de trovões atinge aos ouvidos que se desdobram em máximas pessimistas, preludiando mais uma noite chuvosa. Tão logo cai a tarde, uma das mucamas sai do quarto e vai até a biblioteca onde, após uma leve batida, põe meia face entre a porta. --- Dotô? diz a escrava olhando para o médico que corre para o quarto. Ao ver a paciente tremulando em febre e com o ventre salpicado pelos inúmeros furos que continuam a verter sangue, o médico recolhe algumas sanguessugas que ainda estão presas ao corpo e as devolve para a bacia com água fria. --- Santo Deus, murmura o padre ao ver o tamanho dos vermes, duplicados em volume. --- Santo remédio, padre Damião, responde o médico a catar algumas bichas que caíram rente ao corpo, sobre o lençol molhado. --- Mas ela está sangrando muito, doutor, diz Deucleciano levando a mão ao rosto. --- Esta é a maior vantagem dos vermes, doutor Deucleciano. Eles devem ter alguma substância que inibe a coagulação, por isso o ferimento continua a sangrar. Mas logo vai passar, responde o médico limpando os ferimentos com um pano seco e depois cobrindo a paciente com o cobertor. --- Pronto, agora é com o senhor, padre. Reze para que a dona Lucíola volte a ter apetite. Recomendo um caldo de galinha bem quente e com pouco sal, diz o médico fechando a valise. --- Vocês não ouviram? Já pra cozinha, grita Deucleciano para as duas mucamas que saem do quarto fazendo o sinal da cruz. --- Bem, então até mais ver, senhores. Qualquer coisa é só me chamar, estarei em casa, diz o doutor José Barbosa despedindo-se. Tão logo o médico deixa a casa, uma chuva mediana cai por sobre a baía, encharcando a terra já saturada e colocando os viventes em espreita hibernal, confortando-os apenas com o som tedioso e melancólico da sinfonia das goteiras. Vestida de lobo, a ovelha perde o pêlo mas não larga o vício Tão logo a estação das chuvas começava, as pestes e os mosquitos de verão empurravam os abastados para as suas fazendas, a maioria situadas no lombo da serra do mar, longe dos mangues, dos alagadiços, das várzeas e da coceira persistentes das mutucas. A família imperial, como em todos os anos, deixa a capital de São Sebastião do Rio de Janeiro e muda-se temporariamente para o paço de Santa Cruz, uma velha fazenda comprada pelo então Príncipe Regente Dom Pedro. Quase dois mil escravos fazem o serviço do plantio, das capinas e da colheita do café, a maior fonte de renda do imenso latifúndio. O clima ameno e o frescor da brisa serrana garantem o bem estar e a saúde do Imperador, da Imperatriz e de Suas Altezas Imperiais, as Princesas Dona Isabel Cristina, Dona Leopoldina Teresa e do mais novo herdeiro do trono, o Príncipe Dom Pedro Afonso, que ora conta com pouco mais de um ano. A comitiva de aias, açafatas, médicos, mordomos, criados e cozinheiras, instalam-se no pequeno palácio que ora passa a ser a sede de governo, recebendo amiúde os Ministros de Estado e alguns senadores mais próximos do Imperador. No começo de janeiro de 1850, o professor Félix Taunay chega à fazenda pela manhã, atendendo ao convite do aluno e amigo Dom Pedro de Alcântara. --- Majestade, o professor Taunay acaba de chegar, diz em boa nova o Frei Pedro adentrando ao Gabinete do Monarca que se encontra mergulhado num livro. --- Não queres cavalgar conosco, Frei Pedro? Está um lindo dia. --- Ora, senhor Dom Pedro, bem sabes que não me dou com a montaria. Na minha última tentativa, o muar me levou ao tombo e quase me custa uma costela. --- Fatuus fatuum invenit " um tolo encontra outro tolo", retruca o Monarca em risos. --- Não perdeste o hábito de ler Virgílio, Majestade? Creio que devemos aproveitar a noite para relermos Homero. O que achas? --- Combinado. Ah, por favor, diga ao professor Taunay que já vou estar com ele, mas primeiro devo me vestir. Falando nisso, frei, e o meu novo par de botas, ficou pronto? --- Já está em seu quarto, Majestade, e a julgar pelo tamanho da caneleira, creio que vais precisar de ajuda para vesti-las, responde o frei arrancando mais uma risada imperial. Os dois cavaleiros partem em trote vagaroso pela estradinha batida que contorna as pradarias da fazenda de Santa cruz, povoada por incontáveis cabeças de gado vacum e cavalar. Seguidos à distância por uma guarda de oito lanceiros, o Imperador e o professor resolvem desmontar e continuar o passeio a pé. --- Que beleza, Majestade, nunca vi tantos cavalos assim, reunidos em um só lugar. --- São mais de dois mil, senhor Taunay, todos da raça de Alter. A idéia partiu do mestre Roberto Damby que selecionou alguns centos de éguas para atravessá-las com garanhões importados. Mas o resultado aí está, uma cavalaria a altura do nosso tempo, diz o Imperador marcando o chão com o pisar das botas pretas. --- E as plantações de café, Majestade? Ouço dizer que Santa Cruz é uma das nossas maiores fazendas mas até agora não vi nada? --- Ficam do outro lado do morro, professor, a quase meia légua. Se quiseres conhecê-la creio que devemos montar, retruca o Imperador galgando a sela e se deleitando com a dificuldade do professor Taunay montar o animal. Em pouco, os dois cavaleiros deparam-se com um exército de escravos espalhados por toda a imensidão das covas de café plantadas em total desalinho, lotando as centenas de bruacas com o bago vermelho colhido a dedo. Maravilhado pela grandeza do vale, o professor Taunay apeia do cavalo e tira um enorme caderno enrolado numa capa de couro que traz junto ao surrão da sela. --- O que estás a fazer, professor? --- Não posso deixar de registrar esta paisagem, Majestade. O bucólico contrapondo-se à vocação do trabalhador. É o motivo que vinha procurando, responde o pintor rabiscando o papel com uma agilidade que impressiona o monarca. A cavaleiro, o Imperador fica pensativo, mirando os olhos azuis para a copa das matas que rodeiam a fazenda. --- Vossa mercê não achas um contra senso, professor? --- O que disseste, Majestade? --- A derrubada de nossas matas para dar lugar à agricultura? --- Mas como haveríamos de fazer dinheiro e também nos alimentar, Majestade? Além do que, a madeira que exportamos é uma excelente fonte de riqueza para contrabalançar nossas importações. --- Como sempre estás com a razão, professor. Mas, diz-me cá. E o seu filho Alfredo? Por que não veio estar conosco? --- É que comprei um novo piano forte a pedido da minha esposa, majestade. O menino encantou-se de tal forma que não mais quer deixar de brincar com as notas. --- Será que a família Taunay nos vai legar um músico, professor? --- A música é apenas uma variante das carícias d’alma, majestade. Mas como meio de vida me parece um tanto aterradora. Pronto. Aqui está, diz o professor mostrando-lhe a gravura. --- Que talento, professor, mas devo confessar que agora devemos voltar. Ainda preciso terminar o discurso que farei na sessão de abertura das Câmaras. --- Ratione officci . Os deveres de um monarca está acima de tudo. O Imperador bate a mão na testa. --- Acaba de me ocorrer uma idéia, professor, e não posso deixar passar. Dá-me cá uma folha e um lápis, sim? --- Aqui está, Majestade. Mas não achas que deveis desmontar? --- Não há necessidade, já está anotado, responde o Monarca rabiscando o papel. --- Então, não queres me ajudar atravessar o Rio Rubicão, professor? Pergunta o Imperador em tom sarcástico ao devolver-lhe o lápis. --- Alea jacta est, Majestade, responde em risos o professor montando o animal, ao que retornam ao paço. Após a ceia das nove da noite, o Imperador despede-se dos filhos e vai para o seu Gabinete, onde fica a escrever no seu diário por mais de uma hora. Fechado o livro, ele entrelaça as mãos por trás da cabeça e encosta o corpo na cadeira de molas, ficando a balançá-lo suavemente enquanto mira um quadro com o retrato de seu pai. O som do piano invade o ambiente e o atrai até a sala de música, distante apenas dois cômodos. A Imperatriz o vê chegar mas não interrompe a modinha que dedilha com habilidade. Estático, ele a acompanha de longe, balançando suavemente a mão, como que regendo a esposa. --- Bravo, minha senhora, diz o Imperador aplaudindo-a com um sorriso em regozijo. --- Não queres tocar um pouco, senhor Dom Pedro? diz a Imperatriz em tom sarcástico, ao que ele assenta ao piano e debulha um lundum choroso, improvisando as partes não bem decoradas com a pressa notória de chegar ao estribilho, a parte que mais o encanta. O piar namoradeiro de um curiango é ouvido ao longe, quando uma outra música invade o espaço, na melancolia chorosa das modinhas em prefácio a mais uma noite serrana. Na manhã seguinte, atrelada a duas parelhas de cavalos negros, a carruagem do Imperador encontra-se estacionada defronte ao palácio da Fazenda Santa Cruz, sentinelada pela guarda de setenta cavaleiros que se mantêm afastados. A Imperatriz e Suas Altezas Imperiais acompanham até a escadaria o Monarca que traz o Príncipe Dom Pedro Afonso ao colo. A Imperatriz Teresa Cristina é quem comanda os filhos. --- Vamos, crianças, é hora de despedir do papá. --- Dois beijinhos no meu príncipe e mais dois nas minhas bonequinhas, diz o Imperador levantando-as uma a uma até o colo e beijando-as demoradamente. --- Cuide bem dos meus pupilos, doutor, e fique de olho para que não comam em demasia, diz o Imperador ao médico Joaquim Cândido Soares Meireles que se curva em sinal de obediência. --- Esperamos que faças uma boa viagem, Majestade. E quanto a Suas Altezas, eu lhe garanto que não darão muito trabalho, responde educadamente o médico ajudando-o a subir no carro. --- Ôôa..., grita o cocheiro pondo a carruagem em movimento enquanto Imperador fica a olhar para o filho que, com a ajuda de uma criada, acena para o pai que corresponde com um beijo jogado pelas mãos. No paço da Câmara dos Deputados, duas fileiras de lanceiros fazem a vigília ao prédio que se mostra com as galerias lotadas de populares. Ao centro do parlatório, sentado ao trono, o Imperador abre a primeira sessão do ano de 1850, saudando com um breve discurso os novos deputados e pedindo apoio para o novo Gabinete que acabara de se formar. O jornalista Arlindo de Castro não tira os olhos da sua caderneta onde anota toda e qualquer fala, chamando a atenção dos que o rodeiam pela rapidez da taquigrafia rabiscada. Findo o discurso do Imperador, o Presidente da Câmara sobe à tribuna e dá inicio à sessão. --- Sua Majestade Imperial, senhores deputados... No começo da tarde, uma carruagem chega às pressas ao paço de São Cristóvão. Frei Pedro está deitado em seu quarto fazendo a sesta do jantar quando batem à porta. --- Frei Pedro, é para o senhor. Veio do paço de Santa Cruz, diz o criado Antônio Joaquim entregando-lhe uma carta. --- Santo Deus, a essa hora? Resmunga o padre levantando-se e indo em direção à janela onde lê a missiva. Em pouco, ele guarda a carta no bolso da batina e entrelaça as mãos, levando-as até a testa calva. --- Peça para o doutor Sigaud ou o doutor Jobim vir aqui imediatamente, diz em ordenança ao criado sem tirar os olhos da janela. Na biblioteca, o Imperador lê um livro sentado em um sofá, quando Frei Pedro e o médico Sigaud adentram ao recinto sem mesmo bater à porta. O Monarca os fita com espanto ao vê-los se aproximar com os olhos em lágrimas. --- Por Deus, o que aconteceu? --- O Criador está querendo testar a nossa fé, Majestade, mas juntos suportaremos mais este fardo, responde-lhe o padre. --- Algum infortúnio com as crianças, mestre? --- O Príncipe Dom Pedro Afonso, Majestade. Deus resolveu chamá-lo para o reino dos céus, diz o padre ao Monarca que se mantêm estático e mudo. --- Ele faleceu esta manhã no paço de Santa Cruz, Majestade, por volta das oito e meia. O doutor Joaquim Meireles fez todo o possível para tira-lo das convulsões, mas de nada adiantou, intervém o médico Sigaud em socorro ao amigo Frei Pedro. Petrificado, o Imperador volta o olhar para o chão e entrelaça as mãos na nuca. Em pouco ele solta um grito contínuo e aterrorizante, misto de berro e grunhido, acudindo a todo o palácio que reverbera num eco de dor nunca dantes ouvido. --- Óh, meu Jesus, porque me abandonaste? Balbucia o Monarca caindo de joelhos como em desmaio, voltando os punhos cerrados para o peito e olhando para o alto, vertendo pelos olhos azuis a água de há muito empoçada na lagoa da alma, das nuvens de um coração inteiramente dilacerado. A notícia se espalha com a velocidade de um boato, avalizada de pronto pelo badalar funéreo dos sinos das igrejas que repicam incessantes por toda a Corte, iniciando de imediato uma trégua em todos os ressentimentos políticos dos inúmeros adversários de plantão. Dois dias após a morte do Príncipe Dom Pedro Afonso, sai o féretro do paço da cidade no dia 12 de janeiro de 1850, com destino ao Convento de Santo Antônio. Estóico, o Imperador bebe o fel, cercado à distância por demonstrações incontestes de apoio e solidariedade, estampadas em grande cópia nas páginas dos jornais que traduziram o fato como sendo uma verdadeira calamidade. Com o passar do tempo, o Imperador mostra-se ainda mais recluso nos seus afazeres, refugiando-se apenas nos livros e nas orações ministradas pelo padre mestre Frei Pedro. Nos ninhos do ano passado já não mais habitam os pássaros, e as flores que povoam os vasos espalhados por sobre as tumbas, agora estão murchas e não mais respondem à rega. Os canhões dos cruzadores da Rainha Victória continuam apontados para cidade do Rio de Janeiro no intuito único de pressionar o governo a por um fim no tráfico de escravos, este efetuado aos olhos dos dois partidos políticos que o enxergavam como sendo uma necessidade social. Mas prorrogar aquela situação vexatória e humilhante causada pelos cruzadores ingleses não era senão sustentar a submissão de uma nação demente, ora refém dos ingleses. O então Ministro da Justiça Eusébio de Queirós adentra ao paço de São Cristóvão e é de pronto conduzido ao gabinete do Imperador. --- Majestade, desculpe o atraso. Estou ao vosso inteiro dispor. --- Vamos sentar, senhor ministro. A propósito, aceitas uma bebida? Pergunta o Monarca servindo-lhe um cálice. Os olhos azuis estão agora mais brilhantes, realçando o vermelho das veias dilatadas pelo excesso da cachaça de Parati. Após o brinde, o ministro Eusébio de Queirós engole a bebida em um único trago. --- Confesso que estou surpreso, Majestade. Não sabia que apreciavas a bebida da nossa terra, ao que o Imperador solta uma gargalhada nunca dantes presenciada. --- Cachaça, senhor ministro, este é o melhor dos vinhos, retruca o monarca servindo-se de mais uma dose. --- Soube que recebeste o Embaixador Saint-Georges. Algum problema com a França? --- Com a Inglaterra, senhor ministro. Não vejo outra alternativa senão acabarmos de vez com o tráfico de escravos. Creio que a permanência dos cruzadores ingleses em nosso porto já atingiu o limite da tolerância. A honra nacional não pode ser ultrajada a tal ponto. --- Isto é verdade, mas sem o braço escravo toda a nossa produção irá por terra. Devemos admitir que esse é um consenso aceito por todos. O Imperador retruca em tom raivoso. --- As monarquias de Europa estão todas abaladas, senhor ministro. Em França, a revolução que derrubou Luiz Felipe já proclamou a República e na Itália, os separatistas até já fizeram uma nova constituição. --- Isto é bem verdade, Majestade. --- E quanto a nós, doutor Eusébio? Será que não podemos ceder a coisa alguma? --- É que a maioria dos nossos políticos estão ligados ao tráfico, Majestade. Bem sabes o quanto ele é lucrativo... --- Não posso aceitar esse argumento, senhor ministro, e por isso conto com a sua ajuda. Deveis convencer os deputados de que a situação em que nos encontramos não é apenas humilhante, mas insustentável. Os números não mentem, doutor Eusébio. Veja aqui: Depois da votação da lei bill Aberdeen que proibia o tráfico, este só vem aumentando de lá para cá. Cinqüenta mil em 1846, depois subiu para 56 mil, chegando a 60 mil há dois anos e a 54 mil no ano passado. Como fugir a esta realidade, senhor ministro? Não vês que hoje já somos uma nação de negros? --- Com certeza isto irá de encontro aos interesses de muitos dos nossos aliados, Majestade, mas vou me empenhar ao máximo para conseguirmos aprovar uma lei..., ah, uma lei que seja... --- Definitiva, doutor Eusébio, uma lei que seja cumprida a que custo for, intervém o monarca sorvendo mais um trago. --- Se espalharmos a notícia que estamos por aprovar a suspensão definitiva do tráfico, os preços dos negros irão subir drasticamente, Majestade. --- Alguém tem que perder, doutor Eusébio. Reconheço vossa habilidade em lidar com esses políticos e por isso resolvi colocá-lo à frente desta empreita que, aliás, deve ser urgentíssima. Outra coisa importante, doutor Eusébio, ninguém deverá saber da nossa conversa. Faça parecer à Câmara que esta é uma necessidade do Império advinda de uma imposição irredutível do governo inglês. --- Verei o que posso fazer, Majestade, mas peço-lhe tempo. --- De forma alguma, senhor ministro. Desejo comemorar o meu aniversário natalício com essa lei aprovada e votada. --- Mas estamos em agosto, Majestade, e dezembro é daqui há quatro meses. --- Napoleão Bonaparte estava perdendo a batalha de Marengo mas a venceu em vinte minutos, senhor ministro. Desejo-lhe um bom trabalho, diz o monarca levantando-se em sinal de despedida. No casarão da Fazenda Cachoeira, Deucleciano está sentado numa cadeira da pequena biblioteca quando a mucama Joana se achega trazendo uma jarra com refresco de caju. --- Feche a porta, Joana, diz Deucleciano levantando-se e sorvendo a iguaria em goles apressados. --- O senadô tá pá chegá, responde a mucama com olhar malicioso ao transpassar o pau de tranca no portal de dois batentes. Deucleciano a abraça por trás e vagarosamente roça as mãos no corpo enrijecido, na carne quente e fogosa, estimulando a recípocra que acontece com o tatear instantâneo na verga avolumada. Súbito, ele enfia a mão entre as coxas torneadas da mucama e toca-lhe a vulva já melosa, provocando-lhe um suspiro abafado e um fechar de olhos. Com o vestido levantado até a cintura, ela apoia o corpo sobre a mesa e mostra-lhe a anca descoberta, receptiva, realçando de imediato o cheiro peculiar do pecado. Arriada as calças, ele esfrega a vara latejante por entre as pernas da mulata que se contorce acudindo ao apelo, bolinando-a lentamente, até que a penetração se faz num vai e vem buliçoso, logo atingindo o clímax e o êxtase, na quadra em que a vagina apertada começa secretar a viscosidade do meio, recebendo a peça escorregadia em toda sua plenitude, afogada na espuma esbranquiçada que brota das entranhas em fogo. Apoiada as mãos sobre a anca que se ondula em redemoinho compassado, ele pressiona o corpo para frente no indicativo do gozo eminente, comprimindo fortemente as genitálias que se beijam na mais ardente apoteose carnal. Ofegantes e com os corpos vendidos ao cansaço, ele se veste e esparrama o corpo sobre o sofá, quando ouvem um barulho vindo do pátio. --- Num falei que o senadô tava chegâno? Diz a mucama abrindo a porta. --- Joana, me espere hoje a noite no seu quarto, está bem? --- Só se o sinhozim me ensiná uma coisa, diz a mucama com ar vexado indo às pressas para a cozinha. Deucleciano vai até o alpendre e recebe o senador que, eufórico, sobe a escada desabotoando o guarda-pó. --- Sua benção, meu pai. Mas, e a minha mãe? --- Pois é, meu fio, a mulé madrinhô co neto e resorveu ficá na cidade mais uns dia. Diz que ia aproveitá amódi confessá os pecado co padi Damião, num sabe? --- E o café, meu pai? Fizeste negócio? --- Acertãmo na bucha, meu fio, nunca vi uns preço tão no jeito. E o dinhêro já tá no banco, e num devemo nada pá ninguém, diz o senador adentrando à morada e fazendo balançar o rabo de um cachorro velho que os espreita do pátio. Na boca da noite, o senador deitado à rede ao fundo do alpendre acende um cigarro puxando prosa com o filho. --- Ocê viu o jorná, meu fio? Viu o que o ministo Eusébio tá quereno fazê? --- Ao que tudo indica, essa lei vai passar, meu pai. Só os fazendeiros e os traficantes é que estão contra. E como político, o senhor deveria aceitar a voz do povo. --- Mais e a coiêta, Deucreciano? Cumé queu vô butá café no saco sem nêgo pa trabaiá, meu fio? --- Já não tens o bastante, meu pai? Além do mais, escravos nascem todos os dias. Aqui mesmo na fazenda, quantos já não nasceu? --- Num fosse o coroné Artino Feitosa mi vendê aquela penca de nêgo, nóis num tinha dado conta da coiêta, meu fio, e ocê é tistimunha, retruca o senador lambendo a palha. --- Mas isso agora não vem ao caso, meu pai. É que os tempos estão mudando e a nossa miséria só vem crescendo, dia a dia, aos olhos de todos e ninguém faz nada, diz Deucleciano fechando o jornal e cruzando as mãos sobre os joelhos. --- Desde que o mundo é mundo, os escravo sempre existiru, meu fio. E num vai sê essa tá de "junta do coice" que vai cabá cos nego do dia pa noite, num sabe? --- Junta do coice, meu pai, mas o que é isso? --- É cumo o povo chama a cambada dos cunservadô, meu fio, aquela laia do ministo Eusébio e os amigo dele, num sabe? A vida intêra eis ganharo dinhêro comprano e vendeno nêgo, e agora vem queça cunversa de acabá ca importação. Eu tô achano queis deve de te muito é muito nêgo estocado nas fazenda e tão quereno é fazê subi os preço amódi enricá. --- Pode ser, meu pai, mas pelo que os jornais estão dizendo, acho que desta vez essa lei vai passar. --- Ninguém mi tira da cabeça que o Imperadô é quem tá por trais disso, num sabe? Mas falano em nego, Deucreciano, e aquele fio do padi Feijó? Será que o bichim vai virá arguma coisa? --- O Frei Ambrózio não fica um mês sem mandar notícias, meu pai. Diz que o menino é muito inteligente e que vai fazer dele um padre. Quem sabe até um advogado. Não era esse o desejo no padre Feijó? --- Amém, meu fio. Mais, e o dinhêro que o padi dexô prêle? Será vai dá pá pagá as conta? --- Ora, meu pai, bem sabes o que são noventa contos de réis. --- Antão tá bão, mais agora eu vô pa cama, num sabe? É só chegá essa hora que as costa cumeça a duê e a gimura , resmunga o senador deixando a rede e indo para o quarto arrastando a alpercata com a mão apoiada na costela. O estrilar dos grilos destaca-se na noite silenciosa. Deucleciano vai até a cozinha e serve-se de uma caneca d'água, assustando-se com um rato que passeia sobre uma manta de toucinho dependurada em um varapau acima do fogão. Ao voltar para a sala, nota que a porta do quarto de Joana se mostra entreaberta, atiçando novamente sua libido. Devagar, ele adentra ao quarto já iluminado por um par de velas que queimam junto a imagem de Nossa Senhora Aparecida, locada em cima de uma mesinha ao canto. Joana está deitada de bruços em meio sono, com o corpo desnudo por inteiro, destacando a curvatura da anca púrpura que se desenha em relevo feiticeiro. Despertada por um leve toque nas costas, ela senta-se na cama e mostra-lhe o par de seios enrijecidos que é de pronto acariciado pelas mãos do amante. --- Você disse que queria aprender alguma coisa, Joana, o que é? Pergunta Deucleciano fazendo-a tocar na sua braguilha. --- O sinhozim num vai achá ruim? --- Não, minha neguinha, pode falar. --- Eu quiria que o sinhozim escrevesse o meu nome amódi eu cupiá, só pa vê cumé que é, diz-lhe a mucama com a voz vexada. --- Ora, Joana, você está louca? Ler e escrever não é para mucamas ou escravas. Mas se é este o teu desejo eu escrevo o teu nome para você copiar, está bem? Mas tome cuidado porque se o meu pai souber poderá castiga-la, responde Deucleciano despindo-se em apressado enquanto a mucama roça os dedos na virilha entreaberta, aguçando ainda mais seu desejo. E persistem numa fornicação demorada e silenciosa, terminada com moleza dos corpos espalhados sobre a cama de colchão de palha. E ali ficam por horas, até que o chirrear soturno de uma coruja em triunfo de caça os desperta. A 4 de setembro de 1850, a lei que propõe o fim do tráfico de escravos é aprovada na Câmara dos Deputados, propalada a posteriori em todos os jornais da Corte e das Províncias mais distantes. Os cruzadores ingleses cumprem o seu objetivo e o Império do Brasil segue seu rumo, mas por longos anos, a prática da importação clandestina de africanos ainda continuaria por toda a costa do vastíssimo continente. Vestida de lobo, a ovelha perde o pêlo mas não larga o vício. Ao final da tarde, um cálice de cachaça Com a morte do Príncipe herdeiro Dom Pedro Afonso, o Imperador passou a dedicar-se pessoalmente à educação das suas filhas, as Princesas Isabel Cristina, agora com aos onze anos, e Leopoldina Teresa, um ano mais nova. No sul, a questão da guerra na bacia do Rio da Prata tem um desfecho favorável ao Império como a queda do caudilho argentino Juan Manoel Rosas que queria a todo custo apossar-se do Uruguai e futuramente do Paraguai para consolidar seu império. Com o apoio decisivo de mais de quatro mil soldados brasileiros, Rosas é derrotado e foge para a inglaterra onde fica exilado até sua morte. Na Corte do Rio de Janeiro, a diplomacia volta-se única e exclusivamente para a organização de um ministério que saciasse ao mesmo tempo gula dos políticos liberais e conservadores, o que na visão de muitos historiadores, certamente foi um fardo bastante pesado para o Imperador Pedro de Alcântara que, mesmo a despeito dos inúmeros afazeres impostos por uma agenda mais que assoberbada, nunca se furtou em cumprir o mais sagrado de todos os atos quando, por ocasião da Semana Santa, lá está ele repetindo o gesto do Cristo a lavar os pés dos miseráveis na Capela Imperial ou fardado de Almirante quando encabeça as procissões de Corpus Christi onde faz questão de amparar o andor com a imagem do Altíssimo, estóico e resignado, sempre. Mesmo com a morte roubando-lhe os preferidos, nunca cedeu ao esmorecimento ou aos amavios da preguiça, encarregando-se pessoalmente de ministrar às filhas as aulas de latim, matemática e física, além de reservar uma hora por dia para as leituras dos preferidos, João de Barros e Luís de Camões, o que fazia religiosamente com as duas filhas. Contava também com o auxílio do professor Joaquim Manoel de Macedo que ensinava-lhes história e do Visconde de Sapucaí a ministrar-lhes as aulas de inglês e alemão, além de Guilherme de Capanema que lhes dava as primeiras noções de geologia e mineralogia. A caminho da Corte do Rio de Janeiro, em meados de 1856, se encontra a Dona Luísa Margarida, a Condessa do Barral, contratada por correspondência para ser a preceptora e educadora das filhas do Imperador, o mesmo cargo que ocupou Dona Mariana de Verna quando o monarca e suas irmãs ainda eram crianças, por ocasião da abdicação ao trono do Imperador Dom Pedro I. A Condessa ocupará os mesmos aposentos de Dona Mariana de Verna, falecida de há pouco, vitimada pela ignorada epidemia de cólera-morbus que dizimou grande parte da cidade. Uma das cláusulas do contrato é que ela teria entrada privativa em seus aposentos, além de uma autoridade diferenciada do demais criados. Ao final da tarde, as Princesas estão a brincar à sombra das mangueiras do paço da Boa Vista na companhia dos filhos do professor Félix Taunay. O Imperador e seu mestre predileto fazem uma pequena caminhada enquanto observam as crianças a meia distância. --- Sabe, professor, a maior lembrança que guardo da infância é aquele quadro que pintaste por ocasião dos meus cinco anos, lembras? --- Aquele do tambor? Mas é claro que me lembro. E devo confessar-vos que me deste muito trabalho para termina-lo. Não foi fácil mantê-lo por horas a fio na mesma posição. --- E como o senhor conseguiu? --- Contava histórias, Majestade. Este é o segredo. Distrai a alma e enleva o espírito. --- Bravo, meu amigo, bravíssimo, retruca o Imperador mirando os céus. --- A propósito. Gostei muito da atitude de Vossa Majestade ter patrocinado os estudos do pintor Pedro Américo em Roma. Vocação é o que não lhe falta. --- É verdade, professor, embora essa pensão me custe mais de 400 francos, com certeza ela me dará um bom retorno. --- É o que eu sempre digo: fomentar as artes é antes de tudo um dever de todo monarca. Mas, e o Gonçalves Dias, Majestade, ele tem feito algum progresso nas Cortes de Europa? --- Não só ele, mas também o Francisco Adolfo Varnhagen, professor. Eles estão a recolher documentos para escrevermos a Grande História do Brasil. O que achais? --- Ótima idéia, e ainda mais com vossas augustas sugestões. Creio que este projeto será de grande importância para o império, pois afinal, sabemos pouco sobre nós mesmos, retruca o mestre Félix Taunay contemplando o espaço. --- É que uma nação sem passado é como um país doente. Se os gregos e os romanos escreveram a sua, por que não haveríamos de escrevermos a nossa? --- Tendes razão, Majestade. Os feitos de um povo devem ser registrados por ele próprio, ao contrário do que sabemos sobre a história dos judeus. --- Não compreendi, professor? --- Observe que eles sempre propalaram que Deus foi o seu único governante e historiador ao mesmo tempo, mas mesmo assim, o Livro dos Reis, por exemplo, é recheado de contradições, tanto nos fatos como na cronologia. E não é por mera coincidência que a maioria dos povos não aceitam o regime Teocrático como forma de governo. --- Conversar com o senhor sempre foi mais que um privilégio, professor. Mas mudando um pouco de assunto, será que as pequeninas vão gostar da Condessa? --- Certamente, Majestade, a Condessa de Barral tem todos os predicados que uma preceptora requer para o cargo. E o mais importante. É brasileira, foi educada em Paris e serviu como dama de honra para muitas Princesas e em vários palácios. Não obstante, a sua indicação partiu da Princesa de Joinville, vossa augusta irmã, que tem na Condessa uma grande amizade. Se me permite, não vejo escolha melhor para a educação das princesas. --- Ó, meu amigo, não sei o que seria de mim sem os teus conselhos, mas, ouve cá. O pai da Condessa queria que ela se casasse com o Marquês de Abrantes, por ele ser muito íntimo da família. Mas ao que se sabe, ela bateu com os pés e conseguiu desposar seu verdadeiro amor, o conde do Barral, assim disse minha irmã. --- Uma mulher de opinião, Majestade, coisa muito rara. --- Mas também marcada pela fatalidade, professor. --- Não me diga. --- Ela perdeu toda a família, professor, o marido, o sogro, o pai de quem era muito próxima, e por fim o seu único filho. Agora está sozinha e sem ninguém para cuidar de seu patrimônio que soma uma parte no Brasil e outra em França. --- Mas com vencimentos de 12.000 francos anuais e a pensão vitalícia a que ela terá direito após a educação das Princesas, certamente ela não morrerá à míngua. --- Mas o que me preocupa é outra coisa, professor. Será que ainda lhe resta energia para se adaptar à vida da Corte, à rotina do paço? --- Ela ainda esta no vigor dos anos, Majestade, e além do mais as Princesas já estão crescidas o bastante para não dar muito trabalho. Tenho certeza de que logo elas se tornarão amigas e que as Princesas estarão educadas a altura de qualquer Corte de Europa. --- Que bom ouvi-lo, professor. Como dizia Dona Mariana, devemos dar tempo ao tempo. Mas, e quanto ao seu filho, o Alfredo. Por acaso ele já demonstrou aptidão para alguma carreira? --- Ainda é um pouco cedo, mas ele vive a conversar com o doutor Jobim sobre a medicina. Espero que o nosso bom amigo não o influencie o bastante. --- Tendes razão, professor, a vida de um médico é um sacerdócio. Mas a propósito, meu caro, o senhor não quer me acompanhar num cálice de Parati? Pergunta o monarca em sorriso discreto. --- Com prazer, Majestade, mas desta vez sem muito exagero, reponde em risos o professor Taunay acompanhando o Imperador que aperta o passo rumo à escadaria do palácio. Prévias de um nefasto matrimônio Adentramos o cemitério da vila de Quixeramobim. Ao canto da extremidade esquerda, uma moita de capim viçoso destaca-se acima de uma cova coberta de pedras, já impregnadas do líquen ferruginoso do esquecimento. Nenhuma cruz, nenhuma inscrição, apenas uma maçaroca raivosa de pequenos arbustos entrelaçados indicando uma sepultura onde repousa o vendeiro Vicente Mendes Maciel, falecido em 5 de abril 1855, vitimado pela barriga d'água. Se os crentes proclamam a vida eterna, os bêbados antecipam o paraíso. Morreu aos gritos, blasfemando, gemendo madrugada adentro, ladeado por testemunhas que não lhe deram por falta. Viúvo por duas vezes, deixou como herança apenas a vaga lembrança dos seus últimos anos de um fanfarrão decaído e miserável, além de uma dívida bem acima de suas posses, esta, contraída no bote fatídico da eterna jogatina. O filho mais velho é quem assume o fio de bigode do pai, trazido como documento pelos credores do jogo. Em pouco, o primogênito dos Maciéis livra-se do fardo de cuidar das três irmãs mais novas, Maria, Francisca e a caçula Rufina, que se casam e deixam a vila, o que ocorre ao cabo de dois anos. A 7 de janeiro de 1857, diante do espelho, Antônio Vicente Mendes Maciel passa a navalha no rosto ensaboado que aos poucos vai se mostrando mais limpo e definido, realçando o queixo pontiagudo e um nariz levemente aduncado, plantados na face volumosa e envernizada que abriga dois olhos inexpressivos, além das marcas peculiares dos que provam a rudeza do meio, agora mais destacadas pelo auxilio da tosa raramente praticada. A roupa nova, engomada na paciência do ferro em brasa e as alpercatas de couro, engraxadas com o sebo da gordura do boi, caem-lhe como uma luva folgada, adornando-o para a cerimônia mais sagrada dos sertanejos, o casamento. --- Anda logo, Antôim, num tá veno que o sino já ta tocano? Diz a madrinha Maria das Dores achegando-se à porta do quarto do afilhado que viu nascer e crescer. --- Já to prontim, madinha, responde o noivo jubiloso na vestimenta de festa. --- Benza Deus, meu fio. Que pena que a cumadi Maria Chana num tá qui amódi ti vê, retruca a parteira Maria das Dores juntando as mãos em contentamento de mãe. A maioria dos casamentos se dá por ocasião dos festejos religiosos onde muitos padres, vindos do Crato ou de outros vilarejos maiores, percorrem o interior para sacramentar as dúzias de amasiados e alguns poucos compromissados que ainda não tem vida em comum. Para todos os viventes, o juramento de fidelidade e a benção do vigário eram como um pacto com Deus, sendo raro não se punir o adultério com a pena de morte habitual: o cutelo da peixeira ou uma carga de chumbo, esta geralmente emergida no bote de uma tocaia. Brasilina Laurentina de Lima está em dia de glória. Sentada ao lado do futuro marido, ela traz à cabeça um laço de fita amarela enquanto segura um pequeno ramalhete de flores que se confunde com o colorido do vestido, provavelmente a peça mais valiosa de um mísero enxoval. A cerimônia se faz com o vigário José Jacinto Bezerra, novato no ofício, que passando pelos noivos abençoa-os individualmente, chamando-os pelo nome e terminando o feito com uma borrifada de água benta sobre as mãos sobrepostas e as cabeças abaixadas. --- Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e que Deus abençoe este matrimônio, diz o vigário com os braços abertos voltados para o céu, finalizando o sacramento coletivo. Em Quixeramobim também é noite de festa e quadrilha, com barracas ao largo da capela, onde, o baião, responsável pela poeira que se levanta do chão batido com as alpercatas socando a terra ao compasso das violas chorosas, no repicar do couro das zabumbas, dos pandeiros, temperando em modo único a forma mais antiga de se expor como dote. A música, mais que um pensamento, ensaboa-lhes a alma. A carne de sol, cozida, sapecada ou feita em paçoca, e a cachaça, estímulo de bravatas, são consumidas na praxe costumeira, aperitivo não raro de gandáias desmedidas, mas que raleia conforme o avançar da escuridão da noite. Tenebrosa, sempre. Após despedirem-se dos parentes, os noivos Antônio Vicente e Brasilina se recolhem para a venda que ora passa a ser o lar da nova família. --- Vigi Maria, Antôim, meus pé tá doeno de tanto dançá, num sabe? murmura a mulher tirando as sandálias e pisando com os pés descalços o chão batido do novo quarto. --- Ô minha santa, cumo ocê tá bunita, diz Antônio Vicente abraçando a noiva de metro e meio que corresponde ao carinho, roçando-lhe levemente as costas. --- Vem, Antôim, vamo pra cama que agora nóis é um do ôto, e com a bença de Deus, responde a mulher desabotoando o vestido em apressado e despindo-se por completo no lusco fusco da candeia. Deitados, eles tateiam-se em carinho de reconhecimento, tocando em simultâneo as genitálias meladas pelo desejo dos anos. --- Vem, meu amô, mi fais tua mulé, faiz? diz Brasilina puxando-lhe a verga em direção às pernas abertas para o coito planejado em noites incontáveis. Deitado sobre o corpo diminuto da esposa, aos poucos a vara eriçada alcança o alvo e a penetração se faz por completo na vagina viscosa e dilatada, caindo por terra a percepção de dificuldade que ele ouvira falar em conversas reservadas com os amigos mais velhos. Em compasso de serrote e auxiliado pelas mãos da parceira que comprime a magreza de suas nádegas, a ejaculação se dá em poucos segundos, causando-lhe uma sensação nunca dantes experimentada. --- Já cabô, Antôim? Diz a mulher sentindo aumentar o peso do marido que se estende sobre o seu corpo. --- É, responde o marido desmontando-se do corcoveio de meio minuto. --- Vamo de novo, Antôim? diz a mulher em tom de malícia, remexendo os joelhos na intenção de saciar o desejo insatisfeito. --- Tô cansado, num sabe? Agora vamo drumi que amanhã nóis tem muito sirviço, minha santa, responde Antônio Vicente em bocejo de sono enquanto ela o abraça na obediência secular das fêmeas. O despertar na vila ocorre ao sinal dos galos que preludiam a aurora refrescante. Em todos os lares, as mulheres tomam o seu posto para a primeira tarefa do dia, com o acender dos fogões diminutos e chamuscados de picumãs encardidos, que logo enfumaçam o tosco ambiente com a fervura de algum dejejum improvisado. Antônio Vicente abre as portas da venda e depara-se com um homem estirado junto ao degrau, feito um cadáver jazendo ao chão poento e com a boca entreaberta, respirando na sororoca provocada pelo rosto colado a uma poça de vômito. --- Santo Deus, murmura tentando acordá-lo, chacoalhando os braços gelados do moribundo que, aos poucos, abre os olhos chamuscados de ramela. Repentinamente, o homem ergue a carcaça fedorenta mas é de logo traído pelo rodopio peculiar dos bêbados e dos anêmicos, voltando ao chão em queda livre feito um saco vazio. Antônio Vicente relembra a figura do pai que tantas vezes acudiu em semelhante estado, corrompido integralmente pelo conto da cachaça. --- Oxênti, péra aí queu vô buscá um poco d'água, diz ao infeliz que tenta em vão se reerguer. Em pouco, Antônio Vicente se ajoelha e segura o homem pela nuca, levantando-o em devagar e servindo-lhe a caneca bendita, ao que o homem a sorve até a metade com a avidez dos porcos. De pé, ele escora o corpo ainda vacilante no portal da venda e respira com dificuldade. --- Que Deus que abençoa o sinhô. --- Come, isso vai ajudá a miorá, diz Antônio Vicente presenteando-o com um pedaço de rapadura que é de pronto devorado. --- Tá veno? Agora bebe mais um poco d'água que a zunzura vai imbora, num sabe? diz com a voz terna e serena ao molambo que vira pela primeira vez. --- Gardicido, meu sinhô, responde o homem devolvendo-lhe a caneca e fazendo o sinal da cruz ao ver a imagem da Virgem locada ao alto da parede. --- Dondé cocê veio, criatura? --- Das terra do coroné Inocêncio, meu sinhô. Já fais mai de ano que eu panhei sirviço cuêli. --- Mais é munto longe, hômi de Deus. Vei de pé? --- Na tuada batida deu pa fazê em dois dia e um pôso, meu sinhô. Antônio Vicente adentra a venda e em pouco retorna com um pequeno embrulho. --- Tama, e agora vai na pais de Deus, diz entregando-lhe um quinhão de rapadura. --- Lovado seja Nosso Sinhô, diz o homem se despedindo e ganhando a ruazinha poenta rumo a estrada do Riacho da Palha. Antônio Vicente vai até a cozinha e flagra a mulher no fogão em vigília a uma panela fervente que exala o cheiro da carne de sol. --- Mais loguim nóis já tem paçoca, Antôim, diz a mulher sorridente raspando a sola do pé direito no calcanhar esquerdo. --- Ô, minha santa, já vi cocê leva jeito pa fazê os cumê, Retruca o marido jubiloso abraçando por detrás o corpinho enrijecido da esposa em carinho nunca dantes ousado, correspondido em repentino com uma fisgada na braguilha desprovida de botões. --- Fecha a venda e vão pa cama, Antôim, decerto num vem ninguém hora dessa, diz a mulher levantando o vestido e roçando-lhe a verga com as nádegas desnudas na intenção de parir o gozo encubado. --- Num carece, mulé, mais vão ligêro que loguim pó chega gente, num sabe? Na cama, com meia calça arriada, ele sobe no corpinho despido à meia cintura e o cobre na ligereza dos bois, ejaculando após uma breve gangorra de três ou quatro investidas, não tardando a galgar seu posto no balcão, tirando o mel da boca da companheira antes mesmo que ela sentisse o prazer de morder o favo. E assim seguiram-se os dias na mesmice dos meses demorosos, na quadra infinita do choco das quentura e do encarangamento nas friage, desprovidos de qualquer novidade além da labuta rotineira dos afazeres da casa e o martelar incessante da mãe de Brasilina, Francisca Maciel, a perturbar-lhe a calma. Não raro foram vistos em pé de briga com a velha ameaçando tirar-lhe a filha com escândalos injustificáveis, alicerçados talvez na esquizofrenia atávica das sogras ou nas taras hereditárias provindas de excessivos cruzamentos com parentes próximos. Rompido o dezembro, numa boca de tarde e em meio ao sol escaldante que se abate sobre a vila, o barulho de uma carroça puxada a quatro mulas desperta, em soslaio, a maioria das almas que se atocaiam na alcova dos casebres, colocando-as em pouco, debruçadas em meia janela para o deguste da bisbilhotice contagiosa. Seguido por olhares agoureiros, o enorme carroção atravessa a praça e para defronte a venda do falecido Vicente Maciel onde, um homem magro e baixo o aguarda ombrado ao portal. --- Lovado seja Nosso Sinhô Jesuis Cristo, seu Jógi. Já faz tempim que nóis tava esperano o sinhô, diz Antônio Vicente recebendo o amigo que agora mostra-se bem mais velho, realçando a barbicha grisalha e o encarquilho da papada emagrecida. --- A seniór num vai abri a portão pa nóis da de bebê pas mulínia? Aos risos, Antônio Vicente corre até o quintal onde abriga o carroção de quatro rodas, desatrelando as duas parelhas que logo se fartam da água servida em abundância. E trocam prosa. --- Nóis achô que seu Jógi num vinha mais, que tinha mudado pa capitá. --- As negócio biorô muito dispois da seca, sô Bicente, e muita gente, ó, sumiu da sertão. Mas, e a seniór, é berdade que arrumô maié bra casá? --- É, seu Jógi, e já fais quáge um ano, retruca Antônio Vicente coçando a cabeça em sinal de trunfo. --- Já tem criancínea, sô Bicente? --- Inda não. Mais num intera duas lua e o rebento vem no mundo, num sabe? --- E a bendínea? --- Cumo Deus qué, seu Jógi, mais num tá vendeno cumo naqueis tempo. E o difíci é paga as conta que o pai dexô, num sabe? --- Eu num falei bra seniór que o povo tá secãno? A dinherínea sumiu, sô Bicente. Pra tudo lugá que a gente bai, só se fala na caristínea. Ah, eu truxi um bresente bra seniór, diz o mascate tirando da boléia um maço de jornais empoeirados. --- Brigado, seu Jógi, bem queu tava quereno sabê cumé que anda o mundo, responde Antônio Vicente maravilhado com alguns exemplares do Diário de Pernambuco. --- Brá onde nóis passa nóis junta as jorná. O sô Bicente num gosta de oiá as figurínea? --- Vamo entrá, seu Jógi, o sinhô deve de tá cum fome. A mulé fez paçoca inda onti, diz Antônio Vicente acompanhando o mascate para dentro da venda. Brasilina está sentada num banco ao canto do balcão enquanto remenda uma colcha feita em retalhos, no choco notório de uma gravidez em fim de curso. --- Ô, mulé, óia quem chegô? --- Bastarde, dona, diz o mascate tirando o chapéu e franzindo o rosto ao notar a venda desfalcada dos produtos mais elementares. --- Tarde, responde a mulher em sorriso desgracioso. --- É, sô Bicente, se a seniór num tem mercadorínia pra bendê, é malhór fechá as borta, diz o mascate coçando a cabeça. --- Só Deus sabe o qui nóis vem passano, seu Jógi. Num fosse arguma ajuda dos parente da muié, sei não... --- E as baquínea da babai? --- O dinhêro que nóis feiz vendeno o gado já foi embora, seu Jógi, e tudo pa pagá as conta que o pai fez no jogo, num sabe? Mais se o amigo pudé ajudá num prazim de ano, nóis até que pudia niguciá, diz Antônio Vicente com as mãos entrelaçadas e com a cabeça abaixada, engolindo a saliva merejada na vergonha e no afã de explicar a falência recebida como herança. O mascate leva a mão ao rosto e lentamente coça a barbicha esbranquiçada em adorno ao pensamento. Súbito, ele espalma para o alto em sinal de boa nova. --- Sô Bicente, vóis micê é um hômi dereito e nóis bai fazê negócio, exclama o mascate em socorro a sua única esperança. --- Ta veno, mulé, eu num falei que a Virgi ia atendê as nossa prece? Foi ela que mandô o seu Jógi, Retruca Antônio Vicente com a voz tremulante, contemplando o quadro da santa que o fiscaliza com olhar benevolente. Ao final da tarde a venda já está de cara nova, com alguns mantimentos expostos em sacos abertos e o balcão repleto de lingotes de rapadura, uma saca de sal, mantas de carne seca, alguns fardos de pano e latas de munição, além de um corote volumoso abarrotado de cachaça, certamente a mercadoria mais procurada no pequeno vilarejo. Por quase duas semanas, Antônio Vicente aproveita a solidão da noite e se debruça sobre as caricaturas e os desenhos estampados nas manchetes do Diário do Recife. A mesma roda dos poucos amigos que se abeirava junto ao ancião Januário Golveia para ouvir os causos do sertão agora mudara de ponto, indo vez ou outra até a venda para se inteirar dos acontecimentos da Corte de São Sebastião do Rio de Janeiro. Certa feita, um boato mal compreendido serviu de pretexto para uma malta de meia dúzia se juntar defronte ao balcão da venda, ansiosa pelos esclarecimentos do único letrado naquele antro esquecido por Deus. É lhes servido a marvada pinga. --- Ô, sô Antôim, o Remundo me contô que o sinhô falô que lá na capitá fizero uma carroça que nem carece de burro a módi puxá, qué só acendê um botim de lenha quéla sai andano pu riba dum risco de ferro? indaga um matuto cortando um fumo de corda acotovelado no balcão. --- A pois antão óia aqui, hômi de poca fé, retruca Antônio Vicente mostrando-lhe a manchete com o desenho de uma locomotiva a vapor por ocasião da inauguração da primeira estrada de ferro no Rio de Janeiro. Todos se apertam para olhar o desenho daquela coisa escura e comprida, alicerçada sobre grossas rodas de ferro que se interligam por enormes mancais e que solta um tufo de fumaça pela nuca enquanto puxa três vagões que deslizam sobre duas linhas paralelas. Ao canto do desenho está o Imperador cercado por dúzias de políticos em traje de gala, todos dando vivas ao mais novo empreendimento do empresário Irineu Evangelista de Souza, agraciado pelo Monarca com o título de Barão de Mauá. Em golpe de esponja seca, o negro Custódio sorve um gole da cachaça e intervém na prosa formigueira. --- Esse hômi barbudo qué o Imperadô, Tôim Vicente? --- Barbudo como Nosso Sinhô Jesuis Cristo, pruque a barba é a mostra de vergonha na cara, num sabe? É esse memo, Custódio, o Dão Pedo Segundo, o memo que tá desenhado nos dinhêro e nas pataca, diz apontando o Monarca com a ponta do dedo. --- Ô, Antôim, num é certo que o Dão Pêdo tercêro já virô finado? --- É, e já faiz mais de sete ano, num sabe? Ele era o fio hômi do Imperadô mai Deus carregô ele mai cedo. Mais um ôto Pêdo tercêro inda tá pa nascê, sô Custódio, responde confiante o vendeiro magricela diante da turba hipnotizada. --- E os iscravo, sô Antôim, num é certo que o Imperadô mandô sortá tudo os nêgo que vevi nas cangáia mais os coroné num quiséro obedecê as órdi? --- Não, sô Custódio, num foi bem assim. Mai disque que daqui pa frente é impuribido comprá os infiliz que vem das água dôto mundo, num sabe? Uma última caneca de cachaça é passada lentamente de mão em mão e tragada de boca em boca, enquanto a palestra segue o fio da noite. Um bocejo rosnado de sono realça a dentição apodrecida do vendeiro Antônio Vicente, soando como uma despedida aos matutos que retornam para suas taperas. Nos céus, nenhum indício de nuvem ou de barra chuvosa, apenas o vento que sibila no recontro das copas mais altas e o realce dos pirilampos estelares que brotam das constelações majestosas, adorno único na imensidão do firmamento. Na Corte, um novo ponto de encontro A paisagem urbana do centro da capital do país mostra-se cada vez mais apinhada de cortiços e mocambos que se copiam pelo arrabalde, povoada por negros e mestiços de cepas diversas, presentes numa proporção superior a três quartos de uma população ora estimada em 150 mil almas, espalhadas pelas Províncias do Rio de Janeiro. Os tílburis, os bondes de tração animal, apelidados de gôndolas, transitam pelas vielas em desalinho que rodeiam o Paço de Santana, enquanto que algumas poucas estradas de ferro até o interior já são uma realidade. A Rua do Ouvidor se transformou, em tempo curto, no ponto comercial mais movimentado da capital, com suntuosos bazares que expõem nas vitrines os mais variados artigos da Inglaterra, França e também dos Estados Unidos. À noite, a exemplo da mirabolante Paris, a iluminação a gás trazida pelo empresário Irineu Evangelista de Souza dá um toque de modernidade à cidade infestada de ratos, imundície e fezes a céu aberto espalhadas por sobre as ruas descalçadas, mudando os hábitos da casta contentada que desfrutam dos palacetes cada vez mais afastados do centro nervoso comercial, transformando-se numa grande passarela onde as senhoras desfilam a bordo das liteiras embutidas longos vestidos coloridos, nos passeios quase que obrigatórios pelas lojas mais chiques. Ao final da tarde, faz-se necessário marcar presença na Confeitaria Coimbra, uma das mais freqüentadas pela Corte, certamente pelas guloseimas compostas de doces multicores expostos num longo balcão de vidro e das mesas redondas cobertas com toalhas de fino bordado. E todas são ocupadas pelas mulheres da diminuta casta que lá fazem o ponto para o chá das quatro. O badalar das cinco soa como um toque de recolher para as senhoras que, na sua grande maioria, se retiram da confeitaria que agora passa a ser ocupada até altas horas pelos homens e também por algumas raparigas. E todos se deleitam com um pianista da terra a dedilhar mazurcas e lunduns para o grande número de boêmios, que, aos poucos, infestam o ambiente com a fumaça dos charutos importados. Numa mesa ao canto, o senador Cavalcanti e o filho Deucleciano estão sentados a degustar a novidade que nos últimos anos virou moda nos saraus e nas festas da elite: o sorvete. Em cata ao testemunho do preparar a guloseima, muitos curiosos se debruçam no balcão para ver a habilidade com que um funcionário raspa um bloco de gelo para depois derramar sobre o bolinho de neve uma porção de uma calda adocicada e colorida. --- Mas esse hômi num vêm, meu fio? Pergunta o senador tirando o relógio do colete enquanto o garçom serve duas taças da iguaria. --- Marcamos para às cinco e meia, meu pai. Ele já deve estar chegando. --- Mas me diga, Deucleciano, ele é gente conhecida? --- Ah, claro que sim. O pai dele era um comerciante muito próspero em São Salvador, assim eu soube. Dizem que era o proprietário de um grande navio que trazia escravos da África para o Brasil. --- Conheci muita gente da Bahia que e fez fortuna comprano e vendeno nego, num sabe? --- Mas depois daquela lei do senador Eusébio de Queirós, diz ele que os negócios pioraram e o velho foi a bancarrota. E logo depois veio a falecer numa das viagens que fazia a Lisboa. --- Num me diga, meu fio. Qué dizê quêsse homi ficô órfo e cos burro n'água? --- A mãe se casou de novo, mas ele e um outro irmão não se deram bem com o padrasto e resolveram tentar a vida aqui na capital. --- Sei não, meu fio. Confiá as conta dessa fazenda cocê comprô lá no Cantagalo a um desconhecido não é boa bisca, num sabe? --- Ora, meu pai, ele já presta serviço a muitos fazendeiros da região e todos dizem que ele é um ótimo guarda-livros*. Hoje em dia não se pode mais pensar numa fazenda de café sem que ela esteja com as contas devidamente alinhadas. --- Nesses causo eu te dô razão, meu fio. --- E sabe quem o indicou, meu pai? O coronel Custódio Mendonça e os Teixeira de Carvalho, retruca Deucleciano quando um homem baixo e rechonchudo se achega sorridente. --- Doutor Deucleciano, desculpe a demora, diz o homem cumprimentando-o. --- Também acabamos de chegar. Mas deixe-me apresentá-lo ao meu pai. Este é o guarda-livros de que lhe falei, o senhor Manuel Rodrigues Pimenta da Cunha. --- Muito prazer, senador Cavalcanti. Já ouvi falar muito do senhor e também da sua família. --- Mais num me diga, hômi de Deus, num é que é a cara do pai, diz o senador com ar de perplexidade, apertando-lhe a mão como se já o conhecesse. --- Desculpe-me, senador, mas o senhor o conheceu? --- O seu Mané da Cunha, o dono do ''Pestana''? --- Isso mesmo, senador, esse era o nome do nosso navio. Mas confesso que estou surpreso, retruca o homem mostrando-se bem mais à vontade. --- Mas vamo sentá. O sinhô num qué isprimentá um sorovete? --- Obrigado, senador, acabei de fazer uma refeição, reponde educadamente o vindouro atinando a curiosidade de Deucleciano. --- Por essa eu não esperava, meu pai. Quer dizer que o senhor conheceu o pai dele? Nunca me contaste nada sobre as tuas andanças na Bahia. --- Foi no Recife, meu fio. Nossa famía negociô muitos ano com o finado pai dele, num sabe? Um hômi muito direito que nunca fartô com a palavra, retruca o senador batendo-lhe no ombro e deixando os dois ainda mais surpresos. --- Meu pai sempre mantinha negócios com os senhores de engenho de Pernambuco e também falava muito nos Cavalcantis. Mas jamais imaginei que pudesse encontrar na capital alguém que o conhecesse. --- A pois então lhe conto. As mió leva de nego que a nossa famía tinha foi tudo o seu finado pai que arranjô, num sabe? O hômi tinha o tino pa escoiê os bão de lida. Nunca vendeu coisa ruim pa ninguém. --- É verdade, senador, mas isso foi há muitos anos. Agora os tempos são outros e as coisas mudaram. --- Mudaro pá pió. Tá cheio de nego que vévi fugino do sirviço e danãno enveredá pa cachaça, num sabe? Mais mudano de assunto, meu fio tava me dizeno que o sinhô mais seu irimão viéro da Bahia amódi fazê parage nessas banda? --- É verdade, senador, o futuro está aqui na capital e também neste Vale do Paraíba do Sul. Nunca imaginei ver tanto café e tanta riqueza. E pelo visto, este ano vamos dobrar nossas exportações. --- O sinhô tem razão, num sabe? Di primêro foi os engenho de cana, lá no meu Pernambuco, e agora, o café é que virô o ôro do Brasí... Mas o amigo vai ficá mais uns dia na cidade? --- Não, não, senador, só vim para tratar de negócios com o doutor Deucleciano e também aproveitar a viagem para visitar o meu irmão Antônio. Logo devo subir a serra e voltar ao serviço. Tenho muitas fazendas pra cuidar, senador, e haja tempo pra correr todas elas, responde Manoel da Cunha entrelaçando as mãos. --- Meu fio, os Cunha é gente de confiança. --- Já me decidi, meu caro Manoel. Vou confiar-te as contas da minha fazenda no Cantagalo. O que achas? --- Será um prazer trabalhar com o senhor, doutor Deucleciano. E quanto ao livro caixa, vossa mercê pode ficar sossegado que eu não deixo passar nada em branco. Tudo que entrar ou sair será devidamente registrado. --- Negócio fechado, senhor Manuel. Amanhã mesmo nós acertaremos os seus vencimentos. Não queres jantar conosco? Assim poderemos conversar com mais calma! --- Será um prazer, doutor Deucleciano. Então, se me dão licença, até amanhã senador, diz o guarda-livros despedindo-se com ar de puro contentamento. --- Gostei do jeito desse hômi, num sabe, meu fio? Se o pinto puxá o galo ocê tá bem sirvido. --- É verdade, meu pai, diz-me com quem andas que te direi quem és, fala Deucleciano em tom malicioso olhando para a porta. --- Uai, meu fio, agora deu pa fazê verso? Pergunta o senador tentando com os olhos pescar a deixa. --- Lá, meu pai, bem ali naquela mesa da entrada. Está vendo? diz Deucleciano apontando discretamente. --- Aqueis dois hômi de ócru po riba da cara? --- O da esquerda é o jornalista Arlindo de Castro, meu pai, do Jornal do Comércio. --- É ele memo. Mais o qué que tem de mais o jornalêro querê isprimentá o tal sorovête? Inté eu tô gostano dessa friage. --- Não é isso, meu pai, o homem que está com ele é o Torquato Lepera, do Correio da Tarde. Ao que eu saiba, até há bem pouco os dois eram inimigos mas agora estão de prosa. Alguma coisa deve estar acontecendo, diz Deucleciano chamando o garçom com um estalar de dedos. --- Vai vê quêce cabôco do Jorná do Cumérçu levô um pé na bunda e tá pidino sirviço po ôto, num sabe? Ele vévi iscreveno mintira do nosso partido amódi puxa o saco do Imperadô, retruca o senador enquanto o garçom se achega. --- Por favor, nos traga um cálice do Porto, sim? O senador olha para o relógio da parede e se levanta. --- Pois é, meu fio, chegô minha hora, num sabe? Eu já vô ino pruquê eu num posso ficá sem janta, e as mulé já deve de tá cramãno. Até mais ver, seu Manoel, diz o senador retirando-se. --- Está bem, meu pai, eu vou logo em seguida. Primeiro eu vou conversar um pouco com o senhor Manoel e depois quero dar uma espiada naqueles dois. --- Antão num demora, Deucreciano, diz o senador retirando-se e sendo acompanhado por vários olhares, na sua grande maioria, adversários da política dos liberais. Após um dedo de prosa com seu novo empregado, Deucleciano se despede e se achega até a mesa dos jornalistas. --- Senhores? --- Ora, doutor Deucleciano, mas que surpresa. Vamos sentar, diz o jornalista Torquato Lepera levantando-se e tentando em vão prender os óculos que a toda hora escorregam do nariz descarnado. --- Seu Arlindo, como tens passado? --- Como Deus quer, doutor. Mas, me diga, o senador não tem aparecido nas sessões do senado. Algum problema com o Gabinete do Abaeté? --- Não, não, é que durante a colheita ele não deixa a fazenda por nada, seu Arlindo. Mas, e então, por acaso os senhores estão a fundar um novo Jornal? --- Quem me dera, doutor. É que o Imperador vai visitar as Províncias do Norte no final do ano e eu fui o escolhido para fazer a cobertura da viagem. Devo mandar a correspondência pro nosso jornal também pro Arlindo, responde Torquato sorvendo um gole de cachaça. --- Mas então o senhor deixou o Correio da Tarde? --- Não necessariamente, doutor. É que os donos resolveram mandar apenas um jornalista e dividir as despesas. Afinal é uma cobertura de rotina, retruca Torquato Lepera levando o dedo aos óculos. --- Pensando bem, eles tem razão. Mas me digam, alguma novidade no governo? Pergunta Deucleciano. --- E como. Essa política do Sales Torres Homem está fazendo muitos inimigos, doutor, principalmente os adeptos aos projetos financeiros do Souza Franco. E o mais interessante nisto tudo é que o Imperador está apoiando o Sales. Acho que é isto que está causando ciúmes. --- Neste ponto eu também concordo com o Imperador. O peso maior da administração está no alto custo do funcionalismo e também da Santa Sé. E olha que isto já vem de longe, meus caros, retruca Deucleciano sorvendo o vinho. --- O que me intriga é que o Imperador, mesmo sabendo que o Sales foi o autor daqueles ataques à família dos Bragança, o aceitou para dirigir a pasta da Fazenda, diz o Torquato coçando a cabeça. --- O Libelo do Povo, foi o Sales que escreveu aquilo? Pergunta Deucleciano perplexo. --- Ele mesmo, doutor. Não leste a crônica da Minerva Fluminense? O Garcez deve ter tomado as dores do Imperador e deu o troco do Sales na medida certa, intervém Arlindo de Castro. --- Como assim, deu o troco? --- Ora doutor, não conheces o estilo do Garcez? Simplesmente ele publicou que o Sales Torres Homem é literalmente um filho da puta, retruca o jornalista aos risos. --- Desculpem, senhores, mas não entendi a anedota. --- Ora, doutor Deucleciano, todo mundo sabe que o Sales é filho de uma mulata forra que fazia ponto no Largo do Rosário. Todo mundo da cidade bulia com ela. --- Ora, senhor Torquato, mas quem não é mestiço nesse país? --- É verdade, doutor, nisso eu devo concordar com o senhor. --- Mas, e o pai dele, quem era? --- Nunca ouviste falar no padre Apolinário Torres Homem, doutor Deucleciano? --- Confesso que não. --- Esse padre fez fortuna traficando escravos, doutor. Era um arruaceiro e um fanfarrão que andava metido em brigas com todo tipo de gente. Foi até proibido de praticar o Santo Ofício. --- Meu Deus, mas e o Sales? Não revidou o artigo? --- Não o conheces, doutor? Agiu como se nada tivesse acontecido, retruca Torquato acendendo um charuto. --- Mas isto que o Garcez publicou, seu Arlindo, tem alguma verdade ou é só uma rixa pessoal ? --- Doutor Deucleciano, quem cala consente, não é esse o ditado? --- É, nisto o senhor tem razão. Bem, senhores, devo me recolher, diz Deucleciano levantando-se. --- A propósito, doutor, amanhã o senhor não vai assistir ao enforcamento dos dois irmãos, aqueles doi negrinhos? Pergunta Torquato Lepera esfregando a palma das mãos em notório contentamento. --- Os que mataram aquele português na Rua do Cais? --- Eles mesmos, doutor Deucleciano. Está marcado para amanhã cedo, as nove. --- Soube que o advogado deles, o doutor Proença pediu clemência ao Imperador mas sequer obteve resposta. --- É verdade, mas neste caso o Imperador agiu com justiça. Imagine o senhor. Dois negros armam uma emboscada para o coitado do padeiro e o matam a facadas. Não merecem a forca, doutor? --- Bem, seu Arlindo, recomendações à dona Eustáquia. Senhor Torquato, foi um prazer revê-los, diz Deucleciano retirando-se educadamente. As luzes do segundo andar do palácio de São Cristóvão mostram-se parcialmente acesas. Subindo a grande escadaria que dá acesso aos aposentos particulares da família imperial, passamos a ouvir um burburinho de vozes vindo da sala de jantar, indicativo de que ainda estão na última ceia do dia. Na cabeceira de uma grande mesa ovalada, o Imperador está ladeado das filhas enquanto a Imperatriz, sentada de frente, observa atentamente a postura e a delicadeza com que as princesas vem demonstrando no tratar com as pessoas mais velhas e também no lidar com os talheres, isso após dois anos de convivência com a preceptora Luísa Margarida, a Condessa de Barral. --- Senhor, Dom Pedro, não achais que esta viagem poderia ser feita sem a minha pessoa? Não sei se terei disposição para me ausentar das crianças, e bem sabes que o mar me dá enjôo, diz a Imperatriz degustando o arroz doce servido em sobremesa. --- De forma alguma, minha senhora. Aliás, é sabido que todo o povo do norte do Brasil está ansioso para conhecer a sua Imperatriz, retruca o Imperador roubando a atenção das filhas. --- Deixar as meninas sozinhas naquele palácio em Petrópolis não me parece prudente, senhor meu marido. --- Ora, ora, senhora Dona Teresa, não leste o meu pronunciamento que fiz na Câmara? Já está tudo acertado e afinal, quatro meses não são quatro anos. Tenho certeza que as minhas pequeninas vão gostar muito da programação que a Condessa preparou para as festas de fim de ano, diz o Monarca aguçando a curiosidade das filhas. --- Papá, nós vamos ganhar presente? Pergunta a Princesa Isabel Cristina em tom malicioso. --- Ora, minha filha, estamos à mesa - intervém o Imperador - e ainda faltam dois meses até o natal. Mas e então, senhora Dona Leopoldina Teresa, não estás ansiosa por andar no trem de ferro? Ao que a filha responde em afirmativa com um sorriso. --- Então, vejamos, diz o Monarca entrelaçando as mãos como um professor a interrogar um aluno. --- Tempus est optimus judex rerum omnium? --- O tempo é o melhor juiz de todas as coisas, respondem as duas princesas em simultâneo, arrancando um aplauso do Imperador. Após a ceia, as princesas e a Imperatriz vão para os seus aposentos enquanto o monarca se recolhe à biblioteca para escrever o seu diário, o que faz ao final do dia desde a infância, infalivelmente. Cerrado o livro, ele sorve um cálice de Parati e acende um charuto, ficando pensativo e absorto enquanto contempla um quadro de seu pai, pintado na quadra dos vinte anos, quando ainda era o Príncipe Regente da Colônia. Em pouco ele vai até a sacada e debruça-se no parapeito, mirando as poucas luzes que ainda cintilam na cidade distante. Em relance, olha para a esquerda e vê um vulto branco na sacada de um dos quartos, realçado pelo fusco de uma meia candeia projetada de dentro para fora. Leva novamente o charuto à boca e volta para sua mesa, servindo-se de mais um trago. A passos cautelosos sobre o assoalho de madeira, ele aproxima-se do quarto da Condessa de Barral, a preceptora das princesas, e encontra a porta entreaberta, a senha previamente combinada. Deitada sob o dossel e com os cabelos soltos, a Condessa o fita como uma sereia, embutida no mosquiteiro transparente do leito, realçando os seios volumosos e o negrume da genitália entre as pernas semi abertas, o nítido desenho da tentação invencível da carne ante a fraqueza de um espírito solitário. Cerrada a porta, ele investe para o corpo da amada e a toma em abraços delicados, despindo-se em desleixo ao mesmo tempo em que a possui, vagarosamente, hipnotizado pelos beijos proibitivos e no roçar das línguas sedentas, ora na inocência dos moços ou por vez na voracidade dos Faunos, deleitando-se com o gozo emergido numa orgia carnal nunca dantes igualada, selando a cada novo encontro o crescer de uma paixão enraizada no amor pecaminoso, mas reprimido diante do fardo de ser o Imperador. Após o orgasmo real, ele esparrama o corpo cansado sobre a cama e permanece calado, comunicando-se com a amante através de carícias garimpadas com o tatear das mãos ainda trêmulas. --- Meu amor, durma na paz do Senhor e com a certeza de que o meu pensamento está voltado para a vossa felicidade, murmura com voz doce a amante bem mais velha que ele, acariciando-o levemente na barba ruiva e crespa, confortando-o com o bocejo sensual e maternal que nunca sentira. Em breve, ele deixa o leito e volta sorrateiramente para o seu quarto, galgando o posto ao lado da Imperatriz que dorme em sono profundo. Visto de longe, o imenso palácio encerra um último clarão de luz e o silêncio volta a reinar, em toda sua plenitude. Nos arredores, nenhum pio, nos bosques, nenhum cicio. A fuga para o Egito No largo da capela de Quixeramobim, num final de tarde, um vaqueiro montado a cavalo se achega até a venda de Antônio Vicente Mendes Maciel que está fechada, com apenas uma das cinco portas em meio vão. Sentado por detrás do balcão, o vendeiro mostra-se debruçado sobre um caderno onde corre as linhas com o auxílio de um lápis, quando percebe o chegar do homem pelo clarão da porta se abrindo. --- Istarde, seu moço, diz o vindouro aproximando-se com uma parnaíba realçada na cintura e apoiando as mãos sobre o balcão desprovido de mercadorias. Antônio Vicente levanta-se e o mira nos olhos, desconfiado com aquela figura sinistra e desconhecida. --- Tarde. --- O mormaço tá quente que só veno, diz o homem correndo a venda com os olhos enquanto tira o chapéu e roça a mão na testa embarreada de poeira e suor. --- É..., Responde Antônio Vicente ressabiado. --- Num tem uma cana, seu moço? A goela tá seca que só casco de burro, num sabe? --- Não, meu sinhô, já faiz mais de mêis que acabô a cachaça. Mais se o sinhô quisé um botim de água fresca, num se avéxi, responde Antônio Vicente apontando-lhe a cabaça. --- Eu vim a módi trazê um recado da parte do coroél Antônio Rodrigues da Silva, num sabe? O moço tá sabeno dos conforme? Indaga o homem sorvendo a caneca enquanto a água escorre-lhe pelo canto da boca, contornando a barbicha empoeirada. A dívida de jogo deixada pelo pai Vicente Maciel vinha sendo paga parcialmente, arduamente, mas protelada amiúde com juros que já ultrapassara o montante inicial. Antônio Vicente Mendes Maciel está literalmente falido, sem ter o que vender, pois os poucos imóveis que a família dispunha estavam todos hipotecados para os credores do jogo. Além disso ele deve muito dinheiro para o mascate que repôs várias vezes o estoque da venda com prazo de ano, com prazo de amigo. --- Um conto e quinhento é muito dinhêro, meu sinhô, e inda num deu pa juntá. Eu memo expriquei pro coroné que num vai dá pa pagá tudo duma veiz. --- Eu vim a módi falá quêle qué o dinhêro pro meis, Antôim, nos prazo cumbinado. E óia aqui, seu cabra, é muito triste vê uma mulé nova iguála tua, com duas cria de leite inviuvá duma hora pa ôta, num sabe? Diz o homem segurando o cabo da parnaíba embainhada diante do vendeiro pasmado, acuado, que engole a saliva merejada numa intimidação nunca dantes acontecida, tentando a todo custo achar um modo de se livrar daquela figura. --- Tá certo, com a graça de Deus nóis vai dá um jeito, reponde Antônio Vicente com a cabeça voltada ao chão. O homem deixa a venda e monta soberbo o baio amarrado junto a porta, fiscalizado ao longe por dúzias de olhos camuflados nas janelas da vila. --- Pro mêis que vem, seu moço, nem mais um dia, grita o homem saindo a galope no lusco fusco avermelhado do crepúsculo que se despede do mormaço do dia. Antônio Vicente fecha a porta e vai até o quarto onde a mulher o espera para o coito nem sempre atendido. A expressão dos olhos do marido chama-lhe a atenção. --- Víxi, Antôim, acunteceu arguma coisa? Ele se aproxima e ajoelha-se diante da esposa, acariciando a criança que sorve o leite dos seios miúdos e ressequidos. --- Nóis tem que imbora daqui, mulé. --- Que cocê tá falãno, homi de Deus. Imbora pa onde? --- Num sei, minha santa, mais aqui nóis num pode ficá. O coroné Antônio Rodrigues disque o prazo acabô e que nóis tem que entregá a venda. Hoje memo ocê aparta argumas coisa que amanhã cedim eu vô arranjá uns animá amódi nóis vai caí no mundo, diz Antônio Vicente com o rosto empalidecido. --- Vígi Maria, Antôim, o que vai se de nóis longe dos nosso? --- Longe da sua mãe, quarqué lugá é bão, num sabe? Nóis vamo po Crato, mulé, po Sobral, pa onde ninguém cunhece nóis. Eu vô arranjá um sirviço e co tempo as coisa vai se ajeitá. --- Mai diz quêces lugá fica munto longe, Antôim, e ocê nem sabe o camim? --- Escuta aqui, mulé, o coroné Antônio Rodrigues mandô um hômi me avisá que se nóis num arranjá o dinhêro inté o ôto mêis eu vô entrá na faca. Ocê tá quereno inviuvá, criatura? --- Vigi, Nossa Senhora, Antôim, o que nóis vai fazê? --- De fome nóis num morre, mulé, disso eu lhe agaranto. Inda tenho um dinherim guardado e num vai sê quarqué coroné que vai me tomá, num sabe? Num intéra uma sumana e nóis tá longe daqui, pa nunca mais vortá, retruca Antônio Vicente levando o braço aos olhos chorosos. --- E a venda, Antôim? Nóis num pode largá o que é nosso pa tráiz. --- O Juvencim andô me sondano amódi neguciá a venda, mulé. E tem mais uma coisa. Ocê fica quéta e num conta nada pa ninguém. Se a tua mãe ficá sabeno, nóis num vai achá nem a metade do preço que o coroné qué pagá, num sabe? Noite mal dormida. Pesadelo em alto mar Aos primeiros raios de sol da manhã seguinte, uma esquadra ancorada próxima ao cais Pharoux rouba as atenções dos poucos transeuntes que por ali circulam. A bordo do navio Apa, galgado à proa, o Capitão-de-mar-e-guerra Pereira Pinto mira o binóculo rumo à plataforma de embarque onde a guarda imperial mantém-se em forma. Um oficial se achega. --- Algum sinal da comitiva, capitão? --- Ainda não, tenente, mas devem estar pra chegar, responde o capitão olhando para o relógio que tira do bolso. Cinco carruagens seguidas por uma guarda de sessenta cavaleiros estacionam rente à plataforma do cais e são logo cercadas pelos soldados que formam uma ferradura, mantendo os populares à distância. O Imperador e a Imperatriz estão acompanhados de um pequeno séquito que logo toma assento nos barcos movidos a remo que os levam até o navio. --- Lá vem eles, tenente. Vamos recebê-los conforme o combinado, diz o capitão Pereira Pinto descendo às pressas para o portal de embarque. --- O tapete já foi estendido, capitão, e os músicos já estão a postos. Em traje militar, o Imperador calmamente sobe a escadaria do navio seguido da Imperatriz que é ajudada por duas aias, e são de pronto recebidos pelos oficiais que se mantêm em continência de estátua. --- Bem vindo a bordo, Majestade, diz o capitão com a mão grudada ao quepe enquanto a banda ruge em crescendo as primeiras notas de uma marcha pomposa. Ao término da música, o Monarca se mostra encantado com o cerimonial, retribuindo a recepção com ar de informalidade. --- Vejo que a nossa armada nos fará companhia, capitão? --- Sim, Majestade, o comboio já está a postos em aguardo as vossas ordens. Nos farão retaguarda a fragata Amazonas, a corveta Paraense e a canhoneira Belmonte. --- Ótimo, então mande levantar as âncoras, capitão, e que Deus nos acompanhe, diz o Monarca acompanhando a Imperatriz pela trilha de tapetes vermelhos que desemboca numa escada que dá para os aposentos Imperiais. Içada a Bandeira do Império que flana no alto do mastro, segue o comboio rumo às terras das Províncias do norte ao primeiro dia de outubro de 1859. E vai a esquadra cortando as águas em toada silenciosa e contínua, deixando para trás um rastro espumante e efervescente, policiada apenas por algumas gaivotas que os seguem na faina de alcançar alguma migalha. Forrada com veludo vermelho e cortinas em verde e amarelo, a sala de jantar do Monarca apresenta apenas um mobiliário básico e alguns quadros com motivos marinhos. Ao canto, o Imperador está sentado junto ao piano onde a Imperatriz, cercada por duas damas de companhia, dedilha a sonata ao luar de Beethoven. --- Bravo, minha senhora, bravíssimo, diz Dom Pedro à mulher que não deixa de se mostrar lisonjeada. --- Obrigada, senhor meu marido, mas agora devo me deitar um pouco. Não consigo me acostumar com o balanço do mar, retruca a Imperatriz deixando a sala quando o Visconde de Sapucaí se achega na companhia do Conselheiro Luís Pereira, respectivamente o Camarista e o Veador do Monarca. --- Majestade, mandou-nos chamar? Pergunta o Visconde curvando o corpo na reverência. --- Os senhores não querem me acompanhar num cálice do Porto? --- Será um prazer, Majestade, diz sorridente o Conselheiro Luís Pereira entrelaçando as mãos. --- Então vamos até o convés, quero tomar um pouco de ar. O capitão Pereira Pinto está no tombadilho com seu binóculo mirando o mau tempo que se desenha no horizonte quando o Imperador se achega sorrateiramente. --- Boa tarde, capitão. --- Majestade? Diz o oficial surpreso calcando os coturnos em continência repentina, mas desequilibrando-se com o molejo do navio. --- À Vontade, capitão. Mas, me diga, em quantos dias chegaremos à Bahia? --- Seis dias, Majestade, conforme o previsto. Isto se o tempo nos ajudar, responde enquanto o mordomo aproxima-se com uma bandeja e os serve de vinho. --- À nossa saúde, capitão, diz o Monarca sorvendo o cálice quando uma onda mais forte o coloca em rodopio que culmina em tombo cômico. --- Majestade, estás bem? Pergunta o capitão ajoelhando-se em socorro ao Imperador que apoia as mãos no chão enquanto solta uma gargalhada ao ver o Conselheiro Luís Pereira e o Visconde de Sapucaí prostrarem-se de quatro no convés que agora sobe e desce numa gangorra contínua. --- Creio que devemos voltar, Majestade, diz o Visconde tentando em vão conter o enjôo, mas vomitando de imediato numa situação vexatória, sendo acompanhado de chofre por outra gargalhada do Imperador que logo sente o mesmo efeito, caindo todos na mesma arapuca advinda do Atlântico revoltoso. Nem mesmo o capitão Pereira Pinto, homem de muitos anos de mar, saiu ileso do vomitório, o que de certa forma serviu de consolo ao Monarca, pois este voltou para os seus aposentos sem qualquer ajuda, gargalhando como nunca dantes alguém presenciara. Anoitece no mar aberto que ora se mostra com céu limpo e desprovido de nuvem, enquanto o comboio segue o seu curso sentinelado pela lua cheia que se destaca no zênite estrelado. A ceia é servida pontualmente as nove, tendo o Imperador à mesa apenas a companhia da esposa, visivelmente mau humorada. --- Não ouviste meus conselhos, senhor meu marido? Agora vê se toma a sopa e reza para que não tenhamos mau tempo. --- Ora, Dona Teresa, aquilo foi só um imprevisto. Logo pisaremos em terra e vamos conhecer outros povos, outros costumes. E o mais importante dessa viagem, minha senhora, é consolidarmos nosso Império. E para isso se faz necessário vossa augusta presença, retruca o Monarca sorvendo o caldo no afã de amenizar o pessimismo da Imperatriz. --- Dizem que o costume daquela gente não é o mesmo da Corte, senhor Dom Pedro. Não me admiro se acaso não tivermos água limpa que se possa beber e mosquitos a nos importunar. --- Ora, Dona Teresa, já não disse que o palácio do governo da Bahia foi colocado inteiramente ao nosso dispor? E a julgar pelos relatórios que recebi, ele não fica a dever em nada às comodidades do paço de São Cristóvão. --- Senhor meu marido, não achas imprudente deixar que os Presidentes das Províncias arquem com todas as despesas da nossa comitiva? --- Tendes razão. Mas já providenciei para que a mordomia imperial reembolse todos os custos da nossa hospedagem. Doravante também será desta forma. O nosso Ministro do Império vai cuidar de tudo. Agora vamos terminar a ceia, sim? Diz o Monarca abocanhando a colher que transborda em caldo quente. A lua parece tocar o mar quando este espelha o brilho incandescente por sobre uma marola tímida de uma rara calmaria. No quadro, o comboio segue lentamente, como num deserto em lusco fusco a preludiar a noite, a nítida silhueta dos nômades do deserto caminhando sobre a copa das dunas. Madrugada, o casal imperial repousa em sono profundo, quando em repuxo inesperado, o Monarca solta um grito abafado seguido de um remexer do corpo que logo acorda a esposa. --- O que foi, senhor Dom Pedro? Diz a Imperatriz assustada. --- Ah, meu Deus..., não foi nada, só estava sonhando... --- Queres que chame o médico? --- Não, não, só quero um pouco d'água, sim? Retruca Dom Pedro sentando-se à beira da cama. --- Pronto, aqui está. Beba, ao que ele sorve o copo com avidez. --- Sonhavas com o que, senhor meu marido? Pergunta a Imperatriz acariciando-lhe o ombro. --- Bobagem, minha senhora, não foi nada. Volta a dormir, sim? --- Vamos, não queres me contar? --- Está bem, mas é só um sonho. A Virgem Maria, ela estava montada num jumento com o filho ao colo e com o marido à frente, puxando as rédeas. --- A fuga para o Egito? --- Sim, acho que era, mas só que eles estavam no Brasil. É isto, eu sinto que estavam aqui, nas nossas terras. Eles fugiam de um exército que os perseguia com uma coluna de lanceiros à frente, à galope, e estavam quase por alcançá-los. --- Santo Deus, e o que mais? --- Eu é quem estava no comando, era eu, e eles gritavam por piedade quando os lanceiros os alcançaram, mas eu não conseguia falar para que parassem, tentava gritar mas voz não saía, diz o Monarca levando a mão esquerda à testa e estendendo a destra com o copo vazio em reclamo a mais um gole. --- Ora, senhor Dom Pedro, é só um sonho. Vamos, bebe, e tenta não lembrar mais disso, sim? Diz a Imperatriz passando-lhe a mão na nuca. --- Que horas são? --- Quatro e meia, senhor meu marido. Daqui a pouco já é dia. Vamos, agora deite-se e tente dormir mais um pouco, precisas descansar. Amanhece na vila de Quixeramobim e começam a brotar dos poucos casebres dispostos em desalinho as primeiras carcaças que olham para o céu avermelhado no afã de vislumbrar algum sinal de chuva. Um par de velhas corcundas, cada uma portando um feixe de lenha sobre as cabeças envoltas em trapos sebosos, corta o largo da capela e segue em direção à venda de Antônio Vicente que, estranhamente ainda se mostra fechada. Quatro vaqueiros estão à porta central, certamente na espera por abastecer os bornais de paçoca como fazem religiosamente às terças-feiras. --- Uái, cumadi, num é que o Antôim perdeu a hora? Resmunga uma das velhas achegando-se ao grupo. --- Ô, sô Antôim, grita um dos vaqueiros com as mãos em concha ao redor da boca enquanto olha por entre a fresta do portal, não obtendo qualquer resposta. --- Eis deve de tá lá no fundo, cumadi. Vamo dá vórta e descarregá a lenha no quintá, diz uma delas contornando a venda e seguida pela parceira. --- Eu já dei uma oiada atraz da casa amódi que o portão tava aberto, num sabe, cumpadi? Gritei pulo nome deis e num vi ninguém. Tô achano que acunteceu arguma coisa, retruca um matuto embutido na vestimenta de couro e acendendo o pito, quando uma das portas da venda se abre roubando-lhes a atenção. --- A porta da cozinha tá aberta e num tem uma arma viva na casa, diz uma das velhas para os homens que adentram à venda, agora desfalcada de qualquer bem de valia. --- Santo Deus, será queis caíro no mundo? murmura um deles coçando a cabeça ao ver a morada em abandono, como um ninho desabitado em puro ingaço de tronco seco. A légua e meia da vila de Quixeramobim e com o sol ainda baixo, vai a mulher Brasilina com o filho ao colo montada em jegue maduro, acompanhando o marido Antônio Vicente que ora caminha na dianteira, auxiliado por um cajado que traz como apoio do corpo raquítico e desajeitado. Na vestimenta de couro herdada do pai ele vai conduzindo a família por uma vereda pouco batida e embrenhando-se cada vez mais naquela vegetação espinhenta e urticante, tendo na retaguarda o filho mais velho que vai montado num burro amansado na sova da penúria, selado num par de bruacas entufadas com algumas peças de roupa, o oratório de madeira herdado da finada Maria Chana, cabaças com água e munição de boca, composta de carne de sol e alguns tijolos de rapadura. Enveredando cada vez mais para o centro da imensa planície onde os Mandacarus e as Cabeças de Frade vicejam em abundância, e circundados pelas altas chapadas de uma serra desconhecida, segue o patriarca da família em passadas regulares rumo ao deserto de almas, não vislumbrando qualquer marca ou resquício das boiadas que outrora ouviu dizer, habitavam em grande monta aquelas paragens ora salpicadas de ipueiras secas e de uma flora garranchenta e repelente, amostras vivas de um substrato em constante desequilíbrio. O pio de um acauã desvia-lhes a atenção para um umbuzeiro de copa avantajada, destacando-se como um oásis em meio ao planalto mormacento, hipnotizando-os para a sombra convidativa daquele vivo guarda sol plantado em meio à canícula da caatinga. --- Benza Deus, mulé, agora vamo da de bebê pas criança e discansá um pôco, diz Antônio Vicente ajudando a mulher a apear do jegue que bufa ofegante no respirar o bochorno mormacento, tendo a frente o seu único concorrente naquele teste de sete horas de marcha batida e ininterrupta, o homem. --- Ondé que nóis vei pará, Antôim? --- Nóis tá no rumo certo, minha santa. Vamo aproveitá um poco dessa sombra e esperá o sol baxá. --- Minhas perna tá doeno, num sabe? Tô achano mió nóis fazê poso aqui memo. --- Cê tá certa, mulé. Vamo saí amanhã bem cedo que de tardinha nóis chega no Sobral, retruca Antônio Vicente sorvendo a cabaça bendita e logo sentando-se rente ao tronco onde encosta o corpo teimoso em esmorecer. --- Num vai da de bebê pos animá, Antôim? --- Num carece. Mai logo eu corto um botim de xiquexique amódi eis mascá e espantá a fome, diz o marido a olhar o par de muares estacados à sombra, na imobilidade servil e comovente dos camelos do sertão. Uma viagem de contrastes e confrontos O jornalista Arlindo de Castro atravessa a rua tentando em vão desviar os pés das poças d'água que abundam no chão lamacento e descalçado da capital. Adentra no Jornal do Commercio. --- Seu Arlindo, chegou uma correspondência da Bahia, do Torquato Lepera, diz em tom de boa nova um velho funcionário entregando-lhe um pacote. --- Ora, mas já era sem tempo, seu João. Vamos ver, responde abrindo às pressas o envelope. --- Alguma novidade, seu Arlindo? --- Veja só: "O Imperador ficou maravilhado com a recepção do povo e dos Governantes da Bahia, mas se mostrou um tanto preocupado ao ver que a população é composta na sua grande maioria por negros e uns poucos mestiços", responde Arlindo de Castro dando uma gargalhada enquanto se assenta à escrivaninha. --- Não acredito que o senhor vai publicar esta nota, seu Arlindo. --- Ora, seu João, não vês que só o Imperador é quem não sabia disso? Mas olhe essa aqui: "A Imperatriz está comovida com tantas homenagens e presentes da terra, sem contar que o palácio do Governo foi colocado inteiramente à disposição de nossa comitiva. O Ministro do Império, o senhor Conselheiro João de Almeida já deve ter engordado alguns quilos, a julgar pela gula com que devora as iguarias da cozinha baiana. Creio que até o fim do mês devemos zarpar para o Recife, mas antes o Imperador quer conhecer uma cachoeira no Rio São Francisco. O Presidente da Província diz ser um lugar bastante aprazível". --- Aprá, o que, seu Arlindo? --- Aprazível, seu João, ele quis dizer que é um lugar agradável, só isso. --- Sei, sei... Aprazível... --- Bom, agora já temos algum material da viagem para a edição de Domingo. Mas, me faça um favor. Quero que copie esta carta e depois entregue o original no Correio da Tarde, sim? E tem que ser urgente. --- Nem precisava dizer, seu Arlindo. Aqui tudo tem que ser urgente. Ah, eu já ia me esquecendo. O doutor Deucleciano passou aqui ontem à tarde, procurando pelo senhor. Disse que não era nada de importante, mas que se tiveres um tempo livre é para ir procurá-lo em sua casa. Ele vai estar por aqui a semana toda. --- O doutor Deucleciano? Mas o que será que ele quer? Indaga o jornalista levando a mão ao rosto e cutucando levemente o indicador nos lábios. O tufão das águas que descamba na cachoeira de Paulo Afonso boceja como um trovão contínuo e furioso, reboando continuamente do emaranhado espumante e caudaloso, formado pelo encontro repentino do Rio São Francisco com um talude de colossal envergadura, um abismo culminado em plataforma rochosa que abocanha o rio em toda sua plenitude, desenhando nos ares as sete cores do arco íris, realçadas no prisma anelado das gotículas borrifadas pelo rebojo vivaz e exuberante. Ínfima e imóvel, vê-se a silhueta do Imperador sentado a uma rocha distante, rabiscando numa pequena tela os traços da imensa voçoroca que traga as águas desde a formação do remoto continente. Leva-nos à conjectura de um paradoxo interessante: o Criador e a criatura. O jornalista Torquato Lepera, do Correio da Tarde, se achega na companhia do Visconde de Sapucaí, mas ficam a observar, a meia distância, a figura do Monarca que permanece estático, em estado puramente contemplativo. Súbito, o Imperador vira-se para trás e surpreende o par de súditos que se aproxima em passos felinos. --- Venham, diz o Imperador gesticulando com a mão, dando-lhes em seguida as costas. --- O que me dizes, senhor Visconde? Já tinhas visto algo assim, tão belo? Pergunta o Monarca sem tirar os olhos da queda d'água que berra em moto contínuo a fomentar uma bruma indescritível. --- Tendes razão, Majestade, é mesmo um espetáculo indescritível. Nunca tinha visto nada parecido, retruca o Visconde entrelaçando as mãos enquanto o jornalista aguarda uma oportunidade para ser inoportuno. --- Majestade, se me permite, creio que os leitores da Corte ficariam orgulhosos em saber que o nosso augusto Imperador, além de amar as letras possui também os dotes da pintura. Poderíamos publicar algo a respeito? Pergunta Torquato Lepera olhando o rabisco com ar de admiração. --- É só um desenho, nada mais que isso. Mas devo concordar com vossa observação. Sempre gostei de registrar paisagens. Quanto a publicação, está concedida, contanto que não menciones nada a respeito das minhas poesias, reponde o Imperador em riso descontraído enquanto o jornalista se deleita em suas anotações. --- Majestade, já passa das cinco e trinta e creio que devemos voltar. --- É verdade, senhor Visconde, mas o que temos para hoje à noite? --- Já está tudo providenciado, Majestade. Às nove teremos uma ceia oferecida pelo Presidente da Província e depois o grande baile de despedida, no salão nobre do palácio. Devo dizer que as damas da Corte baiana estão ansiosas para bailar em vossa augusta companhia e também da Imperatriz. --- Pois então, vamos à dança, responde o Imperador apertando o passo rumo à carruagem. O largo da capela da Vila de Sobral mostra-se silencioso e deserto naquela tarde quente e seca. Nenhum latido, nenhum ruído. Antônio Vicente adentra ao paço seguido da mulher que vem logo atrás, puxando os dois muares visivelmente suados. Param rente a sombra do umbuzeiro fincado ao centro da praça e apeiam em quietude desconfiada. Em pouco, um defunto envolto em pano roxo e suspenso por uma varal ombrado por meia dúzia de vaqueiros rompe as portas da capela ao som das badaladas do sino que repica na vagarosa cadência do cortejo que se encorpa a cada instante, como se toda a vila brotasse vagarosamente de dentro a humilde capela. A grande maioria traz os pés descalços. As velhas rezadeiras e as carpideiras em luto combinado seguem o féretro rumo ao campo santo, este situado num terreno atrás da igreja. E o som das litanias ecoa no espaço em socorro à alma do partinte, o que se soube mais tarde, era um caixeiro viajante que morreu na conta de uma tocaia armada por um marido desonrado. Antônio Vicente faz o sinal da cruz e acompanha com os olhos a triste romaria que logo desaparece da sua linha de mira. --- Ô mulé, ocê fica aqui cas criança queu vô caçá um lugá amódi da de bebê pos animá. Contornada a capela, ele junta-se à multidão já disposta em meia lua, estacada junto à cova. Ouve-se então as palavras do padre, um homem feito e de porte médio embutido na batina preta. Nariz adunco e com as sobrancelhas em circunflexo, abre um livro e folheia lentamente as páginas com o indicador previamente umedecido na língua esbranquiçada. Antônio Vicente chama a atenção de alguns quando ergue os pés no afã de encarar a cena, mas o homem mostra-se de costas, antolhado na leitura. --- Em verdes prados ele me fez repousar, conduz-me junto às águas refrescantes... A mesma voz, a mesma entonação, o mesmo salmo que ouvira por ocasião do sepultamento de sua mãe fisga-lhe de imediato os sentidos e o faz encolher, levando as mãos ao rosto no intuito de ocultar a face. Pela fresta dos dedos ele vislumbra a figura do doutor Ibiapina, que de há muito não via e nem ouvia falar, mas que por certo o reconheceria se o encarasse. Não deixou que o reconhecesse, mantendo-se numa distância segura. Pensativo, arquiteta o que poderia ter acontecido ao velho juiz de Quixeramobim que agora se porta e se veste como um padre, literalmente. Finda a leitura, dá-se o sepultamento ao som dos choramingos tristonhos e repetitivos, enquanto algumas flores já murchas são atiradas na cova em concomitante com a terra que cai com o auxílio de golpes de enxada. Antônio Vicente mistura-se sorrateiramente num pequeno grupo de vaqueiros que se afasta do cemitério e em pouco juntam-se no adro da capela. Não resiste em saciar a curiosidade sobre o vigário. --- Tô chegano de longe, meu sinhô, e num conheço o lugá. O jegue e o burro tá careceno de bebê, num sabe? diz tirando o chapéu na pequenez de um esmolé. --- Oxenti, vai na venda do sô Domingo, hômi de Deus. Lá o sinhô vai achá água, num sabe? O cabra tá suzim? --- Ca mulé e os fio, meu sinhô. --- Ah, sei... Tá veno aquele barracão cascado lá na ponta da rua? Pois a venda é lá, diz o vaqueiro apontando-a com o dedo. Ao canto último da banda esquerda do largo da vila, o barracão de três portas lembra em muito a casa comercial que Antônio Vicente deixou em Quixeramobim. Com um balcão de madeira em formato de ele, o armazém do senhor Domingos Carlos de Sabóia está entufado de mercadorias que vão desde fardos de fazendas multicores a mantimentos e ferramentas diversas. Rente a primeira porta, um velho calvo e moreno, de cabeleira curta e grisalha está sentado a uma cadeira de balanço com os pés descalços em cima das alpercatas que traz como chinelo. Com a mão esquerda ele ampara um caderno que lê na calmaria da tarde, tirando vez ou outra um lápis da forquilha da orelha de abano. Do lado de dentro do balcão, uma cabocla com idade para ser uma neta escolhe a dedo uma cuia de feijão. --- Ô, minha pombinha, mi trais um golim d'água, trais? diz o velho sem tirar os olhos do caderno enquanto a mocinha de cabelos longos e escuros, o corpo realçado pelo apertar do vestido se achega e o serve, muda, mas sorridente. No levantar da caneca e ao cabo do último gole ele leva a esquerda para dentro do vestido da cabocla e toca-lhe a genitália, correspondido de imediato com um chamego carinhoso na sua face encarquilhada. --- O padim qué agora? Pergunta-lhe a caboclinha em fala sibilante. --- Ah, minha pombinha, mais a noite nóis tira o atraso, num sabe? Responde o vendeiro em gargalhada fanfarrona escancarando a gengiva desfalcada. O resmungar de um cachorrinho mirrado que está deitado rente ao balcão o faz vergar o corpo e mirar a ruazinha no encalço de alguma novidade. Um homem baixo, magro e estranho aos olhos do antigo morador está ladeado por uma mulher raquítica que traz um filho ao colo, tendo ao lado um moleque e dois muares presos a cabresto. Param defronte a venda no fedor localizado e típico dos andarilhos sem rumo, aureolados por vespas diminutas que tentam insistentemente pousar sobre o sebo dos suores acumulados. --- Lovado seja Nosso Sinhô Jesuis Cristo, diz o velho Domingos em tom amigável enquanto Antônio Vicente se achega tirando o chapéu. --- Pa sempre seja lovado, meu sinhô. --- Ta vino de onde? Pergunta o velho levantando-se. --- Do mundo, meu sinhô, e os coitado dos animá já tá com dois dia sem bebê, num sabe? --- Sei, sei... Pó dá vórta e trazê os bichim. Contornado o barracão, eles entram num cercado de ripas onde uma leva de cabras ruminam próximas a um cocho entalhado em esteio grosso. Ao canto, um couro de boi ainda verde está pregado numa grade de farpas com a parte interna voltada para o céu, salpicado de grãos de sal grosso para o primeiro estágio da curtição. À sombra de uma baia coberta com capim seco, uma tina de madeira com água turva de logo satisfaz os muares que bebem em pressa desmedida. --- Tão magrim que só veno. Tô achano mió dexá os bixim por aqui que inda deve de tê uma sobrinha no cocho das cabrita, num sabe? --- Num sei se eu vô tê dinhêro amódi pagá o favô, retruca Antônio Vicente coma cabeça abaixada. --- Num carece. Mas me diga, o hômi tá largado no mundo? --- Mais tenho fé em Deus que eu vô arranjá argum sirviço e assentá morada na vila, meu sinhô. --- É... uma mulé com criança no pé num deve de ficá largada no tempo. Mas o moço é bão de lida? Antônio Vicente percebe que a sorte está a lhe bater a porta. --- Ara, meu sinhô, sei fazê de tudo um pôco, num sabe? Mas o dote mió foi a incrinação pas conta e pas iscrita. --- Num me diga. Antão o moço sabe lê, escrevê e contá? --- Sem titubiá, meu sinhô, e isso inté posso lhe prová. --- Vigi Maria, mais inté parece que foi Deus que mandô o sinhô me percurá, num sabe? Vem, seu moço, vamo tirá a puêra das criança cunversá mais um pôco, num sabe? Dispois nóis vai tratá dus negócio, diz o velho arrancando-lhe um olhar de espanto e contentamento. Rompida a noite, notamos que as portas do barracão do vendeiro Domingos Sabóia já estão fechadas. Acomodados num quarto ao fundo da casa, Brasilina Maciel agora dorme após um banho presenteado em tacho morno. Sentados numa mesa rente ao balcão, Antônio Vicente recebe as ordens do novo patrão que mostra-lhe as contas que tem a receber de alguns credores, a maioria de moradores das fazendas distantes e que compram a prazo com o aval de seus respectivos coronéis. --- Só Deus memo pá paga o que o sinhô tá fazeno, sô Domingo. Nem sei cumo agradecê, diz Antônio Vicente, agora encarando-o de frente. --- Ara, Antôim, nesse mundo uma mão lava a ôta. Amanhã memo ocêis vão acentá morada na casa do Jeromo. Inté já mandei dá uma limpada no lugá pa tirá a catinga das vela, num sabe? --- Jeromo, meu sinhô? Catinga das vela? --- É, Antôim, tô falano do finado Jeromo, o que cabô de se enterrado. Chegô a cunhecê? A imagem do enterro da tarde vem-lhe a mente. --- Não, meu sinhô. Mais me diga, foi doença? --- Ara, Antôim, que doença podia deitá um cabra tão sacudido e desavexado cumo o Jeromo, hômi de Deus? Morreu foi no pau de fogo, a meno de treis braça, num sabe? Diz que a pelota do chumbo pegô no pescoço e quagi que rancô a cabeça. --- Minha Nossa Senhora.... Mas pelo jeito, o sinhô cunhicia bem o Jeromo. --- Ara, Antôim, pois é no lugá dele que ocê vai me sirví, hômi de Deus. Ele trabaiô comigo mais o meno uns oito ano... Sempre andô direito, nunca feiz má nem pum cachôrro, o coitado. Mas o diabo anda sorto no mundo, Antôim, vevi amoitado nas encruziada das tentação, só esperano a hora de dá o bote, num sabe? Antônio Vicente franze a testa e verga o corpo na querença de ouvir o fim do causo. --- Tentação, sô Domingo? --- Pois é o que eu tô falano, seu cabra. Um dia o Jeromo inrabichô ca mulé do Juca Aniceto, um véio mandinguêro que vevi lá nas corcova do Canta Galo, nas terra do coroné Justino Correia. Mais ele era um hômi temoso que só veno. Deu no que deu. --- Vígi Maria... --- E óia queu cansei de avisá prêle, Antôim, que muié do zôto catinga porva, num sabe? A cabocla do vendeiro Domingos se achega com a cabeça abaixada e as mãos cruzadas sobre o vestido. --- O cumê já tá na cuia, meu padim. --- Antão pó trazê, minha fia. Antôim, vamo cumê que amanhã nóis tem muito que andá, num sabe? Tô achano que ocê é o homi certo, pru sirviço certo, diz o vendeiro batendo-lhe no ombro em sinal de uma amizade sincera, mas que pouco vai durar. Da questão que trata de uma gafe não premeditada Uma carruagem para defronte ao Jornal do Commércio chamando a atenção dos poucos camelôs que transitam pela viela. Um homem de cartola e casaca escura apeia com o auxílio do cocheiro. O jornalista Arlindo de Castro está debruçado em sua mesa a escrever com a pressa habitual, quando soa a sineta da porta. --- Deputado Delmiro, mas que surpresa. Em que posso ajudar? Pergunta o jornalista ao homem que se achega ao balcão tirando um papel do bolso. --- Bom dia, seu Arlindo. Eu gostaria de colocar um anúncio. --- Ah, sim, é comigo mesmo, deputado. Mas, do que se trata? --- É a respeito de uma negrinha que fugiu de casa há dois dias, senhor. Na verdade, era só uma mucama que limpava a casa, mas minha mulher está inconformada, veja só, quer a negra de volta a qualquer custo. --- Ora, deputado, é o que mais se vê hoje em dia. Mas quais as características da escrava, senhor? --- Está tudo aí, diz o deputado passando-lhe o papel. --- Vejamos: Procura-se uma muleca de uns quinze anos, estatura mediana, cabeça raspada, dentuça e gaga, e atende pelo nome de Custódia, diz o jornalista relendo o bilhete. --- Está bem assim? --- Vamos acrescentar mais alguns dados e pronto. O senhor pretende gratificar quem a encontrar, deputado? --- Ah, sim, pode colocar aí, digamos, cinquenta mil réis? --- Com certeza logo a encontraremos, deputado. A propósito, qual o endereço que devemos colocar? --- Eu estava pensando em colocar o endereço aqui do Jornal, seu Arlindo. É que eu não gostaria de me expor, o senhor me entende? --- É claro, deputado. Pode deixar que eu cuido disso. Depois de amanhã a cidade já estará a procura da negrinha. --- Quanto vai custar? --- Vamos colocar o anúncio em destaque, deputado. Dois mil réis. --- Ótimo, aqui está. Passar bem, diz o deputado entregando-lhe a pataca. O jornalista volta-se para sua mesa quando o tilintar do sininho da porta acusa a entrada do advogado Deucleciano Cavalcanti. --- Ora, doutor Deucleciano, vamos entrar. Recebi o seu recado ainda esses dias, mas até agora não me sobrou tempo para ir visitá-lo. --- Como tem passado, seu Arlindo? --- Bem, obrigado, vamos sentar, doutor. Mas, a que devo a honra da sua visita? --- É sobre a execução daqueles negros, lembras? Os dois irmãos que foram enforcados no mês passado? --- Mas é claro que lembro, doutor, eu assisti ao enforcamento. --- Então, seu Arlindo. O que me chamou a atenção foi que, mesmo encapuzados, um deles gritava que era inocente. Aquela cena não me sai do pensamento. --- Me lembro bem. Mas, e daí? --- Pelo que eu vi, nenhum Jornal publicou nada a respeito. --- Perdoe-me, doutor Deucleciano, mas publicar o que? Eles foram executados e pronto. --- Mas e se ele estivesse dizendo a verdade? O senhor já pensou nessa possibilidade? --- Ora, doutor, numa hora dessas todos dizem a mesma coisa. Já ouviste falar naqueles que conspiravam contra a Coroa em Vila Rica, os inconfidentes? --- É claro que sim, mas o que isto tem a ver? --- Ora, doutor, ao que sabemos, todos eles juraram inocência mas só um é que pagou a conta. --- É dito que a verdade sempre triunfará, seu Arlindo. --- Pois aí é onde mora a minha dúvida, doutor. Pelo visto, é a mentira quem escreve a história. --- É, devo admitir que em parte o senhor está com a razão, seu Arlindo. Mas, mudando de assunto, o meu pai acaba de presentear a minha mulher com um piano forte, e vamos receber alguns amigos no próximo sábado. Gostaríamos de contar com sua presença, seu Arlindo, e também de sua esposa. --- Um sarau? Mas que ótimo, doutor Deucleciano. Fico muito honrado com o convite. --- Que ótimo, mas e o nosso correspondente, seu Arlindo, o Torquato? Ele tem mandado notícias? --- Ainda esta semana devo receber mais um malote, doutor, mas a julgar pelas últimas cartas, creio que o Torquato deve estar se divertindo muito. --- Folgo em saber. Então, até sábado, seu Arlindo, e não se esqueça, a reunião está marcada para as oito, diz Deucleciano levantando-se em despedida. O Cais do Lamarão, na cidade do Recife, torna-se o palco de um festejo e de uma aglomeração jamais vista em toda a história de Pernambuco. Leva-nos a compará-la ao Domingo de Ramos, mas com uma procissão que vai se encorpando a cada minuto, com gente brotando de todos os lados, mas que vai terminar no mar em aguardo à chegada do Salvador. Gente de todas as cepas se juntam às autoridades de bandeirolas em punho, acenando para a comitiva Imperial anunciada de há pouco com disparos de canhões que retumbaram nos céus em aviso à chegada de uma divindade que os jornais o propalaram, seguindo a batuta milenar da igreja, como sendo um enviado de Deus. Logo, o som da banda de música sobrepõe as falas e os mexericos contagiosos, rugindo em contraponto marcial enquanto uma bateria de fogos de artifício rompe nos ares como uma réplica combinada a fomentar um privilégio que ficará nos anais da história pernambucana; ver de perto o Imperador Dom Pedro de Alcântara, de há muito falado mas nunca visto. O barco que traz a comitiva imperial aproxima-se da plataforma de desembarque quando, em coice de porco, o maestro interrompe a algazarra musical em chamamento à parte mais importante do protocolo. --- Atenção, todo mundo durim, durim. É um, é dois, é já, grita em voz aguda o maestro, riscando a batuta no espaço quando as primeiras notas do hino do Império ecoa em desafino notório mas pomposo, confundindo-se com o som dos populares que aplaudem e gritam vivas, ao mesmo tempo em que jogam flores na passarela tapetada por onde o casal Imperial desfila em visível contentamento, jubilosos, locados um pouco à frente das autoridades que o ladeia, com o Presidente da Província Luís de Meneses acenando para os populares como se fosse o centro das atenções. Assentados numa carruagem aberta e toda decorada com as cores verde e amarela, o Imperador e a Imperatriz passam agora pelas ruas estreitas e empoeiradas do centro comercial do Recife onde, nas janelas das casas de até três andares, panos multicoloridos estão estendidos em sinal de boas vindas os ilustres visitantes. --- Viva o Imperadô do Brasí, grita um velho de uma sacada enquanto acena para a carruagem com uma bandeira do império, sendo de imediato agraciado com um olhar do Monarca que retribui a saudação abaixando levemente a cabeça. Em pouco a comitiva chega ao Palácio do Governo onde uma arapuca irá fisgar o Monarca com o veneno que mais o molestava, os discursos. Sentado ao trono especialmente construído no plenário da Câmara, é sabido que este não se deixou esmorecer, pelo menos nas três primeiras horas de infindáveis e previsíveis homenagens. Enfim, o cansaço lhe bate à porta e o Imperador não consegue evitar um bocejo de sono. O Barão da Boa Vista, um dos anfitriões da casa, acode o infortúnio em reverência exagerada. --- Em nome de todo o povo de Pernambuco, tenho a honra de convidar vossa Augusta Majestade para assistir ao glorioso desfile da nossa Guarda Nacional, diz o Barão lendo um pergaminho desnecessário, ao que o Imperador atende a sugestão com notável bom humor, achegando-se à sacada do prédio com todo o séquito presente. Defronte ao paço, dispostos em duas coluna de quatro filas e sob o comando de um corneteiro que mal consegue parar em cima de um baio fadado à penúria, ouve-se o primeiro o único toque que soa como um berro mal nascido, colocando em movimento uma cavalaria de não mais que cinco dúzias, troteando em completo desalinho, composta por cavaleiros montados em visível desaprumo e com as fardas todas por zelar. Ao passar em frente ao Imperador, todos mostram-se sem comando e com os olhos voltados ao nada, sem qualquer ensaio ou postura de uma parada militar. O Imperador permanece estático e com a testa franzida, enquanto o Barão da Boa Vista achega-lhe ao pé do ouvido numa inclinação pouco recomendável. --- Eis o nosso maior orgulho, Majestade, a Guarda Nacional do Recife. Não é uma beleza? --- Creio, senhor Barão, que a minha guarda pessoal seja bem mais numerosa, diz o Monarca sem tirar os olhos do paço, mas sabendo que todos o ouviram. --- Tendes razão, Majestade, hoje ela está um pouco desfalcada, mas na verdade foi tudo culpa dos alfaiates... --- Alfaiates? --- Sim, Majestade, é que os uniformes não ficaram prontos a tempo, mas logo este problema será resolvido, tenho certeza, finaliza o Barão enquanto desfila em frente ao Imperador, em descompasso frisante e vexatório, a quixotesca cavalaria da Guarda Nacional do Pernambuco. O Presidente da Província se aproxima com as mãos voltadas para trás e se apresenta com um discurso notoriamente decorado. --- Majestade, agora devemos ir ao palácio para que possais conhecer vossos augustos aposentos. --- Obrigado, senhor presidente. Gostaria que vossa mercê me desse a honra de sua companhia. --- É uma honra, Majestade, diz o presidente apontando para a carruagem imperial locada ao pé da escadaria. Escoltados pela mesma cavalaria da dita Guarda Nacional, segue o Monarca para o Palácio do Governo enquanto a cidade volta a sua rotina habitual, mas hoje com o comércio em dia de muita venda, afinal, o Recife é agora, de certa forma, a capital do país. Cai a tarde. Submerso até o pescoço numa banheira dourada e com torneitas de fina prata, o Imperador parece deleitar-se com o banho quente a julgar pela avidez com que esfrega o corpo com um sabão espumante e perfumado, levando-o vez ou outra ao nariz e aspirando com os olhos fechados, no flagrante de quem degusta uma iguaria. Vedados os ouvidos com o auxílio da ponta dos polegares e com as narinas pressionadas pelos anulares, ele mergulha a cabeça por alguns segundos e logo emerge a face ensaboada, expira em notório contentamento. Sentado ao canto do quarto, o camarista Visconde de Sapucaí está debruçado sobre um exemplar da Tribuna do Recife, mas sempre observando-o com um rabo de olho. --- Senhor Visconde, me dê a toalha, sim? Diz o Imperador levantando-se com a cabeça e a barba ainda impregnadas de espuma, desnudo por inteiro. --- Aqui está, Majestade, retruca o camarista cobrindo-o por completo com um manto de algodão avermelhado, acudindo-o a enxugar a cabeleira em maçaroca. --- Devias experimentar o banho, senhor Visconde, está uma delícia, diz o Monarca em risos, chacoalhando a cabeça e respingando a vestimenta do companheiro. --- Não me convém, Majestade. O doutor Eustáquio me recomendou alguns cuidados para me prevenir das dores no peito. Antes eu chegava a tomar até quatro banhos por ano, e vivia tossindo. Foi só parar com o banho e a tosse sumiu, veja o senhor. --- Para cada caso, uma sentença, meu caro. Agora estou me sentindo bem melhor e devo dizer que também estou com fome. --- O jantar está marcado para daqui a pouco, Majestade, às sete. --- Que bom. Espero que desta vez eles não nos coloquem em mesas separadas, senhor Visconde, como na Bahia. --- O Conselheiro Luís Pedreira já cuidou para que isto não ocorra, Majestade. Teremos um jantar em mesa única. --- Ótimo. Então vamos cuidar do estômago, me caro, e que Deus nos ajude. Ao centro do salão nobre do Palácio do Governo, uma grande mesa está arranjada para a ceia mais importante de toda a história do Recife. Os talheres de ouro foram gentilmente cedidos por um dos convidados e os pratos da mais fina porcelana contrastam com as taças de cristal de volume um tanto exagerado. O Imperador está sentado na cabeceira, tendo ao seu lado direito a Imperatriz que vem ladeada pela sua dama de honra, Dona Josefina da Fonseca. Ao seu lado esquerdo está o Conselheiro João de Almeida Pereira, Ministro do Império e o Visconde de Sapucaí. Completam as outras trinta e sete cadeiras os casais da fina flor da elite pernambucana e o Presidente da Província, todos engomados em vestimentas de veludo onde o amarelo ouro e o vermelho escuro misturam-se com um pouco de branco e verde folha. Uma pequena orquestra de cordas faz o fundo musical para o deguste dos frutos do mar, frituras de bolinhos picantes, assados e peixes ensopados à moda da terra, bem menos apimentados que as iguarias da Bahia. O Imperador mostra-se encantado com a comida, saboreando tudo que lhe é servido com notório contentamento, da mesma forma, todos os convidados. Enfastiados por quase meia hora de uma comilança exagerada, é lhes servido novamente o vinho. O Monarca, visivelmente satisfeito, bate com o talher na taça. --- Gostaria de brindar a saúde de todos e também ao nosso mui gentil anfitrião, o senhor Luís Barbalho Fiúza Barreto de Meneses, fala o Monarca erguendo o cálix, ao que todos o imitam com júbilo e regozijo. Novamente ouve-se o tilintar do cristal ao centro da mesa. Desta vez, o Presidente da Província é quem retribui tamanha honra. --- Quero propor um brinde ao nosso Imperador e também a nossa augusta Imperatriz, Dona Teresa Cristina Maria, fala garbosamente Luís Barbalho levantando-se e erguendo o vinho aos convivas que permanecem sentados. Findo o brinde, Luís Barbalho coloca a taça sobre a mesa e apóia as mãos no braço da cadeira, deixando cair o corpo em devagar, quando em lance jamais calculado, ruge em contínuo persistente o som peculiar do metano em escape à palheta dilatada do sifão cinqüentenário, fazendo com que o maestro Silvino Peixoto, ao perceber o acidente costumeiro, aumentasse o som da valsa na tentativa de roubar a atenção do Monarca e também conservar-se no emprego, o que se soube mais tarde, teve os vencimentos aumentados em reconhecimento ao grande feito. De como se castra uma vocação pelas circunstâncias da conveniência Seguindo as ordens do vendeiro Domingos Sabóia, Antônio Vicente vai montando um burro enfumaçado que envereda por uma picada desconhecida e desabitada nos arredores do arraial de Sobral. Trajando a vestimenta típica de vaqueiro, traz junto à sela um bornal de couro e uma cabaça arrolhada em palha de milho, seguindo na toada vagarosa de quem desconhece o caminho, assustando-se amiúde com qualquer ruído que possa chamar-lhe a atenção. Avistada uma tapera que borrifa a fumaça peculiar de um fogão aceso e com um banco de pau defronte a porta, ele delineia o mapa oral que o novo patrão lhe passara na noite anterior e achega-se sorrateiro, na cautela desconfiada de um cão sem dono. --- Lovado seja Nosso Sinhô Jesuis Cristo, grita em voz abafada, mas sem apear do burro que fixa o par de orelhas numa sombra que se move rente a portinhola escancarada. Um cano de espingarda brota em repentino ao pé da porta quando uma voz madura e pausada responde ao toque. --- Pa sempre seja lovado. --- Vim da parte do sô Domingo da venda, num sabe? Diz Antônio Vicente apeando vagarosamente. Um mulato alto e com idade avançada, mostra o corpo embutido em trapos sebosos, mas sem largar o clavinote empunhado na destra de veias realçadas. A feição do matuto confere com o dizer do vendeiro. --- Seu Antero? Pergunta Antônio Vicente estendendo-lhe a mão. --- Sô, sim sinhô, responde o cabra deleitando-se com a prosa a tanto custo achada. --- O sô Domingo falô preu percurá o sinhô amódi insiná uns camim, num sabe? --- Que má le prigunte, meu sinhô, vois micê tá trabaiano po véio Domingo? --- Já faiz um tempim, seu Antero, mais ainda num cunheço bem o lugá. --- Sei, sei, mais vamo entrá que o só tá quente, diz o cabra adentrando à tapera de dois cômodos. --- Gardicido. Mais me diga, o sinhô cunhece as terra do coroné Justino Correia? --- Mais que num cunhece, hômi de Deus? Travessano a corcova do Canta Galo, num dá meia légua e o sinhô ta lá, num sabe? Tem muita famia vivenoi naqueis mundo. --- É, o seu Domingo tamém falô que muita gente tá deveno prêle e que num vortaro pa pagá. --- O sinhô num deve de tá rigulano da idéia, meu sinhô. O úrtimo que vivia rondano pessas banda e cobrano as conta do vendêro já faiz muitos meis que tá sepurtado, num sabe? Morreu no pau de fogo. --- O Jeromo? Pergunta Antônio Vicente assustado. --- O sinhô cunheceu ele? --- Não, não, seu Antero. Mais me diga, esse Jeromo num morreu amódi tê bulinado ca muié dum tá de Juca Aniceto? O mulato escancara o único dente fincado na gengiva calejada e solta uma gargalhada maliciosa, balançando a cabeça em negativa. --- Ara, meu sinhô, o finado Juca já deve de tê morrido já fais munto zano. Ele éra um rezadô que vivia andano pos camim, sem rumo, sem morada, e dispois sumiu no mundo. Ninguém mais viu falá no hômi, num sabe? Mais, que má lhe prigunte, ondé que o sinhô escuitô esse causo? Foi o sô Domingo quem contô? Pergunta o mulato flagrando a visita franzir a testa e coçar levemente a cabeça. --- Não, seu Antero, num foi ele, não. Mais a minha hora chegô, num sabe? Vô fazê picada po Sobral inhanti de escurecê. --- É, andá de noite pessas banda é caçá desfeita co coisa ruim. --- Lovado seja Nosso Sinhô, fala Antônio Vicente montando o burro enquanto o homem o observa com a tristeza de quem carecia de mais um dedo de prosa. --- Vai cum Deus, meu sinhô, retruca o matuto observando-o galgar a estradinha em marcha forçada. Chegando à vila do Sobral, ainda com o lusco fusco de um crepúsculo avermelhado, Antônio Vicente vai direto para uma capuaba que seu patrão lhe arranjara para se instalar. A mulher Brasilina está sentada rente ao fogão de meia brasa com o filho caçula grudado ao peito, à espera do marido que há dois dias se ausentara. --- Vígi Maria, ondé cocê andô, hômi de Deus? Pergunta assustada vendo-o chegar em supetão, sem ruído. --- Muié, nóis vão tê quimbora desse lugá. Isso queu tô fazeno num é sirviço dum cristão que teme à Deus, num sabe? --- Nossa Senhora deve de tê ouvido minhas reza, Antôim. --- Que reza cocê tá falano, mulé? --- Inda gorinha um homi vei aqui priguntano se ocê inda tava vivo, Antôim. Dispois priguntô seu num queria buliná cuêli. Antônio Vicente arregala os olhos e se levanta bruscamente, em ira nunca dantes presenciada. --- Eu num falei procê ficá quéta aqui dento cas criança e num botá a cara pa fora, mulé? Diz apontando com o dedo em riste enquanto ela cai aos prantos. --- Eu num saí da casa, Antôim, só fui buscá água e parei pa vê os minino que tava brincano perto da igreja. --- Vamo ficá por aqui uns dia e dispois nóis vai fazê picada potos lugá, muié, aqui nóis num pode ficá. Esse sô Domingo já deve de tá variano da idéia, num sabe? Muita gente queu cunversei trais esse vendêro na conta dum loco, mulé, dum doido. --- E dondé que nóis vai, Antôim? --- Inda num sei, mais ouvi dizê que tem uns lugá mais pa riba que deve de sê mió quesse fim de mundo, retruca Antônio Vicente roçando o queixo com feição de carranca. - - - Ao primeiro clarão do dia, no recém inaugurado palácio de verão da Freguesia de São Pedro de Petrópolis, as princesas Isabel Cristina e Leopoldina Teresa já estão à mesa para o dejejum, em companhia da preceptora Luíza Margarida, a Condessa de Barral. O mordomo de luvas brancas aproxima-se e as serve de leite, com o bule de porcelana ainda borrifando o fumo da fervura. Pãezinhos, roscas e biscoitos completam a primeira refeição de Suas Altezas, sempre às seis em ponto. --- Café, Sua Alteza? Pergunta o mordomo servindo em primeiro lugar a Princesa Isabel Cristina com a mistura predileta do Imperador, café com leite. --- Dona Luísa, não queres dar um passeio conosco? Diz a Princesa Leopoldina Teresa no afã de conseguir burlar a agenda do dia previamente discutida ao final da noite anterior. --- Certamente, Sua Alteza, mas no final da tarde. Por hora ainda temos muita coisa a fazer. Devemos nos preparar para recebermos o primo de vosso pai, o Arquiduque da Áustria, que aliás já chegou e se encontra hospedado no Hotel Oriental. --- Ora, Dona Luísa, mas porque não tiramos só um dia de férias, afinal, o meu papá não precisa saber? Diz a Princesa com um sorriso malicioso. --- Está bem, Sua Alteza, mas só depois de fazermos aqueles exercícios de piano, sim? --- De novo? --- A senhora não tem se concentrado o bastante, Dona Leopoldina Teresa, e isto eu não posso aceitar. Para dominarmos uma leitura musical só há um caminho: praticar, retruca a Condessa quando Frei Pedro adentra à sala com uma pressa não habitual. --- Suas Altezas, vejam, acaba de chegar uma carta do seu pai. --- Que boa notícia, Frei Pedro. Vamos, senta-te e toma um café conosco, diz a Princesa Isabel Cristina abrindo a carta enquanto todos aguardam a leitura. "Minhas queridas bonecas, espero que estejam bem de saúde e cumprindo todos os ensinamentos que a nossa mui cara preceptora tem lhes ministrado. Gostaria que lessem esta carta junto ao nosso bom e amado Padre Mestre..." --- Veja, Frei Pedro, é um recado para o senhor, fala a Princesa Isabel interrompendo a leitura. --- Para mim, Sua Alteza, mas o que ele diz? --- Aqui está. " Fui visitar o Convento do Carmo e conheci o quarto em que o nosso Padre Mestre aqui morou durante seus estudos. Debrucei-me sobre a janela que dá para a Travessa do Carmo e voltei meus pensamentos à bondosa figura do Frei Pedro. Diga-lhe que estamos conhecendo muita gente e que os anfitriões não sabem o que fazer para nos agradar. Já nos cansamos de tantas visitas, bailes, ceias e das tantas missas celebradas em nossa homenagem. Já consegui muitas informações para escrever a história das batalhas com os holandeses aqui em Pernambuco. Também conheci Igaraçu, a primeira vila do lugar, fundada em 1536. Dona Teresa Cristina está com muita saudades e manda beijinhos e lembranças às minhas Princesas..." --- Santo Deus, ele esteve no Convento, na minha cela. Quanta bondade do Imperador em ter se lembrado de mim, Sua Alteza, e pensar que ele só vai voltar em fevereiro, diz o velho padre com os olhos chorosos enquanto a Condessa do Barral acaricia-lhe o ombro. --- Ora, Frei Pedro, dois meses passam depressa e quando ele chegar, vamos fazer-lhe uma bela surpresa. Que tal começarmos o ensaio esta semana? --- Ensaio, Dona Luísa? Mas do que a senhora está falando? --- Altezas, que tal experimentarmos os dotes de ator do nosso Padre Mestre? --- Grande idéia, Dona Luísa, até já sei qual o papel que daremos ao Frei. --- Mas, Dona Leopoldina Teresa, do que as senhoras estão falando? Eu não sei representar. --- Que tal, Dom Quixote? Intervém a Princesa Isabel Cristina arrancando uma gargalhada de todos. --- Imagine só, Sua Alteza, eu sequer sei montar num cavalo e ademais, o doutor Sigaud me preveniu para evitar ao máximo qualquer esforço físico, retruca o Frei tentando mudar de assunto. --- Está bem, então vamos dar-lhe um papel mais fácil, com poucas falas. Já que estamos próximos do natal, que tal o de São Nicolau? Diz a Condessa arrancando mais risos das princesas. --- Está bem, Dona Luísa, contanto que me arranjem um trenó bem confortável e que eu não tenha de carregar aquele saco nas costas, retruca o Frei dando uma risada bonachona enquanto abocanha uma naco de rosca embebida na xícara de café. Conselhos paternos Passeando sobre o vasto jardim de sua mansão no Rio de Janeiro locada à rua Saco do Alferes, o Barão de Taunay e o filho Alfredo d'Escragnolle caminham em animada conversa, policiados pelo olhar ansioso da Baronesa Gabriela Taunay que os segue de uma das janelas do palacete. --- A sua hora chegou, meu filho, e temos que decidir sobre a sua carreira e o seu futuro. Já conversei com o General Luís Alves de Lima e ele me garantiu que a sua vaga na Escola Central já está reservada. É a melhor escola que temos e só depende de você, Alfredo, diz o Barão Félix Taunay apoiando o braço direito no ombro do filho no pleno gozo da juventude. --- Estive pensando a respeito, meu pai, e devo dizer que a carreira militar não está nos meus planos. Gostaria de estudar música ou medicina. O que achas? --- Ora, Alfredo, quantas vezes preciso repetir-lhe que a música só tem valor nas cortes de Europa e que os médicos levam uma vida muito penosa. Convivem com os doentes e são eternos escravos do ofício. Nem dormir direito eles conseguem. Na Áustria, eles são tidos como pessoas comuns e fazem parte da criadagem de muitas casas. --- Mas, senhor meu pai, eu tenho conversado com o doutor Jobim e com o doutor Luís Vicente De Simoni e devo dizer que eles não pensam como o senhor. É certo que a medicina é um sacerdócio, mas também tem suas compensações. A medicina e a música, meu pai, é disso que eu gosto, é a minha vocação. --- Escuta uma coisa, Alfredo. Como amigo que sou do Imperador, já conversamos sobre o seu futuro. Ele também está de acordo que terás uma carreira brilhante no exército e na política, mas primeiro terás que cursar a Escola militar para defender com galhardia a nossa pátria e os princípios monárquicos. --- Exército? --- O tempo voa, meu filho, e as coisas também mudam com ele. Tenho certeza que logo irás tomar o gosto pela engenharia e pela carreira militar. E tenho certeza que em breve terás um bom posto em nosso glorioso exército. --- Engenharia? --- Sim, Alfredo, engenharia. --- Mas e as guerras, senhor meu pai? --- Não ouviste os ensinamentos da sua mãe, Alfredo? Caso aconteça de você um dia ter de servir à pátria, irás à guerra como foram os seus avós e todos os nossos antepassados, mas voltando dela glorioso e honrado. --- Carreira militar, senhor meu pai? --- Sua mãe também está ansiosa em saber da sua decisão, Alfredo. Vamos, dá este presente a ela, sim? Vá e diz-lhe que ouviste os conselhos de teu pai, retruca o Barão olhando para a janela onde a Baronesa Gabriela Taunay os espreita em meia fresta. --- Meu Deus, murmura o jovem levando a mão na cabeça. --- É assim que se fala, meu filho, com determinação e cabeça erguida. Que bom você ter optado pela melhor carreira. Hoje mesmo vamos fazer a inscrição para que entremos com o pé direito no ano novo. Boquiaberto pela susto de uma empreitada sem volta, o jovem Alfredo Taunay mal podia imaginar a teia caprichosa que o destino lhe reservara. A pobreza ralha e a riqueza lisonjeia. Após deixar a vila de Sobral onde a experiência de caixeiro não o cativou, Antônio Vicente muda-se com a família para Campo Grande e consegue um bom emprego, desta vez como aprendiz de rábula e escrivão do juiz de paz. Esses juízes eram nomeados pelos Presidentes das Províncias para mediar e julgar demandas referentes à indenização de pequenas causas, estas não podendo ultrapassar um valor monetário estipulado para cada região, o que girava em torno de seis mil réis. O pouco tempo que ali passou, testemunhou a miséria nua e crua dos desvalidos à margem de qualquer direito, de qualquer assistência ou orientação. Em pouco, desentende-se com seu superior a despeito da lerdeza de sua escrita e de uma caligrafia disforme, salpicada de borrões e erros primários. Mesmo assim, as poucas semanas que esteve na vila e a decepção que tivera como escrivão não esmoreceu sua vontade de persistir num ofício que o distanciasse da indigência ou da lida tediosa e miserável dos vaqueiros. Estóico, embora decepcionado com o acúmulo de tentativas fracassadas, muda-se novamente para paragens desconhecidas. Chegando ao povoado de Ipu, instala-se com a mulher num casebre de adobe e sem reboco, situado ao fim da única rua. Fora cedido pelo vizinho, um açougueiro e comerciante de gado que vez ou outra sangra um boi para abastecer os muitos fregueses com a iguaria preferida dos sertanejos, a carne salgada e seca ao sol. Pela primeira vez a sorte batera à porta de Antônio Vicente, mas com o apadrinhamento e a interferência do padre Xavier Galhardo, um pároco que visitava os povoados de tempo em tempo e cuja empatia com aquele homem baixo e raquítico se concretizaria logo no primeiro encontro, numa missa. Terminado o culto e acompanhado da mulher e dos filhos, Antônio Vicente aproxima-se do padre e pede-lhe a benção, como que se apresentando. --- Deus lhe abençoe. Mas parece que não os conheço. Vocês são moradores da vila? Pergunta o padre em voz serena enquanto estica a destra que é de pronto beijada pela mulher Brasilina. --- Chegamo por esses dia, seu padi, e já sentamo morada, num sabe? --- Sei, sei, mas trabalhas com o que, senhor? --- Antônio Vicente, um criado de Deus Nosso Sinhô. --- Mas vives do que, Antônio? --- Inda num arrumei sirviço, mas tenho um dinherim guardado, seu padi, e até hoje, graças ao bom Deus, nunca fartô pa cumê. --- Entendo, mas que tipo de trabalho o senhor já fez? --- Já fiz de tudo nessa vida, seu padi, já lidei com gado, trabalhei munto zano numa venda e até já ensinei muita gente a lê e a escrevê, num sabe, diz em voz pausada na tentativa de não deixar transparecer os seus poucos conhecimentos no lidar com a fala diante de um letrado. --- Ora, vejam, então sabes ler e escrever? --- Se o santo padi quisé eu posso prová, retruca Antônio Vicente apontando para o missal aberto em cima do pequeno altar. --- O senhor é dado à bebida, seu Antônio? --- Eu nunca puis uma gota de arco na boca, seu padre, isso eu posso inté lhe jurá. --- Ora, deixa disso, homem, não devemos ficar evocando o nome de Deus em vão. --- Sim, sinhô. --- Tu já me convenceste, Antônio, me pareces ser um homem direito. Eu soube que no Forum estão precisando de um solicitador. Conheces esse serviço? --- Não, seu padi, mas faço gosto em cunhecê. --- Ótimo, então amanhã mesmo eu vou falar com o juiz e quem sabe, o senhor possa conseguir o emprego. --- Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, seu padi, eu nem sei como agradecê. --- Amanhã à tarde eu devo rezar uma missa para os enfermos, aqui mesmo. Não queres assistir? --- Quero, sim sinhô. --- Então está combinado. Depois da missa vamos até o Forum e conversamos com o juiz. --- Que Deus abençoe o santo padi, diz Antônio Vicente beijando-lhe novamente a mão, refletindo nos olhos miúdos e inexpressivos a luz esperançosa de uma bonança merecida. Que porto, senão um emprego fixo poderia melhor abrigar um homem com mulher e filhos para alimentar? Mas, voltemos à Corte. Vista do alto e em principio de noite, as luzes do centro da capital agem como chamariz aos que buscam fugir um pouco da mesmice e da imundície das ruas no calor dos dias. Os miseráveis estão confinados aos guetos e às vielas escuras, mas em alguns lugares, já é comum se ouvir burburinhos festivos, principalmente nos cabarés que começam a multiplicar-se com o advindo da iluminação a gás, certamente o embrião maior das noites cariocas. As nove carruagens paradas defronte à casa do advogado Deucleciano Cavalcanti são um indicativo certeiro de um dia de festa. Alguns cocheiros que fazem a vigia, saboreiam por tabela o som das mazurcas e das valsas que vaza por entre as janelas semi abertas da mansão em noite de sarau requintado. Dúzias de convivas estão ao redor de um Broadwood, um piano inglês novinho em folha, habilmente executado pela anfitriã Lucíola Cavalcanti que os presenteia com as últimas peças em voga nas Cortes de Europa. --- Bravo, dona Lucíola, magnífico, diz um conviva em aplauso exagerado, puxando uma leva de elogios das muitas celebridades presentes, a maioria ligada ao partido liberal. O senador Cavalcanti, visivelmente orgulhoso com os dotes da nora até então desconhecidos, aproxima-se da roda de taça em punho. --- Parabéns, senador, confesso que não sabia que tinhas uma concertista na família, intervém o deputado José de Alencar brindando o colega de partido. --- Ara, diputado, sangue de Cavarcanti é assim memo. Quando num dá puma coisa dá pa ôta. --- Perdoe-me, senador, mas a dona Lucíola é a sua nora, não é a sua filha, retruca o doutor José Barbosa, o médico da família. --- Oxênti, dotô, pois se ela casô co meu fio ela tumém é minha fia, num sabe? Diz o senador provocando uma gargalhada geral. --- Obrigada, senhor meu sogro, confesso que não esperava ganhar um piano de presente, diz a nora Lucíola levantando-se e beijando o senador, o que o deixa ainda mais contente. --- É queu gosto muito de musga, minha nora. Mais lhe digo, se eu tivesse essa tua ligereza nos dedo eu até que ia aprendê umas moda, num sabe? --- Não queres tentar, meu sogro? retruca a nora apontando-lhe o teclado, fomentando uma nova carga de risos enquanto Deucleciano aproxima-se com duas taças de champanhe e serve a mulher. --- Minhas senhoras e meus senhores, ergamos um brinde a nossa mais nova maestrina da Corte do Rio de Janeiro, diz o marido jubiloso erguendo a taça ao que todos compartilham. Segue-se a festa com alguns participando da cantoria improvisada enquanto outros voltam-se para a confraria habitual dos homens de um lado e as mulheres do outro. --- Deputado, permita-me cumprimenta-lo pelo seu livro. O Guarani é realmente uma obra prima, genuinamente brasileira. Afinal das contas, quem é mais brasileiro que os nossos índios, não é verdade? comenta o doutor José Barbosa em tom formal. --- Obrigado pelo elogio, doutor Barbosa, mas soube que estás cotado para a provedoria da Santa Casa, diz o deputado José de Alencar. --- É verdade, deputado, mas devo dizer que o Marquês de Abrantes é um ótimo administrador e deverá permanecer no cargo. Mas o que mais nos preocupa são as despesas, deputado. Não estamos recebendo os recursos necessários para um atendimento ao contento. E devo dizer que ainda temos também um outro problema gravíssimo. --- Não me digas que temos outra epidemia, doutor. --- Pior que isso, deputado. É aquela roda dos enjeitados, meu caro. Não passa um dia sem que alguma mãe desnaturada deixe algum infeliz para as irmãs cuidar. Chega a dar pena, sabe? --- Mas o que o senhor tem em mente, doutor? --- Precisamos de mais segurança, deputado, de pessoas com mais devoção ao trabalho. --- Como assim, mais segurança, doutor Barbosa? --- Veja o senhor, na semana passada, quatorze pacientes fugiram no meio da noite e até agora não tivemos qualquer notícia sobre o paradeiro deles. É bem verdade que não eram pessoas importantes, mas o nosso dever é trata-los da melhor forma possível. --- Entendo. Mas qual seria o motivo desta debandada, doutor? --- Creio ser o cristel, deputado. Muitos reclamam da terapia e alguns até precisam ser amarrados para se fazer a lavagem. Creio que eles ficam um tanto envergonhados com a presença das freiras, retruca o médico em riso sarcástico enquanto o anfitrião Deucleciano Cavalcanti se achega acompanhado de um almofadinha desconhecido. --- Senhores, permita-me apresentar-lhes o senhor Jean de Meaux, um grande mestre da pintura que está de passagem pelo Rio de Janeiro. --- Muito prazer, senhor. Mas vieste ao Brasil a serviço de França? Indaga o deputado José de Alencar. --- Não, não, deputado, o senhor de Meaux veio a convite do nosso Arcebispo para restaurar alguns afrescos da Matriz do Carmo. --- Ora, vejam, então temos aqui um artista de verdade, intervém o médico. --- Muito prazer, doutor José Barbosa, ao seu dispor. Mas quanto tempo o senhor pretende ficar no Brasil? --- É trabalho para mais de um ano, doutor, ademais, estou gostando muito da cidade e pretendo pintar algumas paisagens. --- Vossa mercê também faz retratos, senhor de Meaux? --- Sim, na verdade é a minha especialidade. --- Doutor Deucleciano, parece-me que o nosso amigo caiu do céu. Há anos que minha mulher quer ser retratada por um pintor. Custa muito, senhor de Meaux? --- Acabei de terminar um busto da VisCondessa de Bonfim por um conto e duzentos mil réis, senhor. --- É o preço de três ou quatro escravos, mas é razoável. Assim que o senhor estiver disponível, apareça em meu consultório para acertarmos os detalhes, sim? Retruca o médico com ar de satisfação. Deucleciano dá um tapinha nas costas do visitante. --- Não lhe disse, Jean, que aqui é uma terra de oportunidades? --- U, la, lá. Sentados numa poltrona ao canto da sala, o jornalista Arlindo de Castro conversa com alguns convivas, entre eles o médico Eugênio Tostes de Albuquerque, médico e professor da Academia Imperial de Medicina. --- Então, seu Arlindo, é verdade que foste a Petrópolis fazer uma entrevista com o Arquiduque da Áustria? --- Sim, doutor Eugênio, voltei ainda ontem. O Arquiduque Maximiliano III veio fazer uma visita ao Brasil e ao nosso Imperador, que, aliás, também seu primo. Mas deu com os burros n'água. A comitiva imperial só deve voltar do norte em fevereiro ou março. --- Minha nossa, então o Arquiduque perdeu a viagem? --- Não, doutor, ele deve ficar mais uns dias em Petrópolis e logo vai seguir viagem para se encontrar com o Imperador, provavelmente no Espírito Santo. --- Mas o que será que esse Arquiduque quer com o nosso Imperador? Intervém o capitão do exército Sérgio Flores. --- Ele não quis me adiantar nada, capitão, mas pelo visto, creio que algum ministro já deve estar tratando do casamento das Princesas. --- É verdade, senhores, Dona Isabel Cristina acaba de completar quatorze anos e Dona Leopoldina Teresa é só um ano mais moça. Já estão passando do ponto, diz o deputado Severino Pantoja em risada bonachona. --- Ora, seu Arlindo, mas se isto for verdade, quem for o escolhido para desposar a Dona Isabel Cristina herdará o trono do Brasil, retruca o capitão baforando um charuto. --- Se o casamento for tratado nas cortes da Europa, imaginem o susto que os noivos terão quando virem de perto as nossas princesas, finaliza o jornalista arrancando uma gargalhada de todos. Já passa da meia noite quando a última carruagem deixa a casa que ainda se mantém com algumas luzes acesas. Exaustos, mas contentes com a recepção, Deucleciano e Lucíola vão para o quarto de mãos dadas, como há muito não faziam. Sentada defronte a penteadeira, ela escova lentamente os cabelos longos enquanto observa, pelo espelho, o marido despir-se e esticar o corpo na cama. --- Venha, Lucíola, estou com saudades, diz Deucleciano olhando para o dossel enquanto a mulher se achega, aninhando-se no lençol. --- Senhor meu marido, eu acho que vou lhe dar mais um filho. Já faz quase dois meses que não vem as regras, diz esfregando as mãos sobre o ventre enquanto Deucleciano verga o corpo com os olhos de espanto. --- Meu Deus, então é verdade? --- Não é o senhor que vive dizendo que devemos arranjar um irmão para o nosso Diogo? Retruca sorridente acariciando-lhe o rosto. --- Vem cá, meu amor, vamos, tire essa roupa e me dê um abraço, diz o marido cobrindo-a de beijos e esfregando as mãos sobre as pernas magras, ajudando-a a despir-se por completo como nunca fizera, tocando-lhe em seguida a genitália peluda que já se mostra melosa e receptiva, aguçando ainda mais sua libido. --- Devagar, meu marido, devagar, murmura em voz abafada abraçando-o enquanto sente a verga penetrar-lhe as entranhas num vai e vem repetitivo, sentindo aos poucos um calor percorrer-lhe as veias e uma sensação de prazer como nunca sentira. Fartam-se. Os corpos, de há pouco entrelaçados pelo frenesi do gozo, agora estacam-se em simultâneo, cedendo às imposições do completo esgotamento físico. Como que numa hibernação conjunta, adormecem. Chuva caída é prece atendida... Amanhece no sertão do Ceará. Na vila de Ipu, o cair das primeiras chuvas da estação do inverno parece atender às preces das incessantes romarias. Percebe-se de imediato um renovar de esperanças no descambar das águas a ressuscitar a fauna e a flora que jaziam em dormência descomunal. Um jegue é visto deitado sobre uma pequena poça d'água que se formou no adro da igreja a esfregar o couro ressequido das costas sobre a lama de há muito esperada. Alguns moradores saem das ocas para estenderem os braços aos céus, como profetas a confirmar suas predições e agradecer ao Criador o jorro da vital de uma fartura fugidia. Muitos ajoelham-se e ali permanecem no banho passageiro, compartilhando a fartura do milagre mais valioso da terra, do tesouro que sabem não muito durar. --- Vigi Maria, mulé, num falei que Deus ia atendê nossa prece? Murmura Antônio Vicente à mulher tentando em vão desviar-se das inúmeras goteiras que empoçam o chão batido da tapera reformada. --- Benza Deus, Antôim, retruca a mulher esboçando um sorriso desdentado, de há muito escondido na caixa da amargura. --- Cê fica aí cas criança, mulé, que vô dá um pulim na igreja amódi cunversá co padi. Se ele mandô me chamá é pruquê deve de tê acunticido arguma coisa, num sabe? diz em fala animada rumando para o largo da praça. Dúzias de velhos e beatas estão ajoelhados no interior da igreja desprovida de mobiliário respondendo às rezas puxadas pelo padre Xavier Galhardo quando Antônio Vicente adentra o recinto misturando-se com os fiéis, passando despercebido pelo pároco que não desvia a atenção do culto matinal. "... A vós bradamos, degredados filhos de Eva, a vós imploramos gemendo e chorando neste vale de lágrimas...", e segue-se o Mea culpa com o rebanho de punhos cerrados batendo a fronte das carcaças em desmanche, numa penitência generalizada. Após uma hora em louvor ao Santíssimo, volve a farândola anêmica às capuabas umedecidas pela chuva dadivosa. Antônio Vicente permanece na capela a espera de uma palavra com o padre. --- Ah, é você, Antônio? Se achegue. --- Sua bença, sô padi. --- Preciso lhe mostrar uma coisa, Antônio. Venha, vamos até o cemitério, diz o padre saindo pela porta lateral. Contornada a igreja, os dois chegam ao campo santo cercado com alvenaria de tijolo cru. Uma parte do muro lateral está caída, dando passagem às cabras que pastam o capim brotado no arrabalde das covas. --- Santo Deus, diz Antônio Vicente enxotando os animais em pressa desmedida. --- Por isso mandei te chamar, Antônio, grita o padre. Tenho de visitar muitas vilas e agora, mais essa. --- Deve de tê sido a chuva, so padi, mas o certo é que assim num pode ficá, num sabe? --- Não estou com tempo e nem dinheiro, Antônio, e ainda terei de me ausentar por uns dias. Por isso mandei te chamar. --- O padi pó dexá que inté minhã esse muro tá de pé. Inda hoje memo eu vô junta uns hômi amódi me ajudá. --- Assim é que se fala, Antônio, eu sabia que podia contar com tua ajuda. Que Deus te abençoe, retruca o padre estendendo-lhe a mão que é de pronto beijada. --- Sua bença. --- Dê lembranças minhas a sua mulher, Antônio, e diga-lhe que quero ver vocês aqui, na missa de natal. De volta ao casebre que tem por lar, vê a mulher Brasilina conversando com um furrie*l montado a cavalo, que logo despede-se em galanteio diferenciado, levando a mão ao quepe e saindo na direção oposta. Ela ainda permanece na porta a raspar a sola do pé direito no chão ao mesmo tempo em que contempla o céu. Estacado, Antônio Vicente franze a testa e olha para os lados, certificando-se de que não é observado. Em relance, percebe uma velha fazer o sinal da cruz e desaparecer de uma janela que traz por mirante naquela viela desabitada. Num átimo, ele relembra dos casos que o ancião Januário Golveia contava no sopé das tardes e também a triste sina que teve um parente de seu pai, morto a facadas pelo marido traído que presenteou a mulher com o mesmo fim. Após esquartejar os dois corpos e espalhar os pedaços pelo único cômodo da tapera em que vivia, sumiu no mundo. Achega-se em silêncio e adentra a morada, flagrando a mulher deitada com as pernas abertas sobre a rede, com os olhos fechados e a roçar a vulva em início de masturbação. --- Mais óia só..., grita em sopetão. --- Cê já vortô, Antôim? --- Cria modo, mulé, isso lá é jeito de ficá em casa? Cadê as criança? Diz em tom irado vendo a parceira levantar-se desgraciosa. --- Cruz credo, Antôim, inté parece a mãe. A dona Lurdi levô eis amódi brincá cos neto dela, mais agorica memo eis tá de vórta, responde-lhe a mulher dando-lhe um abraço não receptivo. --- Quem era esse hômi qui tava aqui? Êim, êim? --- Nada não, Antôim, ele só priguntô quem nóis era, dondé que nóis veio. Ele é sordado e só tava fazeno a ronda, num sabe? --- Sordado, fazeno a ronda? A pois eu já num falei que eu num quero cocê fica cunversano cum quarqué um, mulé? --- Tá bão, Antôim, mais agora vem cá queu tô quereno, num sabe? responde a mulher encostando a portinhola. --- Vêm, Antôim, eu tô pricisano docê, vêm? Diz-lhe tocando a braguilha e acariciando-lhe a peça. --- Cê tá doida, mulé, cum tanta coisa pa fazê e ocê tá pensano em buliná numa hora dessa? Taramelada a porta ela ergue o vestido em tiras e mira-lhe a anca desnuda, subindo com os pés descalços em dois tijolos que tem junto a parede. --- Vem, Antôim, vem queu tô quereno... Aberta a braguilha ele a cobre em devagar, pela primeira vez retardando o gozo e saciando-a como nunca, pressionando-a contra a parede em estocadas violentas e contínuas, arrancando-lhe da boca aberta um arsenal de gemidos extraídos a cada investida, até que vem-lhe a apoteose, terminada num insistente aperto das mãos nos ombros suados da parceira que ainda marca o reboco da parede com um último arranhão. Por instantes ficam mudos, ouvindo-se apenas o bufar dos corpos cansados. --- Eu tenho que saí, mulé, amódi fazê umas coisa po padi Xavié, num sabe? Me passa uma caneca d'água, diz abotoando a braguilha. --- Ajudá o padi, Antôim? Já num chega trabaiá na poliça e ficá insinano as criança iscrevê os nome? Dinhero qué bão, nunca tem, retruca Brasilina em resmungo costumeiro, servindo-lhe a água. --- Num é na poliça queu trabaio, mulé, é no Fóru, num sabe? Mais esse negóço do padi é coisa poca. Vô dá umas vórta e caçá uns hômi amódi ajeitá uns tijolo do muro do cimitério que a chuva tombô. Eu num posso negá um pidido do padi, inda mais dispois de tudo quêle feis pa nóis. Falá nisso, ele mandô lembrança. Diz que é pá nós í na missa de natá, fala em tom mimoso enquanto vê por entre a fresta da porta, três velhas saindo de um casebre defronte ao seu, todas portando trapos e bacias. --- Que qué aquilo, Brasilina? Pergunta saindo à rua. --- A Maria do Tião Galinha panhô cria, Antôim. Tava num berreiro que só veno. --- Tumém, ca barriga quéla tava, deve de tê demorado bem pa rebenta o bichim. Mais logo eu verto, mulé, e dispois nóis vai dá um pulim na casa do Tião amódi vê seis tão pricisano dalguma coisa, diz já em passadas apressadas em direção ao largo da praça. E os dias seguiam as noites agora marcados pelo grasnar das sericoras, sem qualquer pressa ou lerdeza, no fluxo natural da cadeia predatória onde, após o choco de uma rola, surge em repentino a majestosa raposa dos céus, um carcará vistoso que em bote certeiro surripia-lhe o par de filhotes, deixando para trás apenas o arrulhar melancólico da avoante defronte ao ninho vazio, um ninho coberto de penas. O prelúdio de uma desgraça Sobre a baía da Guanabara, um calor repugnante instiga as senhoras espremidas pelos espartilhos a abrir seus leques sem valia, enquanto os homens muito padecem sob as casacas de veludo ou de pano grosso. Quatro carruagens estão estacionadas defronte à mansão de Deucleciano Cavalcanti, quando uma outra se achega. O doutor José Barbosa desce apressado e adentra a casa com sua valise escura. --- Por aqui, dotô, diz o senador Cavalcanti com a cara enfezada recebendo o médico e conduzindo-o até um quarto onde a sinhá Estefânia está deitada, imóvel, a face empalidecida e com os olhos sem brilho. Em derredor à cama estão alguns parentes a responder às Ave Marias puxadas pelo padre Damião. O médico abre a valise e retira um pequeno funil de madeira, colocando-o sobre o peito da moribunda. --- Silêncio absoluto, diz o médico ao encostar a orelha direita na extremidade do aparelho. Deucleciano entrelaça as mãos e aproxima-se para ouvir o diagnóstico já esperado. --- Senador Cavalcanti, doutor Deucleciano, meus sinceros pêsames, retruca o médico vergando o corpo enquanto explode o choramingo que irá perdurar madrugada adentro. Na boca da noite do mesmo dia, defronte a senzala da Fazenda Cachoeira, uma fogueira é circundada pela imensa escravaria que, agachada ou esparramada no chão, entoa cânticos festivos ao compasso das palmas marcando a cadência da cantoria rotineira. Há três dias que não se tem notícia dos patrões, quando a sinhá Estefânia caiu bruscamente na cozinha e o senador Cavalcanti a levou moribunda para a cidade. Armados de espingarda, o feitor João Raposo e mais dois capangas estão de vigia ao casarão desabitado. --- Seis fica aqui de zóio em pé que eu vô lá dento amódi tumá um café, ordena João Raposo contornando a casa e adentrando a cozinha que ainda se mostra com o fogão em meia brasa. Deitada em seu quarto com uma camisola branca, a mulata Joana ouve um barulho e levanta-se com o candeeiro à mão. Com o rosto em meia porta, vê o feitor na cozinha servindo-se de um bule que fica sobre a mesa. --- Que cocê qué aqui, João Raposo? Grita Joana achegando-se em passadas cautelosas. --- Só vim tumá um golim de café, minha nega. A noite vai isfriá, num sabe? --- A sinhá já num falô que num qué ocê aqui dento? --- Sei não, Joana, mais to achãno que a sinhá num vai mais vortá pesse mundo. Cê num viu o jeito quéla saiu daqui? --- Vira essa boca prá lá, João Raposo. --- Coitada, a véia tava babãno que nem bezerro no fim da mamada. --- Cruiz credo, mais agora vê se pega um pau de lenha que eu vô fazê um café novo. Esse já deve de tá cum frumiga. Só que ocê num conta pá ninguém que veio aqui, viu? Se o senadô subé é capaz de pô nóis dois no tronco. --- Ô, minha santinha, é assim que eu gosto docê, retruca o feitor tirando a lenha debaixo do fogão e logo abanando o fogo com o chapéu. --- Dêxa eu pegá a chalêra, diz Joana levantando o braço rumo ao arsenal de panelas dependuradas numa prancha ao alto da parede. Ao vê-la remexer a anca carnuda apoiada na ponta dos pés tentando alcançar a chaleira, o feitor encara a dança como um convite à maçã proibida. Ao invés da ponderação, ele a ataca como nunca dantes ousara. --- Dexa eu te ajudá, minha santa, retruca João Raposo achegando-se por trás, abraçando-a num roçar buliçoso e assustando-se com a surpresa jamais esperada, a receptividade. Quietos, ali permanecem enquanto ele desbrava vagarosamente a geografia morna daquele corpo há tanto cobiçado, até que ela puxa sua mão em direção à virilha desnuda. Lentamente ele começa a roçar-lhe a genitália melosa e apertada quando subitamente, ela se vira com os olhos fechados e toca sua verga, espantando-se com o volume da peça. --- Tranca a porta e vê se num faiz barúio, viu? diz a mulata com a voz abafada, retirando-se para seu quarto de candeeiro em punho. Num piscar de olhos ele a vê deitada sobre a cama, desnuda por inteiro e com um sorriso malicioso. Arriadas as calças, ele mergulha sobre a mucama em bote felino, penetrando-a como um aríete arrombando um portal de fortaleza, fazendo-a gemer de medo e prazer com os golpes insistentes da verga colossal em vai e vem demorado. --- Nossa, João, num para não, balbucia em seu ouvido quando sente o galopar em crescendo da peça em suas entranhas, abraçando-o com as pernas que pressionam-lhe as costas no limiar do gozo que se dá sem demora. O suor dos corpos anestesiados de prazer e o fedor do ato contamina a atmosfera rarefeita. --- Dexa eu abri a janela, dexa? diz Joana levantando-se enquanto o parceiro a espia em meia pálpebra. --- Ocê num qué mais, minha santinha? --- Agora ocê vai cuidá do teu sirviço que eu vô fazê um café. A dispois cê vem pa bebê, responde-lhe a mulata assentando-se novamente à cama e acariciando-o no peito. --- Cê tá certa, minha santinha, mais loguim eu vórto. Se não arguém pó discunfiá de arguma coisa, num é memo? --- Antão, vai, João, mai vê se vórta logo, retruca Joana vestindo a camisola branca. --- Só mais uma coisa, Joana, se ocê quisé, quarqué dia te levo embora desse lugá pa nóis vivê junto, num sabe? --- Embora pa onde, João? --- Pa cidade, Joana, lá tá cheio de gente que vevi munto mió que aqui. Cê num qué fugi mais eu? Diz o feitor vestindo as calças. --- Tá bão, João, mais só dispois que ocê inricá, retruca a mucama em risos, abraçando-o num chamego jamais esperado, roçando a perna por entre as dele a fomentar uma nova cópula que se dá em imediato, desta vez com a mulata cavalgando sobre o corpo do feitor sentado à cama, de logo nocauteado por um novo gozo, mais ardente e demorado. Às onze horas da manhã seguinte, no cemitério da igreja da glória, políticos e amigos dos Cavalcantis ouvem em silêncio a encomendação da alma da defunta ministrada pelo padre Damião. --- Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo...finaliza o prelado borrifando o caixão com água benta ao baixar à sepultura. Calado e visivelmente abatido, o senador Cavalcanti recebe as condolências ao lado do filho e da nora Lucíola. Em pouco, raleia-se a necrópole no preludiar da tarde. O doutor José Barbosa caminha ao lado de alguns amigos que o abordam a respeito da causa mortis da falecida. --- Será que foi a febre, doutor? Pergunta-lhe o deputado José de Alencar acendendo um charuto. --- Não, deputado, a febre não mata de uma hora para outra. Leva tempo e os sintomas não são boa coisa de se ver. Creio que neste caso foi a falta de bombeamento sangüíneo. Quando o coração pára de bater, que Deus nos livre, não há muito o que fazer. Mas agora, senhores, se me derem licença, tenho que visitar um paciente, retruca o médico tirando o relógio do colete. No paço de São Cristóvão, após a queda do Gabinete Ângelo Ferraz, várias caleças estão paradas diante do palácio em noite de jantar solene. O homenageado é o já empossado Ministro da Inglaterra, William Dougal Christie. Sentados numa grande mesa ovalada, estão o recém nomeado Presidente do conselho de Ministros, o General Luís Alves de Lima e Silva, ladeado pelo ministro da guerra, Polidoro, o da marinha, Almirante Lamare, o da agricultura, Sinimbu, o da justiça, Maranguape, e dos negócios estrangeiros, o Marquês de Abrantes, além dos ministros da Rússia, dos Estados Unidos da América e de Saint-Georges, ministro da França. Na cabeceira está o Imperador a observar discretamente as feições do homenageado que está sentado na extremidade, um homem alto, cabelos amarelados, de postura ereta e face carrancuda, além de um olhar arrogante e desconfiado. O General Luís Alves de Lima obedece ao sinal do Imperador e toma a palavra. --- Sua Majestade, senhores ministros. Como Presidente do Conselho de Ministros devo dizer que é para nós um grande honra recebermos o representante diplomático da Inglaterra, o ministro William Dougal Christie. Ergamos um brinde ao nosso mais novo embaixador, com os votos de uma amizade profícua e duradoura entre as duas nações, ao que todos levantam as taças e sorvem o vinho. Como praxe, um outro brinde seguirá como resposta. --- Senhores ministros, brindemos a saúde de Sua Majestade, a Rainha Vitória e também a de Sua Majestade Dom Pedro segundo e de toda a sua família, retruca William Cristie mirando o cálix ao Imperador que retribui com o mesmo gesto. Após os aplausos é servida a ceia, regada a música e pompa, que perdura noite a dentro. De volta à vila de Ipu e debaixo de um sol escaldante, embutido numa batina escura protegida por um guarda pó e um chapéu de três pontas, o padre Xavier Galhardo chega montado num pequeno coche puxado por uma parelha de burro, logo estacionando ao lado da igreja. Adentrando a sacristia, é de pronto interpelado por duas rezadeiras que lhe pedem a benção. --- Que Deus lhes abençoe. Mas como vão as coisas por aqui? Diz ao tirar o guarda pó que pendura num cabide ao canto. --- Do memo jeitim que o padi dexô. --- E a chuva? --- Transantonti pispiô mai durô pôco, sô padi. --- Está bem, mas agora podem ir. Não deixem de avisar a vila que amanhã vamos rezar uma missa na parte da tarde, retruca o padre saindo por uma porta que dá para o quintal da igreja. O muro lateral do cemitério que havia desabado, agora está de pé, devidamente levantado em alvenaria de pedra, desprovido de qualquer reboco. --- Bom trabalho, murmura o prelado voltando-se para a sacristia. Ao final da tarde, o padre Xavier é visto entrando no Fórum. Um homem de cabelos brancos, vestindo uma casaca escura está debruçado sobre uma mesa fazendo anotações num grosso caderno. --- Doutor Eustáquio, como tens passado? Diz o padre cumprimentando o juiz de paz, que se levanta. --- Ora, ora, mas que surpresa, padre. Vamos, sente-se um pouco. Temos muito que conversar. --- Onde está o Antônio, doutor? Vim para agradecer o trabalho que ele fez no cemitério. Ficou muito boa a reforma. --- Ele não trabalha mais aqui, padre, até já arranjei um substituto. --- Meu por Deus, mas o que aconteceu? --- O pior, padre Xavier, o pior. --- Ele está doente, é isso? --- O que eu soube a vila toda já sabe, mas vou lhe contar. É a mulher do Antônio, padre. --- Ela faleceu? --- Pior que isto, padre. Ela o traiu. --- Santo Deus, e o Antônio? --- O coitado a flagrou em sua própria casa, fornicando com aquele furriel, o tal de João da Mata. Estão dizendo também que não era de hoje que eles fornicavam..., diz o doutor Eustáquio acendendo um cigarro tirado de trás da orelha. --- Mas e o Antônio, onde ele está? --- Ninguém sabe ao certo, padre. O Noquinha da venda o viu caminhando em direção ao Crato. Disse que ele estava a pé e que carregava apenas um saco nas costas. --- Mas ele deixou a mulher e as crianças? --- Com certeza estava culminado de vergonha, padre, e por certo ele não suportaria encarar as pessoas a cobrar-lhe a forra. --- Nisso o senhor tem razão. É o que eu digo sempre, doutor... Os prazeres da carne não medem as conseqüências... --- Aceitas um caneca d'água, padre? --- Não, não, Obrigado, mas me diga: Ele não conversou nada com o senhor, acaso não tinha dinheiro a receber? --- Tinha quase um mês de serviço em haver, padre, mas não o reclamou. A última vez que o vi foi há duas semanas, no final do expediente. No dia seguinte ele não apareceu para trabalhar de manhã e então mandei chamá-lo. Foi aí que eu soube do ocorrido. --- Sei, sei... --- Dizem que na tarde anterior, o Tião Galinha viu o tal sargento saindo da casa do Antônio pelos fundos, ainda tardinha, e que no outro dia ele voltou na mesma hora de sempre. Foi aí que o Antônio chegou. --- A abelha faz a casa, doutor Eustáquio, e o caçador é quem chupa o mel... Mas o que está feito, está feito. Agora devemos rezar para que Deus o ilumine e possa guiá-lo para a vereda do perdão, e não para as trilhas da vingança. Devemos dar tempo ao tempo. O doutor Eustáquio acende novamente o cigarro e solta uma baforada em prévia filosófica: --- ''... Sei não, padre, para essa gente, só mesmo a vingança é quem pode aplainar as ranhuras do infortúnio.'' --- Bem, foi um prazer conversar com o senhor, doutor Eustáquio. Recomendações a dona Perpétua, retruca o padre Xavier despedindo-se. Sob a copa de uma árvore solitária em meio a planura de um pé de serra, um homem alimenta vagarosamente uma fogueira com gravetos de galho seco naquele princípio de noite. Sentado ao chão, Antônio Vicente mira o fogo com um olhar fixo e lacrimoso, permanecendo por horas na mesma posição até que verga o corpo rente ao tronco e adormece junto ao braseiro. Na imensidão do firmamento, a lua cheia esconde-se atrás de uma nuvem carregada, mas que é de logo dispersada por uma brisa constante e fresca, voltando a clarear os caminhos dos predadores soturnos que seguem à cata do sustento rotineiro. Noite alta, uma suçuarana se achega na passada traiçoeira e silenciosa dos caçadores, rondando por segundos o homem que adormece ao pé do braseiro já minguado, em pouco galgando seu posto no cume da serra onde se assenta sobre uma fenda de rocha. Subitamente, um esturro felino rompe nos ares ecoando por toda a banda, silenciando de imediato a matraca peculiar das criaturas que perambulam na noite. Dias de ira Vista do alto, a iluminação à gás na capital de São Sebastião do Rio de Janeiro realça alguns pontos de luz, localizados e bem distantes, indicativos de uma vida noturna ainda em gestação. Nas ruas do centro, a Confeitaria Coimbra já é um ponto conhecido, ficando aberta até por volta da meia noite e mantendo alguns músicos de plantão a fomentar uma boemia nascente. Um ponto freqüentado por homens feitos e abastados, que fazem do lugar uma prévia para noitadas mais longas nos poucos cabarés e nas casas de prostituição que por ali se abeiram, visitadas amiúde por viajantes e alguns tripulantes da frota mercante estrangeira atracada na baía. Uma dúzia de marinheiros ingleses, acompanhados por alguns de seus oficiais, deixam a Confeitaria Coimbra e seguem a pé em direção ao final da Rua do Ouvidor, todos notoriamente bêbados, caminhando abraçados entre si, num misto de cantoria e algazarra rumo a uma viela desabitada. Próximo ao final da rua já se percebe o som de uma pianola vinda do Café Paris, um cabaré famoso por abrigar mulheres perfumadas e de fina estampa, na maioria prostitutas francesas que fazem da música e da dança o maior atrativo da casa. No momento todas as mesas estão ocupadas por fazendeiros bem trajados que se deleitam em tatear os corpos alugados. Súbito, a avalanche dos fanfarrões ingleses invade a casa em gritaria desmedida, com alguns avançando nas dançarinas que estão no palco e tomando-as por par, fomentando uma esbórnia de gritos e beijos forçados que logo culmina em pugilato com dois homens que revidam-lhes o insulto. --- Ó, meu Deus, grita a madame Colete, a dona do cabaré, ao ver a casa esvaziar-se em meio à balbúrdia crescente. --- Whisky, madame, grita um oficial inglês em gargalhada desdenhosa, abraçando uma das putas após chutar uma cadeira, sentando-se na postura arrogante dos que usam a mesa para o suporte das botas cruzadas. Do lado de fora, o burburinho protestante é de logo cessado com a chegada de três carruagens da polícia que vem comandada pelo delegado Lauro da Silva Marques, um policial esquelético e de pouca fala. Adentra o recinto com vinte soldados armados de mosquete e baionetas a lhe fazer retaguarda. --- Em nome de Sua Majestade o Imperador, os senhores estão presos, grita o delegado mirando os olhos do oficial inglês. Reina o silêncio. --- Ora, ora, delegado, só estamos nos divertindo. Não me digas que não gostas de mulher, retruca o oficial, levantando-se na dificuldade dos alcoolizados, provocando uma gargalhada desdenhosa nos seus subalternos. --- Gostaria de convidá-los a continuar sua noitada num lugar mais apropriado, capitão: na cadeia! Sargento Ferrúcio, leve-os para os carros e atire em quem oferecer resistência, finaliza o delegado em ordenança de pronto atendida. Em fila indiana, os baderneiros entufam-se nas carruagens, fiscalizados pela malta de curiosos que se aglomeram diante do cabaré, dentre eles, o jornalista Arlindo de Castro a rabiscar uma caderneta. Na manhã seguinte, novamente no posto de Presidente do Conselho de Ministros, o General Luís Alves de Lima e Silva está em seu gabinete inteirando-se dos fatos relatados pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, o Marquês de Abrantes, preocupado com a questão. --- O que faremos agora, General? --- O delegado Lauro Marques não fez mais que sua obrigação, senhor Marquês. Ademais, esses ingleses pensam ser os donos do mundo. --- Mesmo assim, General, creio que Vossa Mercê deveria mandar soltá-los antes que o embaixador inglês intervenha no caso. Nossos negócios com a Inglaterra são mais importantes que uma noite de bebedeira. --- Aquele William Christie é um homem arrogante, senhor Marquês, e creio que ele não titubearia em criar um enguiço só para nos chantagear. A propósito, o Imperador já soube? --- O Almirante Lamare já deve tê-lo informado, retruca o Marquês quando ouve-se bater à porta. --- Senhor Ministro, é para o senhor. Veio do Imperador, diz o mordomo entregando-lhe um envelope. O General lê o bilhete e fica pensativo por instantes. --- O Imperador pede que encerremos o caso ainda hoje, senhor Marquês. --- E então? --- Vamos soltá-los, mas com algumas condições. Serão subtraídos à nossa justiça mas com uma condição. Que voltem para o seu navio e não pisem mais em nossa terra. --- O embaixador Christie não vai gostar de ouvir isso, General, e pelo seu temperamento devemos esperar represálias. --- Na política do Brasil mando eu, senhor Marquês, e assim o será enquanto eu for o chefe de governo. Vamos soltá-los, mas que o delegado os escolte até o cais. --- Ótima decisão, General. Agora devo me apresentar ao Imperador para discutirmos a pauta da reunião com os embaixadores. Passar bem, senhor ministro, diz o Marquês deixando o gabinete. Vão-se as pombas dos pombais... Com a morte da Sinhá Estefânia, a Fazenda Cachoeira está em clima de luto. O senador Cavalcanti perdeu um pouco da graça e da disposição, ficando mais tempo no casarão e quase não saindo para cavalgar e fiscalizar os escravos, como fazia diariamente. Há dois meses que a nora Lucíola e o neto Diogo praticamente mudaram-se para a fazenda a lhe fazer companhia. Deucleciano agora divide os afazeres entre a cidade e a família, não se ausentando por muito tempo. Após o jantar, num começo de noite, o senador vai para o alpendre e estica o corpo numa rede, acompanhado pelo filho que assenta-se numa cadeira de balanço a folhear um jornal. --- Tô achano que inté minhã nóis vai tê chuva, meu fio. Num tá sintino o ventim? Diz o senador levando a mão para o alto. --- Hoje à tarde eu vi o senhor conversando com o João Raposo. Algum problema? --- Nada não, meu fio. É que eu mandei ele buscá um dinhêro na fazenda do coroné Artino Feitosa. --- Que dinheiro, meu pai? --- É queu vindi quato nêgo amódi ele interá um lote de duas dúzia quêle ficô de arranjá pro coroné Janjão, num sabe? --- Sei, mas ele já voltou? --- Deve de te feito poso por lá memo, mas inté minhã inhanti do armoço ele tá de vorta. --- Estive conversando com Lucíola, meu pai, e achamos que o senhor deveria ficar mais tempo na cidade, se distrair um pouco. --- Ara, meu fio, é o zói do dono que engorda o porco, num sabe? Eu já falei queu num quero e nem vô saí daqui, responde o senador na teimosia dos velhos. --- Eu sei, meu pai, mas é que agora não tem muito serviço e a colheita ainda falta muito pra começar. --- Sei não, Deucreciano, tá cunteceno umas coisa que inté parece praga de nego véio, num sabe? --- Como assim, meu pai? --- Primêro a muié disfalece, dispois a Joana que deve de tá embuchada. --- A Joana, meu pai, como assim? --- Ocê que num viu hoje cedo na cuzinha, meu fio. Tava gumitãno que inté parecia que tinha bebido sarmôra. Mais eu só tô quereno sabê que nêgo que buliu cuéla, diz o senador pensativo, enquanto Deucleciano arregala os olhos? --- Mas ela não disse alguma coisa, com quem se deitou? --- Danô a chorá e dispois deu pa imburrá, meu fio. Mais eu dei um prazim pa minina. Ô ela me conta com quem buliu ô vai drumi na canga da senzala inté eu achá um compradô préla, diz o senador raspando a sola do pé no assoalho de prancha bruta. --- Mas o senhor não pode fazer uma coisa dessas com a Joana, meu pai? --- Eu sei, meu fio, mais já tá feito. Mandei o João Raposo levá éla amodi passá uns dia no meio dos nêgo e no cabo da enxada inté ela me contá quem é o dono da cria. Adispois eu resorvo o que fazê co cabra. Deucleciano levanta-se e fica pensativo, lembrando-se dos inúmeros coitos que tivera com a mucama. Debruçado no parapeito do alpendre e com a mão apoiando o queixo ele olha para a senzala e acende um cigarro. Diferente de outros dias, a escravaria dorme em silêncio, sem qualquer canto ou resmungo a espantar o banzo vitalício. --- Preciso contar-lhe uma coisa, meu pai, mas é um segredo de homem pra homem, que deverá ficar somente entre nós, diz Deucleciano sentando-se junto ao senador. --- Apois fala, meu fio. --- É que a Joana pode estar carregando um filho meu. --- Que cocê tá falano? --- É verdade, meu pai. Desde que voltei de Portugal tenho me deitado com ela. No começo foi só uma brincadeira mas depois virou um vício que eu não consegui mais deixar. O senador verga o corpo na rede e leva as mãos ao rosto, assustado com a notícia. --- Deus do céu, eu num te avisei que eu num quiria cocê bulisse cuéla? Retruca o senador com a cara enfezada. --- Ora, meu pai, mas isso acontece todo dia. As fazendas estão cheias de escravos mestiços, e a maioria são todos filhos dos seus senhores. --- Esse rebento da Joana num pó nascê, meu fio. Amanhã memo eu vô falá ca nega Sabina amódi arresorvê esse enguiço. --- Mas o que a velha Sabina tem a ver com isso? --- Disque a véia faiz uns chá que é só as muié bebê que põe a cria fora, num sabe? --- Ora, meu pai, mande soltar a coitada e deixe que ela tenha seu filho como as outras. Não é o senhor mesmo quem diz que escrava embuchada é dinheiro no bolso? --- É queu num quero tê um neto aleijado, meu fio, nem excomungado, num sabe? --- Mas porque excomungado, meu pai? Quando a hora chegar é só falar com o padre Damião que ele vem e batiza a criança. Mas porque o senhor falou aleijado? --- Tudo tem a sua hora, meu fio, e tô achano qué hora docê sabê dumas coisa. --- Que coisas? --- A Joana, Deucleciano, a Joana é minha fia, num sabe? --- Meu Deus, o que o senhor está me dizendo? --- É isso memo cocê iscutô. E graças ao bom Deus que a sua mãe morreu sem sabê do acunticido. --- Deus do céu... --- Foi no tempo do engenho do Pernambuco, meu fio, eu bulinava ca nega Justina que era mucama da finada minha mãe. Aí um dia ela embuchô e dispois pariu a Joana. --- Então o senhor sabia e ficou calado todo esse tempo? --- No começo eu num gostava de pensá no assunto, meu fio, mais dispois fui pegano gosto pela neguinha. Quando eu comprei essa fazenda eu truxi as duas pa ajudá no sirviço da casa, mais num interô trêis ano e Justina morreu. Sua finada mãe tumém tinha gosto pela coitada, num sabe? Nunca ponhô a minina no tronco e nem fez marvadeza cuéla. Deucleciano ouve atentamente ao desabafo do pai, sempre intransigente, mas agora bem mais aliviado pela confissão. --- Meu Deus, então a Joana é minha irmã? --- É, meu fio, e ocê tá certo. Amanhã memo eu vô mandá o João Raposo sortá a minina e mandá a véia fazê os chá. E ôta coisa, essa conversa tem de morrê aqui. --- É claro, meu pai, e devo dizer que foi bom o senhor me falar a verdade. --- Ela num pó pari esse rebento, Deucleciano, diz o senador levantando-se a caminho da cama enquanto Deucleciano acende um outro cigarro, debruçando no parapeito onde fica a meditar. Na escuridão da noite, ele ouve o latir dos cães e a luz de uma tocha mover-se defronte a senzala, por certo algum feitor fazendo a ronda. Ao longe, no horizonte, destaca-se o clarão de relâmpagos silenciosos em prelúdio da rega bendita. Em pouco ele se recolhe para o sono. O amanhecer no vale se dá com uma chuva fina e persistente, intimidando a fauna encarangada a deixar as tocas e os ninhos. Uma das mucamas do casarão serve o senador com o seu desjejum predileto, a sopa de fubá. Em pouco, Deucleciano se achega e lhe faz companhia, embebendo o pão numa xícara de café com leite que sorve em barulho de gula. --- É, meu fio, eu tinha prumitido po Diogo que nóis ia dá umas vórta a cavalo mais vô tê que gorá a promessa, num sabe? --- Tens razão, meu pai, sair com essa chuva é pedir para ficar doente. --- O João Raposo me falô que a carne já tá minguãno. Vamo apruveitá o tempo pa sangrá um boi amódi quetá a negada. --- Se o senhor estiver de acordo, antes eu vou até a senzala mandar soltar a Joana. A coitada já sofreu bem mais do que merecia. --- Tá certo, meu fio, vamo ponhá uma pedra nesse assunto e dexá a minina vivê nos conforto da casa, retruca o senador quando um estrondo faz tremer o casarão, engrossando ainda mais a chuva. Deucleciano vai até a porta e contempla o pátio encharcado pelas diminutas cachoeiras que brotam em crescendo das cumeeira. Olha para e esquerda e vê a senzala ainda fechada, sem qualquer alma viva no seu campo de visão. Na estrada, a sua frente, o vento balança a copa dos coqueiros enquanto num piquete ao lado, uma tropa de burros mantém-se estatuária a receber a chibata do aguaceiro que cai em descambo colossal. Uma mucama adentra à sala e abaixa a cabeça. --- O Vardivino tá lá fora e qué falá com o sinhozim. --- Deucleciano, vamo lá vê quele qué, diz o senador. Estacado, um dos feitores da fazenda está ombrado ao portal da cozinha a molhar o chão com os respingos que brotam da vestimenta encharcada. --- Dia, meu sinhô, resmunga o homem tirando o chapéu enquanto Deucleciano e o senador se aproximam. --- Fala logo, Vardivino, o que foi, hômi de Deus? --- Sei não, meu sinhô, mais to achãno que o João Raposo mais a Joana caíro no mundo. O senador arregala os olhos --- O que cocê tá falano? --- Eu mais o Marcolino tava na ronda quando ele chegô de noitinha e desarriô o animá, meu sinhô. Dispois falô que era pra nóis i drumi quele ia ficá na vigia. Mais nóis inda viu ele abrino a senzala amódi tirá a Joana da cangáia. --- E ocêis num fizero nada? Diz o senador esmurrando a mesa. --- Ele falô quéra órdi do sinhozim Deucreciano, meu sinhô. --- Calma, meu pai, não vê que ele está dizendo a verdade? --- Agora eu tô entendeno, Deucleciano, foi aquele fio duma égua que embuchô a Joana, num sabe? Dispois ele pegô o meu dinhêro com o coroné Artino e vortô de noite amódi robá a nega. Mais aqueis dois num deve de tá longe. Vardivino, ajunta os hômi e pega a cachorrada que inda hoje nóis traiz aqueis dois no laço. --- Sei não, meu sinhô, inda gorinha eu fui nas báia e dei por farta de dois animá. E quéça chuva num vai se fáci os cachorro pegá no chêro. --- Ele está certo, meu pai, não vês que por hora não podemos fazer nada? Além disso, o João Raposo conhece bem a região, conhece a cidade. Com esse dinheiro eles já devem estar bem longe daqui. --- É, meu fio, ocê tá ca razão. Vardivino, agora ocê vai tumá o lugá daquele cão, num sabe? Vai sê o chefe da coiêta e dos capanga. Dispois da chuva, ocê reúne os hômi e traiz eis aqui pra mim te dá as órdi. Agora vai cuidá do teu sirviço, diz o senador voltando para a sala enquanto o pobre homem aperta a aba do chapéu molhado voltando os olhos para o chão, regozijando-se com o novo posto de feitor mor. Cabisbaixo na desola, vai o perdedor em rumo torto No povoado de Paus Brancos, interior do Ceará, um homem estranho às poucas almas do lugar atravessa o largo da capela e se achega a um armazém locado no cotovelo da praça. Com a barbicha levemente crescida, os cabelos em maçaroca e a vestimenta em trapos, ele sobe o único degrau da venda e ancora o braço ao portal. Uma velha com a cabeça envolta em pano escuro está sentada num banco atrás do balcão dedilhando um rosário. --- Louvado seja Nosso Sinhô, diz o entrante com voz submissa. A velha o encara franzindo a face, na vacilação peculiar dos portadores de visão debilitada. --- Pa sempre seja louvado, meu bom Sinhô. Tá quereno arguma coisa? --- A senhora sabe ondé que mora um tal de Lourenço Correia Lima? --- Que Lorenço cocê tá falano? O qué casado ca Chica? Um ar de alívio invade o semblante reprimido do andarilho. --- Esse memo, dona. Cunhece ele? --- Mora lá no fim da rua, meu sinhô, inhanti da úrtima casa, diz a velha apontando-lhe o caminho. Uma mulher de meia idade e com uma gravidez avantajada está sentada junto a um fogão com uma criança ao colo a sorver-lhe o peito. Ouve uma batida na porta e se levanta, tentando por entre as frestas identificar o vindouro. --- Já vai, responde a mulher soltando a taramela quando uma luz invade seu rosto. --- Minha Nossa Senhora... É ocê, Antôim Vicente? Indaga a mulher com os olhos chorosos diante do irmão que não via há mais de quatro anos. --- Sô eu memo, Francisca e pelo queu tô veno a famía tá ómentano, responde o irmão em sorriso desgracioso enquanto afaga a criança que persiste na mamada. --- Louvado seja meu São Sebastião, Antôim, mais vamo entrá cocê deve de tá cum fome. Vem pa dento que num demora o Lorenço tá de vorta. --- Cumé quele tá? --- Graças a Deus inté hoje ele nunca dexô fartá nada aqui dento de casa, Antôim. Mais me diga, cumé cocê vei pará nesse lugá? --- É, Francisca, eu tenho muita coisa pa contá, num sabe? Eu saí de casa e tô aqui só de passage. --- Oxenti, mais de passage pa onde? Pergunta a irmã quando o marido adentra a casa assustando-se com a mulher de prosa com um estranho. --- Ó quem tá aqui, Lorenço. Num tá lembrado do Antôim, meu irimão? Diz Francisca na alegria de uma boa nova. --- Mais num é pussive, minha Chica, cumé quele tá diferenciado, Deus do céu, diz o cunhado cumprimentando-o com um abraço saudoso. --- Sô eu memo, Lorenço, e faço gosto de vê coceis tão viveno na paz de Nosso Sinhô. --- Ô mulé, põe um cumê pa nóis queu tô cum fome. Mais me diga, Antôim, cumé que tão os negócio na venda? Antônio Vicente abaixa a cabeça e tapa os ouvidos, acabrunhado. --- Num tem mais venda, Lorenço, num tem mais nada. Tive que vendê tudo pa pagá as conta do pai e inda fartô dinhêro. --- Ô diacho. Mais e a mulé, Antôim, a prima Brasilina? O padi Bento foi quem falô que casô ocêis. --- Eu num tenho mais mulé, Francisca, fiquei suzim no mundo. A irmã faz um sinal da cruz e o encara com piedade. --- Que a Vígi Maria tenha piedade da sua arma, coitada. Faiz tempo quéla morreu, Antôim? --- Ianti tivesse morrido, Chica, diz Antônio Vicente lacrimejando os olhos miúdos, na expressão inequívoca dos derrotados. --- Oxenti, mais num é quêle tá chorãno, mulé? Mais me diga, se ela num morreu, antão-se o que foi que acunteceu? --- Dispois que nóis saiu de Quixeramobim assentamo morada em tudo qué lugá, Lorenço, inté queu arranjei sirviço no Ipu, num sabe? Tava trabaiano amódi fazê os gosto da mulé e criá os dois marrudim amódi num dexá fartá nada em casa. Foi quando tudo acunteceu. --- Ela vortô pa Quixeramobim? --- Não, minha irimã. Um dia eu cheguei mais cedo e ela tava bulinano cum hômi dento de casa, um sordado fio dum cão. O cunhado Lourenço se levanta e coça a cabeça, perplexo. --- Ara, Antôim, e ocê num sangrô o cabra? --- Eu nunca matei ninguém, Lorenço, e num vai sê amódi duma quenga queu vô sujá as mão de sangue. --- Mais isso num pode ficá assim, Antôim. Cumé cocê vai tê sossego na vida quéça mancha na idéia, hômi de Deus? Levanta a cabeça e bota esses dois na ponta duma pexêra, que só ansim ocê vai drumi na paz dum hômi limpo, retruca o cunhado rangendo os dentes, atiçando-lhe a nevrose de há muito adormecida. --- Ocê tá errado, Lorenço, a corage dum hômi num pode sê midida na conta das morte quele carrega nas costa. --- Morte vingada num conta pegado, Antôim. E do jeito cocê tá falano, tô inté achãno cocê tá com medo do cabra. Tá pareceno mulé de reza, diz o cunhado em tom de ironia chacoalhando-lhe o guizo da passionalidade quando inesperadamente Antônio Vicente agarra-lhe o pescoço numa investida imprevisível, sufocando-o até o ponto de receber um soco no estômago que o derruba prontamente, colocando a irmã Francisca em berreiro suplicante. --- Para cuísso, Lorenço, num tá veno quele tá machucado? Antônio Vicente abre a porta e vai para o meio da viela, ainda com as mãos sobre a barriga ruminando a dor do golpe, chamando a atenção de uns poucos viventes que se achegam. --- Taí, mulé, teu irimão num passa dum xibungo, num sabe? Grita o cunhado Lorenço quando Antônio Vicente investe novamente em golpe desavisado, derrubando-o num rolar de corpos em meio à lona de pó, mordendo-lhe a orelha em esturro babento enquanto arranca do cunhado um grito de dor e perplexidade. --- Fio duma égua, grita o cunhado levando a mão ao rosto em sangue enquanto dois homens agarram o desconhecido, segurando-o pelos braços em socorro ao amigo Lourenço. --- Eu vô ti botá na cadeia, fio dum cão, é lá que é o lugá de xibungo, diz o cunhado empunhando a peixeira e arrastando-o pelo cabelo enquanto ele se debate em negativa, vexado por completo com o cortejo que se avoluma a cada quadra. Defronte a Casa de Câmara e Cadeia, dois soldados de plantão acodem ao burburinho que se aproxima. --- Sargento Bezerra, bota esse homi no ferro quêle tá loco da idéia, num sabe? --- O pau d'água tá na pinga, sô Lorenço? --- Deve de tá, seu cabo, puis num é quêle entrô em casa e quagi que me arranca as oreia? diz o cunhado mostrando o rosto ensangüentado enquanto os praças o levam ao cárcere. --- Pó dexá, sô Lorenço, aminhã o dotô delegado vai chegá e dispois ele aresórve o que faiz co cabra, retruca o sargento empurrando Antônio Vicente para o fosso da vergonha. No final da tarde, a irmã Francisca ainda está em prantos, colocando um emplasto de ervas no ferimento do marido enraivecido. --- Cumé que foi acuntecê uma coisa dessa, Meu Deus? É certo que o Antôim num deve de tá rigulano da idéia, Lorenço, mais tumém num deve de ficá preso. O coitado deve de tá sofreno muito. --- Dexa, mulé, dexa que aminhã eu vô na tirá a quexa. Num quero ficá quéça mancha de tê butado um parente na cadeia. Mais aqui ele num vai ficá. Estirado na friagem das pedras da única cela, imóvel, Antônio Vicente dorme rente a uma poça de urina quando o clarão do dia o desperta. Abre lentamente os olhos e delineia a mesma solidão com quem partilhara as últimas semanas, alimentando-se das gosmas ilusórias e empanzinadoras dos vegetais que a caatinga presenteia, dormindo ao relento e sem o agasalho de qualquer companhia, compartilhando seu degredo com a escuridão das trevas contida no sonho dos cegos. Em silêncio ele permanece, na pura imobilidade dos vencidos, até que ouve o abrir da cela e sente os golpes persistentes de uma alpercata cutucar-lhe a costela. --- Vamo, cabra, levanta que a tua hora chegô. Defronte a cadeia, sua irmã o espera com um bornal às mãos, encarando-o com olhar de candura. --- Toma aqui, Antôim, é cuscuz. Foi eu memo que fiz. --- Num carece, Francisca, eu já dei muito trabaio. --- Dexa de bobage, Antôim, ocê precisa cumê, hômi de Deus. E tumém tem esse dinhêro que eu tinha guardado amódi uma pricisão, diz a irmã entregando-lhe algumas patacas. --- Isso eu num posso aceitá, Francisca, é dinhêro suado. --- Ninguém pricisa sabê, Antôim, e agora ocê pega estrada e faiz o que o Lorenço falô. Acha aqueis dois e honra o nome da famía. Vai, Antôim, e vai na paz de Nosso Sinhô, diz lacrimejando os olhos e entregando-lhe o bornal da fartura, mal sabendo que tateia a mão do irmão pela última vez. Após alguns passos, Antônio Vicente ainda choroso e acabrunhado, estaca e vira-se para trás, fitando os olhos da irmã por alguns segundos. Ergue a cabeça aos céus e faz o sinal da cruz, voltando novamente a caminhar em companhia de seu único amuleto, o remorso. No peito de um caipira, uma rosa imperial As luzes do Teatro Lírico Fluminense roubam a atenção dos populares que ora se aglomeram defronte ao majestoso edifício para ver de perto o glamuroso desfile dos senhores da Corte. No programa, a apresentação da primeira ópera brasileira, A Noite do Castelo, de autoria de um compositor ainda ignorado pela imprensa e também desconhecido da casta diminuta das gentes de fino trato. Políticos, barões do café, Viscondes, condes, marqueses e fazendeiros, embaixadores estrangeiros e alguns poucos intelectuais já estão devidamente acomodados quando Dom Pedro de Alcântara e Dona Teresa Cristina tomam assento no camarote imperial, recebidos de pé por todos os presentes em aplauso demorado. A orquestra afina os instrumentos num confuso burburinho de cordas, metais em berro e madeiras trinando à pássaros, adornados por um incessante flanar de leques das senhoras que, embutidas em vestes quentes e extravagantes, espalham no ambiente o aroma picante das fragâncias francesas usadas em dose desmedida. No camarim está o compositor Antônio Carlos Gomes, aos vinte e cinco anos, ora vestindo uma casaca defronte o espelho, retocando por fim o vistoso bigode e a cabeleira prematuramente grisalha, volumosa, auxiliado pelo seu mestre de contraponto, Gioachino Giannini. --- Maestro, sua hora chegou, diz o professor entregando-lhe a batuta, ao que ele adentra o palco e saúda o casal imperial com uma reverência curta, o mesmo se dando com o público já impaciente. Mal percebe que, sentado na primeira fila, está um homem com o rosto escondido atrás do libreto. Viera às escondidas da Vila de Campinas para assistir a estréia da ópera de um de seus oito filhos. É o velho maestro Nhô Maneco Músico, como é conhecido na sua terra, mas persiste no anonimato para não desconcentrar o filho que está para reger a sua própria criação. No baixar da batuta, nasce a música. Do lado de fora, um enxame de curiosos e indigentes ouvem em silêncio absoluto e pela primeira vez o milagre da arte a penetrar em seus ouvidos, transfigurando-os como se estivessem na presença de uma divindade, anestesiados pelo inexplicável consolo que acode as suas vidas desgraçadas, um alento a embalar suas mágoas. E seguem os atos noite adentro. No camarote, o Imperador permanece estático, observando os gestos do maestro que faz parir a cada instante magníficos crescentes harmoniosos, as vibrações dos cânticos trágicos mesclados com suspense e repouso, alterando-lhe a pulsação a cada nova cena. Por fim, cai o pano. Ao som dos aplausos de uma platéia inebriada, o compositor agradece embevecido, curvando-se várias vezes perante o público em completo delírio, quando vê a figura de seu pai surgir ao pé da ribalta com os olhos chorosos a reclamar-lhe atenção. --- Bravo, bravíssimo, grita o Nhô Maneco ao filho, avalizado por mais uma saraivada de palmas misturadas a vivas que partem de toda banda, incessantes. Em relance, percebe quando os olhares do público viram-se para a sua direita fomentando um silêncio repentino. O Imperador Dom Pedro de Alcântara entra em cena e aproxima-se do maestro, condecorando-o com o Hábito de Cavaleiro da Ordem da Rosa, colocando pessoalmente a medalha em seu peito. --- Antônio Carlos Gomes, o compositor do Brasil, diz o monarca ao jovem maestro que não se contém em lágrimas e beija-lhe a mão, arrancando dos convivas mais um estrepitar de aplausos infindáveis. Noite alta, ao longe se ouvia os queixumes manhosos dos curiangos em ronda soturna. Na cidade adormecida, ao pé da janela de um sobrado com um dos quartos ainda em lusco fusco, ouve-se o choramingar pertinente de duas crianças abandonadas ao relento, despertando o morador que não tarda em abrir a janela. Pura ilusão. Namoro de gato. Nos jardins do paço de São Cristóvão, em tarde fresca, o Imperador e o Presidente do Conselho de Ministros, o Marquês de Caxias, caminham com as mãos às costas na passada lenta e regular dos que trocam prosa. O Imperador, vez ou outra, ainda cantarola algumas frases da música que ouvira na noite anterior. --- O que achaste da ópera do Brasil, senhor Marquês? --- Não sou nenhum doutor no assunto, Majestade, mas a julgar pela platéia, aquele caipira deve ter algum talento. --- Ora, senhor Marquês, não fales assim. Acaso estás com ciúmes pelo fato dele ser da província de São Paulo? --- Em absoluto, Majestade. É que conheço bem aquela gente. --- Aquele homem tem muito mais que talento, general. Foi isto que eu senti no senhor Carlos Gomes, alguma coisa de gênio. --- Gênio? --- Isto mesmo. Será que não percebes? O mundo precisa conhecer a nossa música, general, e ninguém melhor que ele para mostra-la. Mas devo cuidar deste assunto pessoalmente, sem a interferência desses políticos maçons que só pensam em si mesmos. --- Um brasileiro nos palcos da Europa é coisa rara de ver, Majestade, ainda mais em tempos difíceis como estes. Acaso lestes o último artigo da Liga Americana? --- Ora, nem me fale, general. Esta guerra nos Estados Unidos está me preocupando. Os observadores dizem que Abraham Lincoln não vai arredar o pé das suas convicções abolicionistas e os estados confederados do sul também não aceitam o fim da escravidão. Onde será que isto vai dar, meu Deus? --- Pelo que eu soube, as tropas americanas da União já sofreram mais baixas do que se esperava. Eles estão perdendo a guerra, Majestade, e os ingleses também. --- Não entendi, general. O que o império britânico tem a ver com isso? --- Grande parte do algodão que alimenta as tecelagens inglesas vem do sul dos Estados Unidos, Majestade. Se essa guerra durar muito tempo, os ingleses vão ter que fechar a maioria das suas fábricas. Há mais de um ano que o comércio de fardos está parado. --- Queres me dizer que se tivéssemos uma produção de algodão como a de café, estaríamos ricos? diz o Imperador em ar de anedota. --- Acho que sim, Majestade, e com a guerra dos outros. Mas apesar do algodão estar em alta, a demanda pelo café vem aumentando e os preços tendem a melhorar. Não é por acaso que as nossas plantações crescem a cada ano. --- Isto é um fato, general, mas creio que o nosso progresso virá com a construção de mais estradas de ferro cortando todo o nosso interior. Um plano de desenvolvimento é o que precisamos, mas com agilidade para trazer a produção até o porto. A prosperidade está no transporte, meu caro. Não viste o Barão de Mauá? Acaba de fundar a Companhia de Navegação do Amazonas e a cada dia se enriquece mais e mais. --- Fico pensando como ele conseguiu fazer tamanha fortuna em tão pouco tempo, Majestade. --- Ele tem o financiamento dos banqueiros ingleses, General, de gente ligada aos Rothschild, os nossos financiadores. Mas devemos admitir que como homem de negócios ele ganhou muito dinheiro. Será que o senhor Irineu conseguiu o apoio desses banqueiros por ele ter um pouco de sangue dos judeu nas veias, General? --- Não creio, Majestade. Ao que sabemos a origens do senhor Barão de Mauá é de camponeses do Sul, de gente muito pobre. Mas, se me permites, por que a dúvida? --- Contaram-me uma história a respeito dos judeus Rotschild que me pôs a pensar, General. Dizem que a fortuna dessa família foi conseguida a partir de uma atitude, digamos, não muito louvável. --- A história diz que os banqueiros, Majestade, principalmente os judeus, nunca usaram a ética como mandamento. Apenas o lucro é o que conta, seja a que custo for. --- Pois então, ouve cá, General. Ao que eu soube, o fato ocorreu ao final da batalha de Waterloo, em 1815. Os cinco irmãos da família Rotschild especulavam nas bolsas das principais capitais Europa, tendo eles uma organização composta de vários agentes e também um sistema de locomoção bastante ágil. Nesta época, Nathan Rotschild, o mais astuto deles, atuava junto à bolsa de Londres. Ao final da batalha, tendo os Rotschild um agente infiltrado junto ao exército de Welington, ao receber a notícia da iminente derrota de Napoleão este atravessou às pressas o Canal da Mancha, tomou um atalho até Londres e trouxe a notícia da vitória de Welington aos ouvidos de Nathan bem antes que o povo inglês tomasse conhecimento do que se passava no campo de Waterloo. Então o que ele que faz? O General Caxias intervém com amabilidade. --- Ele deve ter comprado muitos títulos ingleses da dívida pública para ganhar com a alta, é isso? --- Ao contrário, General. Ele ordenou a venda dos muitos títulos que possuía e precipitou uma corrida neste sentido nunca vista na bolsa de Londres. Todos fizeram o mesmo, já que muitos corretores que o espionavam, faziam exatamente o que ele ditava. --- “Rotschild não é um tolo, Napoleão venceu”, diziam os ingleses apavorados, vendendo às pressas todos os títulos do tesouro britânico que possuíam. --- Mas se todos estavam a vender, Majestade, então o preço dos títulos só pode ter caído, não é certo? --- Correto, General, mas ninguém supunha que ao final da tarde deste mesmo dia ele ordenara a compra de todos os títulos da dívida pública britânica, mas a um preço vil. --- Meu Deus, então ele deve ter ganho uma fortuna, exclama o General entrelaçando as mãos, perplexo. --- Uma fortuna incalculável, General, e tudo em questão de horas. --- Agora eu compreendo, Majestade. Se o Barão de Mauá tem homens como os Rotschild envolvido em seus negócios, não é de se admirar como ele conseguiu ficar tão rico em tão pouco tempo. --- Rico e também muito influente, General. E o certo é que ele também é partidário dessa causa dos norte-americanos. Vive pregando a industrialização no Brasil e a abolição dos escravos como se, num passe de mágica, isso fosse resolver todo os nossos problemas. --- Não entendo coisa alguma de finanças, Majestade, mas creio que estamos no caminho certo e o progresso do país já é uma realidade, diz o General Luís Alves de Lima e Silva quando a carruagem do Ministro da Marinha chega em apressado. --- Não é o almirante Lamare, senhor Barão? --- Sim, mas o que será que ele quer a esta hora? - murmura o Barão de Caxias tirando o relógio do colete. --- Majestade, senhor ministro. Houve um naufrágio na costa de São Pedro do Rio Grande, senhor, e o caso é gravíssimo. --- Por Deus, perdemos algum navio? --- Foi a barca inglesa Príncipe de Gales, Majestade. Ela naufragou a poucas milhas da costa. --- Mas o que nós temos a ver com isso, almirante? Pergunta o Marquês de Caxias. --- É que a barca e os sobreviventes foram saqueados, senhor Marquês. Uma fragata inglesa acaba de chegar do sul e o embaixador William Christie já está a par dos fatos. --- Deus do céu, só nos faltava essa. --- Ele quer uma audiência imediata com o ministério, senhor Marquês, e exige a presença do Imperador. Disse-me ainda querer uma indenização e que se enforque os saqueadores para servir de exemplo. O Imperador leva a mão ao queixo e fica a coçar a barba. --- Insolente esse embaixador Christie, não achas, general? --- Desculpe-me a intromissão, Majestade, mas o embaixador também falou que se não for atendido, irá bombardear a cidade do Rio de Janeiro com os canhões de sua esquadra, intervém o ministro da marinha. --- Ele gosta de fazer tempestade em copo d'água, almirante. O que temos a fazer é manter a calma e resolver a questão com diplomacia. O Marquês de Abrantes já sabe do ocorrido? --- Creio que não, general, mas devemos informá-lo imediatamente. Como Ministro dos Negócios Estrangeiros ele quem deve cuidar do caso. Estás de acordo, Majestade? --- Contanto que resolvam este caso sem causar prejuízo aos cofres do império, almirante, e também que eu não tenha de receber aquele inglês. --- Vamos convocar uma reunião com o ministério para amanhã, Majestade, mas sem vossa augusta presença. Almirante, se me permites, vou aproveitar a tua carruagem. --- Com prazer, general. Sua Majestade, diz o almirante Lamare em continência. Voltando a caminhar, pensativo, o Imperador leva os olhos para o palácio e vê, debruçada na janela de seus aposentos, a Condessa do Barral, fitando-o na senha que guardam em combinado. Com um livro às mãos, ela solta os longos cabelos levemente grisalhos e os balança com movimentos delicados, recolhendo-se em seguida. De há muito que eles não tem um momento de amor, mas no palácio, apesar de vigiado por centenas de olhares invisíveis, tudo tem a sua hora. Recolhido em seu gabinete após a ceia das nove da noite, o monarca está debruçado sobre o seu diário anotando minuciosamente o acontecido. --- O Brasil em guerra com a Inglaterra? Murmura pensativo quando Antônio Joaquim da Silveira, seu criado particular, adentra a sala com uma bandeja. --- Majestade, o seu chá. --- E minhas filhas, estão na biblioteca? --- Suas Altezas já se recolheram, como também Sua Majestade a Imperatriz e a Condessa do Barral. --- Está bem, agora pode ir. E cuide para que eu não seja incomodado, diz o Imperador ignorando o chá e voltando os olhos para o seu diário. Por quase meia hora ele fica a escrever, intercalando o feito com alguns tragos de aguardente que traz num esconderijo seguro. Após um bocejo de sono e uma espreguiçada ele fecha o livro e vai em direção ao quarto da Condessa que está com a porta entreaberta. Sentada defronte a penteadeira, ela escova lentamente os cabelos longos quando o semblante do Imperador surge no espelho, tocando-lhe os ombros com um tatear carinhoso. Com os pés descalços e vestindo uma camisola transparente e sem as roupas de baixo, ela se levanta e o beija demoradamente, arranhando-lhe as costas com as unhas em suplício de cópula iminente. --- Venha, meu amor, mas tome cuidado para não fazermos barulho, balbucia a amante acariciando-lhe a face barbada, puxando-o delicadamente para a cama. Deitada, ela abre as pernas e levanta vagarosamente a roupa, mostrando-lhe o esconderijo do pecado. Ajoelhado e com as calças arreadas, ele a cobre por inteiro, fazendo-a morder os próprios lábios a cada investida sobre a forquilha morna e prazerosa. Subitamente, ela ergue as pernas e as apóia em seu ombro, facilitando ainda mais a penetração que ora se faz mais ardente pela posição nunca dantes experimentada. O vai e vem buliçoso aumenta em força e velocidade quando ele sente o roçar da virilha da amante pressionando sua verga em redemoinho espumante. Não demora e os dois alcançam simultaneamente o gozo em ardente frenesi, espalhando no ambiente rarefeito o fedor peculiar que o coito propicia. Do lado de fora do palácio ainda se via um leve clarão vindo da janela do quarto da Condessa, mas logo ele se apaga, preludiando mais uma noite de sonhos e pensamentos jamais confidenciados. E seguiram-se os meses na mesmice dos féretros rotineiros que aumentavam em muito com a chegada das chuvas, espantando de chofre a elite hipocondríaca rumo aos ares curativos da freguesia de Petrópolis. Com a derrubada do Gabinete conservador pelo Partido Liberal em maio de 1842, é escolhido para presidir o Conselho de Ministros o senhor Zacarias Goes de Vasconcelos, após nove anos de ostracismo dos liberais. Foram tempos difíceis com o embaixador William Christie pisando na frágil soberania da Monarquia Parlamentarista Constitucional do Brasil, não raro aprisionando navios brasileiros, bloqueando o porto e apontando os canhões da esquadra inglesa para a cidade do Rio de Janeiro com um único propósito: ''Ou paga ou morre''. E o fazia na arrogância congênita dos ingleses que, ao ver um índio, a primeira coisa que lhes vem à cabeça é a possibilidade de aumentar o seu império. Reunidos o Imperador e seu ministério, o almirante Lamare, ministro da Marinha, toma a palavra. --- Majestade, devo informá-lo que o Barão de Mauá me procurou oferecendo-se para mediar esse impasse, evidentemente com vosso augusto consentimento. --- Mas o que o senhor Irineu tem a ver com isso? Retruca o Imperador com indignação quando o Marquês de Abrantes intervém com sua preguiça peculiar de um selenita bonachão. --- É verdade, Majestade. Ele disse a mim e ao Marquês de Olinda que o ministro Christie não se importaria que um outro país julgasse este caso, o que me pareceu uma boa idéia. --- Não vou aceitar qualquer julgamento enquanto os navios ingleses não deixarem a Baía da Guanabara. É uma questão de honra nacional, retruca o Imperador levantando-se e dando por encerrada a reunião. E passam os dias com o ministro inglês atravessando várias vezes o largo do passo de Santana com um chicote a mão e com o nariz empinado, tratando o governo brasileiro literalmente como um capacho onde se limpa os sapatos. O Imperador, já beirando os trinta e sete anos, não cede as pressões de Christie e coloca-se à frente das suas convicções com o amplo apoio dos moradores letrados que já se viam em polvorosa diante da ameaça do fogo inimigo que, evidentemente, não foi levado a cabo. Por fim, o embaixador inglês cede à intransigência do Imperador que só aceitaria um entendimento depois de restituídos os navios brasileiros. Fica acertado o Rei dos Belgas, tio da Rainha Vitória para julgar o caso da Fragata Forte onde, seus tripulantes, todos embriagados, desacataram a polícia da Corte e foram presos como arruaceiros reincidentes. No caso da barca Príncipe de Gales que naufragou nas águas do litoral sul, o governo pagou a contragosto a indenização exigida pelo governo inglês. Mas tudo isso se dá em meio a constantes mudanças na Presidência do Conselho de Ministros, pois o Imperador, como quem troca de roupa, cedia às pressões da Câmara e adoçava a boca de alguns liberais que se alternavam na chefia de Gabinetes de minuto com um único projeto nacional: manterem-se a frente do poder para desfrutarem-se das benesses e das pensões vitalícias que o cargo lhes garantia, uma excrescência flagrante diante de um quadro de miséria mais que absoluta de uma nação mais que demente, órfãos de pátria. Confinado em sua mansão em Petrópolis, o ministro William Christie pede uma audiência com o Imperador e uma outra de sua filha com a Imperatriz Teresa Cristina, mas não é atendido. No mais completo isolamento social e político, opta por deixar o continente logo em março de 1863, não despedindo-se sequer de nenhum de seus colegas estrangeiros a quem julgavam ter-lhe apreço. Em meados do ano o Rei dos Belgas dá o seu parecer favorável ao império do Brasil, mas as relações diplomáticas e comercias com a Inglaterra estarão suspensas até que um pedido formal de desculpas do governo inglês venha por um fim àquele azedume de mágoas. Bem me quer, mal me quer... Os cafés e as confeitarias da Rua do Ouvidor dão agora, definitivamente, o tom cosmopolita que faltava à capital nos finais de tarde. Fazendeiros, boêmios, médicos, advogados, artistas, intelectuais e vadios povoam as mesas dispostas no interior requintado e com vista para a viela imunda e pestilenta, embora seca e poenta naquele princípio de setembro. E trocam fuxicos, alavancados por cansativos artigos que bisbilhotam sobre a nacionalidade dos consortes de Suas Altezas imperiais, que estão por chegar à Corte a qualquer momento. Numa das mesas da Confeitaria Coimbra e com um jornal à mão, o advogado Basílio da Gama já mostra sinais de velhice, fomentada pela constante embriaguez e o desleixo da vestimenta que sempre mostra nos ombros uma duna de caspa. --- Senhores, aposto quinhentos réis como os noivos das princesas são parentes próximos do Imperador, além do que, também devem estar falidos. Por isso aceitaram o dote, diz o advogado em voz alta enquanto sorve um gole da marvada cachaça. --- Ora, doutor Basílio, isto não é novidade. Mas que eles devem ser cegos, isto eu tenho certeza, retruca o barbeiro Quintanilha pondo os colegas em gargalhada. Baforando a lente do pince-nez, o alfaiate Pandini avaliza o fato. --- E pelo que eu soube, na última reunião da Câmara o Imperador anunciou o casamento das princesas para o fim do ano. E diz que já está tudo arranjado, senhores, e os coitados não poderão mais recuar. Aliás, eles devem chegar por esses dias. Um estalar de dedos chama a atenção do garçom que leva três taças de vinho a uma outra mesa onde, o deputado José de Alencar está entrincheirado atrás de um exemplar do jornal Aurora Fluminense acompanhado do colega Deucleciano Cavalcanti e do pintor francês Jean de Meaux. --- Mais dia, menos dia, os Estados Confederados Americanos vão cair, doutor Deucleciano. Vê aqui: O próximo passo do general William Sherman será tomar a capital Atlanta para depois conquistar o Estado da Geórgia e abrir caminho para o sul, definindo a guerra e acabando com a escravidão, se é que já não o fez, diz o deputado José de Alencar apontando a data do jornal: 2 de setembro de 1864. --- É verdade, doutor, essa notícia já deve ter mais de um mês, se não mais, retruca Deucleciano brindando com os colegas. --- O progresso não tem volta, mon ami... Primeiro os americanos conquistaram a sua independência e depois instauraram o regime republicano. Agora vem a abolição, e por fim, o direito de voto de todos os cidadãos, ricos e pobres, brancos e negros, diz o pintor francês em riso sarcástico enrolando a ponta do bigode e a contemplar a viela infestada de miseráveis que rastejam sobre a lama da indigência. Deucleciano fica pensativo enquanto degusta o vinho. --- Era só o que faltava, um escravo votar. O que achas da anedota, deputado? --- Ainda não havia pensado nisso, Deucleciano, mas é deveras interessante. O artigo primeiro da constituição americana diz que os homens são iguais perante a lei e que todos tem os mesmos direitos e deveres. Só que já faz mais de setenta anos que esses direitos só constam no papel, meus caros. E esta é a causa pela qual a União está lutando, com certeza sairá vencedora. Quanto aos escravos americanos terem o direito ao voto, devemos crer que é só uma questão de tempo, diz o deputado José de Alencar pondo o amigo em carranca de assustado. --- Não que eu seja um anti abolicionista, deputado, longe disso, mas devemos admitir que sem os escravos não estaríamos na posição de maior exportador de café do mundo. --- Mas veja como os negros são tratados aqui no Brasil, doutor Deucleciano. Nem um cavalo é castigado com tamanha crueldade. Isto é mais que repugnante. Eles não tem direito a nada, mas em se tratando de obrigações, isso é o que não lhes falta. --- Mas que direito o senhor daria a um escravo? --- Repare as nossas leis, meu caro. Você como advogado sabe tanto quanto eu que elas não passam de meras sugestões, isso sem falar no nosso código processual que serve apenas para castigar os mais pobres, nada mais que isso. Acaso já viste algum homem rico ser preso ou ir para a forca? E o nosso sistema eleitoral onde apenas um por cento da população tem direito ao voto? --- Neste ponto, tendes razão, deputado. --- Devemos sim, reconhecer que somos meio hipócritas, infelizmente é isso. --- U la lá, não vás me dizer que já estás a criar um outro romance, mon ami? Retruca o pintor Jean de Meaux quando um estrondo consecutivo de quatro tiros de canhão disparados a pouca distância enrijece as vértebras relaxadas dos viventes, pondo toda a rua em polvorosa. --- É a guerra, gente, é a guerra, grita um bêbado ajeitando o chapéu às pressas, tropeçando na própria mesa e galgando em segundos o lado oposto da rua em berreiro alucinante. As atenções se voltam para o cais Pharoux onde uma aglomeração de populares abarrota a plataforma de desembarque ao som de uma banda marcial que ruge em pompa desafinada. --- Deve ser a delegação estrangeira, deputado. E não é que chegaram no dia previsto? Retruca Deucleciano, achegando-se com os amigos junto ao vespeiro das gentes. --- Senhores, essa eu quero pagar pra ver. Quem serão os caça dotes? Murmura o deputado José de Alencar acendendo um charuto, enquanto o jornalista Arlindo de Castro se junta ao trio com a caderneta em punho. --- Ora, ora, pelo que vejo os valetes da Europa já estão fazendo sucesso, diz o jornalista eufórico. Galgados numa barca movida a quatro remos e toda enfeitada com as cores da bandeira do império, um homem alto e magro, cabelos escuros e bem penteados, barbicha de janota e pose de oficial em parada militar destaca-se do outro, um louro um tanto mais baixo e mais jovem, rosto inexpressivo e uma aparência indisfarçável de cansaço e perplexidade. Chegam à plataforma seguidos por outra barca que traz uma pequena Corte de preceptores e alguns camareiros que mais parecem condenados em direção ao cadafalso. --- Senhores, com certeza o príncipe consorte e herdeiro do trono é o louro, aquele ali. É o Duque de Saxe, deputado, e o seu nome é Augusto, diz o jornalista checando a caderneta e surpreendendo os amigos com a notícia em primeira mão. --- Mas como o senhor adivinhou, seu Arlindo? Acaso já os conhecia? --- Como jornalista eu tenho meus informantes, doutor Deucleciano. E cá entre nós, a criadagem do Imperador é a melhor das fontes, retruca Arlindo de Castro em risadinha sarcástica. --- Mas e o outro, seu Arlindo, o mais alto? Pergunta José de Alencar erguendo o corpo ao ver os estrangeiros pisar em terra. --- Este só pode ser o azarão, deputado. Pelos meus cálculos é o Conde d'Eu, o senhor Gastão de Orléans, um parente próximo do Imperador, diz o jornalista em meio a algazarra de boas vindas fomentada por alguns funcionários do Ministério dos Negócios estrangeiros aplaudindo os visitantes. --- Viva o Duque de Saxe, viva o Conde d'Eu, grita um dos mestres de cerimônia cavando um eco tímido dos populares. --- Não entendi, seu Arlindo. Por que o senhor diz que esse conde é o azarão? --- Ora, doutor Deucleciano, é ele quem está destinado à princesa Leopoldina Teresa. Já imaginaste o susto que ele vai ter quando conhecer a noiva? retruca o jornalista arrancando risos enquanto os noivos adentram a uma carruagem que os leva para o Paço da Cidade. Chegando ao velho palácio do Campo de Santana, os visitantes não conseguem disfarçar a decepção ao ver criados negros como alabardeiros estacados nas entradas das imensas salas, todas providas de um ralo mobiliário, rústico e grosseiro, em contraste absoluto com a suntuosidade dos palácio de Europa. Um quadro gigantesco da coroação do Imperador Dom Pedro I rouba-lhes a atenção e muda-lhes o semblante, para pior, se é que é possível. --- Mon Dieu, este deve ser o Imperador da África, murmura o Conde Gastão de Orléans com olhar desdenhoso em completo deboche à pintura nacional. O Duque de Saxe corrobora com a observação do futuro concunhado ao levar um lenço à boca para disfarçar a ironia. --- Este deve ser o nosso sogro, diz o Duque abafando o riso com o lenço encharcado. No palácio São Cristóvão, as princesas Dona Isabel Cristina e Dona Leopoldina Teresa estão sentadas à mesa de jantar para a última ceia, acompanhadas dos pais e da preceptora Dona Luísa, a Condessa do Barral. Os mordomos aproximam-se e servem o vinho ao Imperador, afastando-se em seguida. --- Então, senhora Dona Teresa, chegou a hora. Amanhã vamos conhecer os noivos e recebe-los com um jantar. Não estás ansiosa? Diz o Monarca jubiloso erguendo um brinde para Suas Altezas. --- Senhor Dom Pedro, tudo passou tão depressa. Quando penso nas meninas brincando, crescendo, e agora já prestes a casar, sinto uma dor no coração, diz a Imperatriz molhando os olhos enquanto a filha mais velha a acode em consolo. --- Oh!, não chores, minha mãe. Afinal, não somos mais crianças e o trono precisa de um herdeiro. Não foi assim com a senhora e o papá? --- Isabel Cristina tem razão, senhora Dona Teresa. Mesmo porque elas vão continuar morando na Corte e logo nos darão alguns netos. Já pensaste em ser vovó? --- É o que mais quero, senhor meu marido, muitos netos, diz a Imperatriz apertando a mão da filha mais nova em sorriso raramente presenciado. --- Agora vamos comer, minhas bonecas, pois amanhã teremos um longo dia pela frente, diz o Imperador dando uma piscadela para as princesas que se mostram visivelmente eufóricas diante da expectativa de verem pela primeira vez os varões que as farão mulher. Em terra de cego, quem tem um olho é rei Os poucos homúnculos que habitam o povoado de Santa Quitéria, interior da Província do Ceará, deparam-se num começo de tarde com a figura de um homem baixo e magricela, engraxado do pescoço aos pés pelo sebo escuro dos malsinados andarilhos que proliferam em grande monta naquelas paragens ressequidas. Com a cabeça voltada para o chão, a cabeleira crescida e o rosto barbado em maçaroca de sovaco, o homem desperta a atenção pela postura serena com que conduz um cajado que traz como apoio à carcaça esquelética e maltrapilha, alicerçada num rastejo torpe e descompassado sobre um par de alpercatas de meia vida. Seguido por olhares mudos e desdenhosos, vagarosamente ele apeia o corpo num toco adotivo locado ao pé de uma sombra ao centro do único largo, miúdo e desabitado. Ali permanece, imóvel, no rejeito e no refugo de todos. Aos únicos que passam a sua volta, nada pede, tampouco ninguém o acode. Ao final da tarde, de volta ao povoado para o choco regular dos casebres e após o garimpo rotineiro de ao menos qualquer feixe de lenho grosso, uma dúzia de rezadeiras despontam do nada a entoar as ladainhas enjoativas como que em protesto à cata minguada, mas sem reclamos à sorte adiada. E chegam com a féria da caça, num duvidoso equilíbrio de ramos derrotados a pesar sobre as rodilhas amassadas que amparam o mais antigo sócio da existência, como heroínas triunfantes a retornar do maior desafio da vida; o dia. Contornando o andarilho que ora adormece em feitio de defunto insepulto, não desviam a atenção da reza e seguem o pífio destino. Uma delas, porém, encurta o passo e volta o olhar para aquele infeliz que se mostra entrincheirado em alguns trapos que mal lhe cobrem o corpo. Achega-se em silêncio e, com um lenho fino, ela o cutuca levemente na costela, na distância segura de quem peia uma vaca recém parida. Despertado, o homem a encara com a palidez dos vencidos, embora com o olhar de alguma graça alcançada. --- Tá drumino de dia, hômi de Deus? Diz a cabocla de face envernizada e com a voz em deboche ao moribundo atirado ao banco feito um lixo de gente, mas gentilmente estendendo-lhe uma cabaça d'água que traz na cintura. --- Lovado seja Nosso Sinhô, responde o homem com voz rouca e abafada, abocanhando a prenda com a fraqueza e a gratidão dos doentes. --- Pa sempi seja louvado, meu bom Sinhô... Mai, me diga, o hômi tá andano no mundo? --- Gardicido da água, dona, e que Deus abençoe. Misi num quero sê estorvo pa ninguém, num sabe? Vô caçá um lugá amódi passá a noite e a dispois eu faço picada no mundo. --- Mai num é que o cabra é decidido? Inté parece que é bão de briga. Vamo, levanta e vem me ajudá acendê o fogo amódi nóis fazê um cumê que a noite vai esfriá, diz a mulher virando-lhe as costas e ganhando passo. Estóico, embora confuso, ele a segue a meia distância na típica timidez de uma cria enjeitada. E logo chegam a uma velha tapera onde a portinhola trancafiada tem como vigia um cão raquítico que abana o rabo em contentamento ao ver a mulher estalando os dedos. --- Vem, fubá, vem? Um rapazola cego de um olho e manco da esquerda abre a porta e acode o feixe de lenha na requerência de um agrado. --- Bença, madinha. --- Bençoe, meu fio. Agora cê pode embora, viu? E num esquece de avisa a cumadi que aminhã nóis vai rezá um terço na venda do cumpadi Sidônio. Desgracioso e vexado, o andarilho permanece estático enquanto o garoto contorna a morada seguido pelo cachorrinho sarnento. --- Vamo entrá e passá uma agüinha na cara amódi tirá a puêra, diz a mulher em completa naturalidade, como se o conhecesse há anos, desatando o pano que lhe cobre os cabelos lisos que ora se descortinam em negrume de graúna, cobrindo-lhe até o meio das costas. No cubículo que tem por sala e cozinha, dezenas de imagens de Santos e Virgens, umas de barro, outras esculpidas em madeira, todas na mais completa desproporção das feições estão empilhadas sobre uma prancha incrustada nas duas paredes laterais, sugerindo aos vindouros a reverência imediata de quem adentra um santuário. --- Vige Maria, que bonito... É a dona memo que feiz? Pergunta o homem com as mãos entrelaçadas, contemplando boquiaberto aquele mosaico de carrancas. --- Ara, deixa a dona prá lá, num sabe? Joana, é assim que o povo me chama. Joana Imaginária, amódi queu faço imagi de santo pa vendê. Mais me diga, que má lhe prigunto, o cabra atende puluquê? O sorriso malicioso daquela cabocla vistosa e benevolente enche-lhe os olhos de esperança, uma emoção há muito adormecida. --- Antônio, um criado de vois micê. --- Antão tá certo, seu cabra. Agora que nóis já se cunhece, vamo quentá o fogo que a barriga tá roncano, num sabe? Vai lá fora e pega uns pau de lenha que eu vô dá uma vórta amódo te arranjá uma ropa limpa. Dispois cê vai na tina amódi tirá esse chêro de jumento suado queu num tô güentano a fiditina, retruca a cabocla mais uma vez abrindo-lhe a janela do mutilado coração, de há tanto embrenhado na gaveta do silêncio. O casebre, visto de longe e em crepúsculo avançado, borrifa uma fumacinha densa e constante sobre o telhado corroído pela intempérie dos anos, acusatório de sossego e panela cheia, de paz e abastança. Numa pequena mesa junto ao fogão, enfastiada, a cabocla observa a vagareza com que o Antônio Vicente Mendes Maciel, agora embutido numa parelha de roupa limpa, degusta uma cuia de paçoca com mandioca cozida, mascando lenta e demoradamente cada abocanhada que faz com uma colher de pau. --- Ara, Antôim, tá cumeno feito passarim. Inté parece que o cabra num tá gostano? --- Que isso, dona Joana, nunca vi uma comida tão boa. Me faz lembrá o tempero de minha mãe, num sabe? Que Deus a tenha. --- Já num falei pá num me chamá de dona? Mais me diga, Antôim, cê num tem famía? --- Tive de tudo nessa vida. Casa, sirviço, mulé e duas criança que nem sei se era do meu sangue, num sabe? --- Vigi, Maria, madrinhô cuma quenga e botô cria no mundo? --- É... E bem dizê, fumo criado junto, no memo lugá. Um dia topei cum rufião bulino cuéla e puis minha sina nas mão do Criadô. De lá pra cá, só Deus sabe o que eu tenho passado nessa vida... --- Oxenti, antão-se qué dizê que o cabra nasceu em berço de ouro? E pruquê num foi sê um padre, Antôim, vivê na abastança e cumê do bão e do mió? --- Esse era o desejo do meu pai, num sabe? Ele inté que gastô muito dinhêro cum professô amódi me ensiná as letra, mas dispois enveredô na cachaça e no baráio e ponhô tudo fora. Perdeu tudo que nóis tinha e inda morreu deveno pa mei mundo. --- Lovado seja Nosso Sinhô Jesuis Cristo, diz a cabocla em supetão, levantando-se em apressado de contentamento, rumo ao outro cômodo onde guarda suas ferramentas de trabalho. Antônio Vicente a segue com rabo de olho e espanta-se ao vê-la trazer um pequeno baú e colocá-lo em cima da mesa. Aberta a burra, ela retira um pacote envolto em couro mofado e o desembrulha, na cautelosa vagareza de quem conta dinheiro. Antônio arregala os olhos e fica maravilhado ao ver um missal de capa dura e de pouco uso, uma cartilha exclusiva dos clérigos e estritamente vetada aos leigos, pois o saber está contido tão somente na palavra de Deus. Ninguém, a não ser os padres, tinha o direito de propalar a escrita divina. De posse do tesouro proibido, ele não resiste em tocá-lo e folhear com cuidado as páginas do calendário litúrgico com o dia dos Santos, das festas e a celebração das missas para cada dia do ano, impressas em latim no lado esquerdo e traduzidas simultaneamente em português, linha por linha, palavra por palavra, do lado direito. De posse de tal ferramenta, qualquer vivente letrado celebraria sem titubeio uma missa na íntegra, bastando seguir o libreto que traz passo a passo todos os atos para cada dia do ano, inclusos os nomes dos santos. --- Vígi Maria, ondé cocê arrumô isso, Joana? --- Aprendi uma coisa na vida, Antôim, e vô lhe contá pruquê sei que ocê num deve de tê mardade no coração. --- Mais cumo havera de sabê, Joana, cê nem me cunhece? --- Cunheço sim, Antôim, e digo mais; eu num tô cunversano cum ladrão. E se ocê tá na vida dum esmolé é pruquê tem mais vergonha na cara que muitcho cabra enricado, num sabe? Ao meno num veve pá explorá o zôto. Antônio Vicente fecha o breviário marcando-o cuidadosamente com a tira de seda lilás, bordada artesanalmente com uma linha dourada. --- Nunca tinha pensado nisso, Joana, e confesso que nunca vi uma mulé falá desse jeito. Mais me diga, esse livro é arguma herança de famía? --- A pois escute, Antôim, mais num me faça prigunta. Esse livro era dum padi que me fez bulí cuêle, num sabe? --- Cruz, credo, Joana, que padi fio de um cão? --- Verdade, Antôim. Eu inda era mocinha e num sabia das coisa da vida, das coisa do pecado. Um dia meu irimão pegô nóis dois atrás do artá e riscô o safado na pexêra, na minha frente. Dispois me bateu e me expursô de casa, só cuma muda de ropa. Mais inda deu tempo de amoitá o presente que o padi tinha me dado amodi me pussuí. Foi aí que eu caí no mundo e provei todos margume da vida, topano cum gente ruim pa tudo contéra lugá, enfurnada nos camim da desgraça. Um dia eu fiz um juramento de nunca mais me vende, nem que fosse só pulum botim de comida. E graças ao bom Deus, desde esse dia nunca mais me fartô nada. Nem casa, nem comida e nem afiadim amódi ajudá as cumadi criá. Antônio Vicente abre o missal e lê um trecho ao acaso, confortando-se mutuamente com a companheira de infortúnios. --- Qui tollis peccáta mundi, miserére nobis... Vós que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós... Diz com voz pausada, como que encarnando a figura de um sacerdote absolvendo um pecador, arrancando da cabocla um instintivo sinal da cruz. --- Santo Deus, num é cocê parece inté parece um padi, Antôim? Ah, mas as cumadi nem vai criditá que agora nóis tem quem puxá o terço, Vígi Santíssima, retruca Joana Imaginária em completo regozijo, apertando-lhe as mãos na mais terna e plena felicidade. Enfim, encontra Antônio Vicente Mendes Maciel um porto seguro em meio a um mar de pó. E o ditado é antigo: em terra de cego, quem tem um olho é rei. Feitos de Ícaro e sinais de mau agouro No paço de Santana, a 15 de outubro de 1864, o adro da Matriz Nossa Senhora do Carmo está cercado por três quadrantes de lanceiros que resguardam uma passarela atapetada em vermelho que tem por sentinela duas filas de dragões da guarda imperial. O badalar festivo dos sinos da majestosa capela soa como um estopim para o foguetório que se desencadeia por todo o Campo de Santana, indicativo de que a Princesa Dona Isabel Cristina acabara de se casar. O trono do Brasil tem agora uma herdeira, desposada com um conde francês que poucos sabem quem é ou de onde veio. Sobre a multidão pasmada e boquiaberta diante de pompa tão rara, um enorme balão com a inscrição PRINCESA ISABEL sobe lentamente aos céus e sobrevoa o paço ao sabor do vento, secando a goela de alguns letrados e colocando outros tantos miseráveis de joelhos em reza desmedida. Para muitos, um feito da ciência e um deleite inigualável de quem presencia o progresso, em contraste com o desespero dos que fogem com as mãos na cabeça em prenúncio de catástrofe, por certo testemunhando o fim do mundo. --- É hoje, minha gente, a hora chegôôô... Arrepende dos pecado que o anjo Gabrié vei fazê a apartação dos incréu, berra um ambulante com um tabuleiro amarrado ao pescoço, galgando a viela mais próxima em carreira descomunal. --- Bravo, senhor Wells, bravíssimo, gritam alguns para um inglês de casaca e cartola que vai montado na barquinha presa ao balão, acenando para o povo das alturas. E todos se misturam à fanfarra da banda marcial que ora se agrupa no centro do largo, hipnotizados pela geringonça voadora que aos poucos vai se distanciando em direção aos morros longínquos. Defronte à funerária CIPRESTE VIÇOSO, o senador Cavalcanti e o colega de partido Severino Pantoja estão empacados e com as mãos na testa, observando a façanha do Sr. Wells na típica desconfiança de um bode em canoa. --- Tá veno, diputado? Eu num falei pro sinhô quêce ingrêis éra mei doido? Ondé quéça disgraça vai pará? Pergunta o senador enxugando o rosto ao testemunhar a primeira façanha aérea nos céus do Brasil. --- Só o destino é quem sabe, senadô, mas graças ao bom Deus que o pió já passou. Vííge Maria, ó cumêle tá subino, ó? murmura o deputado fazendo o sinal da cruz enquanto a nave ganha altura. --- Sei não, diputado, mas esse casamento num tá me pareceno boa bisca, num sabe? --- Oxenti, senadô, só pruquê o Imperadô resorveu trocá os noivo na úrtima hora que o sinhô já impricô quêsse Conde? --- Ninguém me tira da idéia quêsse franceizim quêle arrumô pa fia dele num vai surti efeito, num sabe? Isso aí tá me cherano a ovo gorado. --- Num tô entendeno, senadô. Ovo gorado amódi do que? --- Ara, diputado, ovo que num dá pinto, hômi, arremata o senador arrancando uma gargalhada do amigo quando uma carruagem se aproxima. Em traje de gala, o filho Deucleciano e a nora Lucíola chamam pelo senador que logo toma o assento. Sorridente, a nora puxa assunto no afã de minimizar-lhe a carranca. --- Então, senhor meu sogro, vamos à ceia? --- Sei não, minha fia, tô achano mió seis í suzim. --- Ora, deixa disso, meu pai, não é todo dia que se tem um casamento como esse. Além do que, seria uma desfeita recusar um convite do Imperador. --- Num tô passano muito bem, meu fio. Tô achano que foi a tribuzana desse ingrêis me zangô o estâmo, num sabe? Num é de hoje queu num posso cum artura. Agora me leva embora pa casa queu tô pricisano desová. Dispois, se eu miorá, quem sabe? Retruca o senador levando a mão à barriga tentando amenizar os solavancos do carro. Ao final da tarde, no palácio de São Cristóvão, a comitiva estrangeira e os poucos convidados desfrutam de um banquete que nada ficou a dever às Cortes de Europa. A decoração do salão nobre com flores nativas, a criadagem ensaiada há meses, a orquestra e as valsas pomposas fazem o pano de fundo para o grande festejo, regado a champagne, vinhos finos e guloseimas da terra, encantando os olhares mais críticos e os paladares mais apurados. No baile após o jantar, a Imperatriz e as princesas irradiam felicidade e contentamento, ostentando jóias e vestidos invejáveis, recebendo elogios de todas as damas que pouco ficam a dever em luxo e pedras raras. Próximos do Imperador que assiste a tudo em deleite reservado, Alfredo d'Escragnolle Taunay e o almirante Lamare fazem a vez de anfitriões do novo mundo aos recém chegados. O jovem Duque de Saxe não consegue disfarçar na bebida o azar da troca das noivas, delineando ao longe e a contra gosto as feições nada encantadoras da princesa Leopoldina Teresa, sua futura esposa, enquanto o conde d'Eu corresponde com elegância aos flertes de seu inesperado dote, o Trono do Brasil. --- À saúde dos noivos, diz Alfredo Taunay em brinde cerimonioso. O almirante Lamare então aborda o jovem Alfredo. --- Você é um rapaz de sorte, meu caro. Minha mulher diz que donzelas da Corte estão encantadas com o nosso novo Chopin nacional. Então? Quando é que vais nos brindar com uma tocata, senhor Alfredo? --- Ora, ora, almirante. A música de Chopin é que é a responsável pelos mexericos. Numa roda de ministros e celebridades, o general Dumas, preceptor do conde d'Eu, não se farta em saborear as frutas tropicais que devora em gula felina, em especial, as bananas. --- Cautela, general, é o que eu sempre digo aos meus oficiais, diz em tom amável o Marquês de Caxias ostentando a farda de general impregnada de medalhas. --- Senhores, devo dizer que nunca provei nada igual, retruca o general mastigando a gororoba quando o mestre de cerimônia anuncia o momento mais esperado do dia, a valsa dos noivos. O Imperador levanta-se do trono e toma a Princesa Isabel Cristina como par, galgando o centro do salão e bailando como um grande dançarino, amparando a filha nos braços com a leveza e a ternura de um debutante apaixonado, instigando os muitos pares que logo o acompanham no maior dos prazeres da Corte, a dança. Ao término da música e ao som dos aplausos, o Imperador acompanha a filha até o genro e o cumprimenta graciosamente, cedendo-lhe a noiva para a próxima marca. Sentado-se junto à Imperatriz que não consegue conter as lágrimas em emoção previsível de sogra inaugural, o Monarca suspira em contentamento, vendo cumprida sua missão de pai. --- Ó, minha senhora, porque choras tanto? --- Ela está tão linda, senhor meu marido, tão feliz. --- Não queres bailar um pouco? Prometo não rodopiar, diz o Monarca em riso maroto afagando-lhe a mão, ciente da negativa. --- Bem que gostaria, senhor meu marido, mas as pernas não ajudam. Vamos, quero vê-lo dançar com Leopoldina Teresa. Ela me parece um tanto emburrada. --- É uma ordem, minha senhora, diz o Imperador levantando-se quando subitamente, um vento forte e repentino se abate sobre as janelas abertas do palácio, balançando fortemente as cortinas num crescendo jamais presenciado, interrompendo o som da orquestra em meio ao esvoaçar das partituras em cena deplorável. --- Santo Deus, diz o Imperador arregalando os olhos ao ouvir um barulho indescritível e ensurdecedor que se aproxima do paço, seguido de raios e trovões assustadores que despejam dos céus uma bateria enraivecida de pedras de gelo que ricocheteiam nos telhados com ferocidade impressionadora, arrancando gritos pavorosos de todos os convivas que perambulam desesperados em meio à chuva de horrores. Tão rápida quanto veio, a tempestade se esvai em minutos. --- Graças a Deus já passou, Majestade, diz o ministro Furtado confortando o Imperador que, junto de um médico, acodem a Imperatriz em desmaio passageiro. Defronte ao palácio, ora ausente das carruagens e dos muitos curiosos que ao longe degustavam o milagre da música, um manto branco e gélido veste o paço com o rastro lúgubre e destruidor do granizo ainda fresco, checado pelas mãos confusas de alguns criados que apalpam o gelo como quem presencia uma descoberta, não resistindo em jogar para o alto e num revide inconsciente, a conseqüência revoltosa daquela precipitação de pragas. Desconfiados e na faina de pioneiros destemidos, apalpam a argamassa esbranquiçada como quem pisa na areia virgem de um continente inexplorado, mostrando aos muitos que se debruçam sobre a sacada, o garimpo da coragem. --- Tá fria que só veno, murmura um criado esfarinhando a novidade. Os jornais minimizaram em muito a proporção do sinistro, mas não faltou a crônica de um jornalista de plantão atribuindo o meteoro como sendo um aviso do Criador, um mau agouro. Caprichos caudilhescos A história da humanidade sempre foi reeditada após a ressaca das guerras, alterando a cartografia das fronteiras a cada novo extermínio. Qualquer solo é um cemitério, mas ninguém verte lágrimas diante dos mapas, o maior de todos os túmulos. No dizer conciso do escritor Carlos Fuentes, na noite de 8 de maio de 1830, agonizando no leito de morte, Simon Bolivar dita seu próprio epitáfio: Servir à uma revolução na América Latina é arar no mar. De empolgante mondadura a tese do herói boliviano. Como admitir uma república que acode a opinião das maiorias e ser governado pelos interesses dos índios, dos negros e toda uma rapa de mestiços grudada ao tacho do eldorado continente, em detrimento a valores das hierarquias seculares do velho mundo, detentoras do antigo mando e de uma tradição que os traz na conta de senhores absolutos das raças infinitamente inferiores? Nestas horas os santos não aparecem, mas a Igreja legitima o novo regime aliando-se aos vencedores e confortando os derrotados em nome da vontade divina. Após a independência da América Espanhola, confirma-se o previsto e revela-se o caráter dos decaídos. Desta feita, a ganância atávica dos caudilhos é posta à prova, aliando-se à soberba vingativa dos avarentos e à inferioridade moral dos traidores da causa, formando o sustentáculo para uma tribuna amparada na mais pura gema da ilegalidade e da covardia, o trono dos que se colocam à frente da sina revoltosa e justa de combatentes anônimos, todos perecidos nos ideais da mentira e na utopia de uma liberdade de palanque, traídos em última instância pelos seus próprios comandantes que ora se apossam da morada alheia e fuzilam seus antigos inquilinos, reprimindo a discórdia e surrando a prudência, a única aliada de qualquer ponderação vigente. Viva la Pátria, Independência ou Morte, Ordem e Progresso, são apenas reminiscências de bordões engendrados ou de um positivismo centralizador e elitista, uma bandeira para se galgar o pedestal vacilante de uma utopia de bronze, encabeçada única e exclusivamente pelos detentores do engodo. São demônios que choram, anjos que matam, embora não aceitem sua própria morte, intitulando-se com superlativos nefandos, como se fora possível à uma besta togar-se de sábio. Estatuam-se em vida. Mais que o reflexo de assassinos decadentes, o caudilho é, antes de tudo, a antítese da lógica e do direito. Revivamos. Em 1811, quando José Gaspar Rodriguez de Francia sobe ao poder na recente República do Paraguai, ele exige de um Congresso feito à forra em molde doméstico, um título bem à altura de seu tempo: ''El Supremo''. Mais que um nome, o parágrafo único da sua constituição. Sem demora põe em prática o seu arrojado projeto de governo. Confisca os bens de todas as oligarquias derrotadas e proíbe a riqueza no país como que um antídoto a todos os vícios, seguindo à risca os ensinamentos dos quatro evangelhos. Fuzila os insatisfeitos, decreta a pena de morte por furto e impõe a pobreza como condição indispensável para manter seus mais de 320.000 subordinados em eterna obediência. Quanto à Igreja, de quem ora se mostra como um fervoroso desgarrado, por certo se espelhando nas façanhas do distante Henrique VIII, transforma seus antigos conventos em novos quartéis, desapropriando as terras do clero ao mesmo tempo em que libera os cultos, desde que as capelas ostentem no frontispício e junto ao altar, a imagem de uma nova santidade, a bandeira nacional, forçosamente beijada como que em paridade ao manto sagrado da Virgem. Isola-se do mundo, fechando a longo prazo as suas fronteiras para a entrada ou saída de quaisquer produtos ou ordem contrária. Desta feita, Francia governa sua fazenda e seus colonos até setembro de 1840, quando morre sem ter qualquer parente vivo e sem deixar qualquer vestígio de saudade. Mas, já que o poder não admite o vazio, entra em cena um advogado que se refugiara em sua fazenda no interior do Paraguai, em escape às volúpias temperamentais do então El Supremo. Saciando a fome dos fidelíssimos traidores da causa republicana, Carlos Antônio Lopez assume a presidência da nação Guarani com o aval de todos os chacais que habitavam as cadeiras do Congresso de Asunción, aos olhos de qualquer historiador desapaixonado, apenas um velho casarão a ostentar a excrescência da ilegitimidade. Mas, para sair da obscuridade política e geográfica de 29 anos de um ostracismo mais que ignorado aos olhos do mundo, resolve o Congresso paraguaio em 1842 reproclamar solenemente a sua independência para obter o reconhecimento dos vizinhos e inserir-se no comércio internacional, embora proclamando uma independência que já havia ocorrido há 31 anos. A modernização idealizada por Carlos Lopez foi bem mais arrojada do que sair à caça de um favo de mel. Se fez necessária a instalação de uma ferrovia, uma fundição própria e também um estaleiro naval. Importam-se arquitetos italianos para construir uma imponente catedral e um novo palácio de governo para servir de fachada a um novo Estado que ora se proclama democrático e independente. Decide-se pela compra de tecnologia inglesa e a formação de técnicos no exterior para suprir a demanda exigida pela nova era. Armar-se para a defesa e mais tarde, quem sabe, expandir as linhas de fronteiras até então colocadas no cabide da caduquice. Após o quinto ano de governo, Carlos Antônio Lopez nomeia o seu filho Francisco, de apenas dezoito anos, para ser o general-em-chefe do exército paraguaio, e, em 1854, ele embarca o futuro herdeiro do país como o plenipotenciário de seu governo junto às Cortes da Europa com o intuito de, a prazo curto, comprar o impossível, o progresso. Na Inglaterra, o jovem general negocia com a Blyth & Co. e consegue adquirir material de guerra, além de contratar alguns técnicos para modernizar o Paraguai. Também consegue o envio de alguns estudantes guaranis para se especializarem nas fábricas inglesas. No ano seguinte ele retorna ao lar amasiado com Elisa Alice Lynch, uma irlandesa separada do marido que conhecera nas suas andanças em Paris. À sorrelfa dos vizinhos que sempre tiveram o Paraguai na conta de um doente em estado terminal, Francisco Solano Lopez investe quase a totalidade dos recursos do país em seu exército para fortalecer o poder de barganha nas questões da livre navegação nos rios Paraná, Paraguai e na bacia do Rio da Prata, sua única saída para o oceano, e também precaver-se de uma possível incorporação de seu território pelos argentinos, antigo sonho do caudilho Dom João Manuel de Rosas. A 6 de abril de 1856, o Império do Brasil e a república do Paraguai assinam um tratado de comércio e navegação no qual se garantia o livre trânsito das embarcações brasileiras nos Rio Paraguai e Paraná, as únicas vias de acesso de que o Império do Brasil dispunha para abastecer a desterrada Província de Mato Grosso. Também fica adiada por seis anos a delimitação definitiva das fronteiras paraguaias com o Império do Brasil e a Confederação Argentina, que frontalmente ao Uruguai, detém o pedágio das portas do Atlântico. Com a morte de Carlos Antônio Lopez em setembro de 1862, quem assume a presidência do Paraguai é um de seus três herdeiros, o já então marechal Francisco Solano Lopez, agora com 36 anos de idade, mas que em breve, irá colocar em prática a vocação peculiar dos dinastas apegados à ganância e à imprudência. Em 12 de setembro de 1864, atendendo aos anseios da opinião pública do Rio de Janeiro ainda melindrada pelo susto da Questão Christie e ora mergulhada na pior crise financeira e comercial de sua história, resolve o novo Gabinete liberal de Francisco Furtado cumprir o ultimatum que o conselheiro e plenipotenciário José Antônio Saraiva havia imposto recentemente ao Estado Oriental, a república do Uruguai. Desta feita, a 16 de outubro, uma brigada brasileira com o apoio da esquadra imperial invade Montevidéu para assegurar a integridade e os interesses dos súditos gaúchos no território uruguaio em apoio ao general Venâncio Flores, do partido colorado (liberais), opositor à facção dos blancos (conservadores) ora liderada por Aguirre após a renúncia de Bernardo Berro. Para Solano Lopez, esta atitude soou como uma tentativa de ocupação definitiva do Uruguai pelo Brasil, já que o ato ferira um tratado assinado entre o Paraguai e o Império do Brasil em dezembro de 1850, pelo qual nenhum dos dois países poderia invadir o Estado Oriental sem concordância mútua. Isto provavelmente colocou em xeque o plano de Solano Lopez de futuramente ter o porto de Montevidéu como seu ponto chave para o resto do mundo. O revide não tarda, embora a notícia de qualquer desagravo naqueles idos chegasse sempre com o devido atraso. Dois meses depois, em 10 de novembro, a canhoneira paraguaia Tacuarí aprisiona o vapor Marquês de Olinda que fazia o trânsito de rotina pelos rios Paraná e Paraguai, trazendo a bordo o novo presidente da província de Mato Grosso, o coronel Carneiro de Campos. A tripulação é feita prisioneira bem como todos os seus passageiros, mas tal agressão não surte o efeito desejado por Lopez. Não obstante, em 23 de dezembro de 1864, oito dias após o casamento da princesa Dona Leopoldina Teresa com o Duque de Saxe no Rio de Janeiro, Francisco Solano Lopez surpreende o Império e invade, à revelia de qualquer declaração de guerra, a província de Mato Grosso, praticamente uma casa vazia e de portas abertas. Não perde tempo em apossar-se a ferro e fogo do que não lhe pertence. Logo em janeiro de 1865, ciente de que não seria atendido, ele pede uma autorização ao governo de Buenos Aires para passar com suas tropas pela província de Corrientes, para depois descer o rio Paraná e então poder atacar o grosso das forças brasileiras ora concentradas na fronteira do Rio Grande do Sul e no Uruguai. Negada a permissão, dois meses após, 5.000 soldados paraguaios sob o comando do general Robles invadem o território argentino e tomam Corrientes, também não encontrando qualquer resistência à altura de seu exército que, na sua totalidade, já contava próximo a 80 mil homens, todos arrebanhados nos últimos anos à força de um alistamento militar obrigatório para os que tinham entre 17 a 40 anos de idade, mais que o contingente das tropas brasileiras, argentinas e uruguaias que, a esta altura, somavam aproximadamente 62.000 homens. Ciente da inferioridade bélica dos invadidos e ignorando a possibilidade de qualquer aliança entre eles, Francisco Solano Lopez morde a isca e se fisga no anzol que ele próprio encastoara, ora enroscado nas amarras das galhadas de sua própria ceva. Não importa a patente da luva quando se leva um tapa na cara. A história nos mostra que a honra manchada sempre foi o prefácio de um duelo, mas somente os incautos é que caem na arapuca. Em 1º de maio de 1865, na calada da noite e à socapa do mundo, é assinado em Buenos Aires o Tratado da Tríplice Aliança, pelo qual o Império do Brasil, a República Argentina e a República Oriental do Uruguai, ora pacificada com o apoio das tropas brasileiras ao general colorado Venâncio Flores, se unem para derrotar o governo paraguaio e depor a figura do marechal Francisco Solano Lopez da sua presidência, agora um homem definitivamente marcado para capitular ou morrer. Ciente da sua desvantajosa posição geográfica de país mediterrâneo que depende única e exclusivamente do Rio Paraná para alcançar o Atlântico, Solano Lopez decide por descer o rio com a sua esquadra composta por 2 corvetas, 7 navios a vapor e 6 chatas, totalizando um poder de fogo de 44 canhões e um efetivo de 2.500 homens a bordo. Em terra, conta ainda com o apoio de uma bateria de 22 canhões e 2.000 atiradores, todos com um único propósito: Afundar a Marinha de Guerra Imperial ora se encontra atracada em território argentino, a uns 15 quilômetros ao sul de Corrientes e nas proximidades da embocadura dos rios Paraguai e Paraná. E desce o rio a toda força quando, na manhã de 11 de junho de 1865, ao desfilar diante da esquadra imperial comandada pelo almirante Francisco Manuel Barroso, dá-se o entrevero. Surpreendido pelas bordadas dos canhões paraguaios que disparavam em simultâneo contra a frota imperial, o almirante Barroso revida a soberba com o coice das 59 bocas de fogo da sua artilharia, ora composta por uma fragata, 4 corvetas, 4 canhoneiras e quase 2.300 homens a bordo, desencadeando em arroto fulminante o horror de uma porfia vulcânica que perduraria por dois longos dias. Às margens de um riachinho que desemboca nas águas do Rio Paraná, o tenente Elisário Barbosa se achega ao almirante Barroso que está a contemplar o cenário daquela carnificina travada em grande parte no corpo a corpo, após a completa aniquilação da frota inimiga. O cheiro da morte e o fumo da trágica peleja ainda pairam nas mentes assustadas dos que sobreviveram. Em meio àquela atmosfera de hecatombe, centenas de corpos estão estendidos numa macega às margens do rio, velados por prantos embutidos e policiados por rapinas de toda sorte em prévia de fartura. Saquear os mortos era uma praxe costumeira, no encalço de qualquer valia ou de um souvenir macabro. --- Aqui estão as baixas, senhor, diz o oficial entregando-lhe uma prancheta. --- Tenente, qual é mesmo o nome deste lugar? --- Riachuelo, senhor, assim os paraguaios o chamam. --- Riachuelo? Muito bem. Leia, tenente, diz o comandante devolvendo-lhe a prancheta e levando a mão ao queixo. --- Tivemos 247 baixas com 104 mortos, senhor. --- Santo Deus. E eles? --- Não terminamos a contagem, almirante, mas calculamos que seja por volta de 1.500 baixas e um pouco mais de 700 mortos. --- Cumprimos o nosso dever, tenente. Agora, o futuro a Deus pertence. Mais que depressa, a imprensa do Rio de Janeiro repinta os feitos do novo herói brasileiro e também do tirano paraguaio, alcunhando-o de Bonaparte do Prata, caricaturando-o como um vampiro de caninos avantajados a sugar o pescoço de seu próprio povo, campesinos xucros e guaranis malsinados, todos fadados à doma do príncipe das trevas. A opinião pública se revolta e os boatos de uma guerra contra o Império do Brasil se encarregam de fomentar o rebuliço que se forma na capital e nas províncias em cata a qualquer voluntário disposto a vingar e a defender a pátria invadida, papel este obrigatório constitucionalmente mas rejeitado pela da Guarda Nacional que se mostra uma milícia inerte e capenga, composta por pusilânimes de posse que vira as costas ao governo instigando-o a usar de outros meios. Os indigentes são de pronto abordados pela varredura inicial, enquanto que muitos fazendeiros, comerciantes e os pouquíssimos profissionais liberais, temendo uma possível convocação obrigatória para juntarem-se ao front, mais que depressa doam alguns de seus escravos para engrossar as colunas do exército e imediatamente cedem ao antigo sonho de suas senhoras, indo muitos a contra gosto em viagem de férias para as terras do além mar, enquanto que a campanha dos Voluntários da Pátria corre à boca miúda pelo Império a fora. No dia 8 de julho de 1865, no palácio de São Cristóvão, o Imperador escreve uma carta para a Condessa do Barral que partira para a Europa logo após o casamento das princesas Isabel Cristina e Leopoldina Teresa, informando-lhe sobre os últimos acontecimentos e da sua decisão de ir para Uruguaiana, ora sitiada pelos paraguaios e que, dias antes, tiveram a sua esquadra totalmente aniquilada pelas bocas de fogo da marinha imperial num feito batizado a posteriori de Batalha do Riachuelo, travada nas águas do Rio Paraná. Terminada a escrita, ele pega uma moeda de ouro de 4.000$000 e a apóia sobre a mesa com o indicador esquerdo, fazendo-a rodopiar com um forte toque do anular direito, quando aposta em coroa ao ver a pataca perder a força. --- Cara, murmura o Imperador contemplando sua própria efígie cunhada em relevo, ao que a acaricia com a digital do polegar, contornando a impressão PETRUS II D.G.C. IMP. ET PERP. BRAS. DEF. O mordomo Paulo Barbosa bate à porta e adentra o gabinete. --- O Marquês de Olinda e o almirante Lamare desejam falar-lhe, Majestade. Dizem ser urgente. --- É sempre urgente, sempre urgente. Mas, diz-me cá. Como anda sua saúde? --- Na verdade os ares de Europa nunca me fizeram bem, Majestade. Só depois que retornei à minha pátria e ao meu posto é que sinto-me melhor, obrigado. --- A Imperatriz queixou-me que tropeçaste na escada e deixaste cair uma bandeja. --- O que eu senti foi uma frouxidão nas mãos e nos pés, Majestade. Deve ser essa dormência que, às vezes, me incomoda um pouco. Já falei à respeito com o doutor Meireles e ele aconselhou-me a continuar com os banhos de lama. Felizmente o tratamento está dando resultado. --- Está bem. Agora, faça-os entrar, diz o Imperador vendo o mordomo sair a passos lentos, com os sinais da velhice vestindo-lhe a feição. O presidente do Conselho de Ministros, Pedro Araújo Lima, o então Marquês de Olinda vai direto ao assunto. --- O Conselho de Estado acaba de se pronunciar a favor de vossa permanência na capital, Majestade. Não acham prudente que o Imperador se exponha no campo de batalha. O monarca o encara com olhar de candura e entrelaça as mãos. --- Ora, senhor Marquês, como os nossos heróicos Barões que comandam a nossa gloriosa Guarda Nacional se negam a cumprir com o seu dever, o de apoiar o exército imperial, minha decisão está tomada. Se podem me impedir que siga como Imperador, não me impedirão que abdique e que eu parta como um voluntário da pátria. O principal dever de um monarca é dar exemplo a seus súditos, ou o senhor tem alguma dúvida a respeito? --- Se Vossa Majestade me permite, devo dizer que estais com inteira razão e louvo em muito vossa iniciativa. Ademais, permita Deus que este conflito logo se resolva para o bem do Império e das nossas finanças. --- Como assim, das nossas finanças, senhor Marquês? --- Sim, Majestade. O ministro Carneiro de Campos já me advertiu que se essa guerra não terminar em breve, o custo dos voluntários será bastante oneroso ao nosso erário e provavelmente teremos que recorrer a novos empréstimos. --- Empréstimos, senhor Marquês, com toda essa crise financeira a nos tirar o sono? --- É que a maioria dos fazendeiros não estão aceitando a oferta de doar uma parte de seus escravos para o exército, como foi proposto em troca da isenção de alguns impostos, Majestade. Eles concordam em vender alguns de seus negros, mas estão exigindo o valor de mercado. --- Valor de mercado..., como se uma vida pudesse ser comprada. --- E não é só isso, Majestade. Muitos só aceitam negociar se lhes for garantido uma honraria ou talvez, um título de Barão por exemplo, dependendo da quantidade fornecida, é claro, diz o Marquês enquanto o Imperador vai até a janela e fica a mirar o espaço. --- Dar asas à vaidade... --- Como disse, Majestade? --- Esta guerra não vai durar muito tempo, senhor ministro, e tomara Deus que não precisemos nos rebaixar tanto perante os olhos do mundo. Por ora devo embarcar para a fronteira, conversar com os nossos aliados e tomar parte da situação. E para isso conto com tua ajuda, almirante. --- Ó, mas claro que sim, Majestade, e creio que até amanhã já poderemos zarpar, retruca o almirante Lamare. --- Ótimo, então partiremos em dois dias. --- Sendo assim, devo informar ao ministro da guerra sobre a vossa decisão e mandar preparar a comitiva. --- É assim que se fala, senhor Marquês. --- A propósito, Majestade, isto acabou de chegar, retruca o Marquês de Olinda entregando-lhe uma carta. --- Do que se trata? --- O último relatório que recebemos sobre a coluna que partiu por terra para combater os inimigos em Mato Grosso. Só que os oficiais dizem que em quase três meses de marcha ainda não conseguiram atravessar os limites da província de São Paulo. --- Três meses e ainda não chegaram nas terras das Minas Gerais? Pergunta o Imperador correndo os olhos na carta. --- Assim escreve o tenente-coronel José de Miranda da Silva Reis, Majestade. E disse também que o jovem tenente Alfredo Taunay está maravilhado por descobrir a vastidão das nossas terras, anotando dia a dia todos os passos da coluna e os pormenores da comitiva. O Imperador esfrega as mãos em sinal de contentamento. --- Tenho uma afeição muito especial por esse homem, senhor ministro. Sabia o senhor que aos dez anos ele já lia os grandes mestres da literatura? Um grande futuro o aguarda, tão logo tudo isso logo termine. --- O coronel Miranda relatou que as dificuldades do trajeto se agravam por falta de víveres, pelas doenças e também pela ausência de mapas, Majestade. --- Mapas? Será que não vês que o palco desta guerra será no sul, senhor ministro, e que só poderemos tomar Asunción através do Rio Paraguai? O que parecia impossível nós já conseguimos, colocando à pique a esquadra de Lopez. É lá que vamos manter nossa armada, senhores, para bloquearmos a bacia do Prata e impedirmos a entrada de qualquer suprimento ao exército daquele tirano. E pelos meus cálculos, em menos de seis meses Solano Lopez estará derrotado. Estás de acordo, almirante? --- Para vencer um exército de índios Guaranis, Majestade, não creio que demoraremos tanto tempo, revida o almirante Lamare em aval imediato. --- Bravo, almirante, bravo, e que Deus nos proteja, finaliza o Imperador entrelaçando as mãos, balançando a cabeça em sinal de otimismo. Na manhã do dia 10 de julho de 1865 vê-se uma imensa procissão indo em direção ao cais Pharoux para assistir à partida do Imperador para a guerra. Acompanhado pelo seu genro mais novo, o Duque de Saxe, ele desce da carruagem imperial vestindo apenas uma casaca de general, um boné de almirante e o emblema do império preso do lado esquerdo do peito. Sob vivas que ecoam de todos os lados, o Imperador acena estoicamente para os populares e toca-lhes as mãos, cumprimentando-os e acariciando-lhes com a palma da divindade. Defronte a plataforma onde um barco a remo o aguarda, ele volta-se para o povo e dirige-lhe a palavra como nunca antes o fizera. --- Sou o defensor perpétuo do Brasil, e quando meus concidadãos sacrificam suas vidas em holocausto sobre as aras da pátria, não serei eu que os deixe de acompanhar, grita em tom altivo quando recebe mais uma ovação da multidão entorpecida. A bordo do vapor Santa Maria, a comitiva imperial sobe ao convés e acena para os populares que ora cercam a banda de música para ouvirem de perto o Hino Nacional. Ladeando o monarca está o seu médico, o doutor Meireles, o Marquês de Caxias, o ministro da guerra e também conselheiro Ângelo Ferraz, além dos generais Rohan e Xavier Cabral. Compartilham da viagem, dezenas de camareiros, secretários e muitas patentes do exército ainda em estado embrionário. Em pouco galgam o mar aberto comboiados por duas barcas entufadas de soldados e rumam para a província de São Pedro do Rio Grande, onde pouco se demoram na capital Porto Alegre, logo seguindo por terra com destino à fronteira com a Argentina, a porta de entrada para o vespeiro da intriga. Na marcha pelo interior da província, a bagagem e a munição de boca são transportadas em carros de bois, que seguem na retaguarda, enquanto à frente, vai a comitiva assentada em carros que são chamados pelos nativos de carretilhas, todas puxadas por duas parelhas de cavalos que, ao final da tarde, quando acampam, servem-lhes também de cama para dormir. Para alegria do Imperador, em meio à jornada regada a muitos dias de chuva, churrasco de carne verde sapecada na pressa gauchesca e no desconforto dos pousos ao relento, junta-se a ele o seu genro mais velho, o conde d'Eu, vindo do Rio de Janeiro após sua chegada da Europa, onde estava em viagem de núpcias. Em poucos dias chegam à vila de São Gabriel. O Imperador percorre os quartéis e visita as barracas dos feridos, onde agonizam os combatentes de uma refrega recente, passando por cada um dos mutilados a confortar-lhes os queixumes e a dor das seqüelas com palavras de gratidão. O mesmo se dá em Alegrete, para onde partem no dia seguinte, com o Imperador visivelmente impaciente por encontrar seu exército, viajando a cavalo até doze horas por dia, distanciando-se em muito dos carros da retaguarda, para preocupação dos oficiais e da guarda que o acompanham. Após dois meses de viagem desde sua partida do Rio de Janeiro, em 11 de setembro de 1865 dá-se o encontro tão aguardado. Nas imediações de Uruguaiana, surgem-se-lhe de repente, a cavalo, frente a frente, a figura barbada e surrada dos dois presidentes das forças aliadas, o general Bartolomeu Mitre da Argentina e o general Venâncio Flores, do Uruguai, que o cumprimentam com um breve aperto de mão. Em pouco, os três chefes de Estado são conduzidos defronte à barraca do Conde de Porto Alegre, general-em-chefe das forças do Império, onde apeiam e trocam as amabilidades de praxe. Não foi à toa que uma das cláusulas do tratado da Tríplice Aliança dava o comando-em-chefe dos exércitos aliados ao presidente da Argentina, o general Bartolomeu Mitre, caso o teatro da guerra fosse em terras argentinas ou paraguaias. No caso de acontecer alguma batalha em solo brasileiro ou uruguaio, o comando-em-chefe ficaria a cargo das altas patentes das duas nações. Bastante saboroso este inciso, habilmente engendrado por José Antônio Saraiva, o signatário brasileiro do tratado. Certamente o Império não seria visto pelo resto do mundo como um país que tivesse ambições sobre as terras do Paraguai, caso tivesse um brasileiro comandando todas as operações de guerra. Durante uma semana o Imperador fica acampado junto a seu exército, aguardando o momento do assalto a Uruguaiana, deliberado para o dia 18 de setembro conforme acerto do estado-maior dos três exércitos. Com todas as forças de infantaria, cavalaria e artilharia a postos e devidamente alinhadas, manda-se um ultimatum ao coronel Estigarribia, comandante-em-chefe da divisão paraguaia, para que ele e seus homens deponham as armas e se rendam incondicionalmente, o que se dá em menos de uma hora. Devidamente encarcerado o cabecilha Estigarribia, tem início o humilhante desfile dos 5.000 soldados paraguaios diante das tropas aliadas, todos enfileirados e de mãos amarradas, agora caminhando rumo ao campo de prisioneiros em aguardo à sina dos vencidos. Montados a cavalo e a frente dos três exércitos, o Imperador e os chefes aliados adentram a passos lentos no que era a vila de Uruguaiana, agora um arcabouço de cidade, toda em ruínas e cinzas, saqueada e desertada na completa exatidão do termo, exceção feita a um cão sem dono que está deitado defronte a uma velha morada que ainda borrifa o fumo da desolação e da pilhagem. Vistoriada o que fora antes uma cidade, cumpre-se agora a praxe milenar dos crimes de guerra com a partilha dos prisioneiros para serem executados ou vendidos como escravos, o único bem de valia que restara aos vencedores. Divididas em pequenos grupos, todos municiados de adaga à cinta e borduna a mão, as tropas dos três exércitos avançam com a fúria de uma matilha esfomeada rumo ao curral dos rendidos para apossarem-se do terço que lhes cabe. Como animais acuados num brete a espera do abate, muitos dos presos endoidecem ao pressentirem a balbúrdia do linchamento. Outros, desesperados, se ajoelham em berros de clemência enquanto alguns reagem inúteis perante aquela fanfarra de horrores, revidando a pontapés e pugilatos inofensivos os golpes dos punhais a perfurar as víceras dos que rejeitam o laço. Em meio à carnificina que se segue, muitos defecam ou vomitam, em aguardo à sorte de suas penas. Dos que tiveram a sorte de cair nas mãos dos soldados brasileiros e argentinos, grande parte serão feitos escravos, vendidos aos entancieiros dos pampas ou transformados em soldados para combaterem seus próprios compatriotas em batalhas futuras. Quanto ao lote que coube às tropas do general uruguaio Venâncio Flores, o privilégio da escravidão lhes será devidamente negado. Condenados sem qualquer julgamento, em fila indiana e com as mãos atadas às costas por uma tira de couro cru, um a um os prisioneiros são levados junto ao muro do cemitério e postos de joelhos diante dos verdugos que ora dão a volta por trás e enfiam-lhes os dedos nas narinas, puxando em seguida a cabeça para cima onde batem com a costa da lâmina no pomo-de-adão dos infelizes, tudo em meio à mesquinhez de deboches grotescos e insultos acovardados, servindo tão somente de aperitivo ao mais frio de todos os assassinatos: a degola à moda castelhana. --- Lado de fuera o lado de dientro, ijo de puta? Indagam os carrascos ao pé do ouvido dos prisioneiros que, quase sempre, tremem em convulsões indescritíveis e não raro, vertem feses misturadas com a urina do medo e do terror. Quando não há resposta, a execução se dá aleatoriamente após um forte golpe no estômago, geralmente dado com um chute ou uma coronhada de espingarda. Em seguida é feito um corte brusco na garganta que vai de baixo de uma orelha a outra, secionando as artérias e também a traquéia, produzindo um forte esguicho de sangue que se mistura aos gemidos afogados dos moribundos ainda mostrando os últimos sinais de vida, ora debatendo-se em contrações macabras, bailando sobre a rinha da barbárie ao som de uma zombaria insana. Muitos têm a cabeça decepada a machado e jogada com os corpos numa pilha de cadáveres que se estende a céu aberto. Ao término da charqueada humana, mais de 1.400 paraguaios anônimos jazem insepultos sobre uma macega próxima à barraca do Quartel Imperial onde, logo mais à noite, o monarca oferece um jantar aos comandantes aliados em comemoração à vitória da segunda batalha de uma guerra que, aos olhos de todos, já estava praticamente no fim. Em 23 de setembro de 1865, dias antes do Imperador iniciar sua viagem de volta ao Rio de Janeiro e já sob o odor da carniça humana trazida amiúde por um vento insistente, o representante diplomático da Inglaterra, Edward Thornton, aparece no acampamento como que por milagre, reivindicando aos oficiais uma entrevista com o Imperador Dom Pedro de Alcântara, o que é de pronto providenciada numa recepção desprovida de luxo e pompa. --- Em nome do governo britânico, gostaria de informar à Vossa Majestade e ao estado-maior do Império do Brasil que subscrevemos um documento ao marechal Solano Lopéz expondo nossa preocupação com os efeitos malígnos desse conflito. Também nos colocamos dispostos a negociar um acordo entre os quatro países para se evitar uma guerra, mas não logramos êxito. --- A diplomacia é o único caminho civilizado para se evitar grandes desastres, senhor Thornton, e a insolência sempre acaba em tragédia, retruca o Imperador com a mansidão dos pacientes. --- Em nome da Rainha Vitória, queira Vossa Majestade aceitar nossas devidas desculpas pelas arbitrariedades cometidas contra o Império do Brasil pelo ex-ministro William Christie, um contratempo que merece reparo e que não deve se repetir, diz formalmente Edward Thornton, ao que o Imperador intervém. --- As relações diplomáticas e comerciais entre o Império Britânico e o Império do Brasil sempre foram pacíficas e profícuas, senhor embaixador, e devem assim permanecer, encerra o Imperador endossado de pronto por uma salva de palmas. Ao fim da curta cerimônia dá-se um brinde e o ministro Thornton deixa a cena já credenciado como o novo embaixador inglês no Brasil, ao mesmo tempo em que a casa bancária dos judeus Rothschilds concedia 7 milhões de libras esterlinas ao único Império do continente americano, agora definidamente nas mãos do capital de empréstimo. Após a execução do hino nacional executado pela Banda de Niteroi, há quem diga que ouviu-se o God save the Queen. Do que trata dos ciúmes dos párocos... Na viela principal do arraial de Santa Quitéria, ao final de uma tarde mormacenta, avistamos uma colônia de beatas carpideiras e uma ninhada de romeiros, brotados repentinamente de confins ignorados. A maioria vem com crianças ao pé, entoando ladainhas lamuriosas na marcha torpe e lúgubre dos amadrinhados, todos caminhando de cabeça baixa em direção à coletoria dos débeis. Aos reclamos de um vigário itinerante que ora os visita para batizar e salvar as muitas almas do pecado original, vão as matrizes destrinchar suas melancolias numa fila de espera ao canto da igrejinha de chão batido, uma a uma a debulhar suas confissões ao pé do ouvido do novo pároco no anseio de pagar talvez, o maior de todos os seus pecados, a tragédia de ali terem nascido. As agonias guardadas, as penitências curativas e as tão esperadas desobrigas para o alívio dos não batizados e dos inúmeros amancebados, tem como prefácio a marcha interminável das 165 contas do rosário onde, a cada um dos 15 Pais Nossos, entremeia-se o cântico com uma dezena de Ave Marias. Antônio Vicente Mendes Maciel, agora uma figura bastante conhecida naquele povoado de fim de mundo, rouba a atenção do novo presbítero por chegar atrasado em meio ao culto, acompanhado à distância pela sua companheira, Joana das Imagens, a artesã que outrora o acolheu e que ora traz ao colo um rebento novo. Com a cabeleira crescida e ensebada pelo desleixo natural dos viventes daqueles sertões ignorados, uma barba curta e escura a cobrir-lhe a face murcha e alongada, ele se ajoelha e entra na reza, realçando uma voz firme e cadenciada, como que impondo sua presença ante uma penca de rezadeiras e as dúzias de coxos e aflitos que se misturam ao tufo dos homúnculos mortiços daquela confraria devotada. Ao término do rosário, é chegada a hora do sacrifício da missa, o momento mais aguardado daquela liturgia improvisada. Triunfantes com o fardo da miséria e trajados com a farda dos andrajos, a maioria se mostra com os pés desnudos e em silêncio de ajoujados, todos estampando a penúria como uma patente exclusiva para se alcançar o paraíso divino. Assemelhados na sina e com o semblante dos dopados, o rebanho se ajoelha ante o vigário que ergue um pedaço de pão por ocasião da Consagração, evocando as palavras do Crucificado com a autoridade do seu único porta-voz terreno. E o faz na língua culta, uma exclusividade dos sacerdotes, os portadores de estômagos satisfeitos e vestes portentosas. Ecoa então a palavra do mais alto posto de uma hierarquia alicerçada na vontade do Criador. --- (...) Súscipe, sancte Pater, omnípotens aetérne Deus, hanc immaculátam hóstiam, quam ego indígnus fámulus tuus óffetro tibi Deo meo vivo et vero (...Recebei, Santo Pai, Deus onipotente e eterno, recebei esta Hóstia imaculada, que eu, vosso indigno servo, vos ofereço, ó meu Deus, vivo e verdadeiro...) balbucia o prelado seguido por olhares anêmicos e esperançosos, onde, em pouco, muitos derramam lágrimas que se desdobram num delírio coletivo, talvez merejadas na bica dos corações resignados daquela gente trazida a cabresto pelos sesmeiros da antiga capitania e dos posseiros litorâneos. Com uma tina de aduelas simbolizando o Rio Jordão, o vigário faz agora o Sacramento do Batismo, derramando lentamente uma porção d'água na cabeça dos escolhidos, e, um a um, vai livrando as almas dos pequeninos do pecado da existência. Um ajudante acode o desperdício, amparando a água com uma cuia e derramando novamente o caldo bento no corote santificado. Contrariando a praxe da mulher segurar o filho durante a cerimônia, Antônio Vicente se aproxima com a criança aos braços e ouve atentamente as palavras do padre. --- Que nome o senhor vai dar ao escolhido? --- Joaquim Aprígio, seu padi, responde com voz firme. --- Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, diz o prelado em tom macio, ao que todos respondem o amém. Ao fim do preito e desobrigados perante Deus, é dia de festa em Santa Quitéria. O som de um foguetório fomenta de imediato o júbilo e o lúdico, com o adro da capela repleto de mães agradecidas por terem agora anjos como filhos. Os homens, em nichos distintos, exibem seus bacamartes em estrondos formidáveis, competindo entre grupos cujo vencedor é quem promove o maior estouro, a cultura secular do barulho como o dobre de um dia santo. Há pouco, uma desabitada ruela. Em minutos, uma feira de escambo. As guloseimas e os artefatos são permutados na mesma vagareza da desconfiança ou no descuido da incerteza. Sem pressa, uma cabra de leite troca de dono e um pote de aguardente muda de goela. Embutido numa sotaina preta a simbolizar o estado permanente de um luto duvidoso, o vigário Carmelo de Jesus passeia por entre a feira dando a benção aos que lhe pedem, mas sem deixar a formalidade que o cargo lhe outorga. Desperta-lhe a atenção a figura do homem que chegara atrasado na reza. Averiguado na inquirição de um cochicho em rabo de missa, aproxima-se dele como quem sonda um negócio em andamento. Antônio Vicente jamais deixara morrer-lhe o vício de comerciar, e na preguiça dos que pouco falam, expõe num tabuleiro de ripas as várias imagens de santos esculpidas por sua companheira, a beata Joana Imaginária que, ao seu lado, segura o filho recém batizado enquanto observa o marido engordar a féria. --- Que santo é esse? Pergunta um vindouro estacando-se diante de uma carranca de madeira. --- Pó pegá, meu sinhô, que esse é o Dão Sebastião. O santo guerreiro da guarda de Nosso Sinhô Jesuis Cristo que um dia inda vai vortá amódi sarvá os pecadô, responde Antônio Vicente entregando-lhe a peça, ao que ele a tateia como quem acaricia uma jóia. --- Oxênti, num é que ele memo? --- Mais como num havera de sê, hômi de pouca fé. E óia só. É difíci o sinhô achá uma casa onde num tem a proteção de Dão Sebastião, o nosso Sarvadô. --- Quanté que tá valeno? --- Coisa pôca, meu sinhô. E óia que a proteção desse santo num tem valia que paga, num sabe? Quinhento Réis e o cumpadi tá bem servido, responde-lhe Antônio Vicente roçando a barba quando o vigário se achega com as mãos entrelaçadas às costas, pressionando com a destra o polegar esquerdo em ronda costumeira, a espora da especulação. --- Sua benção, sô padi, diz Antônio Vicente curvando-se enquanto um séquito de curiosos forma-se em derredor, a maioria mapeando a auréola de pelos crespos que circunda a cabeça do padre, raspada no topo e na base. --- Ora, então temos aqui um artesão... Onde aprendeste o ofício? --- É a patroa quem faz, num sabe? Mais se o padi quisé, é só escoiê um e levá. E num pricisa pagá. --- O senhor dizia há pouco que este é o Dom Sebastião, o rei de Portugal, inquire o padre enquanto apanha uma estatueta. --- Num me diga. Que dizê que o padi tumém é devoto dele? --- Ora, senhor...Como é mesmo o seu nome? --- Antônio Vicente, seu padi, um criado de vóis micê. --- Ah, então és tu? Ao que parece, o senhor é uma pessoa bastante conhecida por aqui. --- Como Deus é servido. --- Venha comigo, senhor Antônio, precisamos ter uma conversa, diz educadamente o prelado caminhando em direção à capela ao mesmo tempo em que dispersa os curiosos à sua volta. --- Cê fica aqui, mulé, e toma conta das coisa que eu num demoro, diz em tom soberbo, regozijado, na certeza de que todos o espreitam. Num pequeno cômodo adjacente ao altar, acomodam-se em dois bancos justapostos ao canto. O vigário se serve e lhe oferece o vinho. --- Gardicido, seu padi, eu num bebo, responde em tom humilde enquanto observa o padre sorver um gole na lerdeza dos comedidos. --- Muito bem, agora me diga, senhor Antônio, o que você sabe a respeito de Dom Sebastião? --- Ara, seu padi, quem sou eu pá sabê da vida dos escoído de Deus pá guardá o reino de Nosso Sinhô? --- Esse Dom Sebastião daquela imagem a qual o senhor se referiu, meu caro, ele não é reconhecido pela Santa Igreja Católica como sendo um santo. Sabias? --- Num me fala, seu padi. --- É que ele não foi beatificado pelo santo Papa e portanto, não deve ser tratado como um santo. Você compreende o que estou dizendo? --- Qué dizê que o padi tá falano que o São Sebastião num é um santo? --- O São Sebastião é um santo, seu Antônio, mas o São Sebastião não é a mesma pessoa que esse Dom Sebastião, entendes? Esse Dom Sebastião daquela imagem que você está vendendo só é venerado pelo demônio, pelos feiticeiros, por fanáticos e pelos malfeitores de toda sorte, dos que não seguem os mandamentos de Deus. --- Vígi Maria, antão-se num foi o Dão Sebastião que morreu amarrado num pau cas carne cravada de ferpa? --- Acaso ouviste falar alguma coisa sobre a Pedra Bonita ou da Serra do Rodeador, no sertão do Pernambuco? --- Escutei não sinhô. --- Pois então vou lhe contar uma história, Antônio, um fato que se deu já tem quase uns cinqüenta anos. Naquele tempo, havia um feiticeiro chamado Bonito Silvestre dos Santos, que também era conhecido como mestre Quiou. Este homem andava pelo sertão dizendo ser um profeta e um missionário de Deus, e que estava a mando de uma Santa de Pedra que falava, veja só! --- E a pedra falava memo, padi? --- Ora, Antônio, é claro que não. Era pura imaginação de um louco. E não foi só isso. Ele pregava a ressurreição do rei Dom Sebastião, dizendo que El-Rei desceria dos céus e que todos iriam compartilhar os seus tesouros. --- Isso eu já ouvi dizê, seu padi. Antão-se qué dizê que é verdade? --- É claro que não, Antônio. E o pior foi que esse doido varrido botou na cabeça do povo para não ouvir os conselhos dos padres e nem obedecer ao governo da província, que isso tudo era coisa do demônio e que as riquezas da terra tinham de ser repartidas com os pobres, a que custo fosse. --- Oxenti, padi, mas o hômi num tava certo? --- Desobedecer a Deus e à Igreja Católica é pecado mortal, meu filho, e quem o fizer, não escapará do fogo do inferno. Isto está escrito na Bíblia. --- Isso é verdade, seu padi. --- Você é um bom católico, Antônio, um temente a Deus. Mas deixe eu terminar a história. Este povoado que depois ficou conhecido como Pedra Bonita, cresceu tanto que os seguidores desse mestre Quiou começaram a assaltar as fazendas e roubar as criações para dar de sustento aos desocupados. --- Robá pá dá de cumê a quem tem fome num têm o perdão de Deus, seu padi? --- Nunca aprendeste que não roubar é um dos dez mandamentos da lei divina? --- Aprendi, sim sinhô. --- E foi por isso que o governo mandou um tal de Marechal Salazar Moscoso com uma tropa de soldados para invadir o povoado e prender o chefe do bando. Foi uma matança sem fim, Antônio. --- Deus meu! Qué dizê que matáro todo mundo ? --- Nenhum deles sobreviveu. Todos foram trucidados naquela guerra sem motivo. Depois, o lugar foi incendiado e as mulheres, coitadas, foram mandadas para o Recife juntamente com suas crianças. Eu cheguei a ter mais sorte. Mas quanto aos outros, sabe Deus o que foi feito de suas vidas... E tudo por causa de um louco que praticava a desobediência à Santa Igreja e ao Nosso Senhor, diz o vigário tocando-lhe o ombro como quem arremata um conselho. --- Minha Nossa Senhora, antão-se o padi tumém tava lá? --- Foi a Providência Divina quem me salvou. Fui uma das crianças escolhidas pelo arcebispo do Recife e, com a graça de Deus, fizeram de mim um padre. --- Mas pruquê o padi tá me contâno essas coisa? --- Por que soube que todos lhe dão ouvidos, meu filho. E num povoado onde os padres vêm à míngua, é preciso estar de olho nas façanhas do demônio. --- Cruz, credo, padi, retruca de imediato fazendo o sinal da cruz. --- E não foi só isso que aconteceu, Antônio. Mais tarde, um certo João Ferreira corou-se o rei da Pedra Bonita e começou a iludir novamente os pobres, atraindo a todos pelas mesmas falsas promessas. Dizem que ele era a própria encarnação do diabo e que até recebia o tratamento de santidade. E todos eram obrigados a beijar-lhe os pés deste rei das trevas que se via no direito de possuir várias mulheres e até uma guarda pessoal. Embriagados, praticavam todo o tipo de selvageria, e o chefe dizia que a Pedra Bonita seria novamente o reino de Dom Sebastião caso o terreno a sua volta fosse molhado com sangue humano. --- Deus meu... --- E chegaram ao ponto de caçar os velhos, as mulheres inválidas e as crianças sem dono para serem degolados e doar seu sangue ao reino de Dom Sebastião. Até os cachorros eram sacrificados numa orgia que felizmente foi varrida pela força dos soldados da província. --- Cumé que pode arguém fazê umas coisa dessa cas criancinha, meu Deus? Comenta Antônio Vicente com olhar de perplexidade enquanto o padre serve-se de uma outra caneca de vinho. --- Felizmente isto é coisa do passado, meu filho. Agora é o tempo de orações, de vigília e da remissão dos pecados. --- Deus seja lovado, seu padi! --- Pra sempre seja louvado, meu filho. Mas, me falaram muito bem de você, Antônio. Dizem que és tu quem comanda as orações nos dias santos e que até já se passaste por um padre ao dar a extrema unção à um velho? --- Arguém precisava de fazê arguma coisa, seu padi. O coitado tava morreno e cramava o perdão dos pecado... --- Eu compreendo, Antônio. Também já aconteceu comigo, antes de eu me ordenar um soldado de Deus. Mas, me diga uma coisa. Sabes ler e escrever? Antônio Vicente afirma com a cabeça mas mantém-se absorto, roçando acanhadamente a barba, com os olhos fixos no nada. --- O que você já leu, Antônio? --- As Horas Marianas, seu padi, mais já andei lendo a Bíblia quando era mais moço. --- Oh, a Bíblia? Mas, que mal lhe pergunte, o senhor sabe o latim? Cabisbaixo, ele tenta desconversar. --- Um professô me ensinô, seu padi, mas ainda farta muito que aprende. --- Muito bem. Se tu quiseres, eu poderia nomea-lo meu ajudante e terias o mesmo papel de um diácono aqui em Santa Quitéria. O que achas? --- Diáco, o que, seu padi? --- Um diácono, Antônio. Serias o meu auxiliar durante as desobrigas da quaresma e também me ajudarias a recolher o dízimo para a conservação da capela. --- Nesses ano tudo que eu tô aqui, o que eu fiz com gosto foi zelá da capela e do cemitério, seu padi. Mais nunca precisei pedi esmola pa nada. --- Quem dá aos pobres empresta a Deus, Antônio, e, ao que parece, você tem um coração generoso. --- Gardicido. --- Mas só que tens de me prometer uma coisa. --- Apois diga. --- Tu não irás mais vender as imagens de Dom Sebastião e também vais contar aos seus conhecidos essa história que lhe contei. E que ninguém mais ouse chamar o rei de Portugal Dom Sebastião de santo ou de qualquer coisa que o valha, retruca o vigário com o dedo em riste. De volta à festança, agora resumida na cantoria molenga de um cego tocador de rabeca, Antônio Vicente se achega à companheira que traz a criança dormindo no embalo do colo, mostrando-se curiosa e sorridente. --- Vígi Maria, Antôim, hoje foi o nosso dia de sorte, óia só, diz a mulher mostrando-lhe o tabuleiro vazio enquanto entrega-lhe um bornal apinhado de patacas. --- Vão bora, mulé, que eu tô careceno é do sossego duma rede, num sabe? Resmunga Antônio Vicente quando ouve o rabequeiro cego entoar um verso na fanha de um Homero ignorado: '' ... Amarraro ele no pau e flecharo o coração, foi morá com Jesuis Cristo, viva o rei Dão Sebastião...'' De volta ao casebre, Joana acomoda o filho num caixote ao pé da cama enquanto observa o companheiro folhear uma Bíblia junto ao fogão apagado. --- Vamo quentá um cumê, Antôim? Com os olhos fixos no livro, ele balbucia algumas palavras em latim, ao que ela intervém. --- Oxenti, inté parece que perdeu a fome? --- Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus, retruca pensativo e com a voz pausada enquanto a mulher se achega tocando-lhe o ombro. --- O que foi que o padi falô, Antôim? --- Ele me contou uns causo que inté parece coisa do Demo, Joana. Disque Dão Sebastião num é santo e falô pra nóis num vendê mais a image dele que é pecado. --- Vigi Maria, mas será que o padi tá variãno? --- Tava pensano na gente saí daqui prum povoado mió. --- Óxenti, Antôim, ocê vive falãno que qué imbora não é de hoje, num sabe? Apois fique sabeno que Santa Quitéria é o meu lugá e eu num vô saí presse mundo com um fíi no colo só pramode dum padi que levem aqui de ano a ano só pa estorvá os negóço dos oto. Aqui eu tenho a minha morada, as minha cumadi e as convivença do meu sirviço. E num vai sê pru causa de coisa pôca queu vô deixá de cumpri a promessa que fiz pa Santa Quitéria. --- Sei não, Joana, sei não, diz em tom de pouco caso voltando os olhos pra leitura. E naquelas paragens ignotas de um mundo esquecido e sem dono, uma réstia inocente de trovas simplórias floriu noite adentro no largo da capela, cavando o medo e fuçando a latada dos confusos dementes, dos assombrados e dos miseráveis trajando aa triste armadura de espectros viventes.
CAPITULO 3 0 A CRIA A CRIA Da luz de onde os gênios brotam Deixemos o litoral de São Sebastião do Rio de Janeiro, o santo padroeiro de muitas vilas, alcunhado entre tantos, como o protetor das pestes. Afastando-nos das almas encravadas na orla fétida e doentia de uma baía temida pelos estrangeiros como o fosso das mortes, mas de toda enverrugada de angras e infestada de gigantescos costões de pedra a hipnotizar os viajantes pela opulência de suas paisagens, embrenhamo-nos pelas diminutas rugas abertas por entre a face da virgem floresta e transpomos em demorado a copa da Serra do Mar. Vislumbramos então, de chofre, o imenso vale do Rio Paraíba do Sul onde, por todo o arrabalde das poucas freguesias e vilarejos, inúmeras clareiras abertas entre a imensidão da mata são repovoadas em persistência por vastíssimas covas de café, ora vicejando a esmo e por toda a banda, substituindo as surradas plantações de cana-de-açúcar ao mesmo tempo em que tomam o assento de novas matas nativas recém derrubadas. E tudo se faz em marcha acentuadamente irreversível e assustadora. Aos reclamos que se desdobram em gorjeios melancólicos e esturros de birra, uma fauna de inusitadas cores cede aos poucos sua primitiva morada à uma nova ordem contrária à marcha natural da vida, regida por uma demanda ditada pelos novos hábitos do velho continente que, mesmo além mar, rege o compasso de um extrativismo inconseqüente e devastador, fomentada em princípio por um maquinário medieval, impiedoso e desbravador, desregrado do conceito primordial de qualquer plano produtivo ou de um intento racional, desprovido de prudência e piedade. Curvara-se o paraíso ante ao braço, ao machado e ao fogo. A exemplo das coivaras aborígines, repete-se pelo interior da Província do Rio de Janeiro e alonga-se em direção à Província de São Paulo esta a prática medieval herdada dos antigos estupradores de hemisférios, dos saqueadores do cobiçado Pau Brasil, prefaciando ingenuamente e imperceptivelmente o arcabouço de um futuro deserto. Prolifera por toda a banda uma malta infindável de cupins humanos em cata a qualquer bem de valia. Não foram em vão os árduos anos de trabalho levados a cabo pelo guarda-livros Manuel Pimenta da Cunha que, após deixar o berço da sua terra, a primitiva São Salvador, ao longo de meia década conseguiu se estabelecer na região e tornar-se até um modesto proprietário de terras ao desposar uma das filhas de Joaquim Alves Moreira, o dote que lhe coube de um sogro de poucas posses. Mesmo morando em sua modesta fazenda próxima a Freguesia de Santa Rita do Rio Negro, arredores da Vila de Cantagalo, aos poucos ele investe suas economias na plantação de café, mas ainda está longe de abandonar seus afazeres profissionais que garante o sustento da casa. A cargo do baiano Manoel da Cunha fica a contabilidade de algumas fazendas locadas entre as vilas de São Fidélis e Nova Friburgo, confiada por fazendeiros que de há muito o trazem na conta de um homem reto e respeitoso. Se assemelhavam em quase tudo as fazendas de café da região. O terreiro, a senzala, o trabalho escravo comandado por feitores e a preguiça hereditária dos patrões, uma exclusividade tropical. Os seus casarões de múltiplos cômodos e bem arejados, embora desprovidos de um mobiliário luxuoso, contrastavam em muito com os palacetes dos barões, viscondes, condes e marqueses, que traziam arquitetos e até decoradores do velho mundo para dar um toque de Europa ao interior de suas mansões, todas cravadas no seio da mata. Logo na chegada da Fazenda Saudade, locada ao pé de um pequeno vale, avistamos o casarão, imponente, cercado de todo por coqueiros vistosos. Ao fundo, um antigo engenho de cana se mostra desativado, enquanto que vários talhões de café são plantados a cada ano, na medida em que novas áreas de mata nativa são queimadas e derrubadas, na maioria das vezes, sem a devida precaução de um aceiro. Em prévia combinada com José Teixeira de Carvalho, proprietário da Fazenda Saudade onde Manuel da Cunha também zela pelas contas-correntes, traz ele sua mulher Eudóxia, de bucho vistoso e às vésperas de dar a luz. Aceitou sem titubeio a insistência do amigo e patrão que lhe oferecera, além do conforto do antigo casarão, os cuidados da sua mulher Emerenciana e a sabença de uma velha parteira já calejada em muitos rebentos, a escrava Sabina de Jesus. Criança alguma morrera em suas mãos. Em janeiro de 1866, numa boca de noite, já ao breu dos lampiões e com o céu enegrecido por uma barra chuvosa, o fazendeiro José de Carvalho e o seu guarda-livros Manuel da Cunha fazem a sesta assentados a um canto da sala na mesmice dos últimos dias. Enrolado o cigarro, eles trocam fósforo e barganham prosa, o mais antigo dos brindes campestres. --- Há tempos que não vejo o doutor Deucleciano. Será que ele está em viagem, Manuel? --- Não, seu José. Depois que o senador Cavalcanti veio a falecer ele assumiu os negócios do pai e fica pouco na cidade. A Fazenda Cachoeira é muito grande e requer os seus cuidados na maior parte do ano. José de Carvalho bafora o cigarro e fica pensativo. --- Um homem interessante, o doutor Deucleciano. Fez seus estudos na Europa, advogou para muitos na corte e agora volta às raízes. --- É fato, seu José. Dona Lucíola perdeu a criança e definhou na tristeza. Logo em seguida, com a morte do senador, o doutor Deucleciano parece ter assumido o lugar do pai e quase não vai à cidade. --- Agora, com os liberais no poder, Manoel, será que ele vai entrar na política para herdar uma vaga de senador? --- Creio que não, seu José. Os negócios são muitos e o doutor Deucleciano já não precisa dos favores da corte pra fazer fortuna, responde Manuel da Cunha enquanto servem-se de café. --- E essa guerra no lá no sul, Manuel, será que vai longe? --- Pelo que sei, o Imperador já retornou à corte e, de acordo com os jornais, ele diz que é só uma questão de meses para que os paraguaios deponham as armas. Mas o que o preocupa? --- Sei, não, Manuel. Os fazendeiros não anda satisfeito com essa política dos liberais e também com a falta de informação a respeito dessa guerra. Dizem que o nosso exército não avança um palmo há quase um ano e que os soldados morrem aos montes, doentes com o mal do cólera. --- Não me diga, seu José? --- Tão falando na cidade que se a coisa continuar como está o exército será obrigado a requisitar mais soldados para combater as tropas desse tal Solano Lopez. E justo esse ano que tem muito café por colher. --- Ora, seu José, mas em que isso poderia nos afetar? --- Os escravos, meu caro, os escravos... O meu medo é que o governo nos obrigue a vendê-los a preço de porco para engrossar as fileiras de combate. Soube que já usaram desta prática o ano passado e, se isso for mesmo verdade, como vamos fazer a colheita? --- Santo Deus, eu não havia pensado nisso, retruca Manuel quando um grito abafado vindo de um dos quartos invade a sala, seguido de um outro ainda mais forte. José de Carvalho se levanta calmamente em socorro à perplexidade do companheiro que coça a cabeça e lambe os lábios. Duas mucamas de meia idade saem da cozinha e cortam a sala, uma delas segurando uma bacia d'água ainda enfumaçada. --- Acho que a hora chegou, Manuel. Venha, vamos até a cozinha que a dona Eudóxia está em boas mãos. Deitada sobre uma cama larga e desprovida de dossel, pálida e bastante assustada, a pequena Eudóxia Moreira se contorce com gemidos tímidos em meio às contrações que se repetem em crescendo, auxiliada pela vistoria da velha parteira que a acaricia no ventre, vez ou outra enxugando-lhe o rosto enquanto que a sinhá Emerenciana ocupa-se com um rosário que debulha pacientemente, sentada em outra cama ao canto do quarto. No passar da hora, na cozinha, ao pé do fogão, Manuel da Cunha e José de Carvalho trocam passos de espera, no entremeio a canecas de café e baforadas de cigarro, agora assustando-se em repentino com o clarão de um raio surgido a curta distância, prenunciando o descambar de uma chuva que não tarda. --- Corage, minha fia, corage, diz a velha parteira frente ao par de pernas que ora se enverga na derradeira contração materna, quando o ronco de um trovão mistura-se aos vagidos do novo rebento, os primeiros esturros da maior aventura humana. E diante da luz, ecoavam timidamente pelos ares do casarão da Fazenda Saudade o protesto indefeso de mais uma cria no embate inaugural da existência. --- Nasceu, murmura José de Carvalho cumprimentando Manoel da Cunha que ora vai em direção à sala ansiando por uma boa nova. Em quarto de hora, embutida em traje manchado em sangue e com a cabeça a sustentar um turbante seboso e surrado, a parteira deixa o quarto e flagra os dois sinhôs que a miram com olhar de ansiedade. --- Então, Sabina? diz o patrão à velha parteira que, fazendo o sinal da cruz, esboça lentamente o sorriso tranqüilizador das anciãs cativas. --- É um minino, meu sinhô, e o bichim já tá mamãno... Os olhos do pai rebrilham em misto de regozijo e alívio, avalizado de pronto pelo amigo que o encaminha até o quarto. Ladeada pelas mucamas e pela Sinhá Emerenciana que, ao vê-los, leva o indicador à boca em sinal de silêncio, a mulher repousa com o filho junto ao braço, todo envolto em panos brancos, um convite ao pai que se achega e a acaricia na testa enquanto observa em lusco-fusco a face enrugada de seu primeiro filho. Não resiste em contemplar a cria sem tocá-la, escorregando levemente o dedo na face rosada da indefesa criatura. --- Graças a Deus, mulher, o nosso filho é um homem, diz Manoel da Cunha acariciando a moleira arrepiada do seu primogênito. --- Que dia é hoje? balbucia a mulher apertando-lhe a mão. --- Dia vinte, minha senhora, dia de São Sebastião e de São Fabiano. Agora durma, que o pior já passou, responde enquanto afaga-lhe o rosto. Ainda se ouve o barulho da chuva que aos poucos se esvai, vagarosamente, ao que todos se recolhem. Ao romper do dia, ainda em frescor de relva molhada, um negro de meia idade deixa a senzala e galga seu posto defronte o casarão da Fazenda Saudade. --- Pi, pi, pi, balbucia o cativo sentando sobre um toco de pau grosso, debulhando calmamente uma espiga de milho em chamariz à criação, que, aos poucos, povoa a sua volta em garimpo ao grão dadivoso. Escolhida a presa, o bote é certeiro, restando apenas o cacarejar manhoso de uma galinha da canela preta em véspera de canja encorpada, um quesito centenar para a dieta das parturientes nos dias de resguardo. Em pouco, ao pé de um fogão de meia brasa, a parteira Sabina de Jesus rodopia uma colher de pau numa panela escaldante e logo respinga algumas gotas na mão, lambendo a amostra e fazendo a careta peculiar de quem aprova o tempero da sustança. Sentados à mesa para o desjejum, José de Carvalho e Manuel da Cunha saboreiam um pouco da iguaria em prefácio às quitandas da casa. Broas de fubá e pães de mandioca regados com leite fresco e café. A sinhá Emerenciana deixa o quarto e os surpreende no meio da ceia, fazendo-lhes companhia. --- Muito bom dia, dona Emerenciana, diz Manuel da Cunha levantando-se no desajeito de quem anseia por notícia. --- Não te afobes, seu Manuel. O menino já acordou, e olhe cá, mamou nos dois peitos e ainda estava a querer mais. Depois voltou cair no sono, o pobrezinho. --- Graças a Deus. E a dona Eudoxia? --- Ela tossiu durante a noite, mas graças ao bom Deus está melhor. Agora acaba com um prato de canja e está a querer mais, veja o senhor. Mas não deves te preocupar, Manuel, a Sabina está a cuidar dos dois, retruca a sinhá servindo-se do caldo enquanto José de Carvalho passa o guardanapo à boca e solta um arroto discreto, coçando a barriga com ar de pura satisfação. --- E então, Manuel, já pensaste que nome que vais dar ao teu filho? --- Euclides, retruca jubiloso, contemplando a paisagem por entre as janelas. --- Euclides? Mas que eu me lembre, nunca vi nenhum santo com esse nome, senhor meu marido, balbucia a sinhá abocanhando o caldo. --- Era o nome de um filósofo, dona Emerenciana, um geômetra que viveu na antiga Grécia, muito antes de Nosso Senhor Jesus Cristo. --- Ora, meu caro Manuel, tu não te cansas de te meter com os livros e a falar de números, diz José de Carvalho acendendo um cigarro. --- É fato, seu José, mas gostaria, se me permitem, de aproveitar a ocasião para agradecer a tudo que o senhor e a senhora dona Emerenciana tem feito por nós. Da minha parte e também de dona Eudóxia, seria de muito gosto se aceitassem o convite para apadrinhar o pequenino. --- Mas é claro que aceitamos, Manuel, aliás, já podemos chamá-lo de compadre, diz José de Carvalho cumprimentando-o em riso de endosso. --- Ora pois, então venham. Vamos espiar a criança e dar a notícia a comadre Eudóxia, diz a sinhá Emerenciana entrelaçando as mãos em ar de puro contentamento. E entram no quarto em silêncio de gato, quando Manuel se achega para ver o filho que dorme num berço ao canto. Ao arredar o mosquiteiro, repentinamente, Eudóxia começa a tossir, desencadeando uma crise nunca dantes presenciada, mas socorrida de imediato pela parteira que lhe acode com uma caneca de mezinha, aliviando-a em estalo de dedo. --- Estás bem, mulher? Pergunta o marido assustado, ao que a mulher afirma balançando a cabeça enquanto sorve mais um gole do chá miraculoso. --- O nosso filho já tem padrinhos, dona Eudóxia. O seu José e a dona Emerenciana aceitaram de bom gosto. E também já dei-lhe o nome. --- Fabiano ou Sebastião? Pergunta a mulher em voz abafada. --- Euclides, minha senhora, há que se chamar Euclides Pimenta da Cunha, retruca o marido quando de súbito, a descambar dos céus, uma revoada de maritacas sobrevoa o casarão trazendo em simultâneo um dilúvio de pios festivos e estridentes, ao que todos se deleitam. --- Euclides, murmura a mãe olhando a criança que ora dorme na pura feição dos indefesos. Nem tudo que reluz é ouro Cai a noite na capital com relampejos em aviso de rega pesada. Um homem atravessa calmamente a rua ancorado num par de moletas e se estaca defronte ao Jornal do Commércio. Observa calmamente a figura do jornalista Arlindo de Castro, debruçado sobre a escrivaninha a rabiscar um papel. Em pouco ele bate duas vezes na portinhola de vidro fosco, ao que o jornalista o encara assustado, se aproximando com uma pistola engatilhada por trás da casaca. Aberta a porta ele encara a figura de um homem velho e magro, embutido num camisolão escuro e com o rosto pálido, assustado, como quem tem medo de ser visto. --- O que você quer? Calmamente o homem lhe entrega um papel. --- Leia o senhor mesmo, seu Arlindo, responde enquanto desabotoa a túnica, engolindo seco e voltando os olhos para o chão. “... Fiz parte da guarnição que esteve na Ilha da Redempção, de 11 a 18 de Abril de 1866. Nossas trincheiras eram valas profundas amparadas por saccos de areia, que a todo o momento se esboroavam com os repetidos beijos da excellentissima "Vovó", uma grande peça do forte Itapirú, na margem direita do rio. Esses beijos exphacelavam o corpo e serviam para decepar cabeças, braços e pernas dos que iam apanhar água no rio. Quando o sentinela via a fumaça ele dava o grito “lá vem ella” e aí era só rezar pra Deus...” --- Deus do céu, o que é isso?, murmura o velho jornalista, quando o homem o encara com os olhos avermelhados. --- O senhor precisa saber a verdade, senhor Arlindo. O meu filho morreu na guerra... Estão todos mortos... O jornalista o leva para uma sala ao fundo da tipografia, acomodando-o num banco e oferecendo-lhe uma caneca de café. --- Mas quem escreveu tudo isso? --- Foi um amigo de meu filho, senhor. Este homem foi baleado na orelha no campo de Tuiuti e meu filho perdeu uma perna, veja o senhor, responde o homem com os olhos em prantos. O jornalista corre os olhos para a porta da rua e logo acende uma cigarrilha, baforando em devagar e enrugando a testa diante do papel. --- Seu filho é um soldado, é isso? --- Sargento Reis, senhor, ele sabia ler e escrever, retruca jubiloso. Quando conseguiu um emprego para trabalhar no cais, na companhia dos ingleses, o convenceram de assentar praça e ir pra guerra junto com um corpo de voluntários, uma leva de escravos que veio do norte. Eu e a mãe dissemos pra ele não ir, mas eles o enfeitiçaram com o soldo de sargento. Disseram que a pátria não tinha lugar para os covardes. Também falaram que enforcariam os desertores... --- Entendo... Então foi ele quem escreveu tudo isso? --- Foi, senhor. Disse que começou a escrever por ver um companheiro que fazia diariamente as anotações sobre o dia a dia no acampamento e nos combates, um tal de Francisco da Silva Barbosa. Disse que esse companheiro escrevia tudo sobre a guerra. Só falava nisso, o coitado. Disse que a comida no hospital era só uma tigela d’água com um pouco de arroz e falou numa tal doença que mata mais que as jabuticabas e os morangos. Por um momento o jornalista leva o dedo aos óculos e olha pro céu, em desdém de arrogância. --- Jabuticaba, doença, morango? --- A peste, senhor, interrompe bruscamente. Meu filho falou que ouviu um médico dizer que esse mal está vencendo a guerra sem gastar nenhuma munição. Falou também que os soldados apelidaram as balas de jabuticabas e os torpedos e as granadas eles chamam de morangos, senhor. --- Ah, sei. Mas por que o senhor está me dizendo tudo isso? --- O povo precisa saber a verdade, senhor Arlindo. Queira Deus que ele ainda esteja vivo e que possa um dia voltar pra junto da mãe. Ele entregou essas cartas pra um furriel escalado pra voltar à corte numa chata que veio buscar mais voluntários para morrer nesse tal campo de Tuiuti. --- O que mais ele escreveu? --- Tem uma porção de cartas, senhor. Está tudo guardado, mas se o senhor quiser eu lhe mostro. --- Cartas? --- As que escrevia pra mãe, senhor. Ele sabia que elas não chegariam, mas assim mesmo ele escrevia. Estão todas bem guardadas, graças a esse amigo furriel que lhe fez um juramento que as entregaria. O povo precisa saber a verdade sobre essa guerra, seu Alindo. --- Amanhã eu quero ler as outras cartas, está bem? Mas ninguém deve saber que o senhor veio aqui. Isso é um assunto muito sério e não podemos brincar com fogo, diz o jornalista ao homem que faz o sinal da obediência com a cabeça. Duas parelhas de cavalos tordilhos conduzem uma berlinda que deixa o paço de São Cristóvão rumo à estrada da Tijuca, acompanhada por dois cavaleiros que cobrem a retaguarda. Estacionada defronte a uma mansão ladeada pela mata exuberante, um homem calvo e esguio desce a passos largos, prontamente recebido por dois serviçais. --- Senhor ministro, a que devo a honra, diz o marquês de Caxias recebendo o adversário político com a devida formalidade. Presidente do Conselho de Ministros do Gabinete Liberal, ora no poder, o ministro Zacharias de Goes e Vasconcelos destaca-se na corte como um político culto e inteligente, muito embora a política adotada pelos liberais não estivesse em sintonia com a opinião pública em relação ao marasmo da guerra contra Solano Lopez. Frente ao general e ex-presidente do Gabinete Conservador que ele próprio ajudara a derrubar há quatro anos, o ministro Zacharias dá o ultimato sem titubeio. --- Senhor Marquês, é consenso de todos do partido liberal de que a pátria precisa de seus préstimos e que os interesses da nação devem estar acima de nossas conveniências partidárias, diz o ministro enquanto é conduzido a uma saleta. --- Mas, senhor presidente, eu não posso trair meus correligionários e subordinar-me ao ministro Ferraz, meu notório inimigo, num assunto de tamanha gravidade. --- Aqui está o último relatório oficial, senhor Marquês. Sinto informá-lo que o general Antônio Sampaio e mais de 60 oficiais pereceram em combate, além de 4 mil baixas contabilizadas até o momento. Este é o saldo de mortos do campo de Tuiuti. Devo dizer também que o ministro Ângelo Ferraz faz questão de abrir mão do Ministério da Guerra em seu favor, senhor Marquês, e que a pasta do Exército ficará sob o vosso comando. Vossa Excelência já deve saber também que esta é a vontade do Imperador. --- Qual a situação da nossa esquadra, senhor presidente? Pelo visto ela não avança um palmo há meses? --- Apesar das muitas baixas até o momento, senhor Marquês, conseguimos avançar até a fortaleza de Curuzu, um ponto importante. Mas o revés de Curupaiti deve ser remediado com a máxima urgência, assim como a situação no campo de Tuiuti que é bastante preocupante. --- O que diz Osório? --- Segundo o relatório do General Osório, nossas tropas estão desmotivadas, senhor Marquês. E também nos deparamos com imprevistos que só a vossa experiência poderia contorná-los. --- Devido aos últimos acontecimentos, creio que vamos precisar de mais voluntários, senhor presidente, e o senhor com certeza já deve ter alguma novidade a respeito, diz o Marquês de Caxias servindo-lhe um cálix de vinho do Porto. --- Os hospícios e as cadeias já estão praticamente vazios em todas as Províncias, senhor Marquês, mas novas medidas estão em andamento para que contornemos a situação o mais breve possível. --- Conversei com o Imperador a respeito desses pormenores, senhor presidente, e diante de tais circunstâncias, não poderia me furtar a essa responsabilidade e muito menos exigir, digamos, a substituição do Gabinete Liberal. Todavia, vossa mercê há de convir que não posso abrir mão de uma cláusula imprescindível. --- Sim? --- Sou um militar por natureza, senhor presidente, e a minha espada não tem partido. Mas neste caso, devo reiterar que sem a plena confiança do governo a nossa vitória cairia por terra, o que seria desastroso para o Império do Brasil. --- Vossa Excelência a terá, senhor Marquês, empenho a minha palavra. --- Neste caso, senhor presidente, reitero que um Marechal-de-Campo deve contar com todos os meios disponíveis, além, é claro, da confiança absoluta do governo. --- Permita-me, senhor Marquês, que por sua elevada posição no Exército e também no Senado do Império, Vossa Excelência sabe perfeitamente quais são os recursos de que o governo pode dispor e que os terá, prontamente, com o aval não só do Imperador mas de todos os ministérios. O marquês o encara balançando levemente a cabeça em sinal de aprovação. --- E quanto aos jornais, senhor presidente Zacarias? Pelo que tenho lido, parece que eles recebem informações, digamos, um tanto confidenciais... E isso é muito ruim para o país, senhor presidente. Não colabora em nada para elevar o moral da nação e o espírito do voluntariado. --- Tomarei pessoalmente as medidas necessárias para que tenhamos a máxima colaboração de todos eles, senhor Marquês. O marquês de Caxias leva a mão ao queixo. --- Deus levou meu filho muito cedo, senhor presidente, no resplendor dos seus 14 anos, mas ainda continuo com a mesma disposição em defender os meus ideais, com lealdade absoluta para com o Imperador, finaliza o general na firmeza altiva dos que sopitam a inveja, as intrigas e as picuinhas políticas para evitar uma catástrofe que se delineia a cada dia. Ignorado da opinião pública das três nações aliadas está o Tratado da Tríplice Aliança, um documento com acordos e cláusulas explícitas em que o Império do Brasil e as Repúblicas da Argentina e Uruguai consorciam-se para transformar a periférica república do Paraguai na periferia da periferia, bem como aniquilar sua elite política e o seu dono. A exemplo da antiga Cartago, subscreveram à sorrelfa das três nações uma espécie de Delenda Solano Lopéz, medida que para a república da Argentina e Império do Brasil se fazia necessária para que uma futura e única república no rio da Prata fosse sepultada em um só golpe. Mas aconteceu um imprevisto. As forças aliadas estão estagnadas e derrubar o caudilho e seu exército se mostra cada vez mais difícil. Não obstante, a dívida do Império para com os banqueiros ingleses se avoluma a cada ano e novos empréstimos se fazem necessários, assim como o fornecimento de um aparato logístico de grande monta. A 10 de outubro de 1886, o Marquês de Caxias é nomeado o comandante-em-chefe do exército imperial como a última cartada dos aliados para que se cumpra a lei do mais forte. Em breve ele seguirá para o teatro das pelejas em território totalmente desconhecido, o palco da guerra mais vil e cruenta em toda a história sul americana. O tronco morto refloriu de novo A Academia, como era conhecida a Faculdade de Direito da Província de Pernambuco, funcionava no alto da Ladeira do Viradouro, em Olinda, mas de logo transferida para um antigo casarão na rua do Hospício, no coração do Recife, próxima ao centro mercantilista do antigo Cais dos Judeus, o largo com suas tradições e traços históricos mesclados com algibebes apátridas, mascates de vícios e luxúrias, dos foragidos cristão novos de castas ladinas em cata ao ágio oferecido na chantagem às novidades do velho mundo, o palco e o motivo da sua expulsão a paus e pedras nos idos dos Seiscentos, bem como a recente Insurreição Praieira fomentada por nativos espoliados. O Pardieiro, como os alunos o chamavam, é um prédio arcaico que não atende às exigências da instituição, embora seja um ícone cultural e uma referência da terra. E a cada ano a Academia abre suas matrículas para uns poucos que podiam custear os estudos naqueles idos de 1866, um período marcado por manifestações estudantis exaltadas, não raras terminadas em espancamento de acadêmicos pelos policiais de plantão. Em tarde quente e abafada, defronte ao paço do Pardieiro, os acadêmicos e alguns populares se aglomeram ao redor de um comício liderado por um moço que discursa sobre um caixote, enquanto outros estudantes repassam aos populares o jornal A Luz, fundado e editado pelo próprio orador e alguns amigos, um nome já bastante conhecido em toda a Recife pelos seus poemas abolicionistas e pelo seu canto de liberdade republicana. --- Caminheiro que passas pela estrada, seguindo pelo rumo do sertão, quando vires a cruz abandonada, deixa-a em paz dormir na solidão, diz o moço na firmeza de uma voz caudalosa e sensual, hipnotizando o público que o avaliza a cada quadra com uma saraivada de palmas. Estóico, o moço continua, realçando em gestos o belo perfil de um corpo enxuto em carnes e de traços corretos, com a cabeleira densa e penteada para trás, os lábios perfeitos e um nariz de grego que não ofusca sua fronte larga e morena, com um buço ainda em prelúdio de pelos e um queixo delicado. Altivo e elegante, seus gestos denotam a grandeza sem a soberba, a naturalidade de uma fisionomia impressionadora. --- Caminheiro, continuava no seu púlpito de caixote, do escravo desgraçado o sono agora mesmo começou! Não lhe toques no leito de noivado, há pouco a liberdade o desposou, finaliza o moço quando se ouve um trepidar de patas de cavalos se aproximando ao lado oposto do largo, como um convite à debandada para os mais ajuizados. --- Antônio, Antônio, vamos embora, eles estão chegando, diz uma mulher madura ao lado de alguns amigos, ao que ele continua a oratória, agora mais eloqüente e vibrante. --- Victor Hugo é o mestre do mundo e o sol da eternidade. A República, vôo ousado do homem feito condor! Raio de aurora inda oculta que beija a fronte ao Tabor, diz provocando uma euforia incontida de aplausos e murmúrios delirantes diante daquela voz vibrante e melódica do estudante a conclamar o novo ideário que fez tremer o velho continente. A Guarda se aproxima com lanças e espadas em punho a exemplo de meses atrás, quando o estudante Manuel Ambrósio que discursava seus ideais republicanos fora preso e torturado, e logo dispersa a multidão com pantominas de golpes ameaçadores que reverberam nos ares feito estalos de chicote, numa algazarra de minutos em pouco dispersada. No tumulto, uma mulher puxa o orador pelos braços junto com alguns colegas o leva às pressas para as dependências do primeiro andar do Pardieiro. --- Bravo, Antônio, bravo, murmura um colega afagando-lhe o ombro enquanto a mulher olha para o paço em rabo de olho, ficando a observar um dos policiais espetar com uma lança um panfleto caído ao chão, trazendo-o às mãos. --- Alguém se machucou, Eugênia? --- Psiu, responde a mulher fazendo com que todos desviem o olhar para o largo já raleado de viventes. --- É o ruivo, o delegado Marinho, Antônio, o mesmo que espancou o Manuel Ambrósio. Outro dia ele e alguns homens andaram bisbilhotando sobre o Grêmio Jurídico, querendo informações sobre os sócios do jornal e quem tomava parte na redação. Pelo jeito o caldo vai engrossar. Por um momento o jovem orador observa os policiais se distanciarem, mas logo fecha os punhos em sinal de vitória, ao que todos falam ao mesmo tempo, feito um grito de guerra em combinado, mas em tom abafado: “burguesia escravocrata, endereço atrevido,” dizem preludiando uma gargalhada debochada. O chefe de polícia da província de Pernambuco está em seu gabinete da Casa de Câmara e Cadeia quando o delegado Marinho adentra à sala. --- E então, houve alguma resistência? --- Era só um comício de estudantes, senhor, nada de mais grave. Eles distribuíam esse pasquim ao povo mas se dispersaram quando chegamos, diz o delegado mostrando-lhe um exemplar. --- Então é ele, o abolicionista que veio da província de Salvador para nos atazanar, comenta o chefe correndo os olhos no jornal. --- Antônio Frederico de Castro Alves. Ele, a sua amante atriz, e uma porção de outros sócios é quem escreve esse jornal do Grêmio Jurídico. Já o vi declamar no teatro Santa Isabel uma peça dedicada a Pedro Ivo, senhor, essa que está escrita no jornal. É um indício claro de conspiração contra o Império e, a meu ver, uma prova de que estão tramando alguma coisa mais séria. --- Quero a ficha dessa mulher e um relatório completo sobre o que fazem, onde moram e o que pretendem com esse jornal. --- Pelo que levantei, ele vivia numa pequena cela no convento de São Francisco, mas depois que essa atriz apareceu eles vivem amasiados numa pequena casa prá lá de Afogados, seguindo a trilha do Tijipió. --- Sei, sei. Então além de cursar a Academia é ele quem escreve as peças para a amante declamar? --- É o que todo mundo comenta, senhor. O chefe abre uma gaveta e tira um outro jornal, colocando-o sobre a mesa, ao lado do exemplar de A Voz e fica estático por um momento. --- Então é ela, Eugênia Câmara, a atriz portuguesa que não sai das páginas do Diário de Pernambuco? Por acaso eles não têm ligação com o caso daquele tal “repúblico”, o estudante que prendemos no começo do ano? --- Correto, senhor. Pelo que sei eles são amigos e estão sempre juntos. --- Estranho esse tal Castro Alves. Ao que eu soube, ele se alistou no Batalhão Acadêmico de Voluntários da Pátria no começo da guerra, junto com alguns colegas, mas acabou ficando por aqui. Ele tem proteção de algum político? --- O corpo médico o recusou, senhor. Ele é tísico. Por um momento o chefe de polícia estaca os olhos no jornal e depois corre os dedos, parando-o bruscamente. --- República, vôo ousado do homem, murmura pensativo. --- Está bem. Fique atento e mantenha-me informado. Qualquer manifestação dessa gente me avise imediatamente. Não quero criar mais problemas do que já temos. Cai a noite. Nas imediações do Barro, um clarão de velas destaca-se da janela de uma casinha incrustada num pequeno outeiro desprovido de vizinhança. Pitoresco é o lugar, distante do centro nervoso do Recife, o refúgio escolhido por Antônio e Eugênia para viverem os sonhos e as volúpias de uma paixão de Dirceu e Marília. Proclamava a liberdade, muito embora escravo do amor estava o moço de 19 anos, debruçado sobre o colo da amada, bem mais velha do que ele, com os olhos negros, negros como as noites sem luar, ardentes e profundos como o negrume do mar, em ode lhe compunha. A atriz abandonara a companhia teatral e desistira da tournée para o sul quando o amante alinhou-lhe dez quadras de queixumes com a pena de um Átila. “Adeus, adeus, ó meu extremo abrigo. Adeus eu digo-te a chorar de dor. É o derradeiro suspirar das crenças que se desprendem das visões do amor...” Jamais fora amada ao ponto de abandonar uma carreira já consagrada para compartilhar a pobreza de um casebre que só amor lhes tinha como alimento. No idílio adornado pela paisagem de um imenso canavial seguido pelo horizonte desenhado em céus escuros sob o véu de montanhas longínquas, “O tronco morto refloriu de novo. Ergue-se vivo, perfumado, em flor, abençoando a primavera amiga... Porém que importa, se há fadários - negros...” CONSELHEIRO PEREGRINO Logo a 6 de novembro de 1886, o Gabinete Liberal aprova um decreto que alforria todo o escravo do Império do Brasil que esteja apto a defender o regime que os escravizara. O tempo urge e a medida surte efeito imediato. Também intimados a lutar numa guerra que mal sabiam seus motivos, muitos contornam facilmente o embaraço vendendo seus escravos ao exército a preço de mercado, escapando assim do prejuízo e da forçada convocação. Para os mais abastados, muitos chegam a doar até dezenas seus cativos na busca de um título nobiliárquico ou ao menos uma medalha oficial, diplomas falsificados. Numa manhã em fins de primavera, avistamos dois carroções de transporte de escravos estacionados rente ao pátio da Fazenda Cachoeira, juntamente com uma leva de oitenta e sete peças escaladas a dedo para uma nova empreitada. Agrupados em quatro colunas, esperam da ordem do dia, devidamente sentinelados pelos feitores de plantão. Deucleciano Cavalcanti, agora o senhor daquelas terras, em muito lembra a figura do pai. De andar vagaroso e com a casaca aberta ao peito, a madureza dos cinqüenta realçou-lhe um porte vistoso e delicado, sem o ranço do mando do finado senador oriundo dos sertões de Pernambuco, quase sempre em humor de onça parida. Com as mãos voltadas por trás da cintura ele observa atentamente o capitão Marcílio Veiga empunhando um chicote enrolado com mais três oficiais da Guarda Nacional a checar meticulosamente a escravaria, examinando um por um dos cativos com procedimentos nunca dantes testemunhados. Seminus e descalçados, muitos com a chaga do inhum a corroer-lhes as unhas dos pés sovados e cascudos, conservam ainda o porte ereto das linhagens vigorosas afloradas no berço além mar, a Costa do Marfim, destacados pela musculatura inigualável de cepas ignotas a realçar-lhes o vigor da raça e a postura servil de cativos capturados a laço e amansados no açoite. Pensativos, no eterno silêncio de vidas anônimas, aguardam o término da vistoria só conhecida por uns poucos, quando outrora na muda de dono ou na troca dos leitos de pedra nas únicas moradas, as frias e escuras senzalas. --- Abra a boca, grita um oficial a um deles que o obedece de pronto, enquanto os outros o fitam com rabo de olho. No alto da sacada do alpendre vê-se a sinhá Lucíola debruçada no parapeito com vestes de luto e os cabelos grisalhos presos pelo coque tradicional das matronas em abano de leque. Rodeada por duas mucamas, não tira os olhos do pátio, debulhando em voz baixa um rosário de contas pretas. --- Creio que esses são os melhores, doutor Deucleciano, diz um oficial rabiscando uma prancheta enquanto outros três lanceiros conduzem os escolhidos para junto dos carroções. Por um momento Deucleciano olha para o chão, caminhando em devagar, quando o oficial toma novamente a palavra. --- Vocês foram escolhidos por Deus para receberem a graça da alforria e da liberdade. De agora em diante, vocês estão livres para traçarem os seus destinos como soldados voluntários no glorioso Batalhão da Guarda Nacional. Vocês receberão roupas novas e sapatos, como também dinheiro para comprar o que quiserem. É meu dever informar a todos que a coragem, a obediência e o amor à farda é quem faz do voluntário da pátria um verdadeiro herói. Estacados, uma mescla de dúvida povoa os olhares dos escolhidos que mal sabem o que acontece, para onde vão ou de onde vieram. --- Qual é o seu nome, soldado?, indaga o oficial a um negro de estatura avantajada, apontando-o com o chicote em riste. --- Baiano, meu sinhô, responde o escravo olhando para baixo enquanto o oficial ergue-lhe o queixo com o cabo da chibata, encarando-o com a sobrancelha enrugada. --- Sei, sei... Doutor Deucleciano, seria bom que o senhor explicasse a eles que de acordo com a lei, todo escravo alforriado tem o direito de escolher um nome para constar na sua carta de alforria. Tenho ordens para embarcar os trinta novos soldados mas com todos eles devidamente registrados, fala o capitão com ar de júbilo. --- De acordo, capitão. Prossiga. O oficial coloca as mãos na cintura e verga o corpo para baixo, olhando a escravaria como quem observa um animal para checar algum defeito. Neste ínterim, o relincho de um burro ecoa no espaço quando o capitão aponta para um deles com o veredicto nos lábios: --- Aníbal, diz apontando um negro estacado feito prancha de encosto, continuando o batismo. --- Teodózio... Welington... Dionízio, diz mostrando um por um quando Deucleciano o interrompe, mas sem tirar-lhe a autoridade. --- Capitão, não seria melhor que se resolvêssemos esse pormenor em outra ocasião? --- Perfeitamente, doutor. “Vinte mil, setecentos e dezoito,” grita o capitão apontando para o escolhido quando outro oficial amarra-lhe uma coleira com uma chapinha no pescoço. Terminada a convocação, todos os escolhidos são devidamente assentados nas jaulas de quatro rodas puxadas por três parelhas de burros. Deucleciano Cavalcanti convida o capitão para um breve café servido em mesa farta. Um quadro do senador Cavalcanti e um outro da sinhá Emerenciana adornam o centro da sala, ao que o capitão tira o quepe em sinal de respeito. --- Foi lastimável para o Senado do Império a perda do senador, doutor Deucleciano. Um liberal de valor que será lembrado por muitas gerações, diz o capitão em frase decorada logo assentando-se à mesa repleta de quitutes e café fresco. Fartam-se e logo se retiram para o escritório. --- Ficou acertado a indenização de seiscentos mil Réis por cabeça, capitão, conforme o combinado com o imediato do senhor Ministro da Guerra, diz Deucleciano acendendo uma cigarrilha. --- O recibo de dezoito contos de Réis pelo fornecimento de trinta peças já está pronto, doutor Deucleciano, só falta assinar. Aqui está, diz o capitão lhe entregando o documento. --- A propósito, capitão, como está a situação do nosso exército? Ao que comentam, tivemos muitas baixas e, pelo visto, essa guerra parece que vai durar bem mais do que o previsto? --- Não tenho muitas informações a respeito, mas o certo é que o marquês de Caxias já embarcou para o Sul e em breve devemos ter boas novas, Deus permita. Felizmente o nosso exército conta com a cooperação de muitos patriotas, a exemplo do senhor, doutor Deucleciano, que muito têm colaborado para que não falte combatentes para defender nossos interesses. --- Está muito bem, capitão. Tomara Deus que a paz volte a reinar no país e que não nos falte braços para a próxima colheita. diz Deucleciano despedindo-se. E partem os carroções em galope de pressa, abarrotados com novos voluntários da pátria rumo à capital da Província do Rio de Janeiro, todos com olhares gêmeos em fulgor de mágoas, na resposta instintiva aos choramingos das mães de leite que acenam, tímidas e tristonhas, aos filhos que partem para o nada, enjaulados feito porcos na porta do abate, e que as encaram com o semblante de inocentes condenados. Cai a tarde. Sob a luz de lamparinas em meio fogo, a sinhá Lucíola está deitada a espera do marido que de há muito não a procura, nem tampouco esbarra no assunto. A regra já não aparece e o apetite carnal definhou-se com o passar dos anos, pulsando-lhe apenas o afeto de uma companheira recatada e de pouca fala, na mesmice dos dias desprovidos de qualquer novidade e na monotonia dos poucos afazeres. --- Ainda estás acordada?, diz o marido ao entrar para o repouso em hora regular, vestindo o camisolão de sempre pendurado num cabide ao canto, tomando o assento de costume junto à cama sem dossel. --- Estava a reler a carta do nosso filho Diogo, senhor meu marido. Não vejo a hora dele voltar do Recife para alegrar um pouco a nossa casa. --- Mês que vem ele deve chegar para as festas natalícias, minha senhora. Não te preocupes, responde a um bocejo de sono. Levemente ela toca em seu peito e o acaricia vagarosamente, achegando o rosto junto ao corpo do amado. --- Pelo visto ficaste desfalcado de escravos, senhor Deucleciano. Estás pensando em alguma coisa que eu não sei? --- O Diogo foi convocado para a guerra, minha senhora, ele e a maioria dos colegas. Não tive outra alternativa a não ser vender alguns deles para o exército. É o que todos estão fazendo para se livrarem desse infortúnio. Muitos estão deixando seus negócios e partindo para a Europa com medo da convocação, sabias? --- Deu meu, o nosso Diogo? --- Já está tudo acertado, minha senhora. Só não comentei o assunto com medo das mucamas desconfiarem de alguma coisa e dar com a língua nos dentes. Essa gente vê tudo e ouve tudo, bem sabes. --- Graças a Deus, senhor meu marido. Não sei o que seria de mim sem o teu zelo, sem o teu amor, responde em aconchego e tocando-lhe na mão, puxando-a para junto de suas pernas semi abertas quando a chama da virilidade reacende e ele a cobre lentamente, como outrora numa chuva de amores, em pouco, convertida nas goteiras de cansaço. E do casarão da Fazenda Cachoeira ouviu-se noite adentro uma ladainha persistente de cânticos chorosos provindos da senzala desfalcada, onde o banzo antigo cede a vez à exaltação da perda de tantos companheiros da labuta na enxada e das confidências esquecidas. Muitos, lamentando a tristeza dos que partiram, abrem a mala de sofrimentos e rememoram seus feitos em preces atávicas que soam como um jogar de pragas, cuspidas enfezadas dos cegos que, nas trevas, amaldiçoam o espólio da luz. Blasfemam contra seu fado maldito, sua própria coletânea de abrolhos. Sob a sombra das folhas O ministro Zacarias e o Imperador caminham por entre às sombras do arvoredo que cerca o palácio de São Cristóvão sob os ruídos casuais das aves que ali gorjeiam. Com as mãos sobre as bengalas, o cetro garbo à moda feita, a candeia e o fósforo palestram à distância do olhar vigilante de um mordomo que os acompanha com uma bandeja erguida em equilíbrio notável. --- Recebi notícias de Montevidéo, Majestade. O general Polidoro disse que o Marquês de Caxias já desembarcou em Buenos Aires e deve partir em breve para Tuyuty. De acordo com as previsões, ele estará no quartel-general até o final de novembro, diz o ministro com o júbilo de quem o presenteia com uma boa nova. --- Bravo, senhor ministro. Parece que as coisas estão caminhando ao contento. E sobre os aliados? Creio também que vossa mercê deve ter algumas notícias? --- Ao que sabemos o general Mitre enfrenta as mesmas dificuldades por que temos passado até há pouco, mas segundo Polidoro, ele não tem poupado esforços até para buscar reforços até na Europa. O imperador franze os olhos e o encara. --- Mas tão longe assim, senhor ministro? --- Creio que esta foi a solução que encontraram devido à recusa dos argentinos em servir à pátria. Dizem que nas províncias argentinas basta que um comandante pronuncie a palavra arregimentar para que povoados inteiros fiquem desertos num piscar de olhos. --- Particularmente devo confessar que nunca aprovei os métodos usados pelos nossos aliados de arregimentar voluntários, senhor ministro. --- Ao que soubemos, muitos argentinos preferem aderir à uma revolução liderada por qualquer caudilho de ponta de rua a embarcar para a guerra, Majestade. --- Buscar soldados na Europa não lhe parece deveras dispendioso, além da perda de muito tempo e dinheiro? --- O general Mitre tem seus próprios métodos, Majestade. O ministro britânico em Buenos Aires, Edward Thornton, tem participado de reuniões do gabinete do governo Mitre e por certo não lhe tem negado apoio financeiro. Mas o certo é que o general tem logrado êxito nessa sua campanha de imigração que, na verdade, apesar de não cumprir à risca os propósitos do contrato com os imigrantes, ele conseguiu solucionar o problema de voluntários. --- Campanha de imigração fomentada pela República Argentina, senhor ministro? --- Vossa Majestade há de convir que essa tática de Mitre é um uma isca bastante tentadora. Para se livrarem da penúria em que se encontram na Europa, muitos camponeses atraídos por essa campanha de imigração rumam para a França e embarcam no porto de Marselha, atraídos pela falsa promessa do governo argentino de um quinhão de terras para o cultivo e também de alguma ajuda financeira. --- Mas isto me parece um tanto perigoso, senhor ministro! --- Assim partiram centenas de lavradores de várias nacionalidades para Buenos Aires, Majestade, mas sem saber que ao chegar seriam na verdade arregimentados pelo exército argentino para combater os paraguaios. O Imperador interrompe a caminhada e escora as duas mãos sobre a bengala, ficando pensativo por um momento. --- E não houve algum tipo de revolta por parte dos imigrantes? --- O cepo e a chibata deve tê-los convencido a cumprir as ordens e aceitar o que o destino lhes reservou. --- E qual é a posição do governo francês a respeito dessa prática? --- Ao que parece o governo de França já soube do ocorrido e tem dificultado em parte essa estratégia dos argentinos, Majestade, mas o certo é que até o momento continuam a chegar centenas de voluntários, o suficiente para que o presidente Mitre honre o nosso contrato que, infelizmente... --- Já soube, senhor Ministro, interrompe o Imperador. O documento da Tríplice Aliança chegou ao conhecimento do Parlamento Britânico, do governo dos Estados Unidos e também dos nossos vizinhos da América espanhola, para o mal dos nossos pecados. E o que mais o general Polidoro comentou? --- A estratégia do governo Mitre se estendeu também a mercenários europeus, todos comprados a bom preço. Polidoro informou que eles chegam aos montes e o que não lhes falta coragem para combater. A um leve aceno de dedo do Imperador, o mordomo se achega e serve-lhes um copo de refresco, em pouco afastando-se. --- E quanto aos nossos batalhões de voluntários, senhor ministro? O general Osório tem passado por todo o tipo de provações e não podemos, sob qualquer hipótese, deixá-lo à míngua. --- A honra da causa nacional que Vossa Majestade tem proclamado incessantemente parece ter despertado em nossos fazendeiros o sentimento de nacionalidade de que precisávamos. A colaboração dos nossos patriotas está de acordo com as expectativas do nosso Gabinete e a cada dia chegam mais soldados para defender a honra do país. A exemplo do doutor Deucleciano Cavalcanti, o filho do senador, que escreveu um brilhante artigo sobre o dever de nos despendermos ao máximo em favor da honra nacional, parece ter despertado em muitos a necessidade de uma verdadeira cruzada em favor da nossa causa, diz garbosamente o ministro balançando levemente a cabeça sobre o pescoço de ganso. --- Bastante louvável essa atitude, senhor ministro. E devo confessar também minha admiração pelo espírito de nacionalidade de muito dos nossos compatriotas que espontaneamente oferecem suas vidas para derrubar a tirania de Lopez. Mas, ouve cá, senhor ministro. Por acaso é de vosso consentimento que há quem use de artimanhas das mais esdrúxulas para escapar de uma possível convocação? --- Infelizmente é verdade, Majestade, principalmente entre os mais pobres e também entre os escravos. Dizem que muitos chegam até a decepar os dedos para que seus senhores não os vendam ou doem para o exército. --- Não seria prudente exaltarmos mais fervorosamente os nossos esforços de guerra nos jornais de todas as províncias para garantirmos um maior contingente de voluntários caso a situação da guerra venha se arrastar por mais tempo? --- A propaganda me parece um meio bastante eficaz nesse caso, Majestade. Isto deverá despertar o espírito de união e cooperação na Guarda Nacional até nas mais distantes províncias. Vamos informar-lhes que o governo de Sua Majestade está confiante na vitória e que o país conta com o senso de nacionalidade de todos os brasileiros, principalmente agora em que o Marquês de Caxias está no comando do exército Imperial, diz o ministro Zacarias quando o grasnar de um pavão corta os ares com marteladas insistentes no delimitar o território, as cercanias do Palácio Imperial. O palco da guerra Subindo o rio Paraná, a artéria magistral da Bacia do Prata, regada por inúmeras veias em forma de regatos e riachos, seguimos rumo à sede do único estado mediterrâneo das Américas. Ao longo das margens observa-se um terreno estritamente inóspito, pantanoso, renovado anualmente pelo ciclo majestoso das cheias a despejar o esterco natural da vida, revigorando a flora e a fauna nos muitos lagos e lagoas da imensa planura. Aos bandos, os Tuins ou Tuiutis compartilham de frutas campestres que ali vicejam, defecando as sementes numa simbiose que mantém a vegetação em renovar constante. A refrega de 25 de maio de 1866 entre as forças aliadas e o exército paraguaio deu-se às margens de uma dessas veias, o riacho de Tuiuti. Por todo a banda, durante quatro horas ininterruptas, a natureza calou-se diante dos duelos gigantescos entre 32 mil estrangeiros postos à forra de interesses de estado contra 18 mil índios guaranis a defender o reino e as ambições de um caudilho anão. As três divisões aliadas, comandadas pelos generais Mitre da Argentina, Flores Uruguai e Manuel Luís Osório do Império do Brasil, dispostas pelos esteros de Bellaco, Rojas e nos campos do Sauce, pelearam como doudos em defesa da honra insultada, de um lucro injusto adrede camuflado e usado como pretexto para uma guerra insana. O saldo da carnificina fora mais que arrebatador. Mais de 6 mil paraguaios pereceram numa balbúrdia incessante onde a cor do sangue coloria os berros indescritíveis a ressoar nos campos, nos pântanos e nos charcos putrefatos, cessados apenas ao final da tarde com a retirada do que sobrou das três divisões comandadas pelo oficiais de Solano Lopéz. Na parte aliada contaram-se 4 mil baixas entre mortos e mutilados, estes levados à casebres de pano para vivenciar o inferno bem antes do derradeiro suspiro. Do lado paraguaio, mais 7 mil feridos foram largados à sorte de execuções bizarras ou aos cuidados das residentas guaranis, mulheres que seguiam as tropas e faziam as vezes de curandeiras a recolher uns poucos combalidos e mitigar-lhes a tragédia com o auxílio de uma farmacopéia rudimentar. Insepultos na quase totalidade, os milhares de corpos propiciaram um quadro de terror ainda maior que a guerra humana. As doenças e as epidemias alastram-se por todo o acampamento, transformando a tropa mal nutrida em cadáveres coléricos enterrados em cova rasa e em valas comuns, propalando ainda mais o vibrião da morte. No cemitério a campo aberto, quando no furar de poços em cata de água sadia, não raro os enxadões deparam-se com ossos de combatentes ainda em putrefação. No quartel-general do Exército Imperial, ora atolado nos campos de Tuiuti, muitos oficiais já se mostram de prontidão quando chega a notícia de que a comitiva do comandante-em-chefe, o Marquês de Caxias, se aproxima do acampamento numa tarde mormacenta em meados de novembro. Montado num baio encerado que se move em, a figura do então Marechal é reconhecida ao longe pelo general Alexandre Gomes Argolo que enrijece a carcaça defronte à bandeira do Império, ladeado pelos colegas do estado-maior. Na postura altiva que o epíteto cabo-de-guerra do Império lhe outorgara, o então Marechal Luiz Alves de Lima e Silva contempla atentamente a devassidão de um exército combalido e doente, débil e anêmico, com milhares de soldados esfarrapados, espalhados por alqueires de lama e desordem planura a fora, na avaliação preliminar de meia olhadela. Não vacila em levar um lenço ao nariz para, em vão, esquivar-se do forte cheiro da carniça humana que permeia nos ares, o odor conhecido da morte mas nunca dantes presenciado tão vivamente. Diante de uma tropa descalça e semi nua por meses a fio, a ausência de qualquer vestígio de ordem ou disciplina revela-se em paisagem aterradora. Um breve toque de corneta põe o gigantesco acampamento em silêncio displicente, quando o Marechal e seu fiel ajudante-de-ordens nas campanhas contra Rosas e Oribe, o coronel João de Souza da Fonseca Costa ,desmontam defronte o quartel-general e retribuem a continência dos oficiais. --- Bem vindos a Tuiuti, Marechal, diz o general Manuel Luís Osório ainda recuperando-se de um leve ferimento angariado na peleja de Curupaiti, acompanhando-os para dentro da barraca e seguidos pelos generais Vitorino Monteiro, Guilherme de Souza, José Luiz Mena Barreto e pelo coronel Tristão Pinto. --- O senhores fizeram uma longa caminhada, Marechal, devem estar famintos, diz cordialmente o general Mena Barreto convidando-os para a ceia, ao que todos apontam para a mesa posta e logo saciam-se de carne assada com farinha regada a vinho e água limpa, uma iguaria estocada em tinas de madeira para uso exclusivo do estado-maior. Em prazo de minutos, o marechal se levanta e limpa os lábios com um lenço, tomando a palavra. --- Senhores, há doze dias que estamos em viagem e isso, devo admitir, cansa mais que uma batalha, comenta o marechal descontraindo-os. --- Agora, se me permitem, eu e o coronel devemos descansar e amanhã, bem cedo, faremos uma reunião para que eu possa me inteirar dos fatos. No momento o que precisamos é de uma boa cama, nada mais, diz o Marechal pausadamente, ao que todos se levantam e correspondem em continência. --- Desta feita, permita-me mostrar-lhe seus aposentos, diz o general Vitorino apontando para o fundo da barraca onde uma cortina de pano roto divide o ambiente. Duas camas sem dossel separadas por uma pequena mesa e cadeira formam o mobiliário do quarto, além de um jirau ao canto a servir de cabide para o vestuário do marechal Caxias e do companheiro João de Souza da Fonseca Costa, parceiro de muitas campanhas e amigo de confidências. --- Obrigado, general, não precisamos mais do que isso, diz o coronel João de Souza desabotoando a farda na mais completa falta de cerimônia. --- Marechal, coronel, tenham uma boa noite, despede-se o general Vitorino deixando-os a sós. Em meio à noite que realça dezenas de fogueiras de meia chama estendidas por todo o acampamento para minimizar o frio cortante da madruga, por toda a banda reina o sono do medo e do infortúnio de pesadelos apavorantes, cessados ao primeiro clarão de uma aurora gélida em aviso a mais um dia cigano na imensa caserna de farrapos e desvalidos. A cavaleiros, o Marquês de Caxias e seu chefe do estado-maior testemunham o caos no seu primeiro passeio de vistoria pelos campos de Tuiuti, acompanhados por todo o generalato. Os poucos bois para carneada e alguns cavalos em magreza destacada garimpam migalhas de relva por entre o acampamento, onde muitos morrem à mingua. A barracas servidas como hospitais, não passam de albergues imundos a hospedar centenas de futuros defuntos que diariamente fenecem, aos montes, vitimados na sua grande maioria não por ferimentos adquiridos na luta contra o inimigo, mas pelo flagelo da contaminação. Espelham-se aos batalhões do 2º exército que em Curuzu tivera mais de um terço do seu efetivo transformado em pilhas de cadáveres coléricos. Em meio ao caos, o coronel João de Souza da Fonseca Costa anota pormenores numa caderneta de bolso, enquanto o Marquês de Caxias, à frente, apenas observa a tudo em silêncio de igreja, vez ou outra freando o animal e olhando bruscamente para traz, mirando os olhos dos generais estacados, mas sem repreender-lhes. Ao chegarmos na cauda do acampamento o burburinho de um verdadeiro mercado a céu aberto se acentua. Misturado aos reclamos dos mascates que negociam com os soldados os mais variados objetos, incluindo sobras saqueadas nos campos de muitas campanhas, ouve-se o resmungar das farpelas em busca da plata, apelido dado às mulheres de Corrientes e Buenos Aires que servem a tropa em coitos de fila. Vestindo farrapos e com as crinas soltas ao vento, uma china de pouca idade atrai a atenção de um soldado a meia distância com gestos maliciosos, observada pelos olhos do marechal Caxias que, de costas para os generais que o seguem, gesticula para que estes se aproximem. O general Manuel Osório se achega junto ao comandante-em-chefe, acotovelado sobre a sela. --- O que me dizes, general? Isto é um exército ou um bordel? --- Segundo o lema de um capitão da artilharia, marechal, aqui sofre-se muito mas é um pagode, responde o general Osório tossindo em abafado. Algumas carroças cobertas com pano estão locadas ao fundo do acampamento, despertando a curiosidade do marechal pelo número de soldados que as rodeiam. A curta distância delineamos um comércio ambulante com produtos que vão desde queijos, sardinhas importadas, champanhe, charutos e até roupas como calças e saias, ponches de diversas cores, esporas, rebenques, espelhos e até vinhos de marcas e preços para qualquer bolso, comercializados livremente por mascates franceses, italianos, castelhanos e judeus, detentores da oferta que vêem a demanda da guerra como uma simples necessidade de mercado. --- O vinho é a bebida mais procurada por aqui, marechal. A água do rio e das cacimbas fedem à morte e os soldados já sabem o motivo da peste. Fazem de tudo para evitá-la e não podemos fazer coisa alguma, veja o senhor, diz o general Osório ao comandante que se mostra pensativo. --- Água filtrada, general, é disso que precisamos com mais urgência. --- Água filtrada? Não entendi, marechal? --- Isso mesmo, general. Só venceremos essa guerra com planejamento, disciplina e higiene. --- Higiene? --- Foi o que eu disse, general. Convoque uma reunião para o final da tarde com todos os oficiais. Por ora devo voltar ao quartel e começar os trabalhos. Quero um relatório completo sobre as condições do armamento, alimentação, munição, provisões, medicamentos, remédios, vestuário, corpo médico, material cirúrgico, bem como as condições da cavalaria e a previsão da forragem. Enfim, todos os dados de que dispomos, diz o marechal em fala rápida volvendo em marcha acentuada, seguido de pronto pelo coronel João de Souza e por uma guarda a meia distância, além dos olhares foscos dos matutos que se fizeram soldados vindos de todas as Províncias para substituir a função de uma Guarda Nacional pusilânime, comandada por nobres enferrujados em cata de honrarias duvidosas. E vieram das mais longínquas regiões do Norte e Nordeste, os arregimentados baianos e mineiros, paulistas, fluminenses e sulistas, muitos pegos a laço ou na condição de escravos alforriados por decreto lei que os obrigara a lutar e a morrer pelo ideário de um modelo governamental que os trazia à chibata. No puro esgoto da existência, confortava-lhes as rezas e as promessas do eterno paraíso após a morte, a contemplação imperecível da face do Criador. O vale dos tísicos era os ares da serra Os silvícolas que habitavam as cercanias da Serra dos Órgãos, encravada no interior da Província do Rio de Janeiro, fartavam-se nos rios e riachos que brotam há milênios das entranhas rochosas e gigantescas como a Pedra do Sino e o Dedo de Deus, monumentos desenhados pela natureza com mais de dois mil metros de altitude. É um berçário de veios límpidos e cristalinos como os rios Frades e Soberbo, além de veio rodeado por florestas de nichos com flora e fauna riquíssimas. A este os índios deram o nome de Paquequer, lugar onde dormem as pacas. Por certo o clima alpino e a paisagem serrana atraiu os muitos comerciantes anglo-lusitanos que já em 1820 ali fundaram uma fazenda às margens do pequeno Paquequer. Em apenas quatro décadas, a iniciativa do inglês George March já era um povoado com mais de três mil almas que por ali se aninhavam, conhecido em toda a Província como a Freguesia de Santo Antônio de Paquequer, um lugarejo de moradas suntuosas e também salpicado de palhoças em desalinho por todo o redor da igreja matriz de Santo Antônio. A exemplo de muitos doentes que procuram a cura dos males respiratórios no hálito da serra, o médico Urbano Gouveia e a mulher Dona Rosinha, de há muito mudaram-se para a Freguesia do Paquequer em busca de melhores ares e de uma vida distante do fervor da Corte. E ao final daquele 1867 chega ao povoado uma outra irmã de Rosinha, Eudóxia da Cunha, já debilitada de carnes e com uma palidez visivelmente estampada num rosto emagrecido e surrado. E vem com o marido Manuel Pimenta da Cunha e o filho ainda de colo, na esperança de vencer a quadra do primeiro ano do primogênito definhado por crises de tosse e febres temerosas. Ao cabo de dois dias de uma viagem cansativa, marcada pelo desconforto muitas léguas em trilhas desertas e entremeada com um pouso numa estalagem de viajantes, chegam à Freguesia do Paquequer na esperança de cura para a mãe e da criança recém batizada. Em dia fresco de verão natalino, Dona Rosinha Gouveia é vista a beira de um fogão a lenha remexendo algumas panelas quando uma mucama se achega em boa nova. --- Nhá Rosinha, o nhô Mané mais a famía chegô. --- Benza Deus, Pracidina. Vai logo, criatura, vá chamar o doutor Urbano e depois venha me ajudar com a comida, retruca a mulher indo às pressas receber os parentes. Ao rever a irmã que há anos não se encontravam, Eudóxia cai em prantos de alegria, apresentando a criança para a tia que não se contém em levá-la junto ao peito. --- Chama-se Euclides, Rosinha, diz Eudóxia com os olhos chorosos mostrando a face do rebento envolto em panos quentes. --- É uma benção de Deus, minha irmã. Esses olhos grandes... parece tanto com você, responde tateando o rosto do sobrinho, enquanto o cunhado Manuel da Cunha se livra do amarrotado guarda-pó diante de um piano forte locado rente à parede da sala. --- E então, dona Rosinha, como vão todos? --- Como Deus quer, senhor Manuel. Mas venham, vamos conhecer a casa que depois vamos comer. Vocês devem estar cansados. --- E não é pra menos, minha cunhada. Dois dias numa carruagem demoram tanto a passar. Mas e o doutor Urbano, como está? --- Muito trabalho e sempre com muita gente pra visitar, mas graças a Deus estamos bem, diz adentrando a um quarto amplo e arejado, onde se vê uma cama de casal ladeada por uma mesa e cadeira, além de um berço ao canto. Abertas as duas janelas, a paisagem de um derredor montanhoso e o sopro de uma brisa fresca invade o ambiente como um convite ao repouso, destoando em muito dos dias quentes e mormacentos da fazenda dos Cunha no vale do Cantagalo. --- A Pracidina já foi avisar o senhor meu marido que vocês chegaram, senhor Manuel, e o preto Gonçalo já vai trazer as malas. Agora descansem um pouco que eu vou cuidar da comida, diz dona Rosinha acomodando o sobrinho no berço. --- Somos muito gratos por tudo, minha irmã. Eu gostei tanto daqui, da sua casa, desse lugar. Eu sinto que aqui o Euclides vai se livrar da tosse. --- É claro que vai, Eudóxia, e não precisa agradecer coisa alguma. Tu lembras de como a nossa mãe falava? De que valem os parentes se não for pra socorrer os que precisam? --- Isto lá é verdade, dona Rosinha, retruca Manuel da Cunha. --- Agora teremos tempo pra fazer muitas coisas, minha irmã, e com a ajuda de Deus a criança vai ficar boa, vocês vão ver, fala abraçando a irmã ainda chorosa. Passam-se os dias quando o piar melancólico de um Jaó tilinta na marca das cinco da tarde. O doutor Urbano Gouveia e o concunhado Manuel da Cunha estão debruçados sobre um tabuleiro de xadrez ao canto da sala, ambos saciados após um jantar festivo. --- Cheque mate, senhor Manuel, diz triunfante Urbano Gouveia baforando um cachimbo cheiroso. --- É impossível derrotá-lo, doutor. Ganhaste duas partidas em menos de vinte lances. --- Quase não jogo por falta de parceiro, Manuel. Mas com um pouco de treino você ainda conseguira me derrotar. --- Longe disso, doutor. Mas o que achaste da saúde do menino Euclides? --- Já vi casos piores de crianças que aqui vieram e conseguiram passar a quadra dos dois primeiros anos, meu caro Manuel, o período mais delicado da vida. E o caso do menino Euclides não é diferente. Com certeza ele vai se recuperar com uma receita infalível para esses casos. --- Receita? --- Os ares da serra, leite de égua e ovo de pata, meu caro, apenas isso. --- Ora pois, doutor Urbano, o que estais a dizer? --- A sabedoria popular as vezes surpreende até os mais renomados doutores, Manuel. Ainda não li nada sobre este assunto, mas o fato é que toda criança que respira com dificuldade e que sofre com dores de barriga tem uma melhora bastante acentuada quando substituímos o leite de vaca pelo leite de égua. E uma boa gemada vale mais para uma criança que uma ceia para os adultos. --- Quem diria, doutor Urbano, nesta idade eu serei obrigado a mudar de ramo para criar cavalos e patos, retruca Manuel provocando uma gargalhada no amigo. --- Também não há que se preocupar com isso. Aqui temos muitos fazendeiros que fornecem ovos e leite de boa qualidade. Amanhã mesmo começaremos o tratamento. Agora, quanto à saúde da dona Eudóxia eu devo dizer que só o tempo dirá. Mas aqui temos o melhor remédio pra quem sofre dos pulmões, além de não custar nada. --- E qual seria, doutor? --- Bastante repouso e ar fresco, apenas isso. O meu conselho é que vocês fiquem aqui pelo menos por uns seis meses, se não mais. --- Santo Deus. É que a Dona Eudóxia também sofre dos nervos e as vezes fica difícil controlar suas crises. E também tenho os meus negócios, a fazenda. Não posso largar tudo de uma hora para outra. --- Não precisas se preocupar com isso, Manuel. Já conversei com a dona Rosinha e tudo faremos pra ajudá-los. Afinal, nós dois casamos com duas irmãs e isso quer dizer que somos uma mesma família. Isso é o que importa. --- Não sei como agradecer, doutor Urbano. --- Qual nada, meu caro. E o senhor também não precisa ficar aqui o ano todo. Dona Rosinha e dona Eudóxia se dão muito bem e uma faz companhia à outra. Ainda mais que compramos um pianoforte para alegrar nossas vidas. --- Também aprecio música, doutor. --- Era o sonho da dona Rosinha, Manuel, que conseguimos realizar. Mas, enfim, a casa é bem grande e já está decidido. Vocês ficam o tempo que for necessário pra que o menino Euclides e dona Eudóxia se restabeleçam e pronto, finaliza o Doutor Urbano afagando-lhe o ombro com o aval da solidariedade. E meio à mesmice dos dias frescos e com o aroma da saúde borrifado por todo o vale, rompe o ano de 1867. Manuel da Cunha resolve partir para a sua fazenda na Freguesia de Santa Rita do Rio Negro, nos arredores da Vila de Cantagalo, a cuidar de seus negócios. A mulher e o filho já apresentavam melhora com a dieta infalível do doutor Urbano, mas a recomendação era para que os dois ficassem mais alguns meses de tratamento com o único remédio possível para combater o mal da tísica, o sopro da serra. --- Tenha uma boa viajem, senhor Manuel, e não te preocupes com a Eudóxia e com o menino, diz a cunhada Rosinha Gouveia despedindo-se. --- Fiquem com Deus, responde Manuel tomando assento na carruagem, mirando os olhos da mulher que ora sorri com o filho ao colo e chacoalhando levemente o braço da criança em aceno de despedida, ao que ele deixa a pitoresca Freguesia de Santo Antônio do Paquequer. Na vastidão do caminho dos Goyazes, esboços esquecidos de um país ainda em ser. Rememoremos. Consistia o plano original no inicio da guerra declarada pelo Paraguai contra a Tríplice Aliança, da formação de uma Coluna expedicionária para apoiar as tropas brasileiras locadas ao norte da Província de Mato Grosso, então comandadas pelo coronel Manuel Pedro Drago. Há vinte meses partira da Corte uma comissão de engenheiros militares e um feto de expedição rumo à capital Cuiabá, que de acordo com as precárias e caducas informações, ainda não fora invadida pelas tropas de Solano Lopez. Na marcha das forças, o então segundo-tenente de artilharia, Alfredo d’Escragnolle Taunay, ficara com a missão de redigir todas as informações de seus colegas engenheiros militares pertinentes ao itinerário da Coluna, bem como a topografia e disposições das montanhas, mineralogia, observações botânicas, além do mapeamento dos rios e seus afluentes, das nascentes e cursos d’água, além de um relatório mensal a ser remetido à Corte. Bacharel em ciências físicas e matemáticas na Escola Central da Praia Vermelha, Alfredo Taunay gradua-se como engenheiro geógrafo aos 20 anos, destacando-se como um prodigioso talento a pendores diversos. Profundo conhecedor da literatura universal e com total domínio de várias línguas, não por acaso o governo confiara-lhe o fado de ser o relator dos acontecimentos, internando-o no estado-maior da expedição com livre acesso a documentos oficiais. Sob o comando do tenente-coronel José de Miranda da Silva Reis, a princípio contava a marcha das forças com a adesão de contingentes significativos nos muitos povoados que passaram por entre as províncias de São Paulo e Minas Gerais, todos arregimentados como que para um folguedo festivo. Desprovidos por completo da garbosidade e do aprumo em que adestra a escola militar, os novos integrantes da marcha das forças caminhavam dias a finco por caminhos malgrados sem quaisquer reclamos, talvez pelo prazeroso esquecimento à mesmice intolerável da pacífica miséria em que se encontravam, outrora atirados à sorte de uma penúria hereditária onde varar o dia talvez fosse o maior desafio de suas vidas. Por pior que pudessem vislumbrar o calor de uma refrega temperada no calor do aço ou no ardume das bocas de fogo, conseguiram afinal uma identidade, uma farda a lhes nivelar patriotas, um soldo menos ralo que a indigência e um posto de soldado. Já nos primeiros meses a escassez de víveres alia-se à uma epidemia de varíola que logo propicia a debandada e a deserção dos muitos que primeiramente sentiram as provações de uma façanha bem mais amarga e aterradora como se previra. Fora vencida entretanto a hecatombe do morticínio pela maioria desses compatriotas anônimos dado que, mesmo enveredados por sertões ignorados, lançados estavam à cata de uma página gloriosa nos anais de uma livro ainda em branco. Enfim a marcha das forças chega a Uberaba dia 18 de julho de 1865, logo se avolumando com os batalhões trazidos de Ouro Preto pelo coronel José Antônio da Fonseca Galvão. As peças de artilharia careciam de reparos, o que levou 47 dias para este fim, ocupando-se a comissão de engenheiros em mapear a vila. Neste ínterim, 76 deserções e 13 falecimentos contabiliza a tropa, enquanto o tenente-coronel Juvêncio Manoel Cabral de Menezes assume o comando em substituição ao tenente-coronel José de Miranda da Silva Reis, nomeado deputado. Com um contingente de três mil homens devidamente municiados e atendendo as ordens do coronel Drago provindas de Cuiabá, a 4 de setembro de 1865, ruma imponente a expedição para noroeste de Mato Grosso seguindo a trilha dos Goyazes, ora reforçada com batalhões de cavalaria, infantaria e artilharia, no intento único de arregimentar mais soldados. Dias longos, noites velhas. Já às margens do majestoso Rio Paraíba, adiantava-se a Coluna quando novas ordens do governo amputam-lhe o primitivo intento. Deveriam de imediato interromper o itinerário e descer até o rio Coxim, o que após contornarem a Serra de Maracaju, rumariam para a Vila de Miranda, ora ocupada e sitiada pelas forças inimigas. A natureza não dá saltos. Acampados à jusante do rio Coxim, numa altitude preventiva à qualquer insalubridade ribeirinha, dá-se o infortúnio. Sobre pântanos a perder de vista formados repentinamente pelas cheias anuais do Rio Paraguai, ilhada e condenada à fome estava toda a expedição, salvo atravessar a imensa região alagadiça e pestilenta, provando os males das águas pútridas e as desconhecidas febres palustres, numa quadra interminável de fatalidades que se avolumam a cada hora, como a fraqueza advinda da beribéri, uma paralisia reflexa a inflamar os nervos e a debilitar ainda mais a malta daqueles organismos mirrados. Duro golpe sofre diariamente a tropa com a morte a lhe rondar a todo instante, presenciando a morte súbita de centenas de companheiros e até o falecimento do coronel Galvão nas proximidades do Rio Negro, sepultado em vala encharcada juntamente como as centenas de infortunados que por ali sucumbiram. Após romperem mais 396 quilômetros rumo ao sul numa marcha a pé de chumbo, cerca de um terço da Coluna já havia perecido, dizimada pelas pestes pantaneiras, a fome e a sede na amplidão da palavra, num quadro de miséria mais que absoluto. Mais de dois mil e cem quilômetros totalizara a marcha das forças até janeiro de 1887, quando enfim, estropiados e capengas chegaram os sobreviventes à Vila de Miranda. Nomeado pela província de Mato Grosso como o novo comandante-em-chefe em substituição ao também falecido coronel Manuel Pedro Drago, surge um novo personagem. O coronel Carlos de Morais Camisão assume a Coluna com uma nova ordem do dia, calcada primeiramente na recuperação imediata dos doentes, sem contudo afastar-se da rigidez disciplinar, um hábito já esquecido pelos esqueléticos sobreviventes daquela epopéia de horrores. De corpo robusto e estatura baixa, com uma calvície acentuada a imputar-lhe respeito, destaca-lhe sobre a tintura dos pardos as feições simplórias dos caboclos cinqüentenários do extremo oeste setentrional. De rosto sovado e com um par de olhos negros e brilhantes, sua voz firme e clara soa como uma injeção de ânimo à tropa rarefeita e debilitada por sete meses consecutivos de provações indescritíveis. Preocupam-no a todo tempo as péssimas condições de insalubridade do acampamento na vila de Miranda, de há pouco saqueada e incendiada pelos paraguaios. Cercada pelo excesso de depressões volumosas, ao menor vestígio de chuva inundava-se por completo, o que permanecer na vila favoreceria em muito o foco de infecções diversas. Nos dias que se seguiram aumenta ainda mais o desfalque do contingente, seja pela morte ou pela dispensa inevitável de doentes inválidos. Não obstante, a cavalaria também ficara literalmente a pé, pois uma epizootia semelhante à beribéri vitimou também a grande maioria dos cavalos em prazo curto, restando apenas uns poucos muares de carga, bens de valia incalculáveis. Urge o tempo quando o coronel Camisão manda chamar os tenentes Catão Roxo e Alfredo Taunay em sua barraca. --- A situação está insuportável, senhores. Ainda hoje vocês devem partir para o povoado de Nioaque e lá preparar o nosso acampamento. Quanto a nós, devemos sair no máximo em dois dias. Convém lembrar que alguns cuidados quanto ao armazenamento das munições devem ser tomados, correto? --- Entendido, coronel, responde o tenente Taunay em continência. O coronel Camisão se levanta e mira o olhar para um caderno de anotações. --- Examinem tudo, senhores, desde às condições da estrada, os possíveis lugares de uma emboscada, enfim. Encontrem um bom lugar para acamparmos. Não se esqueçam de que o local para alojar os doentes deve ficar em separado, principalmente do depósito da munição de boca. Não podemos nos arriscar a perder a pouca comida que nos resta. Peguem alguns soldados para auxiliá-los e também o que acharem necessário. Vocês devem partir o quanto antes. Alguma pergunta, senhores? A 11 de janeiro de 1867 parte a Coluna do coronel Camisão rumo a Nioaque, ora fundida numa única brigada de mil e seiscentas praças, devidamente armada e com fardamento novo, onde os bonés e os blusões azuis, contrapondo-se às calças brancas, davam-lhe garbo e uniformidade, numa gamenhice inutilmente estampada em prévia de um amargo destino. Sob o som de vivas e aplausos dos que ali ficaram, partem sem olhar pra trás. A infantaria desloca-se em dois grupos, acompanhados por um caudal de juntas de bois que, atreladas às peças de artilharia, ditam a cadência de uma marcha batida a muito custo achada, distanciando-se lentamente dos charcos repugnantes que a vitimara. A cada dia é notória a melhora do estado de saúde geral da tropa, ora investida numa larga estrada que é de toda cercada por aromas desconhecidos e o resplendor de bosques sadios, impregnados de umbus e mangabeiras copiosas onde, por toda a banda, a montante dos acidentes do terreno, vislumbra-se inúmeros riachos e ribeirões de boa água a correrem abundantes por entre as campinas viçosas, como que por atender aos justos reclamos da soldadesca mais que ansiosa por um clima que lhes desse ao menos um sopro de esperança. Rumaram para leste quando subitamente deparam-se com um vale de paisagem encantadora. Ao pé da serra de Maracaju, um panorama de indescritível beleza na direção sul-sudeste reflete as orlas da mata bruta inteiramente riscada pelas curvas tortuosas do rio Aquidauna. Um espetáculo solene, bordado pela silhueta de píncaros gigantes que sugeriu aos primeiros índios Guaicurus a reverencia imediata de bradar Lauiad quando o contemplaram pela primeira vez. Lauiad, o que quer dizer campo belo. Debruçado sobre uma padiola carregada por dois soldados, agoniza há dias o pacato capitão Lomba, caído às ordens de uma febre persistente desde a saída da vila de Miranda. --- Minha hora chegou, soldados. Deixem-me morrer aqui, balbuciava o capitão Lomba aos dois padioleiros que, seguindo as ordens do corpo médico, não lhe davam ouvidos. E a tropa seguia ao passo dos bois, caminhando ao sabor das troças joviais dos que zombam do próprio fadário, galgando quatro léguas adiante a confluência dos rios Miranda e do pitoresco Nioaque, este, um manancial volumoso de águas puras e límpidas onde se vê claramente um leito contínuo de arenito avermelhado. Arrabalde é o cerrado bruto, virgem de pegadas humanas, adormecido sob o embalo sibilante das ventanias nervosas a balançar o mar de copas de madeiros milenares. Proliferam as pindaíbas e as singulares palmeiras, rebrilhando em constante o verde encerado dos talhes gigantes, sombreando os cachos da fartura e a gelosia das araras, feito ventarolas bailando ao sabor dos dias frescos ou na quietude ampla das tardes de mormaço. Fugidias, perdizes e codornas misturam-se nas louras macegas ou ao pé dos buritis carregados, camuflando-se na massa compacta e contínua a se fundir com a amplidão dos horizontes azulados, um retiro de frutos perfumados, repletos de piquis e das sustâncias duvidosas camufladas em favos doces, as traiçoeiras arapucas da fome. Adianta-se em pouco a capenga expedição para o clima do planalto que, de imediato, pareceu revigorar toda aquela malta doentia a carregar o peso vivo de uma romaria de enfermos. Escorados nas redes presas à cangalhas de ombros solidários, os doentes são transportados passo a passo nos treze dias que se seguiram até alcançarem o saqueado e incendiado povoado de Nioaque, onde chegam na manhã de 24 de janeiro de 1867. No adro deserto da igrejinha, o coronel Camisão e seu ajudante de ordens são de pronto recebidos pelos tenentes Alfredo Taunay e Catão Roxo, na formalidade peculiar de uma hierarquia ainda em gestação. --- Bom trabalho, senhores, diz em voz altiva o coronel aos dois engenheiros quando um oficial do corpo médico se aproxima, ficando por instante a ouvi-los. --- Pois não, doutor? --- Coronel, sinto informa-lo que o capitão Lomba acaba de falecer. Reina o silêncio. Por um momento o comandante fecha os olhos, inerte. --- Devemos sepultá-lo o quando antes, doutor, mas que seja num local retirado do acampamento. Que Deus tenha compaixão de sua alma, diz pausadamente, ao que todos fazem o Sinal da Cruz. No Ceará Grande, um conselheiro que arrebata multidões. Por ocasião da quaresma de 1867 embrenhamo-nos pelas veredas espinhosas de grotões garranchentos. Corria a notícia de que milhares de desvalidos partiam ao encontro de um missionário que há anos vagava pelos rincões do Ceará pregando uma nova ordem moral e religiosa. Sua fama fez-se de boca em boca, pois açoitava a miséria com palavras e sermões que edificavam o trabalho puro e simples, como a única salvação de toda aquela gente ignorada pelo clero e pela casta desdenhosa de um poder público que sequer os contabilizavam como súditos de um império ainda em ser. Com discursos inflamados e voz potente, alicerçado em interpretações da Bíblia que sempre culminavam no canto do Ofício de Nossa Senhora, o missionário de cabelos corredios e barbas grisalhas levantava multidões para a edificação de obras sociais que o caos exigia. Dizia ser urgente a construção de novas igrejas e cemitérios, de açudes e barragens para fazer frente às estiagens prolongadas, empreitas que em mutirões ciclópicos tornavam-se realidade em tempo curto. Convocados para as Santas Missões, há mais de uma década que os viventes ouviam as ternas palavras daquele pacificador de inimizades que se colocava sempre à frente dos trabalhos braçais, personificado como construtor de novos lazaretos ou nas reformas urgente de choças infectas. Finda a reza campal da boca da noite, em sermões demorosos ele combatia com severidade a preguiça e a violência, a prostituição e a avareza, as pestes da alma. Do alto da tribuna de uma carrocinha transformada em púlpito, as cândidas palavras do missionário ecoavam sob o silêncio espectral das centenas de crentes vindos dos mais variados rincões e moradas posseiras. Espantalhos cansados nele buscavam a prometida salvação dos pecados propalada pelas Sagradas Escrituras, num atavismo secular em que todos aguardam por um Messias para o alívio imediato de suas penas. O acalanto é o vigor do espírito. O carinho, o esterco da alma. --- Daí o pão a quem tem fome e água a quem tem sede, ouvia-se da boca do missionário. --- A caridade é o maior dos ofícios e a ganância, o pior dos pecados. Pois em verdade vos digo, que é mais fácil uma corda passar pelo buraco de uma agulha do que um avarento entrar no reino de Deus, continua o missionário diante dos crentes ajoelhados na índole dos pecadores que se julgam condenados pela própria indigência. Dentre eles, um andarilho magro e alto, que de há muito peregrinava sem rumo por aqueles sertões do Ceará, achega-se sorrateiramente à multidão, cativado pelas palavras do missionário. --- É no trabalho e na generosidade para com o próximo que a força de Deus edifica o espírito humano e o purifica para a salvação, pois a violência, a preguiça e a vadiagem andam sempre de mãos dadas com o Demônio, continua a voz austera em alento aos desvalidos, das muitas almas que ali se abeiravam, todas provindas da aspereza de infortúnios semelhantes, uma existência de rugas. --- O trabalho é a melhor das orações, dizia, pois é ele quem liberta os homens dos pecados da carne. Subitamente, em meio ao sermão, o andarilho ergue o corpo e arregala os dois olhos embaçados, acobertados sob um par de pálpebras cansadas e poentas, o cobertor das suas miragens. Semelhante ao andrajo vil de suas vestes, sua figura espelhava o martírio derradeiro dos doentes terminais. --- Deus meu, é ele, diz ele em alta voz, roubando a atenção do missionário que, de longe, o observa, agora abrindo os braços e dirigindo-lhe a palavra. --- Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, responde em voz branda o missionário mirando o andarilho ora estupefato. --- Essa é a saudação que devemos fazer quando entramos na morada alheia, continua o missionário. --- Pra sempre seja louvado, é assim que devemos responder à quem chega. --- É ele, é ele, balbucia o andarilho com a voz chorosa, agora aproximando-se do padre que logo entende-lhe a mão direita salpicada de vitiligem. Beija-a demoradamente. --- Seja bem vindo, meu filho, e que Deus lhe abençoe, diz ao andarilho ora genuflexo, que persiste em segurar-lhe as mãos, vertendo lágrimas e soluços que ressumam da face barbada e ressecada. --- Estás com fome, meu filho? O andarilho se levanta e o encara candidamente, acompanhado por olhares curiosos. --- Nem só de pão viverá o homem. O Senhor é meu pastor e nada me faltará, retruca o homem com a voz caudalosa e serena, como que inquirindo o missionário. --- Qual o seu nome, meu filho? --- Antônio Vicente Mendes Maciel, responde o andarilho ao missionário que não se contém em quebrar a rotina dos sermões, abraçando-o na candura dos santos. --- Muitos são os desígnios do Senhor e o bom filho à casa torna, diz o missionário em tom de regozijo, ao que todos respondem amém. Por ironia, o destino cruzara seus caminhos. Após inúmeras decepções com a magistratura e a Justiça terrena, o ex advogado, chefe de polícia, juiz de direito e deputado José Antônio Pereira Ibiapina, ordenara-se padre em 1853 com o aval do Arcebispo de Recife, sem mesmo precisar cursar o Seminário de Olinda. Por devoção à Virgem Nossa Senhora ele destituiu o sobrenome Pereira e passou a se chamar Padre José Antônio Maria Ibiapina, um nome que ficaria conhecido e respeitado em todo sertão por advogar os direitos dos pobres e da mais vã de todas as criaturas, a mulher sertaneja. Edificou inúmeras casas de caridade para dar abrigo e educação às mulheres órfãs, crianças adotadas integralmente por terem sido abandonadas nas rodas dos enjeitados dos muitos orfanatos que edificara. Ao combater os pecados da carne com a prática da caridade, faz nascer um novo costume moral e educacional nos muitos povoados que passava, com a adoção de normas de conduta e higiene, além da formação das futuras mestras em artes domésticas e de como zelar dos doentes. Sobre a estopa plantava flores. Combatendo rigidamente a escravidão e a prostituição, não furtava às mulheres o direito de escolher seus destinos quando adultas. As que não quisessem receber o hábito de beatas poderiam se casar livremente, desde que cumprissem a missão de educar e alfabetizar os mais carentes, a praticar a caridade onde quer que estivessem, os lemas da sua doutrina. Na sina de tantos voluntários e beatos anônimos, Antônio Vicente Mendes Maciel o acompanha em vários mutirões na construção de igrejas e cemitérios pelo sertão do Ceará, sempre atento aos conselhos e ensinamentos do Padre Mestre Ibiapina, como assim o chamavam. A reza possante do padre despertava multidões antes mesmo do raiar do dia, com o cântico do Ofício de Nossa Senhora à convocar as almas como o badalo de um sino em chamamento a mais um dia de trabalho comunitário. Deus ajuda a quem cedo madruga. E o combate à fome assim se fazia, nos princípios igualitários de qualquer nação indígena, onde os pronomes possessivos singulares cediam lugar ao pluralismo natural de uma ninhada a se fartar da mesma teta, dia após dia, pois era assim que se nutria. Certa tarde, na boca do repouso vespertino, o missionário é visto debruçado sobre um livro na sua barraca quando o andarilho Antônio Vicente se achega para o conforto de uma palavra prometida. Coberto apenas por trapos rotos, o novo beato se aproxima com o único bem que possuía. --- Ó, é você, meu filho? --- Eu queria pedir perdão para os meus pecados, padre, diz com olhar melancólico diante do homem que ajudara a enterrar sua mãe, do homem que sempre lhe deu bons conselhos na infância e que fora amigo de seu pai, um semblante nunca mais lembrado. --- A vadiagem é o maior de todos os pecados, Antônio. E você tem se mostrado um homem trabalhador e solidário. O que o atormenta? Cai em prantos a andrajosa figura. --- Eu queria me confessar, seu padre, balbucia em soluços. Calmamente o padre Ibiapina se levanta e abre um pequeno baú de onde retira uma estola roxa, toda bordada com cetim dourado, colocando-a sobre a alva escura dos ombros exaustos. Assenta-se na vagareza dos sábios e faz o Sinal da Cruz. --- Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Deus te ouve, meu filho. Fale. --- Eu nunca roubei, nunca matei e nunca buli com ninguém, seu padre. Mas saí de casa e deixei três criança no mundo, diz olhando para baixo. --- Fugir dos deveres de pai é falta grave, meu filho. Que motivos o levou a tomar esse rumo? --- A minha mulé buliu com mais gente, seu padre. Bem dizê, nem sei se os fio era meu. Dispois panhei mais um com ota mulé, em Santa Quitéria. --- Então você teve duas mulheres e as abandonou, Antônio? --- Mas o povo falava que essa ôta tumém era mulé de muita rede. --- Nascer e crescer sem ter a proteção de um pai é como caminhar vida afora sem um braço, meu filho. Mas se você está arrependido do que fez, Deus lhe concederá o perdão. --- Bendito seja o nome do Senhor. --- Quando vires uma criança sem pai e sem mãe, acolha-a nos braços como se fosse o seu próprio filho. Dê carinho e atenção aos necessitados e dai pão a quem tem fome. E nunca deixe de levar as palavras do Senhor aos mais aflitos. Nunca julgue para não seres julgado e não faças aos outros o que não desejas pra ti. --- Bendito seja Nosso Senhor Jesus Cristo, seu padre. Louvado seja, diz de cabeça abaixada, ainda em prantos abafados, mas de logo socorrido pelo afago do justo, inesquecível carícia. --- Faças o bem e pratique a caridade, Antônio, mas seja humilde e paciente, pois a soberba é a noiva da imprudência. Onde houver lama, plante a semente do bem. Seja um pacificador e nunca um guerreiro, pois só Deus é grande. E lembre-se, um bom conselho vale mais que qualquer castigo. --- Amém, amém, responde Antônio Vicente, ora fortalecido e revigorado n’alma como que numa catarse, renascido e cheio de forças, mais que nunca, sem dever nada sequer à sua malogra memória, um bornal de arrependimentos. --- Eu te perdôo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, diz o padre Ibiapina abençoando-o no gesto da Trindade Bendita, dispensando as penitências costumeiras de dúzias de rezas repetitivas como assim aviavam todos os párocos conservadores. Por muitos dias Antônio Vicente acompanhou os mutirões encabeçados pelo padre Ibiapina, pedindo esmolas aos mais abastados para dar aos que nada tinham. Quando deram por sua falta, a notícia logo chega aos ouvidos do forjador de beatos, levada às pressas pela boca de negras freiras. --- Que Deus o abençoe, irmã Maria. Para os que têm sina estradeira, a vereda sempre foi a melhor das mestras. E ele conhece bem seus ensinamentos, finaliza o padre Ibiapina contemplando o horizonte em sangue, com seus borrões enegrecidos em prefácio de um longo estio regado por noites gélidas. A mão, a luva e a honra... De há muito inativa encontra-se a Coluna do coronel Camisão, acampada na forquilha dos rios Nioaque e do ribeirão Orumbeva. Sobre os escombros dos saques e incêndios paraguaios que dizimaram a pequena vila, o quartel-general e as peças de artilharia instalaram-se na retaguarda, enquanto que, à esquerda, a direita e defronte ao largo da igrejinha, ergueu-se por toda banda uma urbe de barracas e ranchos de palha a servir de alojamento para os soldados e oficiais. Restabelecera em toda a tropa um renovar de saúde e esperança, a julgar pelos incansáveis e diários exercícios de infantaria com a simulação de combates e manobras promovidos pelo próprio comandante, o qual participa vivamente de corpo e alma, mas sem contudo perder o prestígio e a autoridade. Às margens do ribeirão Orumbeva e distante das colunas que ora se enfrentam no treinamento rotineiro, os tenentes João da Rocha Fragoso e Alfredo Taunay conversam separadamente dos colegas oficiais, caminhando em derredor à soberba mata. --- Taunay. Devo dizer que essa obstinação do coronel em querer invadir as terras paraguaias está nos preocupando. --- Também estou de acordo que sem cavalaria seria um desastre qualquer investida. O tenente Fragoso entrega-lhe um papel. --- E não é só isso, meu amigo. Leia você mesmo. É um ofício do ministro da guerra que o capitão Lago encontrou nos arquivos. Por instantes o tenente Taunay franze a testa, e em seguida dobra o documento, devolvendo-o. --- Mas a recomendação do ministro está muito clara, tenente. Devemos apenas marchar até a fronteira do rio Apa e ali permanecermos até segunda ordem. --- Isso mesmo. Mas o coronel entendeu que devemos investir contra o inimigo, além fronteira, e sem cavalaria, o que será um suicídio, responde o tenente Fragoso apanhando um graveto ao chão enquanto o colega Taunay o fita com humildade e atenção. --- Já comentei a respeito com outros oficiais, tenente Taunay, inclusive com o capitão Lago. É um assunto que não podemos lhe omitir, mesmo porque é o senhor o encarregado de redigir os relatórios para a Corte. --- Obrigado pela confiança, meu amigo. Mas o que o tens a me dizer de tão importante? --- Vou lhe contar tudo o que eu soube, por intermédio de alguns que conheceram bem o coronel. --- Sim? --- Logo no começo da guerra, quando as tropas de Solano Lopez invadiram as terras de Mato Grosso, a vila de Corumbá foi tomada e devastada por completo. Saquearam a tudo e a todos, inclusive a casa de um homem de muitas posses que, junto com uma filha, foram levados para o navio onde estava o comandante paraguaio Barrios. --- Já faz mais de dois anos, é isso? --- Correto. A essa época o coronel Camisão estava comandando o segundo batalhão de artilharia, mas dizem que pouco fez por defender os prisioneiros de Barrios que, na sua maioria, foram torturados e depois lanceados a sangue frio. --- Meu Deus. --- Passado o episódio, revoltada, a população fez circular um impresso ironizando os defensores de Mato Grosso, o qual constava o nome do coronel Camisão, o que para ele soou como um deboche à sua honra. --- Quer dizer que... --- Isso mesmo, tenente. Invadir o Paraguai e mostrar algum feito heróico da nossa Coluna passou a ser uma obsessão para o coronel Camisão, mesmo com todas as forças do azar conspirando contra nós. --- E o que podemos fazer, Fragoso? --- Nada, por enquanto, meu amigo. Ainda mais agora que acaba de chegar um tal de José Francisco Lopes, um sertanejo que servirá como nosso guia daqui pra frente. --- José Francisco Lopes? Você o viu? --- O coronel Camisão nos convidou para conhece-lo mais à noite em sua barraca. Estão dizendo que logo deveremos levantar acampamento, meu amigo. Só que pra onde ninguém sabe. Nos dias que se passaram, muito se soube no acampamento do velho guia José Francisco Lopes, visto constantemente em companhia do coronel Camisão que o tratava com dedicada afeição. É que não havia um só homem que conhecesse a fundo a extensa área estendida às margens dos rios Paraná e Paraguai, além das imensas planícies que confrontam com o rio Apa, o divisor das terras brasileiras e paraguaias. Alto e de poucas carnes, a tez morena e a face riscada pelo martírio dos anos, o certo é que o velho sertanejo de origem mineira e chapéu batido na copa, nomeara com a própria intuição muitas referências daquele sertão como a Margarida e a Pedra de Cal, e que em alto brado gabava-se do feito de ter tomado sozinho imensas áreas de floresta em nome do Império do Brasil, fincando gigantesca cruz de madeira bruta onde, esculpida no topo, lia-se a capa de sua Bíblia, as iniciais do imperador Dom Pedro segundo. Por sete anos residira em território paraguaio, mas a época do inicio da guerra já habitava a sua estância Jardim, uma fazenda locada à beira do rio Miranda e que fora cultivada também com o trabalho dos filhos e da mulher. Poucos sabiam que durante a invasão do Mato Grosso pelos paraguaios, o guia Lopes e a família conseguiram escapar da morte e da escravidão, exceção a um filho que fora raptado e levado para a aldeia de Horcheta, do lado paraguaio, motivo maior da sua saudade e existência. Desta feita, encontrara o guia Lopes no projeto do coronel Camisão a possibilidade de reaver o filho e também selar as contas da sua vingança. E assim se deu a partida de Nioaque. As tropas receberam as ordens sem que a grande maioria dos soldados sequer soubessem para onde marchariam. Com munição de boca para não mais que um mês, a Coluna deixara a vila após um mês de planejamento duvidoso e arriscado, marchando garbosamente rumo à imprudência, encabeçada pelo irredutível caçador de honra ultrajada, o coronel Camisão. A 25 de fevereiro de 1867 segue a expedição ao encontro do desconhecido, acampando a cerca de uma légua à beira do rio Nioaque onde o a carne de gado e a farinha já quase minguara, seguindo depois em direção ao rio Feio onde permaneceria seis dias em meio jejum. A sombra da penúria já rondava o semblante de uma coluna novamente largada à sorte das noites sombrias. Em meio ao mormaço pegajoso da canícula de meio dia, uma algazarra poeirenta irrompe o acampamento com o guia José Francisco Lopes trazendo em torno de 250 cabeças de gado que trouxera da sua estância Jardim, acompanhado de peões andrajos a rodopiar os chapéus e a reverberar a festiva gritaria dos mugidos misturados aos aboios pantaneiros. Banquetearam-se na alegria da fartura passageira das carnes sapecadas, partindo logo no dia seguinte para a colônia de Miranda situada a treze léguas da vila de Nioaque, ora composta apenas de vestígios de moradas e construções incendiadas pelo inimigo que de longe os espreitara. Ali ficaram acampados por 19 dias, com a fome a lhes furtar o estoicismo e a corroer a disciplina da tropa mantida à uma ração que minguara a cada dia, pois um último rebanho de 200 cabeças tangidas pelo guia José Lopes também se acabara. A 23 de março reuniu-se o estado maior da Coluna e a comissão de engenheiros na barraca do comandante Camisão que toma a palavra. --- Senhores, no plano conjunto desta guerra, torna-se absolutamente indispensável marcharmos para o norte do Paraguai o quanto antes. Peço aos senhores engenheiros que preparem a ofensiva. --- Mas, coronel, não temos cavalaria e nem comida o suficiente para uma semana, intervém o capitão Lago no intuito de convence-lo a adiar o plano de ataque em território desconhecido e sem as mínimas condições de combater em igualdade. O tenente-coronel Juvêncio, um homem marcado pela ponderação e cautela, endossa de pronto o capitão Lago, abrindo um documento oficial. --- Coronel, devo informar aos oficiais que a Intendência de Nioaque nos advertiu que é incapaz de prover o abastecimento de gado, aos que todos balançam a cabeça em concordância. O coronel Camisão encara o tenente Taunay, abordando-lhe a opinião. --- E então, tenente? Como engenheiro e redator do nosso diário o senhor deve ter algo em mente, correto? --- Coronel, se tivéssemos investido contra as fortificações inimigas num ataque surpresa logo quando chegamos à colônia, talvez lográssemos êxito em devastar o norte da república do Paraguai bem antes que o governo de Assunção desse conta da nossa investida. Mas agora... O coronel Camisão bate com o quepe sobre a mesa, acentuando o clima de tensão ante à sua intransigência. --- Por certo todos os meus oficiais também pensam assim, tenente. Vejamos o que o capitão Florêncio tem a dizer. --- Coronel, é que diante de tal situação, sem nenhuma remessa de munição de boca, não seria prudente se investíssemos agora, haja visto que os paraguaios nos espionam há semanas e por certo já se precaveram em dificultar nossa investida. Por um momento o coronel leva as mãos ao rosto e fica pensativo, ao que o tenente-coronel Juvêncio toma a palavra. --- Diante dos fatos, coronel, permita-me dizer que seria conveniente retrogradarmos até Nioaque e abandonarmos o projeto de ofensiva, ao menos provisoriamente. O coronel infla o peito e expira o ar com os olhos entreabertos. --- Sem dúvida alguma senhores, até que podemos sucumbir, mas que seja gloriosamente. Portanto peço ao presidente da comissão de engenheiros que, por meio de documento oficial, delibere sobre a possibilidade de um movimento de ataque e também os meios para a execução. Alguma pergunta? O tenente-coronel Juvêncio adianta-se com ar de repudia à ordem do coronel Camisão. --- Isto é suicídio, coronel. Não temos comida e nem transporte adequados para a investida, tampouco dispomos de cavalaria, além do que a munição é escassa. Colocar a Coluna em território inimigo sem condições de angariar qualquer tipo de socorro ou reforço pode nos custar um desastre ainda maior, coronel. Sem contar que poderemos atrair a ocupação paraguaia em nosso território, diante de tais circunstâncias. Isto causaria um desastre ainda maior, diz pausadamente o tenente-coronel Juvêncio quando um novo rebanho trazido pelo guia Lopes adentra ao acampamento como que uma dádiva caída dos céus, despertando de pronto o ânimo da tropa e elevando o moral dos jovens oficiais, ora mais que nunca atirados numa empreita sem volta. Rapidamente o coronel Camisão deixa os oficiais e vai de encontro ao infatigável José Lopes, que por tantas vezes salvara a Coluna em momentos cruciais e decisivos, enquanto que o tenente-coronel Juvêncio se volta para o jovem Taunay com uma nova incumbência. --- Tenente, diante de tais providências, redija a ata da sessão e comunique oficialmente ao comandante que a nossa comissão reconhece unânime a possibilidade de marcharmos sobre a frente inimiga, com a ajuda do Todo Poderoso, ordena o tenente-coronel Juvêncio em meio ao clima de otimismo que pairava em todo o acampamento. --- Afirmativo, senhor, responde Taunay debruçando sobre a mesa. Por um momento o coronel Juvêncio o observa, mas de logo acrescenta. --- Tenente, gostaria que constasse no documento um pedido particular. --- Pois não, coronel. --- Então escreva: “Deixo viúva e seis órfãos. Terão como única herança um nome honrado”. Nos céus, um feito histórico do Marquês de Caxias Na manhã de 12 de julho de 1867, nos campos de Tuiutí, é grande a movimentação de oficiais e soldados que ladeiam o quartel-general das forças aliadas comandadas inteiramente pelo Marechal Luiz Alves de Lima e Silva, já que o General Mitre regressara à república da Argentina. Ao centro de um círculo de estacas, a engenhosidade do marechal será novamente posta em prática, 18 dias após o primeiro teste de observação aérea do terreno inimigo. Um aeróstato em forma de balão cativo abriga no cabaz um engenheiro polonês e um guia paraguaio que, suspensos pela novidade da ciência, logo alcançam a magnitude de 35 metros de altura. Do alto da façanha, observada à distância pelos inimigos paraguaios, munido de óculo e uma prancheta, o engenheiro polonês acena para os oficiais em sinal adrede combinado. Presos por quatro cordas firmemente maneadas por pequenos grupos de soldados dispostos em quadrante, os tripulantes observam o imponente Rio Paraná, desvendando suas curvas e margens ao longo de uma planura charcosa nunca dantes mapeada. Encerra-se o feito aéreo com o reconhecimento estratégico e minucioso do terreno antagonista. O Marechal Luiz Alves reúne seu estado-maior com uma nova ordem do dia, após 15 meses de preparativos. Tratava-se agora de colocar em prática o plano de tirar o Exército Imperial da inércia e desencadear uma ofensiva rumo às fortificações inimigas. 21 de julho de 1867 foi a data escolhida. Partiram em três flancos, com o Marechal Luiz Alves à frente de 26.761 homens numa mistura de fardas e vestimentas coloridas com destino ao abismo do acaso. Com um contingente simbólico de argentinos e uruguaios, na vanguarda de um dos flancos vê-se o General Manuel Luís Osório seguido por uma defensiva de 10.301 soldados bem nutridos e municiados, além de 800 cargueiros de muares, 200 carretas de mantimentos e peças de artilharia puxadas por juntas de bois. Mais de 2.000 cabeças de gado vacum a servir de munição de boca segue na retaguarda, todos na cadência arrastada de um gigantesco mutirão de chumbo a calcar o lodo venenoso e desconhecido das virgens pradarias, tenebroso fardo. E seguia planura afora os mais de vinte mil temperamentos embutidos num mosaico vivíssimo de cores e alvura brilhante, onde milhares de soldados enferrujados vestem calções azuis e túnicas multicores, outros com ponches, bombachas e adagas prateadas à cinta, ou com lenços de seda argolados no pescoço onde o azul e o amarelo das sedas mesclavam ora com o branco, o pardo ou o roxo de túnicas rotas. Centenas de cavaleiros e lanceiros emparelhados como um bando buliçoso de borboletas birutas ao compasso de cânticos cansados, adornados em contrapontos sibilantes de gargarejos guerreiros em cata ao sangue da desforra. Sorrateira, a nuvem da gula se desloca para a recente república oriental do Uruguai a sombrear a praga das conspirações domésticas. No sono do caudilho da vez, o pesadelo da cicuta toma forma de um disparo. O general Venâncio Flores, do partido colorado (liberal), presidente do Uruguai é assassinado em 19 de fevereiro pelo gatilho do opositor Bernardo Berro, da facção dos blancos (conservador). Já que nem tudo que reluz é ouro, o golpista Bernardo Berro também é morto na fracassada tentativa de ocupar o cetro do poder uruguaio. Quatro meses adiante, em 12 de junho de 1968, ocorre eleições presidenciais na vizinha República da Argentina, onde Domingo Faustino Sarmiento, pregando o fim da guerra contra o Paraguai, vence o situacionista Rufino Elizalde, aliado do general Bartolomeu Mitre. E logo em 16 de julho de 1968, o poder moderador do imperador Pedro II, a bico de pena, intervém contra os liberais e empossa um Gabinete conservador, sendo o Visconde de Itaboraí o novo chefe de mais um governo de fachada. Nesse ínterim, a marcha de flanco do marechal Luiz Alves de Lima e Silva encontrou a resistência natural dos guerreiros guaranis que, brotados em pequenos grupos ao longo do curso e na notória desvantagem de combatentes, cutucava de chofre a força imperialista com a vara da surpresa. Vespeiro na carniça, mas de pronto esparramado com os esturros do inferno. Nos prefácios da morte, estampidos a queima roupa e baionetas transpassando corações em desespero. Heróicos guerreiros, os enfezados marimbondos paraguaios não tardariam a porfiar novamente em barbarescas tocaias nas paragens de Tuiu-Cuê e Pare-Cuê, em Passagem de Curupaity, em Potreiro Ovelha e Taií, cemitérios da agonia. Um ano se passara na troca-troca de tiros e recontros repentinos de ferro branco, ora decepando braços ou pescoços descuidados, quando a brigada do marechal Luiz Alves pisa nas ruínas enfumaçada de Humaitá, a fortaleza paraguaia de há pouco esfarinhada pela esquadra imperial. O cadeado das correntes da resistência fora quebrado, anulando a passagem rio acima à qualquer ajuda ou reforço ao Napoleão paraguaio, ao mesmo tempo em que se abriu a passagem para que toda a maruja imperial avançasse rio acima para bombardear a capital Assunção, onde o faz em 28 de fevereiro de 1868, obrigando o caudilho paraguaio a refugiar-se ao norte da sua fazenda, esta, locada a um canto mediterrâneo e esquecido do imenso continente sul americano, a periférica República do Paraguai. Estarrecedor imaginar um cérebro decretar-se um semi-deus e a própria encarnação divina de um projeto de pátria. De posse de um exército não superior a 60 mil índios guaranis e uma população inferior à da república do Uruguai, não mais que 400 mil viventes, há menos de quatro anos Francisco Solano Lopes desencadeara uma guerra de conquista no intuito de dominar as repúblicas limítrofes para inserir-se no livre comércio exterior como o mandatário-mor da Bacia do Prata. Oco de lógica, talvez o miolo do caudilho paraguaio desconhecesse que a república Argentina contava com mais de 3 milhões de almas e o império do Brasil superava a marca de 9 milhões de súditos espalhados ao longo da gigantesca Terra Brasilis. É que a nevrose do anão visionário jamais previra tal hecatombe: o total isolamento político e o aniquilamento irreversível da nação Guarani, infelizes colonizados incitados a vencer ou morrer pelos ideais de um caudilho raquítico. Homúnculo vencido, restava-lhe duas portas, apenas. Negociar a capitulação sob a farda dos rendidos ou manter-se na caótica trincheira da intransigência. Um ano se passara desde a partida dos campos de Tuiutí, quando o exército aliado sob o comando do marquês de Caxias, o sexagenário marechal Luiz Alves de Lima e Silva, chega a Humaitá em 25 de julho de 1868, com a balança das mortes contabilizando poucas baixas ante o quadro antagonista. Enfim, a soldadesca aliada acampa em solo inimigo para o repouso desejado de milhões de séculos. O Brasil levou à guerra cerca de 139 mil homens, ou seja, 1,5% da população da época. É como se hoje enviássemos 2,5 milhões de soldados para o conflito. O número de mortos ficou em torno de 50 mil, e mais mil inválidos. Os argentinos enviaram menos de 30 mil soldados, e o Uruguai, 5.583 combatentes. Mas, sem dúvida, as maiores perdas ficaram por conta do Paraguai. Não se tinha um levantamento estatístico exato daquele país, mas calcula-se que na república dirigida por Solano López havia de 300 mil a 450 mil habitantes em 1865. No final da guerra, cerca de 60% desse total estavam mortos. Já os soldados brasileiros, ao entrarem em Assunção, em 1º de janeiro de 1869, saquearam a cidade. Do saque participaram, também, comerciantes de diferentes nacionalidades e aventureiros que seguiam as forças aliadas. Um monumento à ganância, à fatalidade, à loucura, etc... O passado é o fundamento da existência. José Márcio Castro Alves